terça-feira, 24 de setembro de 2013

O conhecimento de Deus na visão Calvinista.

Sicut scriptum est... 

Conhecer a Deus – isso é possível?! Surge outra pergunta, óbvia, talvez a primeira a se fazer: Deus existe? E surgem outras questões: Onde podemos buscar informações sobre a existência de Deus? Será que podemos realmente conhecer a Deus? O quanto de Deus podemos conhecer? E então, como resolver essas questões? 

As “provas” racionais, tradicionais, da existência de Deus, arquitetadas por filósofos cristãos e não cristãos, são tentativas de analisar as evidências, especialmente as evidências da natureza, de modos extremamente cuidados e logicamente precisos, a fim de convencer as pessoas de que não é racional rejeitar a ideia de que Deus existe. São elas: 

- O Argumento Ontológico: O homem tem a ideia de um ser absolutamente perfeito; que a existência é atributo de perfeição; e que, portanto, um ser absolutamente perfeito tem de existir. 

- O Argumento Cosmológico: Cada coisa existente no mundo tem de ter uma causa adequada; sendo assim, o universo também tem de ter uma causa adequada, isto é, uma causa indefinidamente grande. 

- O Argumento Teleológico: Em toda parte o mundo revela inteligência, ordem harmonia e propósito, e assim implica a existência de um ser inteligente e com propósito, apropriado para a produção de um mundo como este. 

- O Argumento Moral: Há um senso humano do certo e do errado, e da necessidade da imposição da justiça; sendo assim, deve existir um ser superior que seja a fonte do certo e do errado e que vá algum dia impor a justiça a todos os homens. 

- O Argumento Histórico (ou Etnológico): Entre todos os povos e tribos da terra há um sentimento religioso que se revela em cultos exteriores. Visto que o fenômeno é universal, deve pertencer à própria natureza do homem. E se a natureza do homem naturalmente leva ao culto religioso, isso só pode achar sua explicação num ser superior que constituiu o homem como um ser religioso. 

Avaliando os argumentos acima, argumentos racionais, devemos atentar para o fato de que os cristãos não precisam deles. Todos esses argumentos se baseiam em fatos sobre a criação que são verdadeiros. Esses argumentos são provas válidas, porque avaliam corretamente as evidências e ponderam com acerto, chegando a uma conclusão verdadeira: de fato, o universo realmente tem Deus como causa, realmente dá provas de um planejamento deliberado, Deus realmente existe como ser maior do que qualquer coisa que se possa imaginar e ele realmente nos deu um senso do certo e do errado e um senso de que seu juízo virá algum dia e, há de fato em todos os povos vestígios de cultos e adoração a um ser superior. Assim, os fatos reais nessas provas, nos argumentos acima, são verdadeiros e nesse sentido as provas são válidas, ainda que nem todas as pessoas se convençam delas. 

O pensamento reformado, calvinista, declara que certo é que não há como negar que há no espírito humano, por inclinação natural, certo senso da Divindade – o senso do divino (sensus divinitatis). Reconheçamos que certo é que há uma universalidade da ideia da existência de Deus e do sentimento religioso em todos os homens, não importando a nação e a época histórica. Não há nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem que não tenha impressa no coração a existência de algum deus. Assim, temos que reconhecer que há um senso da Divindade gravado no coração de todos os homens – até mesmo a idolatria nos serve de forte argumento a favor dessa ideia. Ninguém nasce ateu – essa é uma afirmação lógica, decorrente do que foi dito acima. O ateísmo, em última análise, resulta do estado moral pervertido do homem e do seu desejo de fugir de Deus. Mas, todos nós nos desviamos do único Deus verdadeiro e nos deixamos dominar por nossas enganosas imaginações. Porém, a falta de capacidade natural para obtermos o puro e claro conhecimento de Deus tem a causa em nós mesmos e, não temos desculpa, nós todos os homens. Não temos desculpa por andarmos extraviados e perdidos, pois todas as coisas nos mostram o caminho certo. Contudo, ainda que essa ignorância deva ser atribuída aos homens que, em sua maldade, corrompem logo a semente do conhecimento de Deus semeado em seu entendimento pelas admiráveis obras de Deus na natureza, impedindo-a de dar bom fruto, a verdade é que não somos suficientemente habilitados pelo simples e nu testemunho que as criaturas dão da grandeza de Deus. 

