sábado, 21 de setembro de 2013

Quando a religião vira uma arma: Uma breve análise do caso Glauco


Religião é Religião e Filosofia é Filosofia. Não dá para misturar as duas coisas. Essa tentativa fracassou no passado e fracassará sempre. São verdades observadas a partirde pontos de vistas diferentes, com critérios diferentes. Não é possível utilizar a metodologia de enfrentamento (interpretação) da verdade de uma na outra. Elas podem até convergir, isto é, chegar à mesma conclusão, contudo, farão isso por caminhos diferentes.


Até meados dos anos setenta, quando a filosofia lançava seu olhar questionador sobre a religiosidade, não conseguia conter-se em apenas fazer uma análise isenta desse fenômeno, antes, intentava convertê-lo em filosofia, adulterando e arrancando o que lhe era próprio: a fé, a transcendência. Como fruto dessa abordagem, cuja marca é a “intolerância conceitual’, temos a chamada “Religião Positiva” ou “Religião da Humanidade”. Fundada pelo Francês Augusto Comte, em 1854, essa religião procura “estabelecer as bases de uma completa espiritualidade humana, sem elementos extra-humanos ou sobrenaturais”. Para saber mais, sobre a religião de Comt, acesse:http://pt.wikipedia.org/wiki/Religião_da_Humanidade.

A abordagem filosófica da religião só vai modificar com o aparecimento da disciplina “Filosofia da Religião”, que propõe um derramar do olhar filosófico - sobre a religiosidade - sem, contudo, interferir em seu “DNA espiritual”.

Qual o papel, então, da Filosofia em relação à Religião? Nenhum, como afirma alguns? Deixar claro que o conhecimento religioso é um “sub-conhecimento” ou um “conhecimento inferior”, como afirmam outros? Há, de fato, a possibilidade de um diálogo entre Religião e Filosofia, sem que uma interfira na outra com desejos “prosélitos”? 

Não devemos rejeitar nenhuma área de conhecimento, sob pena de estarmos descartando a única possibilidade de resposta. Existe uma tendência bastante considerável, por parte daqueles que nutrem algum tipo de religiosidade, sobretudo no contexto ocidental, de desprezo pela filosofia, reputando-a como algo, necessariamente, ligado ao ateísmo e, portanto, completamente contrário à sua fé. Mas isso está longe de ser verdade, antes, pelo contrário, “uma religiosidade sem a ferramenta da criticidade, emprestada da filosofia, pode virar uma arma”.

Para comprovar o que acabamos de dizer acima, basta tão somente uma retrospectiva dos casos mais famosos em que a religião matou seus próprios adeptos ou pessoas muito próximas. Vejamos a linha do tempo das religiões que se tornaram verdadeiras “armas”:

Em 1978, o líder fanático norte-americano Jim Jones, que se intitulava "pastor" do "Templo do Povo", que se fazia acompanhar de guarda costas chamados de "anjos", levou 900 pessoas ao suicídio coletivo na Guiana, todos envenenados após ter anunciado a eles o fim do mundo.

Em 1993, o líder religioso David Koresh, que se intitulava a reencarnação do Senhor Jesus, promoveu um verdadeiro inferno no rancho de madeira, onde ficava a seita Branch Davidian ("Ramo Daviniano"). Seduzindo os seguidores (dissidentes dos adventistas), com a filosofia de que deveria morrer para depois ressuscitar das cinzas, derramou combustível no rancho e ateou fogo, matando 80 pessoas, incluindo 18 crianças.

Em 1994, 53 membros da seita "Ordem do Templo Solar", cometeram igualmente suicídio coletivo na Europa. A seita parecia praticar um tipo de culto solar. O suicídio coletivo parecia fazer parte de um ritual que os levaria para um outro planeta-estrela chamado "Sirius". Para apressar a viagem, várias das vítimas, incluindo algumas crianças, foram mortas com disparos na cabeça, asfixiadas com bolsas plásticas pretas e/ou envenenadas. Dois membros da seita antes de morrer deixaram escrito que eles estavam "abandonando esta terra para encontrar uma nova dimensão de verdade e absolvição, longe da hipocrisia deste mundo".

Em 1995, a seita japonesa "Ensino da Verdade Suprema" provocou um atentado com gás tóxico no metro de Tóquio, matando dez pessoas e ferindo cerca de cinco mil. Shoko Asahara o líder da seita, justifica os assassinatos baseado numa crença religiosa budista sobre reencarnação. Ele acredita que desta maneira estaria salvando as lamas daquelas pessoas do Juízo final.

Em 1997, outra seita denominada Heaven’s Gate (Portão do Céu), que misturava ocultismo com fanatismo religioso, levou 39 seguidores ao suicídio. Eram todos homens entre 26 a 72 anos, de classe média e alta, vestindo tênis Nike e calças pretas. Eles ingeriram veneno, esperando viajar para uma outra dimensão, de carona na cauda do cometa Halley.

Em 1998, o pastor da seita "Igreja Pentecostal Unida do Brasil", no Acre, foi preso. Ele era acusado de incentivar os pais a matarem seus filhos. As vítimas foram mortas a pauladas e depois tiveram os corpos carbonizados, incluindo 3 crianças, num total de 8 vítimas. A seita tinha cerca de 100 adeptos. O pastor alegava ter recebido mensagem de Jesus para consumar a execução. (O Estado de São Paulo 26/11/1998)

Em 2000, cerca de oitocentas pessoas que estavam envolvidas com a seita "Movimento Pela Restauração dos Dez Mandamentos" morreram carbonizadas na sede da seita em Uganda na África. Antes de cometerem o suicídio o líder da seita os incentivou a abandonar os seus bens, pois iriam se encontrar com a virgem Maria. Pelo jeito o único Mandamento que a seita não quis restaurar foi o "Não Matarás".Disponível em:

Em 2010 a situação se repete. Mais uma triste história de assassinato motivada por “práticas religiosas completamente desprovidas de criticidade”, ou seja, uma religião completamente alheia às importantes ferramentas que a filosofia coloca à disposição de todas as áreas de conhecimento.

