quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Espírito Santo, as Línguas de Fogo e a plenitude de Deus

E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos concordemente no mesmo lugar; E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. E em Jerusalém estavam habitando judeus, homens religiosos, de todas as nações que estão debaixo do céu. E, quando aquele som ocorreu, ajuntou-se uma multidão, e estava confusa, porque cada um os ouvia falar na sua própria língua. E todos pasmavam e se maravilhavam, dizendo uns aos outros: Pois quê! não são galileus todos esses homens que estão falando? Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos? Partos e medos, elamitas e os que habitam na Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, E Frígia e Panfília, Egito e partes da Líbia, junto a Cirene, e forasteiros romanos, tanto judeus como prosélitos, Cretenses e árabes, todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus. E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer? E outros, zombando, diziam: Estão cheios de vinho. (Atos 2:1-13)
Antes de começarmos quero apontar que tenho desenvolvido algumas premissas para esse sermão, são elas:
  • Premissa 1: O poder prometido por Jesus em Atos 1:8 e Lucas 24:49 é um poder extraordinário. A experiência prometida está além do poder que o Espírito Santo derrama para o novo nascimento e do poder que possibilita a santificação gradual do cristão. Isso é fácil de entender a partir dos termos "sereis revestidos de poder" ou "recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós", e pelos efeitos desse poder, que podem ser visto no livro de Atos, além do fato de que os discípulos já haviam nascido de novo antes de Pentecostes (Lucas 10:20, João 15:3).
  • Premissa 2: Esta promessa de que os discípulos receberiam poder quando o Espírito Santo viesse sobre eles (Atos 1:8) e que eles seriam revestidos de poder do alto (Lucas 24:49) foi uma promessa feita para sustentar o processo de evangelização do mundo, e todo os ministérios que apoiam tal processo. O contexto de ambos os textos torna essa premissa muito clara quando diz: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra." Atos 1:8
  • Premissa 3: A tarefa da evangelização do mundo ainda não está completa.
  • Conclusão: Portanto, a promessa deste poder extraordinário para manter e levar adiante o trabalho ainda é válida.

As lições da história que apoiam a nossa conclusão

Vemos lições na história que apoiam fortemente nossa conclusão, ou seja, ao longo do tempo podemos ver que os avanços cruciais para o evangelho vem por causa das periódicas efusões extraordinários do Espírito Santo. Jonathan Edwards, o líder do Grande Despertar, a 200 anos atrás, nos Estados Unidos, nos diz o seguinte:
Desde a queda do homem até os nossos dias, a obra da redenção tem sido principalmente exercida por notáveis [isto é, extraordinárias] comunicações do Espírito de Deus. Apesar de sempre haver uma influência constante do Espírito de Deus, em algum grau, para cumprir as ordenanças divinas, nos principais momentos históricos em que as maiores obras de Deus têm sido feitas para levar o seu trabalho adiante, observa-se um derramar notável do Espírito, em épocas especiais de misericórdia. (A História da Redenção, Obras, vol. 1, p. 539)
Em outras palavras, de tempos em tempos, Deus se move de forma extraordinária na história do movimento cristão. Ele tem derramado seu Espírito de uma forma nova, surpreendente e dramática em momentos cruciais da história. Esses tempos foram chamados tempos de avivamento, despertamento ou reforma.
Pentecostes foi o primeiro destes grandes derramamentos na igreja cristã, e até que a tarefa da evangelização do mundo seja concluída, eu acredito que é o nosso dever orar por estações novas do derramamento extraordinário do Espírito de Deus para despertar e capacitar a igreja e para penetrar as fronteiras finais de evangelização do mundo.
Então, o nosso texto em Atos 2 não está apenas relacionado a um evento, distante e irrepetível. Eu venho com a convicção de que temos muito a ganhar para os nossas vidas e ministérios ao olharmos para o trabalho do Espírito Santo em Pentecostes.

"Pentecostes"

Vamos começar no versículo 1 de Atos 2, com a palavra "Pentecostes": "Quando o dia de Pentecostes ..." Por que Jesus escolheu Pentecostes como o dia em que ele iria derramar o Espírito sobre os discípulos? Há duas razões possíveis.
  1. Neste feriado judaico haveria uma grande quantidade de peregrinos em Jerusalém de todo o mundo. Era uma das três festas judaicas que geravam uma peregrinação à Cidade Santa. O evento ganhou esse nome, Pentecostes (quinquagésimo), a partir do fato de que ele ocorreu 50 dias após a Páscoa.
  2. Era uma festa da colheita. É assim que é chamado em Êxodo 23:16 (Deuteronômio 16:10). Em outras palavras, havia um significado simbólico lindo nesta data: o derramamento do Espírito Santo, com uma expressão extraordinária de poder, era para levar o testemunho de Cristo e a evangelização do mundo. E isto é exatamente uma grande colheita no campo de Deus, que é o mundo. E foi exatamente isso que aconteceu quando 3,000 pessoas foram colhidas por Deus e receberam a vida eterna no dia de Pentecostes, a festa da colheita.
É uma pena que o "poder pentecostal" tem sido associado, para muitas pessoas, muito mais com o falar em línguas do que com a colheita da evangelização do mundo. Eu vou voltar a falar sobre ao milagre das línguas estranhas, mas gostaria de trazer clareza para você, neste momento, sobre o foco principal do evento: Pentecoste é uma festa de colheita em Jerusalém, e neste mesmo dia, Jesus derrama o Espírito com extraordinário poder e 3.000 pessoas são “colhidas” do reino das trevas para o reino de Deus.

"De repente"

Agora, veja comigo o versículo 2 e observe a palavra "de repente": "E de repente, um som veio do céu." Concentro-me nesta palavra para apontar que o Espírito Santo é livre e soberano e não está vinculado ao tempo de ninguém ou a alguma técnica para obter o seu poder. Somos dependentes de sua presença e graça diária, devemos andar na obediência da fé, e orar dia e noite para o derramamento do poder do alto. Mas, não podemos fazer o Espírito vir. Quando Ele vem, Ele vem de repente. Ele ama e Ele serve. Mas, Ele tem seu próprio tempo e modo. Ele sabe o que é melhor para nós.
No verão de 1871, duas mulheres da congregação Dwight L. Moody 1 sentiram uma carga incomum para orar por Moody "que o Senhor lhe daria o batismo do Espírito Santo e de fogo." Moody via as duas orando na primeira fila de sua igreja e ele começou a ficar irritado. Mas, logo ele cedeu e, em setembro começou a orar com elas todas as tardes de sexta-feira. Ele sentia como se seu ministério fosse se tornando um bronze que soa com pouco poder. Em 24 de novembro de 1871, o edifício da igreja de Moody foi destruído no grande incêndio de Chicago. Ele foi para Nova York em busca de ajuda financeira. Dia e noite ele iria andar pelas ruas desesperado pelo toque do poder de Deus em sua vida. Então, de repente...
Um dia, na cidade de Nova York, oh, um dia que não posso descrevê-lo, eu raramente me refiro a ele! É uma experiência quase demasiadamente sagrada para contar. . . Eu só posso dizer que Deus se revelou para mim, e eu tive uma experiência do seu amor, tanto que eu tive que pedir-lhe para manter sua mão sobre mim. Voltei a pregar novamente. Os sermões não eram diferentes, eu não apresentara novas verdades, mas a diferença foi que centenas de almas foram convertidas. Eu não gostaria de voltar para onde eu estava antes desta experiência abençoada mesmos que você me desse o mundo todo. (WR Moody, A Vida de DL Moody, Nova York:. 1900, p 149)
Ele orou, ele obedeceu e esperou. Mas ele não fez o Espírito vir. Ele veio de repente. E quando ele veio, note que o efeito era pentecostal - desta vez não na experiência de línguas, mas na colheita. Quando o Espírito vem em poder, ele vem de repente, em seus próprios termos e no seu próprio tempo, e ele vem para a colheita.