Dirão alguns: a religião foi invenção de alguns poucos com a finalidade, sórdida, de controlar o povo simples e, a este povo, incitou a servir a Deus, com regras e preceitos ditados apenas para manter o controle, o domínio. Sem dúvida isso já ocorreu e ainda ocorre, mas tal ato só foi e é possível porque a ideia do divino já estava, e está, presente no espirito dos homens. 

Mas volta-se a questão apresentada no início: Deus existe? Prove-se. 

O conhecimento de Deus, conforme os reformadores, só é possível através da revelação especial, sob a influência iluminadora do Espírito Santo. Porém, o conhecimento completo e perfeito de Deus é impossível. Ter o conhecimento completo de Deus seria equivalente a compreendê-lo, e isto está completamente fora de questão: “Finitum non possit capere infinutum” – O finito não é possível conter o infinito. O homem pode sim obter um conhecimento de Deus perfeitamente adequado à realização do propósito divino na sua vida (na vida do homem). 

Quanto a questão inicial, damos um sonoro sim: Sim, Deus existe. Não provamos, constatamos – pela fé. A tentativa de provar a existência de Deus ou é inútil ou é um fracasso. O cristão aceita a verdade da existência de Deus pela fé e esta última também é ação de Deus – somente depois que Deus implantou a semente da fé no coração do homem, é que ele pode exercer a fé. Assim, a fé é primariamente um dom de Deus, é um firme e seguro conhecimento do favor de Deus para conosco. 

Deus, o criador do homem, ele mesmo transmite o conhecimento de si próprio ao homem. Se assim não fosse, Adão não o reconheceria como seu criador. O homem só pode conhecer a Deus na medida em este ativamente se faz conhecido. Assim, Deus é, antes de tudo, o sujeito que transmite conhecimento ao homem, e só pode tornar-se objeto de estudo do homem na medida em que este assimila e reflete o conhecimento a ele transmitido pela revelação. Sem a revelação, de Deus, o homem nunca seria capaz de adquirir qualquer conhecimento de Deus. E, mesmo depois de Deus ter-se revelado objetivamente, não é a razão humana que descobre Deus, mas é Deus que se descerra aos olhos da fé. Todo o conhecimento humano de Deus é derivado da sua auto-revelação na natureza e nas Escrituras. Esse é o pensamento calvinista, reformado. 

Deus se revela ao homem – este é o princípio fundamental do conhecimento de Deus. E, há uma dupla revelação de Deus, sendo que tal fato é atestado pelas Escrituras: Deus se revela na natureza e na Bíblia. O método de revelação é natural quando esta é comunicada por meio da natureza – por meio da criação visível com suas leis e poderes ordinários. Já o método sobrenatural ocorre quando a revelação é comunicada ao homem de maneira mais elevada, sobrenatural, como quando Deus fala, quer diretamente, quer por meio de mensageiros sobrenaturalmente dotados. Há também outra distinção da revelação de Deus, ao homem: a revelação geral e a revelação especial. A revelação geral é dirigida de modo geral a todas as criaturas inteligentes e, portanto, acessível a todos os homens. Por sua vez, a revelação especial é dirigida a uma classe especial de pecadores, aos quais Deus quis tornar conhecida a sua salvação. 

Ao afirmar que Deus se revela na Bíblia, ao homem, devemos atentar para o fato de que ela, a Bíblia, não foi escrita, ou tem a mínima intenção de provar a existência de Deus, na forma de uma declaração explícita, e muito menos na forma de um argumento lógico. Isso pode ser comprovado pelo primeiro versículo do primeiro capítulo do primeiro livro: Gênesis 1.1 – No princípio, criou Deus os céus e a terra. Tal declaração pressupõe que Deus existe, e que é o criador dos céus e da terra. Assim, a Bíblia pressupõe que Deus existe. Se houvesse o interesse em provar a existência de Deus, de forma lógica, a Bíblia não começaria com a afirmação “No princípio, criou Deus...”, e o último versículo da Bíblia seria: Então, comprovamos que Deus existe e é o criador de todo o universo e tudo o que nele há. Mas, ao nos convencermos de que a Bíblia é verdadeira, então sabemos com base nela não só que Deus existe, mas também muita coisa sobre sua natureza e seus atos. Enfim, o que podemos afirmar é que: Deus se revela, na Bíblia, ao homem. Mas, a Bíblia não é necessária para saber que Deus existe. Sem expandir esse assunto, consideremos os seguintes aspectos das Escrituras: A Bíblia é necessária para conhecer o Evangelho; A Bíblia é necessária para sustentar a fé espiritual; A Bíblia é necessária para o conhecimento seguro da vontade de Deus. 