O famoso cartunista Glauco Vilas Boas (53) e seu filho Raoni (24) não foram assassinados pela arma de “Cadu” e sim pela religião que ele mesmo criou.

O delegado Archimedes Cassão Veras, que investiga o assassinato do cartunista, disse que Cadu, confessou em depoimento que “queria seqüestrar Glauco, porque o considerava representante de São Pedro, para levá-lo até a casa de sua mãe para que ele – Glauco – pudesse convencê-la de que seu filho – Cadu – era o próprio Jesus Cristo".


Notem que o elemento “místico irracional ao extremo”, presente no caso de Glauco está presente também em todas as tragédias religiosas indicadas acima.

Observar a formação religiosa de Glauco e as bases de sua religião trará luz aos motivos que levaram “Cadu”, antigo membro da seita de Glauco, a “puxar o gatilho da religião” (arma) que matou o cartunista:

Glauco ganhou o título de padrinho ao fundar a igreja Céu de Maria em meados dos anos 90, mas sua origem religiosa é muito anterior a isso. Ele contava que teve a primeira epifania mística ao ler livros de Carlos Castaneda, escritor e guru de uma geração, e autor entre outras obras do clássico "A Erva do Diabo". Definia Castaneda como o grande marco em sua vida. Antes do Daime, Glauco freqüentou centros de ensino esotéricos como Rosacruz, Eubiose e teosofia. Ele tomou o daime pela primeira vez na igreja fundada pelo escritor Alex Polari, na montanhosa Visconde de Mauá, no interior do Rio de Janeiro. Logo no primeiro trabalho diz ter visto "a luz" que modificaria sua vida para sempre. Começou sua caminhada como mestre reunindo um pequeno grupo de amigos em uma casinha no Butantã (zona oeste de SP). Era lá que todos tomavam a amarga bebida sagrada, enviada pelos pioneiros da Amazônia, bebida feita da folha de planta chacrona e do cipó de mariri (também chamado jagube), e cujo preparo é também um ritual em si, chamado "feitio", e que pode se estender por até um mês. Glauco costumava se referir ao daime como "o vinho da floresta". Para os vizinhos do Butantã, no entanto, não havia nada de sagrado nas celebrações, e era comum os trabalhos terminarem com a presença profana da polícia. Glauco, no entanto, teve sua missão reconhecida pela igreja central do daime no país, o Céu do Mapiá, no Acre, e com a benção de suas lideranças montou a própria igreja num grande terreno adquirido próximo ao pico do Jaraguá. Disponível em:

De uma religião que tem em sua principal prática religiosa a utilização de uma substância alucinógena – Santo Daime (para saber mais sobre essa “bebida sagrada” acesse:http://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Daime - não se poderia esperar outra coisa. “A arma” já estava engatilhada, era só uma questão de tempo. 
Não se trata de querer transmutar o que é religião em filosofia, como já dissemos. Contudo, é essencial, para a produção de uma religiosidade sadia, tomar-se emprestado as “ferramentas depuradoras de véus”, que só a filosofia dispõe, sob pena de morrer com tiros disparados pela “sua própria religião”. (Para saber mais sobre a importância da filosofia na produção de uma religiosidade sadia, recomendamos a leitura de nosso artigo, disponível em):

Os simples questionamentos a seguir, certamente, teriam ajudado a evitar a maioria das tragédias religiosas descritas acima. Provavelmente Glauco e seu filho ainda estariam vivos hoje. Mas ele mesmo preferiu a alienação dos alucinógenos a uma religiosidade sadia e acabou vítima de sua própria “fé líquida”. Assim será com todos aqueles que desprezarem essas importantes ferramentas da filosofia: Onde está escrito o que está sendo ensinado? Sua interpretação dos fatos é coerente? Outras pessoas interpretaram esse mesmo fato? Alguma autoridade eclesiástica já se pronunciou sobre o assunto? Quantas e quais são as interpretações existentes desse mesmo fato? O que as outras religiões entendem sobre o que está sendo ensinado?

Em matéria de religião, o melhor é seguir o conselho do “Apóstolo com status de Filósofo”, conferido pelos principais filósofos do primeiro século, os Epicureus e Estoicos, Paulo de Tarso:

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso CULTO RACIONAL (Romanos 12:1).

O Apóstolo-Filósofo está ensinando que o culto deve ser Racional, ou seja, deve-se saber exatamente os motivos que levam a cada prática religiosa. Ensina que o verdadeiro culto não pode estar lastreado por uma fé demente e desprovida de criticidade. Ensina que as práticas litúrgicas não podem ser impostas por líderes religiosos sem o necessário abono de fontes escriturísticas Ensina que é condição exigida para um culto aceitável o “estar sóbrio” e não dopado com substâncias alucinadoras. Ensina que a verdadeira religião tem o papel de alertar as pessoas para uma realidade espiritual escondida pelos “tutores da fé” e não deixá-los embrutecidos. Ensina que nossa fé não pode e não deve estar pautada em crendices populares. Ensina que não podemos depositar confiança em superstições do tipo "fitinha", "óleo", "rosa ungida", "mantras" etc. Ensina, finalmente, que uma religiosidade sadia é fruto de uma reflexão racional e que não pode fluir de substâncias ou práticas alienadoras.
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Por Filósofo Calvinista
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