Vento e Fogo

Em seguida, observe o vento e o fogo nos versículos 2 e 3: "E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.” (Atos 2:2-3).
Às vezes, o Espírito Santo torna-se conhecido com visível, audível, com manifestações palpáveis. No Antigo Testamento, havia a coluna de nuvem e a coluna de fogo. No batismo de Jesus, havia a pomba. Em Atos 4, o prédio treme. No capítulo 6 a face de Estevão era como o rosto de um anjo. No capítulo 16 há um terremoto. Às vezes, o Espírito se inclina para nos dar manifestações palpáveis, visíveis e audíveis da sua presença e do seu poder.
Por que ele faz isso para alguns e outros não, e em algumas vezes e outras vezes, faz parte de sua sabedoria soberana. Ele não é o fogo. Ele não é o vento. Ele não é uma pomba. Ele não é um brilho especial. Então, ele não vai usar essas manifestações de uma forma que nos permita confundi-lo com elas. Ele é livre. Mas, quando ele se agrada, pode haver fogo e pode haver som.
A experiência de John White
John White, o psiquiatra, missionário e autor, nos fala de sua experiência de manifestação do Espírito:
Em uma ocasião, foi quando eu orava com os presbíteros e diáconos na minha casa. Eu tinha tentado ensinar-lhes o que era adoração. . . Em seguida, virei-me para a oração. Para ser um modelo para eles, comecei a expressar adoração, consciente da pobreza de minhas palavras. Então, de repente [observe a palavra!] Eu vi na minha frente uma coluna de fogo de cerca de dois metros de largura. Parecia surgir por baixo do chão e passar através do teto da sala. Eu sabia que - sabia de uma forma infalível e que transcendeu o uso do meu intelecto - que eu estava na presença do Deus de santidade. Com espanto eu assisti uma coluna de chamas subindo em nossa própria sala de estar, enquanto meus irmãos ficaram com suas cabeças inclinadas em silêncio e de olhos fechados...
Eu senti que eu estava na presença da realidade e que os meus irmãos estavam dormindo. Durante anos eu nunca falei do incidente. Os outros que estavam presentes não poderia ter percebido a mistura de terror absoluto e alegria que ameaçou varrer-me. Como eu poderia ver o que eu vi, e continuar vivo? Palavras ilegíveis de amor e de adoração saiam da minha boca enquanto eu lutava para manter meu auto-controle. Eu já não estava tentando adorar; a adoração estava desfazendo-me, levando-me para longe. E ser desfeito era tanto assustador, como cheio de glória. (Quando o Espírito vem com poder, p. 87-88)
De “Conhecer” para “Viver”
Isto é o que aconteceu, ao que parece, para os discípulos em Atos 2 quando viram línguas de fogo e ouviram o vento violento. Ele encheu-os com uma enorme sensação da presença de Deus. Até aquele momento, podemos imaginá-los orando (Atos 1:14) e recitando um ao outro o Salmo 23 e dizendo: "Ainda que eu ande pela sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo", e regozijando-se porque Deus estava com eles, ele estava ali naquela sala. Como é que eles sabiam disso? A Bíblia disse isso para eles. Do jeito que sabemos tantas coisas maravilhosas: "Jesus me ama, isso eu sei pois a Bíblia me diz."
Então, de repente acontece algo que transforma completamente o seu “conhecimento” da presença de Deus na “experiência” da presença de Deus. Eles vêem fogo sobre suas cabeças e eles ouvem um vento forte. E eles são preenchidos não apenas com uma certeza dedutiva da realidade da presença de Deus, baseada no Salmo 23, mas com uma certeza experimental baseada no derramamento extraordinário do Espírito Santo. O fogo começa a queimar em seus corações (Lucas 24:32) e em suas bocas ("línguas de fogo"), e o som do vento os rodeia e envolve com os sinais do poder de Deus. E eles estão simplesmente inundados com a grandeza de Deus. E eles começam a derramar-se em louvor e adoração. Como John White, eles são quase destruídos em adoração tanto que algumas pessoas disseram que eles estavam bêbados (v. 13).

Transbordando de Adoração e Louvor

A razão de eu dizer que eles estavam transbordando em adoração e louvor é por causa do versículo 11: "todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das grandezas de Deus.” (Atos 2:11). Lucas chama isto da plenitude do Espírito Santo, no versículo 4: "E todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem." Ser cheio do Espírito Santo aqui significa estar sobrecarregado com a grandeza de Deus. A tradução literal do versículo 11 é que eles estavam falando "as grandezas de Deus". Desde que o Espírito lhes concedia que falassem, e já que falavam sobre a grandeza de Deus, acredito que a plenitude do Espírito significa que a experiência do Espírito a respeito da grandeza de Deus se torna a nossa própria experiência.
As chamas em suas cabeças incendiaram o conhecimento de Deus, e o transformou em paixão. E a violência e intensidade do vento afogou todas as vozes insignificantes de dúvida e incerteza. E assim cada resquício de timidez, hesitação e fraqueza é engolido na experiência da grandeza de Deus. E uma tremenda ousadia, coragem e zelo foi desencadeada, e eles deram testemunho da grandeza de Deus.

Eles receberam a Essência da Plenitude

Essa é a essência da plenitude (ou o batismo Atos 1:4-5) que eles receberam – uma experiência avassaladora da grandeza de Deus e um transbordar em louvor, paixão e coragem para testemunhar. Eu não digo que o milagre de falar em outras línguas é o coração dessa experiência porque o Espírito caiu sobre a igreja novamente em Atos 04:31 e a casa foi abalada, e a plenitude, a paixão e ousadia estavam lá, mas não houve novas línguas. Nem havia vento e fogo. Em outras palavras, Deus parece dar qualquer manifestações que lhe agradar em diferentes momentos. Eles não são a essência da experiência.
O falar em línguas em Atos tinha um papel muito definido. Que está diretamente ligado à presença de pessoas de todas as nações que precisam entender as grandes coisas que os discípulos estavam dizendo. Em outras palavras, o milagre de línguas foi uma demonstração do poder soberano de Deus, e ele mostrou que este poder prometido em Atos 01:08 realmente tinha a intenção de avançar a expansão do evangelho até os confins da terra. Era um sinal de que Deus quer que todos os povos compreendam sua grandeza, e que ele está disposto a fazer milagres para fazer a sua glória conhecida entre as nações.

Espanto e perplexidade

Isso deixa apenas uma última observação a partir do texto. E isso acaba por ser uma advertência para nós. No versículo 12 a demonstração do poder de Deus no milagre de línguas provoca espanto e perplexidade entre todos. "E todos pasmavam e se maravilhavam" Mas a perplexidade deu lugar a duas respostas muito diferentes. Alguns perguntaram seriamente: "O que isso significa?" Outros (no versículo 13) escarneceram e saltaram para uma explicação naturalista: "Eles estão cheios de vinho novo".
Este é o cuidado: sempre que avivamento vem – sempre que o Espírito Santo é derramado em extraordinário poder – esta divisão acontece na comunidade cristã. Alguns genuinamente indagam sobre o que é, e testam todas as coisas e retem o que é bom. Outros ficam de fora e tiram sarro e anulam o entusiasmo como meramente humano ("Eles estão cheios de vinho novo.").
Há alguns sinais de que hoje estamos nos primeiros estágios de um despertar genuíno e generalizado. Não menos do que isso é o desejo eterno e motivo de oração no coração de tantos de nós. Queremos que Deus rasgue os céus, desça, reavive sua igreja e nos fortaleça para o impulso final de evangelização mundial. Se isso for verdade, o que precisamos é de muito mais corações abertos que dizem: "O que de fato é isso?" e que busquem por uma resposta bíblica.

1 Dwight Lyman Moody (5 de fevereiro de 1837 - 22 de dezembro de 1899), também conhecido como D.L. Moody, foi um evangelista e editor americano que fundou a Igreja Moody, a Escola Northfield, a Escola Mount Hermon em Massachusetts (agora chamadaEscola Northfield Mount Hermon), o Instituto Bíblico Moody e a Moody Press.
Por John Piper. © Desiring God. Site em inglês: desiringGod.org | Português: satisfacaoemDeus.org |
Leia Mais ►

Espelho dos Mártires 02 [04/04]

Perseguições nos Dias Atuais

Somos chamados a nos unir à parte do Corpo de Cristo que sofre diariamente, e apoiá-los por meio de nossas orações e contribuições, aprendendo também com sua perseverança.

Romanos 15.30 diz: "Recomendo-lhes, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que se unam a mim em minha luta, orando a Deus em meu favor". Uma viúva nigeriana disse: "Eu não sabia que alguém de fora da Nigéria tinha conhecimento do que acontece com os cristãos nigerianos. Agora que sei que há outros orando por nós, me sinto muito encorajada a prosseguir". 

O mais interessante é que essa alegria também nos encoraja a servir! A liberdade do cristão brasileiro lhe permite abraçar a Igreja Perseguida onde ela estiver. Portanto, nossa liberdade deve ser usada para fazer mais do que apenas realizar reuniões e projetos aqui no Brasil. Já temos em Cristo a liberdade de que necessitamos para servi-lo. Vamos aproveitar a liberdade que encontramos em nosso país para servir ao outro, a Igreja Perseguida.
Envolva-se!



Parte 02

Leia Mais ►

Dia da Reforma Protestante, 496 anos - 31 de outubro [06/06]

Calvino publica as Instituas

“Cada folha de grama e cada cor no mundo foram criadas com o objetivo de nos alegrar”, escreveu um homem acusado, muitas vezes, de promover um cristianismo sem alegria. Aqueles que o conheciam bem respeitavam sua piedade e não teriam ficado surpresos com essas palavras que foram escritas de próprio punho.

Certamente, João Calvino era bastante disciplinado e, após tomar uma decisão, permanecia firme naquela direção. Seus estudos na área de Direito desenvolveram seu talento para o pensamento lógico, o que ele transpôs para seus estudos na área de Teologia.

Em uma “breve conversa” ocorrida em algum momento do ano 1533, “Deus me conquistou e levou meu coração à mansidão”, disse Calvino. Aparentemente, ele teve contato com os textos de Lutero. Calvino rompeu com o catolicismo, saiu de sua terra natal, a França, e estabeleceu seu exílio na Suíça.

Em 1536, aos 27 anos, Calvino publicou a primeira edição das Institutas da religião cristã, uma teologia sistemática que claramente defendia os ensinamentos da Reforma. Impressionado com os escritos de Calvino, Cuilherme Farei, reformador genebrino, persuadiu-o a vir e a ajudar na implantação da Reforma naquele país. Ali, Calvino assumiu pesada carga de trabalho. Pastoreou a igreja de St. Pierre e pregava em três cultos por dia. Produziu comentários sobre quase todos os livros da Bíblia, e escreveu panfletos devocionais e doutrinários. Enquanto desenvolvia essas atividades, lutou com diversas enfermidades, entre elas dores de cabeça provocadas por enxaquecas.

Calvino tinha muito a fazer para alcançar seu objetivo de transformar Genebra no Reino de Deus na terra.