Podemos conhecer a Deus de um modo verdadeiro, porém não podemos conhecê-lo exaustivamente – podemos conhecer coisas verdadeiras sobre ele. Tudo, absolutamente tudo, o que as Escrituras falam sobre Deus é verdadeiro. Isso não implica ou exige que saibamos tudo sobre Deus e os seus atributos. Temos conhecimento verdadeiro de Deus com base nas Escrituras, ainda que não tenhamos conhecimento exaustivo. É importante perceber que conhecemos o próprio Deus, e não meramente fatos sobre ele ou atos que ele executa – as Escrituras afirmam isso. O fato de conhecermos o próprio Deus é demonstrado pela percepção de que a riqueza da vida cristã envolve um relacionamento pessoal com Deus. Conforme várias passagens bíblicas, temos privilégio bem maior do que o mero conhecimento de fatos acerca de Deus. Falamos com Deus em oração e ele fala conosco pela sua Palavra. Temos comunhão com ele na sua presença, entoamos seus louvores e temos consciência de que ele pessoalmente habita no meio de nós para nos abençoar. 

Deus se revela, como dito anteriormente, também na natureza. Para onde quer que voltemos os olhos, não há o mais diminuto rincão do mundo em que não refulja ao menos alguma centelha da glória de Deus. Ninguém, realmente ninguém, pode de um relance contemplar a belíssima obra de arte universal em sua vasta amplitude e extensão, sem ficar, por assim dizer, estupefato ante a incomensurável riqueza do seu esplendor. No céu e na terra há incontestáveis demonstrações da maravilhosa sabedoria de Deus. Não há como atribuir a beleza, o equilíbrio e a organização do universo a um ato do acaso, mera casualidade. Somos, todos os homens, convidados a buscar um conhecimento de Deus que não se confunde com o conhecimento que gira em torno de vãs especulações; mas, sim, o conhecimento que é proveitosos e frutífero, desde que bem apreendido. Porque Deus se manifesta por suas obras poderosas. Não há, pois, melhor meio de buscar a Deus, não há processo mais eficaz para isso do que contemplá-lo em suas obras. Por suas obras, ele se aproxima de nós, torna-se mais familiar a nós e até se comunica conosco, ainda que alguns detalhes dos propósitos de Deus para o homem, só possa ser conhecidos por meio das Escrituras. 

Finalizando: Deus existe e é possível conhecê-lo através da revelação de si mesmo que ele mesmo providenciou para nós, na natureza, nas Escrituras e na semente que ele implantou em todos os homens, semente essa que dá aos homens o senso da existência dele mesmo (a capacidade de saber que ele, Deus, existe e que é o nosso criador). 

Sicut scriptum est... 

Bibliografia utilizadas na construção deste artigo: 

- Teologia Sistemática (Louis Berkhof – Editora Cultura Cristã) 

- Teologia Sistemática (Wayne Grudem – Editora Vida Nova) 

- As Institutas, volume 1 (João Calvino – Editora Cultura Cristã) 

(Há, no artigo acima, várias compilações das obras acima, não havendo indicação por aspas ou referências. Minha intenção é incitar o leitor a pesquisar nessas obras e, assim lê-las.) 
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Textos bíblicos sugeridos para consultas e estudos:
- Rm 1.18 a Rm 2.29 ; Sl 19.1-6; 1Co 1.20-21; Jo 7.17; Sl 10.4; Sl 14.1; 1Co 2.6-16
Por: Ricardo Castro
Fonte: [ Sicut Scriptum est ]
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