O povo daquela cidade, notório por sua moral relaxada, levantou grande oposição quando ele tentou mudar seu estilo de vida. Apesar disso, a influência de Calvino se espalhou por toda a Genebra. Sua influência era bastante grande nas escolas. Ninguém podia evitar suas reformas, pois Calvino tentava excomungar quem não se aproximasse dos padrões das Escrituras e, assim, todos os cidadãos de Genebra tiveram de aderir à confissão de fé de Calvino.

Enquanto alguns se opunham às mudanças, outros as aplaudiam. A cidade se tornou um ímã, atraindo exilados de toda a Europa. John Knox chamou a cidade governada por Calvino de “a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”. A autoridade moral de Calvino reformou Genebra. Seus trabalhos escritos tanto em latim quanto em francês concederam um vigor singular ao protestantismo.

Em As institutas, sua maior obra, Calvino afirma claramente as crenças do protestantismo. Em um volume, o reformador aborda as crenças principais. No entanto, ele continuou a adicionar material ao seu livro ao longo de toda a sua vida.

Ele começou com o Credo apostólico, destacando quatro pontos: “Creio em Deus Pai [...] Jesus Cristo [...] o Espírito Santo [...] e na santa igreja católica” — que correspondem às quatro sessões do livro. Em cada uma, Calvino buscava não apenas afirmar uma teologia, mas procurava aplicá-la à vida cristã.

O Livro πι das Institutas, que contém a doutrina da predestinação, recebeu muita atenção. Por mais insólito que pareça, o conceito não era apenas dele, embora Calvino o tenha explicitado. Lutero e a maioria dos outros reformadores acreditava nele. O modo vigoroso de afirmar esse conceito fez com que uma conexão entre esse ensinamento e o nome de Calvino fosse estabelecida.

Calvino concentrou-se de forma veemente na soberania de Deus. Ele rejeitava o fato de a Igreja Católica ter mudado para uma teologia de salvação pelas obras. O reformador repetia constantemente: “Você não pode manipular Deus ou torná-lo seu devedor. Ele é quem o salva; pois você não pode fazer isso por si mesmo”.

Deus decide salvar algumas pessoas e somente ele pode saber quem é eleito, ensinava o reformador. A vida moral pode mostrar que há grande possibilidade de uma pessoa ter sido escolhida por Deus. Contudo, Calvino, homem extremamente moralista e muito enérgico, insistia em que seus seguidores deveriam mostrar sua salvação por meio de atitudes. Ele enfatizou que os cristãos deveriam agir de maneira a transformar o mundo pecaminoso, uma ideia que foi passada adiante pelo calvinismo.

No Livro IV das Instituías, Calvino criou uma ordem eclesiástica baseada no que ele observava nas Escrituras. A congregação deveria eleger homens de boa moral — os presbíteros ou anciãos — que seriam os responsáveis por guiar a igreja. Ele também abordou a questão dos pastores, doutores (mestres) e diáconos.

As doutrinas e a política reformada, que criou, espalharam-se pela Escócia, Polônia,Holanda e América.
_____________________
Por A. Kenneth Curtis
Fonte: Monergismo

O Que é Intrigante Sobre João Calvino?





Leia Mais ►

Dia da Reforma Protestante - 31 de outubro [05/06]


Zelo de Lutero na Reforma (1521-1529)

Os Desordeiros de Zwickau

Voltemos agora a Lutero, a quem deixamos no solitário castelo de Wartburgo, entregue à tradução da Bíblia. Durante a sua permanência ali não havia ninguém que pudesse cabalmente levar por diante a obra que ele tinha empreendido na Alemanha; e este pensamento – porque ele estava a par de tudo quanto se passava fora do castelo – fazia-o estar ansioso e agitado, e por fim levou-o a voltar a Wittenberg. Melanchton era tão instruído como ele, e, sem dúvida, não era menos firme na sua devoção pela causa que ambos defendiam, mas era muito brando e pacífico para o rude trabalho que Lutero tinha começado, e não parecia estar em condições de poder dirigir o movimento reformador naqueles tempos tumultuosos. Havia ali também André Carlostadt, um doutor em Wittenberg, bastante versado nas Escrituras Sagradas, mas com algumas idéias erradas na sua teologia, e além disso arrojado demais para se poder confiar nele como chefe. Os seus atos eram tão imprudentes que quando em Zwinckau se levantou um grupo de homens com o fim manifesto de abolir sumariamente tudo que não estivesse expressamente prescrito na Bíblia, ele aplaudiu esse procedimento, e colocou-se à frente deles. Imagens, crucifixos, missas, vestes sacerdotais, confissões, hóstias, jejuns, cerimônias, decorações de igrejas – tudo estava para ser imediatamente varrido pela destruição; e todo o Cristianismo se devia revolucionar, pelas influências combinadas do Evangelho e da espada.

Lutero logo que teve conhecimento disto, escreveu de Wartburgo aos amotinadores, dizendo-lhes que não aprovava o seu procedimento, nem se poria ao lado deles neste caso. "Tinha sido", dizia ele, "empreendido sem termos, com muito atrevimento e violência... Acreditem-me, eu conheço bastante o Demônio; só ele podia fazer as coisas deste modo, para trazer vergonha sobre a Palavra". As suas advertências foram porém inúteis; as medidas que ele propunham eram muito brandas e moderadas para os iconoclastas de Wittenberg, e foram por diante com as suas inovações.

Volta de Lutero para Wittenberg

Sala de estar- casa de Lutero - em Wittenberg (Alemanha)

Tendo aumentado o tumulto, Lutero fechou os olhos ao próprio perigo, e, saindo do seu esconderijo, partiu para Wittenberg. Foi em vão que o príncipe lhe fez ver o perigo a que ele se expunha, e lhe mostrou a qualidade do inimigo que tinha no duque Jorge, por cujos territórios havia de passar. "Uma coisa posso dizer", escreveu ele, "se as coisas estivessem em Leipzig como estão em Wittenberg, para ali mesmo me dirigia, ainda que chovesse duques Jorges durante nove dias, e que cada um deles fosse nove vezes mais feroz do que este. Portanto direi a Vossa Alteza (apesar de Vossa Altezar saber muito bem), que vou a Wittenberg sob uma proteção muito mais forte do que a de Vossa Alteza".

Ao chegar a Wittenberg em Março de 1522, Lutero começou uma série de sermões, oito ao todo, sobre os fanáticos de Zwickau, nos quais tratou dos diferentes assuntos com um tato pouco vulgar. Estes sermões constituem um tesouro, e foram admiravelmente adaptados à ocasião a que se destinaram. No seu estilo vigoroso e picante fez-lhes ver o deplorável fim a que um tal excesso de zelo levaria sem dúvida o povo; disse-lhes que lhes faltava caridade, sem a qual a sua fé de pouco valia; que sabiam melhor falar das doutrinas que lhes eram pregadas, do que pô-las em prática; e que não tinham paciência e estavam prontos de mais a sustentar os seus próprios direitos: "Neste mundo", disse ele, "não se deve fazer tudo aquilo a que se tem direito, mas antes renunciar o próprio direito, e considerar, pelo contrário, o que é útil e vantajoso para os nossos irmãos. Não imagineis que aquilo que 'deve ser' 'há de ser' forçosamente, como estais fazendo, para que não tenhais de responder por aqueles que tendes desencaminhado pela vossa liberdade pouco caridosa". Estes sermões tiveram o efeito desejado. A agitação apaziguou-se, seguindo-se-lhe o sossego e a tranqüilidade. Os estudados voltaram pacificamente aos seus estudos e o povo, às suas casas; e o príncipe não pôde deixar de reconhecer que Lutero tinha feito bem em sair de Wartburgo.

Tradução da Bíblia

Em seguida continuou a tradução da Bíblia, sendo muito auxiliado na árdua tarefa pelas revisões críticas de Melanchton. Poucos meses depois o Novo Testamento estava pronto, e em Setembro de 1522 publicado. Foi recebido pelos seus compatriotas com muito entusiasmo, e teve de publicar uma segunda edição no espaço de dois meses, e em dez anos nada menos de cinqüenta e três edições se tinham publicado só na Alemanha! Então foi adicionado também o Velho Testamento. O povo alemão tinha agora uma Bíblia completa na sua própria língua, e isto contribuiu mais para a consolidação e propagação das doutrinas reformadas do que todos os escritos de Lutero juntos.

A Reforma estava agora assentada na sua verdadeira base – a Palavra de Deus. Até aqui falara Lutero. Agora é o próprio Deus que fala ao coração e à consciência dos homens. A sua Palavra era agora acessível a todos, e a Roma papal tinha recebido um choque do qual nunca se poderia restabelecer completamente. Pouco depois foi dirigido ao papa, por um concílio de bispos católicos-romanos, um memorial sobre o assunto: "O melhor conselho", disseram eles, "que podemos dar à sua santidade é que devemos empregar todos os esforços para se evitar a leitura do Evangelho em língua vulgar... O Novo Testamento é um livro que tem dado mais ocasião a maiores distúrbios, e estes distúrbios têm quase arruinado a nossa igreja. Na verdade, se prestarmos séria atenção às Escrituras e as compararmos com o que geralmente se encontra nas nossas igrejas, verse-á uma grande diferença entre umas e outras; e que a doutrina do reformador é inteiramente diferente da nossa e em muitos respeitos diametralmente oposta a ela". Era assim que Roma se julgava a si própria; e que o poder da Palavra era reconhecido por aqueles que praticamente negavam a sua autoridade.

Progresso da Reforma

No entanto, a Reforma continuava a ganhar terreno, e o interesse que o primeiro ato de Lutero tinha despertado não diminuía com o decorrer do tempo. O povo em toda a parte escutava a Palavra com prazer, chorando muitas vezes de alegria ao ouvir as boas-novas. Em Zwickau e Anaberg, as multidões ávidas rodeavam os púlpitos dos reformadores, e escutavam-nos dias inteiros; e quando Lutero pregou o seu primeiro sermão em Leipzig aquela grande multidão de gente caiu de joelhos e bendisse a Deus pela Palavra que seu servo tinha o privilégio de falar. Os folhetos e os sermões do reformador eram levados de cidade em cidade; os vendedores ambulantes levavam-nos às aldeias mais distantes, e os navios transportavam-nos de porto em porto, introduzindo-os em todos os países onde houvesse homens bastante instruídos para os receber. Três anos depois do começo da Reforma, houve um viajante que comprou algumas das obras de Lutero em Jerusalém.

Oposição de Roma

Roma, como se pode supor, não descansava no caso, e fulminava os reformadores com as suas maldições numa cólera vã. "Heresia! Heresia!" ouvia-se por toda a parte, enquanto as excomunhões se multiplicavam e os editos reais se publicavam em número cada vez maior. Alguns pregadores do Evangelho foram presos, torturados, queimados, mas isso de nada servia: a Bíblia estava nas mãos do povo, e a resistência era inútil. As mulheres mais simples estavam sentadas ao pé das suas rocas, com as suas Bíblias no regaço, e confundiam os monges que vinham discutir com elas. Tinha-se levantado uma nova ordem de coisas, mas o poder que tinha produzido estes efeitos não provinham do homem. Era um poder que até ali tinha forças para esmagar, e era poderoso para destruir as fortalezas do inimigo.

A Reforma estava ainda em começo quando rebentou a guerra dos camponeses, que lhe fez sofrer um grande atraso. Era o seu chefe um fanático chamado Tomás Münzer, homem que tinha tomado parte notável nos motins de Wittenberg, durante a reclusão de Lutero ao castelo de Wartburgo. Depois disso estabeleceu-se em Mulhausen, e empreendeu a sua grande obra (como ele lhe chamava) de derrubar o "reino pagão" e de exterminar os ímpios.

Revolta dos Camponeses da Alta Alemanha

Os camponeses oprimidos ouviram-no com alegria, e correram às armas. Lutero, a princípio, foi ao encontro deles com a Palavra de Deus e com razões moderadas; mas quando se insurrecionaram abertamente, então escreveu contra eles, e chamou-lhes de ladrões e assassinos. As províncias da Alta Alemanha estavam agora mergulhadas em anarquia e confusão. A plebe, estimulada por um êxito temporário, e furiosa com a lembrança da injustiça e opressão que tinha sofrido, precipitava-se para aqui e acolá, queimando e destruindo palácios, igrejas, conventos, até que por fim foram vencidos em Frankenhaussem pelo príncipe de Hesse, e totalmente derrotados. O seu ato temerário de rebelião não lhes serviu de nada, e quando voltaram para as suas casas, viram que com ele tinham aumentado seus males. Condenar sem distinção todos aqueles que tivessem tomado a mais insignificante parte no movimento, era agora a política do partido papal; e daí todos os males provenientes da guerra dos camponeses foram injustamente atribuídos à influência da obra de Lutero. A Reforma não sofreu pouco por causa dessa falsa acusação.

Movimento Divergente

Por essa época apareceram os anabatistas, assim chamados por sustentarem a doutrina de que o batismo devia ter lugar por imersão, e que os que tivessem sido batizados na infância deviam ser novamente batizados.

Os chefes deste movimento asseveravam que eram eles os verdadeiros reformadores, e anunciavam que o reino de Cristo estava prestes a manifestar-se. Tinham, porém alguns excessos: achavam que deveriam ter todas as coisas em comum, e que não deviam ser obrigados a pagar dízimos nem tributos... Eles aumentavam em número, e apresentavam uma vida muito rigorosa, assim como uma grande coragem na morte de mártires, quer seja por meio de fogo ou de água. O movimento continuou a aumentar, apesar da perseguição, até o martírio dos seus principais chefes.

O Conselho de Spires

Pouco mais ou menos por este tempo os três mais poderosos príncipes da Europa, Henrique VIII da Inglaterra, Carlos V da Alemanha e Francisco I da França, uniram-se com o papa para a supressão dos perturbadores da religião católica e para se vingarem dos ultrages que tinham sido feitos à "Santa" Sé. Para esse fim foi convocado em Spires um Conselho de nobres, no ano de 1526, a que presidiu o príncipe Fernando, irmão do imperador. Foi lida aos príncipes reunidos uma mensagem imperial ordenando que fosse prontamente cumprido o edito de Worms contra Lutero. Mas isso não deu o resultado com que os amigos do papismo tinham tão ardentemente contado; e, em vez de entregarem o reformador à mercê de Roma, o Conselho submeteu ao imperador os seguintes itens: que eles fariam todos os esforços para aumentar a glória de Deus e manter uma doutrina em conformidade com a sua Palavra, e davam graças a Deus por ter feito reviver no tempo próprio a verdadeira doutrina de justificação; que não permitiriam a extinção da verdade que Deus lhes tinha revelado ultimamente.

Confiante, apesar da derrota, o imperador três anos mais tarde reuniu um segundo Conselho na mesma cidade. Os seus modos eram coléricos e despóticos, mas os nobres que defendiam a Reforma estavam tranquilos e resolutos. Naqueles tempos estas qualidades eram muito necessárias. Ninguém esperava a inflexibilidade dos nobres, e a presença de um tal espírito entre eles era um novo elemento do Conselho alemão. Até ali o imperador tinha tido fama de exercer um poder absoluto, mas ia ter lugar uma crise na história da Reforma, e aquilo por que lutavam os nobres não tinha sido reconhecido pela política humana. Foi isto que o imperador não compreendeu.

Origem da Palavra "Protestante"

Fernando presidiu novamente a este Conselho e, sentindo que estava iminente uma crise, recorreu a medidas desesperadas. Usando a autoridade que ele ali representava, ordenou imperiosamente a submissão dos príncipes alemães ao edito de Worms. A sua conduta foi mais caracterizada pelo atrevimento do que pela sabedoria, e só serviu para agravar o sentimento que já existia. Para dar uma saída ao negócio, publicou-se um decreto resumindo as ordens do imperador, que os fidalgos católicos assinaram.

Foi aquele um momento de ansiedade para Lutero e a Reforma, mas o grupo reformador teve forças para sustentar a luta no Conselho. Sem receio da altivez de Fernando, e impassíveis às ameaças dos bispos, uniram-se em um grupo e no dia seguinte levaram seu protesto contra a decisão da assembléia. E foi o começo do Protestantismo, e do Período de Sardo na História da Igreja.

Leia Mais ►

Dia da Reforma Protestante - 31 de outubro [04/06]

Zwínglio e a Reforma Suíça (1481-1522)

Deixando Lutero em Wartburgo, notemos o que Deus tinha estado a fazer pelo seu povo em outro ponto da Europa por meio de outros instrumentos. É especialmente digno de menção que ao mesmo tempo em que se ia iniciando a Reforma na Alemanha, ia-se abalando cada vez mais o trono papal, em conseqüência de um despertamento religioso na Suíça, e o instrumento que Deus tinha escolhido para o cumprimento desta obra ali foi um padre de Roma chamado Úlrico Zwínglio. Se Lutero era filho de um mineiro, o reformador suíço não se podia gabar de ser de origem mais nobre, visto que seu pai era pastor, e guardava seu rebanho em Wildaus, no vale de Tockemburgo.

Zwínglio nos estudos

Se não fosse o fato de o pai de Zwínglio destiná-lo a igreja, podia este ter morrido sem que seu nome jamais chegasse a nós. Mas tudo foi sabiamente ordenado por Deus, que tinha uma obra especial e importante para dar a fazer ao filho do pastor; e a sua mocidade foi regulada em conformidade com isso. Ainda não tinha dez anos de idade quando o mandaram para os estudos, sob a vigilância do seu tio, o deão de Wesen, e ali deu tais provas da sua inteligência, que seu parente tomou a responsabilidade da sua educação e mandou-o estudar sucessivamente em Basiléia, Berne, Viene, e de novo em Basiléia. Quando voltou para esta cidade teve a felicidade de ficar entregue aos cuidados do célebre Tomás Wittembach, homem que via claramente os erros de Roma, e ao mesmo tempo não era estranho à importante doutrina de justificação pela fé. O professor não escondia ao seu discípulo, nem os seus conhecimentos, nem as suas opiniões; e foi ali que Zwínglio ouviu pela primeira vez, com um sentimento de admiração, que "a morte de Cristo era o único resgate para a sua alma".

Deixando Basiléia após concluir o seu curso de teologia e depois de ter tomado o grau de bacharel em letras, foi escolhido para pastor na comunidade de Claris, onde ficou dez anos. Durante a sua permanência ali, dedicou-se a um estudo profundo das Escrituras e a examinar com atenção as doutrinas e práticas da igreja primitiva, como estavam descritas nos escritos dos antigos doutores, e isso mais o convenceu do estado de corrupção em que se achava a igreja professa; e começou a exprimir as suas opiniões sobre matérias eclesiásticas com uma clareza admirável.

No ano de 1516 estava ele em Einsiedeln, no cantão de Schwyz, tendo recebido um convite do governador do mosteiro dos Beneditinos para paroquiar a igreja de Nossa Senhora de Ermitagem, que era então um foco da idolatria e superstição de Roma. O que Lutero vira em Roma, viu Zwínglio em Einsiedeln; e o seu zelo na obra da Reforma foi estimulado pelas deploráveis descobertas que ali fez. Os seus trabalhos na Ermitagem foram abençoados, e o administrador Geroldseok e vários monges convertidos. 

Depois de um ministério fiel de três anos em Einsiedeln, o reitor dos cônegos da igreja catedral de Zurique convidaram-no para ser seu pastor e pregador, sendo este convite aceito. Alguns, suspeitando das doutrinas reformadas, opunham-se à sua nomeação, mas a sua reputação era tão grande, e os seus modos tão atraente, que estava a maioria a seu favor, e foi devidamente eleito. Zurique tornou-se então a esfera central dos seus trabalhos, e foi ali que travou conhecimento com Oswaldo Myconius, que mais tarde escreveu a sua vida. 
Zwínglio Pregando em Zurique

Quando ele pregava na catedral, reuniam-se milhares de pessoas para o ouvir; a sua mensagem era nova para os seus ouvintes, e expunha-a numa linguagem que todos podiam compreender. Diz-se que a energia e a novidade do seu estilo produziu impressões indescritíveis, e muitos foram os que obtiveram bênçãos eternas por meio do Evangelho puro e claro, enquanto que todos admiraram-se do que ouviam. Era grande a sua fé no poder da Palavra de Deus para converter as almas sem explicações humanas. Não quis restringir-se aos textos destinados às diferentes festividades do ano, que limitavam, sem necessidade, o conhecimento do povo com respeito ao livro sagrado e declarou que era sua intenção começar no evangelho de São Mateus e segui-lo capítulo por capítulo, sem os comentários dos homens. "No púlpito", diz Myconius, "não poupava ninguém. Nem papa, nem prelados, nem reis, nem duques, nem príncipes, nem senhores, nem pessoa alguma. Nunca tinham ouvido um homem falar com tanta autoridade. Toda a força e todo o deleite de seu coração estavam em Deus e em conformidade com isso exortava a cidade de Zurique a confiar somente nele". "Esta maneira de pregar é uma inovação!" – exclamavam alguns – "e uma inovação leva a outra; onde irá isto parar?". "Não é a maneira nova", respondia Zwínglio, com modos cortezes e brandos, "pelo contrário é antiga. Recordem-se dos sermões de Crisóstomo sobre S. Mateus, e de Agostinho sobre S. João". Com estas respostas pacíficas, desarmava muitas vezes os seus adversários, chegando até com freqüência a atraí-los a si. Neste ponto ele apresenta um notável contraste com o rude e enérgico Lutero.

Estava Zwínglio em Zurique havia pouco mais ou menos um ano quando a peste visitou a Suíça, e o reformador foi atacado por ela. Ele orou a Deus sinceramente pelo seu restabelecimento e obteve resposta para a sua oração, e a misericórdia divina em o poupar foi mais um incentivo para uma devoção ainda mais profunda. O poder da sua pregação aumentava sempre, e seguiu-se um tempo de muita benção, convertendo-se centenas de pessoas; e por este motivo os padres ficavam encolerizados e indignados. Zwínglio convidou-os mais do que uma vez para uma disputa pública, mas eles receavam o convite, e por fim, para fazerem calar o reformador, apelaram para o Estado. Este apelo foi a ruína deles, porque o Estado decretou: "Visto que Úlrico Zwinglio tinha por diferentes vezes convidado publicamente os contrários à sua doutrina a contradizê-la com argumentos das Escrituras, e visto que apesar disto nenhum o tinha querido fazer, ele podia continuar a anunciar e pregar a Palavra de Deus exatamente como até então. E também que todos os ministros de religião, quer residentes na cidade quer no campo, se absteriam de ensinar qualquer doutrina que não pudessem provar pelas Escrituras; e que deveriam igualmente evitar fazer acusações de heresia e outras alegações escandalosas, sob pena de castigo severo". Assim se viu Roma presa na própria rede que armara, e mais uma vez vencida, enquanto que o decreto se tornou um poderoso impulso para a Reforma.

Oferta do Papa a Zwínglio

Entretanto o papa (Adriano VI), que tinha estado a ameaçar a Saxônia com os seus anátemas, recebeu as alarmantes notícias do movimento na Suíça, e, temendo os efeitos de uma segunda reforma, experimentou um novo estratagema com Zwínglio. Sabia que o reformador suíço era um homem mais delicado do que Lutero, e por isso enviou-lhe uma carta mui lisonjeira, certificando-o da sua amizade especial, e chamando-lhe seu "amado filho" e fez acompanhar esta epístola assucarada de provas evidentes da sua consideração. Quando Myconius perguntou ao portador do breve papel o que era que o papa lhe tinha encarregado de oferecer a Zwínglio, recebeu esta resposta: "Tudo menos a cadeira de S. Pedro". Mas Zwínglio conhecia bem a astúcia de Roma, e preferiu a liberdade com que Jesus Cristo o tinha libertado, ao jugo de superstição, e a um barrete de cardeal.

Progresso da Reforma

Depois deste acontecimento a Reforma ganhou terreno com muita rapidez, e o reformador recebia constantes incentivos para a obra e as mais agradáveis provas de que Deus estava com ele. Em Janeiro de 1524 foi publicado um decreto que determinava que as imagens fossem destruídas; em abril de 1525 foi abolida a missa, e determinado que desde então, pela vontade de Deus, fosse a Ceia do Senhor celebrada conforme fora instituída por Cristo, e o costume apostólico. Mais tarde ainda, chegou a notícia da conversão das freiras do poderoso convento de Konigsfeldt, onde os escritos de Zwínglio tinham entrado; e o coração do reformador exultou quando recebeu uma carta que lhe tinha sido dirigida por uma dessas convertidas. Isto foi um golpe terrível para Roma. O efeito que um Evangelho claro e simples produziu nas freiras foi mostrar-lhes a inutilidade de uma vida de celibato e solidão, e pediram ao governo licença para sair do convento. O concílio, mal compreendendo as razões que elas tinham para isso, e assustado com aquele pedido, prometeu-lhes que a disciplina do convento seria menos severa e que lhes aumentaria a pensão. "Não é a liberdade da carne que nós pedimos", responderam elas, "mas sim a liberdade do Espírito". O pedido das freiras foi satisfeito porque o próprio Concílio ficou também esclarecido; e não foram só as freiras de Konigsfeldt que foram libertas; as portas de todos os conventos foram abertas de par em par, e a oferta de liberdade estendeu-se a todas as internas.

Efeitos da Reforma em Berna

Em Berna o poder da verdade manifestou-se de outro modo, não menos interessante. Os magistrados em sinal de regozijo pela grande obra, soltaram vários prisioneiros, e concederam completo perdão a dois desgraçados que estavam esperando o dia da sua execução: "Um grande grito", escreve Bullinger, discípulo de Zwínglio, "ressoou por toda a parte. Num dia Roma decaiu em todo o país, sem traições, sem violências, sem seduções; unicamente pela força da verdade". Os felizes cidadãos, despertados pelo poder da verdade, exprimiram os sentimentos dos seus corações da maneira mais generosa. "Se um rei, ou imperador, nosso aliado", diziam eles, "estivesse para entrar na nossa cidade, não perdoaríamos nós as ofensas, e não auxiliaríamos os pobres? E agora que o Rei dos reis, o Príncipe da paz, o Filho de Deus, o Salvador do gênero humano está conosco, e trouxe consigo o perdão dos pecados, a nós que merecíamos ser expulsos da sua presença, que melhor podemos nós fazer para celebrar a sua chegada à nossa cidade do que perdoar aqueles que nos ofenderam?"

A Obra em Basiléia

Em Basiléia, uma das comarcas mais poderosas da Suíça, as doutrinas da Reforma espalharam-se com incrível rapidez, e produziram os melhores resultados. Os zelosos burgueses limparam o país das suas imagens, e quando o humilde e piedoso Oecolâmpade (o Melanchton da reforma Suíça), acabou de completar um ministério fiel de seis anos na comarca, adotaram em todas as igrejas o culto reformado, que foi firmemente estabelecido por um decreto do Senado.

O coração exulta ao descrever esta gloriosa obra de Deus, e sentimos não poder continuar uma tarefa tão agradável, mas falta-nos espaço.

Leia Mais ►

Dia da Reforma Protestante - 31 de outubro [03/06]

Lutero e a Reforma Alemã (1483-1522)

Desde há muito, a doutrina da justificação pela fé tinha sido perdida de vista na igreja, e foi este um dos fatos pelos quais a Reforma se tornou uma necessidade. Logo que o poder desta verdade enfraqueceu nas almas dos fiéis, foi introduzida a doutrina de salvação pelas obras, e substituíram por penitências e mortificações exteriores aquele arrependimento para com Deus e a santificação íntima. Estes erros começaram logo no tempo de Tertuliano e aumentaram à proporção que iam passando os anos, até que por fim, a superstição do povo não se podia levar mais adiante, e as trevas da Idade Média foram a origem dos flagelantes.

As Indulgências

A venda de indulgências, pintura de Augsburg, cerca de 1530.

Os flagelantes, uma seita de fanáticos, foi instituída no século treze, e espalhou-se por uma grande parte da Europa. Andavam pelas ruas meio-nus, flagelando-se duas vezes por dia com chicotes. A severidade destes castigos, que imaginavam servir de expiação, não só dos seus pecados, como também dos pecados dos outros, excitou a princípio a perseguição, mas por fim despertou a simpatia do povo, que começou a virar as costas aos padres desregrados e a confessar os seus pecados e tristezas aos flagelantes. O pensamento dominante dos padres foi então ver como poderiam conservar a influência do domínio usurpado, "e portanto", disse d'Aubigné, "inventaram um negócio novo a que chamaram indulgências". Em troca de uma quantia mais ou menos avultada, conforme a classe a que o comprador pertencia, ficava este livre de uma peregrinação, de um jejum, ou de outra qualquer penitência; e assim começou esse detestável negócio.

O papa percebeu logo que as vantagens que podiam resultar de um sistema tão lucrativo e, em tempo oportuno, Clemente VII instituiu o extraordinário dogma de que a crença nas indulgências era um artigo de fé.

Estas indulgências de Roma não diziam respeito só aos vivos; iam além da tumba, e as almas que gemiam no Purgatório também se diziam que eram salvas por meio delas.

A venda de indulgências era necessariamente um grande incentivo ao pecado, e, na verdade, os ignorantes nada podiam ver nesta doutrina senão uma licença absoluta para praticarem o mal, enquanto que os padres, que aproveitaram cada vez mais tais idéias erradas, não tinham pressa em esclarecer o povo.

Tal era a condição da igreja no começo do século dezesseis: tão corrupta nas suas ações, que era impossível continuassem as coisas assim por muito tempo como estavam.

Não obstante isso, Roma vangloriava-se e estava confiante, porque tinha poucos inimigos declarados que a incomodassem. Os hussitas tinham sido, uns espalhados pela perseguição, outros atraídos de novo para o grêmio da igreja; e o testemunho dos cristãos valdenses tinha sido quase suprimido. Mais ainda: havia um sentimento de insatisfação nos corações dos homens de todas as classes que nem o fumo do fogo dos mártires sacrificados por Roma podia apagar, nem as promessas enganosas dos padres aliviar. Reis e fidalgos, cidadãos e camponeses, teólogos e homens de letras, políticos e soldados tinham todos as suas razões de queixa, e estavam moralmente preparados para a obra de Reforma. A Europa tinha despertado do longo pesadelo da Idade Média, e estava agora olhando, ainda que com olhos de sono, através do nevoeiro de uma longa superstição, à procura da luz. Era inevitável uma mudança importante, uma reação; mais ainda, uma revolução; e apenas era necessário achar um chefe. O espírito dos homens estava pronto para a revolução; e só necessitava de um que aguentasse o peso da luta para os guiar, aconselhar e dirigir.

Deus viu o que era preciso e enviou Martinho Lutero à Igreja na Europa.

Não faltaram líderes para seções e grupos particulares, mas Lutero havia de ser o chefe. Os príncipes e fidalgos, de há muito desgostosos com a usurpação sucessiva dos seus domínios pelos papas, encontraram no eleitor Frederico de Hanover um representante dedicado, embora tímido; os políticos e homens de letras, oprimidos pelas leis canônicas acharam um intérprete dos seus pesares em Ulrico Von Hutten, mas todos, desde o rei até o mais humilde, encontraram o defensor das suas liberdades no grande monge Agostinho, Martinho Lutero.

Martinho Lutero

O reformador era filho de pais humildes, nasceu em Eisleben na província de Mansfeld, no dia 10 de Novembro de 1483. "Eu sou filho de camponeses", dizia ele mais tarde, "meu pai, meu avô, e todos os meus antepassados eram camponeses". Foi de seus pais que ele herdou aquela rude simplicidade e temperamento franco e alegre, peculiar do camponês da Turíngia. A educação que recebeu em casa era reta e religiosa, e o tratamento que recebeu na escola era áspero em extremo, mas tudo isso foi necessário para preparar o futuro reformador para a sua grande e perigosa obra.

Aos quatorze anos de idade foi mandado para a escola franciscana em Magdeburgo onde aumentaram muito os seus sofrimentos. Conta ele que quase o matavam de fome, e muitas vezes era obrigado a cantar nas cidades e vilas próximas para angariar pão. Algum tempo depois mandaram-no para Eisenach, onde tinha parentes, mas estes deram-lhe pouco ou nenhum alívio. Teve de continuar a vaguear, esfomeado e miserável, pelas ruas cantando hinos e pedindo "panem propter Deum" às portas dos desconhecidos, agradecendo muito até as migalhas que lhe eram às vezes lançadas. Mas por fim chegou o alívio. Aquilo que os parentes tinham negado, deram-lhe os estranhos; e uma tarde depois de ter pedido a diversas portas sem resultado, chegou a uma onde não foi repelido. Os cristãos hão de sempre recordar com afeto e gratidão o nome Úrsula Cotta, porque foi ela que abriu as suas portas ao pobre rapaz esfomeado e lhe deu não só o sustento, mas um lar e amor de uma mãe. Lutero teve ocasião, mais tarde, de retribuir a sua bondade, recebendo também o filho de Úrsula na sua própria casa em Wittenberg.

Lutero na Universidade

Quando tinha dezoito anos, foi, por ordem de seu pai, para a Universidade de Erfurt estudar direito, e foi ali que seu espírito tomou uma série orientação pela morte repentina de seu condiscípulo e amigo íntimo Aleixo. Isto teve lugar por ocasião dumas férias pequenas, quando ambos passeavam juntos. Ao passarem por Thuringen-evald foram surpreendidos por uma grande tempestade, e o leviano Aleixo foi atingido por uma faísca elétrica. Caindo de joelhos, com o impulso no momento, Lutero fez um voto de se consagrar ao serviço de Deus, se Ele o poupasse na ocasião.

Desde então mudou completamente. Levou bastante tempo antes que lhe voltasse o amor pelo estudo, e passava dias e dias vagueando pensativo pela biblioteca da Universidade, como alguém que não pudesse achar descanso. Por fim veio-lhe às mãos uma Bíblia em latim, e tendo um perfeito conhecimento daquela língua, começou a ler o livro. Era esta a primeira vez que tinha olhado para aquele livro sagrado, e a sua surpresa foi grande. Nele encontrou uma sabedoria mais profunda do que imaginara, pérolas preciosas de verdade que nenhum missal ou breviário podia ensinar, e inclinou-se sobre seu novo tesouro num arrebatamento da alma. A proporção que lia ficava mais persuadido da autoridade divina do livro sagrado, e ia-se possuindo de uma convicção profunda da sua própria maldade. Até ali as palavras inspiradas tinham para ele um sentido misterioso e estava como alguém que procurasse o seu caminho às apalpadelas em plena luz do sol. Perplexo e trêmulo, fechou o livro, e, após, fez uma lista dos seus pecados, que o encheu de um vago receio. Nunca tinha, até então, pensado seriamente neles; nunca os tinha considerado sob um ponto de vista tão negro. Uma tão medonha série tinha-lhe, por suposto, fechado as portas do Céu para sempre; não podia haver esperança para um homem tão vil como ele. Então Lutero lembrou-se de repente de seu voto, e ergueu-se com um novo propósito no coração: Sim; ainda restava uma esperança – deixaria a Universidade e far-se-ia monge.

Lutero Num Mosteiro

Vamos agora encontrá-lo no mosteiro dos frades agostinhos, em Erfurt, e como tudo está mudado! Quando o deixamos era ele um inteligente estudante de Direito, um bacharel de artes, e o ídolo da Universidade; agora é um monge, e o mais íntimo entre eles. Aquele que outrora tinha pronunciado discursos e tomado parte em discussões sábias era agora o criado da sua ordem, e tinha de limpar as celas, dar corda ao relógio, e varrer a capela do mosteiro! Contudo Lutero sujeitava-se a estes trabalhos penosos, inerentes à sua nova posição, sem se queixar; a luta moral porque estava passando quase lhe fazia esquecer a degradação. Muitas vezes, quando sentia a sua alma apoquentada, deixava seu trabalho para ir à capela do mosteiro, onde estava guardada a Bíblia, e ali procurava o alimento espiritual de que carecia. E era só nestas ocasiões que ele podia estudar a Palavra de Deus.

Mais tarde, porém, foi nomeado para a cadeira de teologia e filosofia de Wittenberg, que se achava vaga. A nomeação foi feita por Staupitz, vigário geral da ordem Agostinha de Saxônia, por conselho de Frederico, o Sábio, Eleitor de Hanover. Lutero era agora até um certo ponto senhor do seu tempo, e podia dedicar-se mais ao estudo da Bíblia. A solidão de sua cela era muito conveniente para esse fim, e ele estudava com um zelo pouco vulgar. Fazia esforços extraordinários para reformar o seu modo de viver, e para expiar o passado por meio de orações e penitências, e foram muitos os votos que ele fez para se abster de pecado, mas estes esforços nunca os satisfazem, e quebrava sempre os seus votos. "É em vão", dizia Lutero tristemente a Staupitz, "que eu faço tantas promessas a Deus: o pecado é sempre o mais forte". Staupitz discutia brandamente com ele, e falava-lhe do amor de Deus e que Deus não estava zangado com ele, como Lutero supunha; mas o monge continuava desconsolado. "Como posso eu ousar crer na graça de Deus", dizia ele, "se é certo que ainda não se operou em mim uma conversão? Preciso necessariamente mudar de vida para ser aceito por Ele".

A sua ansiedade tornou-se mais profunda do que nunca, e os esforços para apaziguar a justiça divina continuavam com um zelo incansável. "Eu era na realidade um monge piedoso", escreveu anos depois, "seguia os preceitos da minha ordem com mais rigor do que posso exprimir. Se fosse possível a um monge obter o Céu por suas obras monacais eu era, certamente, um dos que tinha direito a isso. Todos os frades que me conheceram podem ser testemunhas. Se tivesse continuado por muito mais tempo as minhas penitências ter-me-iam levado à morte, a força de vigílias, orações, leituras e outros trabalhos".

O monge tinha ainda, de aprender a significação destas palavras: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef. 2.6,9).

As repetidas conversações com Staupitz davam-lhe uma certa esperança, e de vez em quando sentia um estremecimento de alegria, e o seu coração ganhava confiança. Mas a lembrança dos seus pecados tornava a voltar e a sua alma perturbada tremia de horror ao pensar no julgamento a que tinha de comparecer. "Oh! Os meus pecados! Os meus pecados!" exclamou ele um dia diante do vigário geral; e quando Staupitz lhe falou em Cristo como o Salvador do pecado e da impureza, as suas palavras pareciam ser um mistério impenetrável para o pobre monge.

Por fim a sua saúde ressentiu-se de tal maneira por tão repetidas vigílias e mortificações que chegou a estar às portas da morte. E então aos seus outros receios juntava-se mais o terror do seu próximo fim, e o medo do julgamento futuro mergulhava-o num abismo ainda mais profundo.

Que lhe aconteceria se morresse sem estar salvo? Que aconteceria se morresse nos seus pecados? Ainda não tinha uma certeza completa de misericórdia divina; aqueles pecados ainda não tinham sido postos de parte, e ele receava levar a sepultura o peso deles.

Nesta triste condição foi um dia visitado na sua cela por um monge piedoso, que lhe disse algumas palavras de consolação. Lutero, vencido pela bondade dessas palavras, abriu o seu coração ao velho monge, mal imaginando o que havia de resultar daí. O monge não podia segui-lo em todas as suas dúvidas, mas repetiu-lhe ao ouvido uma frase do Credo dos Apóstolos que muitas vezes o tinha consolado: "Creio na remissão dos pecados". Foi esta mensagem de Deus para a alma de Lutero, e agarrou-se àquelas palavras com uma energia quase desesperada. "Eu creio", repetia ele para consigo, "eu creio na remissão dos pecados".

"Atendei ao que diz S. Bernardo, e ao testemunho que o Espírito Santo produz no vosso coração que é este: Os teus pecados te são perdoados". A luz brotou naquele coração atribulado; e Lutero deu graças a Deus por essas palavras serem verdadeiras com respeito a ele mesmo.

Lutero Vai a Roma

Mas embora verdadeiramente convertido, Lutero ainda se conservava escravo de Roma; e foi só depois de ter feito uma visita à cidade papal que ele começou a descobrir a corrupção que ali existia, e a sentir-se abalado na sua obediência à igreja romana. Tornou-se necessária esta visita de caráter oficial em conseqüência de uma questão que se levantou entre o vigário geral e sete dos conventos, e no tempo o competente Lutero pôs-se a caminho. Quando avistou Roma prostrou-se, e exclamou: "Santa Roma eu vos presto a minha homenagem", considerando-a como o campo de ação de S. Pedro e S. Paulo.

Mas quando entrou na cidade abriram-se-lhe os olhos. Começou a compreender que o poço de corrupção era realmente a metrópole do catolicismo e durante algum tempo ficou atordoado. Por onde quer que se dirigisse encontrava sempre o mesmo mal, e entre os habitantes da cidade, os que em mais alta voz proferiam blasfêmia ou mais se distinguiam pela sua infidelidade eram os próprios padres. Enquanto um dizia a missa num altar, diziam-se sete no altar próximo. Também ouviu da boca dos próprios monges uma história que horrorizou e o perturbou. Contaram eles, no meio de gargalhadas, que quando diziam missa, em lugar de pronunciar as palavras sacramentais sobre o pão e o vinho com que suponha transformá-los no corpo e sangue de Cristo, freqüentemente repetiam estas palavras: "Panis es, et Panis manebis; vinum es, et vinum manebis" – Pão és, e pão ficarás; vinho és, e vinho ficarás.

O que fica dito apenas mostra a grande impiedade que Lutero encontrou em Roma durante a sua curta permanência ali; podíamos, se fosse necessário, mencionar muito mais. Foi pois com a alma entristecida pelo que ali tinha visto que Lutero saiu da cidade de Roma e voltou para a sua terra natal.

Lutero Volta para Winttenberg

Quando ali chegou, formou-se em teologia, e os seus sermões começaram a atrair a atenção na igreja da ordem Agostinha em Wittenberg, onde se reuniam grandes multidões para o ouvirem. A sua magnífica exposição, e sua eloquência a sua admirável memória, e sobretudo a evidente força das suas convicções, cativavam todos os que o ouviam, e o Dr. Martinho Lutero tornou-se o assunto das conversações entre as pessoas ilustradas. Mas o que o tornou mais geralmente notável foi a sua contenda com João Tetzel, o monge dominicano de Leipzig. Tetzel tinha vindo vender indulgências no próprio lugar onde Lutero estava cumprindo com os seus deveres de confessor do povo de Wittenberg. Tornava-se, pois, inevitável uma questão entre eles.


Discurso de Tetzel

Subindo ao púlpito, perto do qual estava colocada uma grande cruz vermelha encimada pelas armas papais, Tetzel começou o seu discurso. Falava alto e animadamente, e fazia do Purgatório uma descrição medonha que fascinava o auditório, despertando em todos a maior solicitude pelas almas dos seus amigos já falecidos. Falou das grandes vantagens da comodidade que ele proporcionava aos seus ouvintes, pois não havia pecado algum que tivessem cometido que se não pudesse lavar com uma indulgência. Ainda mais, estas indulgências eram eficazes não somente com respeito aos pecados presentes, mas também sobre os pecados passados e futuros. E ainda os pecados que os seus ouvintes tivessem o desejo de cometer podiam ser perdoados com antecedência pelas suas cartas de absolvição: "Eu não trocaria o meu privilégio", disse o monge loquaz, "pelo de S. Pedro no Céu, porque eu tenho salvo mais almas com as minhas indulgências do que o apóstolo com os seus discursos".

Estas observações eram escutadas com uma atenção extraordinária, mais os seus apelos a favor dos mortos produziram ainda mais resultado. "Padres, nobres, mercadores, esposas, moços, moças", exclamou ele, "ouçam a vossos pais e amigos já mortos, gritando-vos do abismo profundo – Nós estamos sofrendo um martírio horrível! Uma pequena esmola nos poderia salvar; vós podeis dá-la, e contudo não quereis fazer! – Ouçam estes gritos, e saibam que logo que soar uma moeda no fundo da caixa a alma solta-se do Purgatório e dirige-se em liberdade para o Céu... Como sois surdos e desleixados! Com uma insignificante quantia podeis livrar o vosso pai do Purgatório, e apesar disso sois tão ingratos que não comprais a sua liberdade! No dia do juízo eu serei justificado, mas vós sereis castigados tanto mais severamente por terdes desprezado tão grande salvação".

Concluído o discurso, os fiéis chegaram-se às pressas para onde se achava o vendedor de indulgencias, e ali fizeram as suas compras. A maior parte deles ficaram provavelmente, muito satisfeitos com o seu negócio, e, quando no dia seguinte se foram confessar, foi sem idéia nenhuma de se emendarem dos seus pecados. Não tinham eles, porventura, consigo um documento assinado pelo irmão João Tetzel, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que lhes restituía a inocência e pureza que tinham na hora do seu batismo, assim como também os declarava isentos das conseqüências de futuros pecados até o dia da sua morte?

Oposição de Lutero a Tetzel

Porém, o padre confessor Martinho Lutero não ligava importância nenhuma ao irmão Tetzel, nem aos seus documentos. O seu dever era dizer ao povo que Deus odiava o pecado; que o Inferno e não o Céu é o destino dos maus, e que, a não ser que tivessem um verdadeiro arrependimento para com Deus, ficariam perdidos para sempre. "Se não abandonardes vossos pecados", dizia ele, "perecereis todos igualmente".

Era em vão que Tetzel se encolerizava e o povo se opunha a estas sábias declarações. Lutero mantinha-se firme: "Acautelem-se", avisava ele, "e não dêem crédito aos clamores desses vendedores de indulgências! Há melhores coisas em que pensar do que na compra das tais licenças, que eles vendem pelos preços mais vis". No púlpito não era menos enfático. Em linguagem muito clara aconselhava o povo a que não continuasse com aquele tráfico infame.

O seu sermão deixou o auditório muito admirado e tornou-se o assunto da geral discussão em Wittenberg; e antes de ter passado a sensação que ele causou apareceram as suas famosas Teses – certas proposições sobre as verdades fundamentais do Cristianismo, que Lutero escreveu e colocou na porta da sua igreja. Nenhum dos amigos de Lutero, nem mesmo os mais íntimos, sabia que ele as havia escrito; e o povo de Wittenberg ficou uma manhã espantado vendo-as colocadas na porta da igreja. O erro de tão horrível tráfico era ali claramente exposto; e logo todos começaram a sentir que havia falado uma voz como ainda se não tinha ouvido outra na Europa. Uma cópia das Teses caiu nas mãos de Tetzel, e o frade dominicano ficou furioso. Chegou a valer-se de imprecações. Escrever também algumas teses e em seguida queimar as de seu adversário foi simplesmente acrescentar mais fel ao seu próprio cálix, porque os estudantes de Wittenberg tomaram o partido do seu professor e responderam a isto queimando oitocentas cópias das teses do dominicano.

No entanto as Teses de Lutero passavam de mão em mão, e espalhou-se rapidamente a notícia do ato arrojado do reformador. O papa soube logo desse fato, e citou o indomável monge a comparecer em Roma, mas por conselho do príncipe de Saxônia – um amigo verdadeiro de Lutero – a citação foi ignorada. O Príncipe lembrava-se da sorte de João Huss, e suspeitava naturalmente das intenções de Leão X.

O Papa Denuncia Lutero

Lutero foi pois declarado herege, e o papa, em conseqüência disso, mandou publicar uma bula de excomunhão contra ele. Durante toda esta agitação o doutor tinha avançado com firmeza no conhecimento da verdade, e quando recebeu a excomunhão já se tinha de tal maneira desembaraçado das cadeias de Roma que estava pronto para dar mais um passo, como reformador, e declarou publicamente que o para era o Anticristo! Sem dúvida, essa declaração era arrojada, mas foi seguida de um ato igualmente arrojado. Rodeado pelos professores e estudantes da Universidade e vários membros da municipalidade, Lutero, na praça pública, queimou a bula do papa!

Roma logo teve conhecimento disso e tendo um sentimento confuso do perigo que corria, declarou que o monge havia de morrer. Carlos V, um jovem príncipe que dava muitas esperanças, estava então no trono da Alemanha. Era católico romano, mas de modo algum se sujeitou incondicionalmente à autoridade da igreja. Não obstante isso, o anúncio Aleander, então legado papal na Alemanha, induziu-o a tomar algumas medidas com respeito a Lutero. Roma tinha as forças exaustas, e se não tivesse do seu lado o poder temporal tudo estava perdido. Estava para se reunir um congresso em Worms, para felicitar o jovem imperador pelo seu acesso ao trono e para fazer os preparativos para o contrato da eleição, e era essa a ocasião para dar uma palavra decisiva e esmagar o incômodo herege. Era este o pensamento geral e o papa juntou-se a ele, e exprimiu o desejo de que Aleander estivesse presente ao congresso, com o fim de ordenar o cumprimento da sua bula.

Era aquele uma ocasião própria para operar. O perigo ia-se espalhando e o soberano pontífice da cristandade tinha começado a compreender a força e a coragem do seu adversário. O espírito da Europa tinha despertado e não havia meio de o adormecer de novo se não fizessem calar o audacioso monge. Retirar-se da luta era simplesmente inútil, porque a voz de Wittenberg já tinha soado por toda a Europa, e todas estavam esperando ansiosamente ouvi-la de novo. O serviço exclusivo de três imprensas não tinha podido suprir ao povo os seus escritos com bastante brevidade; e a sala de leitura da Universidade e a igreja dos agostinhos não eram suficientemente grandes para conter as multidões que ali se reuniam para ouvirem Lutero pregar. Príncipes, camponeses, poetas e homens de estado; professores, sábios e estudantes de teologia, todos igualmente tinham despertado; e todas as classes e todas as nações dirigiam para Lutero e sua suprema atenção. Um monge solitário em Wittenberg fizera soar a trombeta de desafio, e a Europa inteira estava esperando com grande interesse o resultado da próxima luta.

Ida de Lutero a Worms

Foi para Lutero um tempo de perigo aquele, mas a sua confiança em Deus era grande. Determinou ir a Worms responder às acusações que lhe eram feitas, fossem quais fossem os perigos; e quando o seu propósito foi conhecido encontrou mais uma vez um verdadeiro amigo no Príncipe da Saxônia. Este príncipe cristão obteve para ele um salvo-conduto do imperador e de todos os príncipes alemães por cujos estados ele tinha de passar; e com esta proteção Lutero estava pronto a partir. Os seus amigos estavam receosos e apreensivos, e procuraram ainda dissuadi-lo de empreender a jornada. Mas Lutero, confiando em Deus, não se importou com o pedido deles. "Se Jesus Cristo me ajudar", disse ele, "estou resolvido a nunca fugir do campo, nem abandonar a Palavra de Deus".

Chegando a Francfort, escreveu ao seu amigo Spalatim, que estava em Worms, para arranjar-lhe um quarto; e na sua carta lê-se o seguinte período característico: "Ouvi dizer que Carlos publicou um edito com o fim de me aterrorizar. Mas Cristo vive; e havemos de entrar em Worms ainda que as portas do Inferno, ou todos os poderes das trevas se opunham".

A sua entrada naquela cidade no dia 16 de Abril de 1521 celebrou-se com uma ovação pública; e chegaram-lhe aos ouvidos muitas palavras piedosas e animadoras, e muito povo o abençoava quando ele atravessava as ruas para o seu alojamento. No dia seguinte apareceu o marechal do império para o conduzir ao Congresso; e quando o monge se dirigia por entre a multidão para a sala do concílio foi saudado com palavras amigas por vários cavaleiros e fidalgos que se achavam ali presentes.

Lutero no Concílio

Ao entrar na sala do concílio o reformador ficou um tanto assombrado pelo espetáculo pouco vulgar que se lhe apresentava. Logo defronte dele sentava-se, vestido de púrpura e arminho, Carlos V rei de Espanha e imperador da Alemanha, e ao lado do trono estava seu irmão, o arquiduque Fernando. A conveniente distancia deles estavam colocados príncipes do império, duques, margraves, arcebispos, bispos, prelados, embaixadores, deputados, condes, barões e outros. Um tal espetáculo era bastante para perturbar o espírito do monge solitário que tinha passado a maior parte da sua vida na solidão na sua casa de província, e na cela do mosteiro; mas havia alguém que estava do lado dele, que era mais suficiente para protegê-lo. Alguém que tinha dito a Ezequiel nos tempos passados: "Não os temas, nem temas as suas palavras; ainda que sejam sarças e espinhos para contigo, e tu habites com escorpiões, não temas as suas palavras, nem te assustes com os seus rostos!" (Ez 2.6). Era nele que Lutero confiava.

Os trabalhos daquele dia foram começados pelo chanceler de Treves, um amigo de Aleander. No meio de um solene silêncio levantou-se do seu lugar e dirigiu a Lutero as seguintes perguntas: "Em primeiro lugar, queremos saber se estes livros" – e apontou para as obras de Lutero que estavam sobre a mesa – "foram escrito por vós. Em segundo lugar, se estais pronto a retratar-vos do que escrevestes nestes livros, ou se persistis nas opiniões que neles expusestes". Depois de ter trocado algumas palavras com o seu advogado, Lutero deu uma resposta afirmativa à primeira pergunta, mas pediu algum tempo para considerar a segunda. O seu pedido foi satisfeito e assim combinaram dar-lhe até ao dia seguinte para pensar no assunto.

Aquele espaço de tempo, exceto uns poucos momentos dedicados aos seus amigos, foi empregado por Lutero em fervente oração a Deus, e assim animado apresentou-se pela segunda vez perante o tribunal dos homens, mas esta vez forte e ousado; e quando o chanceler lhe fez de novo a pergunta ele respondeu-lhe com tanta facilidade que arrancou exclamações de admiração dos seus amigos, e confundiu os seus inimigos. As suas censuras a todo o sistema do papismo foram fortes e incontestáveis.

Lutero terminou o seu discurso com palavras enérgicas de aviso ao imperador Carlos, e pediu-lhe a proteção que a malícia dos seus inimigos tornava necessária. Sendo instado para que desse uma resposta mais explícita à pergunta do chanceler, respondeu prontamente: "Visto que vossa majestade e vós poderosos senhores me exigem uma resposta clara, simples e precisa, dar-vo-la-ei, e essa resposta é a seguinte – não posso submeter a minha fé nem ao papa, nem aos concílios, porque é claro como o dia que eles muitas vezes tem caído em erro, até nas mais palpáveis contradições, com eles próprios. Se, portanto, não me convencerdes pelo testemunho das Escrituras, se não me persuadirdes pelos próprios textos que tenho citado, libertando assim a minha consciência por meio da Palavra de Deus, eu não posso nem quero retratar-me, porque não é seguro para um cristão falar contra a sua consciência". Em seguida, olhando em volta daquela assembléia, no meio da qual se conservava de pé, e que tinha bastante poder para o condenar, disse – "Tenho dito... aqui estou. Não posso proceder de outro modo... Deus me ajude! Amém".

Estavam agora justificados os receios dos amigos de Lutero, de que Roma havia de proceder traiçoeiramente na questão do seu salvo-conduto; e se o imperador tivesse sido como Sigismundo tudo naquele dia teria acabado para o reformador.

Mas os esforços traiçoeiros dos papistas em promover a violação do seu salvo-conduto não acharam apoio em Carlos, e a cada nova instância dos traidores ele respondeu resolutamente: "Ainda que a boa fé tivesse desaparecido da superfície da terra devia sempre encontrar um refúgio na corte dos reis". Contudo o imperador consentiu em que se publicasse um edito de desterro; mas isso satisfez tão pouco às exigências de Roma que eles voltaram ao seu extremo e desesperado recurso o assassinato. Fizeram-se combinações para assassinar o reformador quando ele voltasse para a Saxônia, mas o seu bom amigo, o príncipe, foi avisado da conspiração a tempo, e pôde frustrá-la. Quando Lutero voltava para casa, foi repentinamente rodeado num bosque por um bando de cavaleiros mascarados que, depois de mandarem embora as pessoas que o acompanhavam, conduziram-no alta noite ao antigo castelo de Wartburgo, perto de Eisnach, e ali o deixaram. Isto foi um estratagema do príncipe para pôr Lutero num lugar de segurança, e durante este tempo de descanso que lhe proporcionava a sua reclusão de Wartburgo, e completamente tranqüilo a respeito de decretos imperiais e bulas papais, o reformador escreveu algumas das suas mais soberbas obras de controvérsia, e começou a sua obra favorita, e talvez a maior de todas – a tradução da Bíblia para a língua alemã.

Leia Mais ►
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...