quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dia da Reforma Protestante - 31 de outubro [02/06]

O Princípio da Reforma (1324-1384)

Supõe-se que João Wycliff nasceu nas proximidades de Richmond, no condado de York, na Inglaterra, pouco mais ou menos em 1324. A pobreza de seus pais, que parece terem sido camponeses, não o impediu de entrar, na idade própria, na universidade de Oxford, onde aproveitou todas as ocasiões para se instruir, ganhando bem depressa as boas graças do seu tutor, o piedoso e sábio Thomas Bradwardine, que fazia dele muito bom juízo. Durante os seus estudos adquiriu um bom conhecimento não só das leis civil, canônica e municipal, mas também da ruína da natureza humana, como as Escrituras a ensinam, da inutilidade do merecimento humano para a salvação, e da grandeza da graça divina, pela qual o homem pode ser justificado sem as obras da Lei. Diz-se também que, por conselho do seu tutor, estudara as obras de Grostete, e dali lhe viera a ideia de que o papa era o Anticristo.

Os seus ataques às ordens mendicantes, que atraíam os estudantes da universidade para os seus mosteiros, tornaram-no notável em Oxford. Ele escreveu alguns folhetos sobre o assunto. Era Wycliff nesse tempo professor da universidade, mas isso não o impediu de continuar no seu trabalho pelo Senhor, e, aos domingos, despia a toga de professor e pregava ao povo o Evangelho simples na linguagem popular.

A fama das suas pregações bem depressa chegou a Roma, e os frades mendicantes, cuja influência estava muito abalada pelo seu ensino, apressaram-se a dar a saber ao papa os seus receios. Para isso usaram de um meio muito eficaz extraindo dos escritos de Wycliff dezenove artigos, e mandando-os ao papa, juntamente com as suas cartas; e, como a maior parte destes artigos, combatiam de uma maneira muito clara as pretensões temporais do papa, pode-se facilmente imaginar qual foi o resultado. Nove dos extratos foram logo condenados como heresias e outros declarados errados, e foram mandadas imediatamente ordens à Inglaterra para que o ousado herege fosse levado aos tribunais pelas suas opiniões. Isto foi o princípio do conflito, mas Roma ainda desta vez se enganou.

Ataque ao Reformador

Ao atacar o reformador, tinham atacado um homem com amigos, porque Wycliff tinha-os em todas as classes. A classe popular estimava-o porque ele se interessava pela sua causa e lhes explicava as Sagradas Escrituras em linguagem que podiam compreender; os fidalgos eram seus amigos porque ele os ajudava a resistir ao clero; e em Oxford não era menos estimado pela sua piedade do que respeitado pelo seu saber.

No mês de fevereiro do ano 1377 foram abertas as sessões da Convocação de S. Paulo, e para ali se dirigiu Wycliff, acompanhado de seus amigos João de Gaunt, duque de Lencastre e Lord Percy, marechal da Inglaterra. Receavam estes que se ele fosse sozinho não seria ouvido com imparcialidade, e podia talvez ser vítima de um jugo odioso; e quando começou o julgamento, a conduta de Guilherme Courtenay bispo de Londres mostrou bem que tinham razão de ter receios.

A multidão de gente dentro da catedral era enorme, e o marechal teve de empregar a sua autoridade para poder chegar ao pé dos juízes. Isto excitou o bispo imensamente, e seguiu-se uma cena tumultuosa. "Se eu soubesse, senhor," disse ele, "que queríeis ser senhor nesta igreja, teria tomado as minhas medidas para vos impedir de aqui entrar". O duque de Lencastre, que era nesse tempo regente do reino pela menoridade do rei Ricardo II, aprovou o ato do marechal, e observou que era "necessário manter a ordem apesar dos bispos". Courtenay a custo conteve a sua ira, mas quando, em seguida, o marechal pediu uma cadeira para Wycliff, exclamou, encolerizado, "Ele não deve sentar-se; os criminosos conservam-se de pé perante seus juízes". De ambos os lados se levantou novamente uma grande discussão, e só Wycliff se conservou silencioso; no entanto, o povo, seguindo o exemplo dos seus chefes, começou a exprimir sua própria opinião com atos de violência. Era impossível prolongar a sessão em tais circunstâncias; portanto, encerraram o tribunal, e o reformador saiu da catedral acompanhado pelo duque de Lencastre.

Dois Papas ao Mesmo Tempo

Por algum tempo deixaram-no em paz, e Roma teve de se ocupar duma questão mais séria, que exigia toda a sua atenção. Tratava-se nem mais nem menos do que a eleição de um papa rival em Findi, Nápolis. O pontífice romano, Urbano VI, desgostara de tal maneira os seus cardeais pela sua aspereza e severidade, que estes tinham julgado conveniente prestar a sua fidelidade a outro, e tinham investido dessa dignidade Roberto, conde de Genebra. Este, depois de ser devidamente eleito, estabeleceu a sua residência em Avignon, França, sob o título de Clemente VII, e ali foi reconhecido como papa pela Escócia, Espanha, França, Sicília e Chipre. O resto da Europa ainda considerava Urbano como o legítimo "sucessor" de S. Pedro.

Como era de esperar, este notável cisma ainda mais excitou o zelo de Wycliff contra o papismo, e deu-lhe novos motivos para vencer. "Confiemos na ajuda de Cristo", exclamou ele, "porque Ele já começou a ajudar-nos pela sua graça, fendendo a cabeça do Anticristo em duas, e fazendo com que as duas partes comecem a guerrear uma contra a outra". Ele já tinha declarado que o papa, o soberbo padre mundano de Roma, era o Anticristo, e o mais maldito dos exploradores da bolsa alheia, e agora Wycliff não teve escrúpulos em afirmar que tinha chegado o momento oportuno para extinguir o mal inteiramente.

Wycliff Citado de Novo

Afirmando isto, porém, antecipava o futuro, e sendo citado segunda vez para comparecer perante os seus acusados, viu que muitos dos seus amigos o tinham abandonado por causa das suas idéias extremistas, e entre eles o duque Lencastre. Mas Deus não o tinha abandonado, e o abandono dos amigos terrestres deu-lhe pouco cuidado. No seu primeiro julgamento tinha ele talvez estado, sem o saber, a fazer da carne a sua arma, mas agora não era assim, e apresentou-se no tribunal sozinho. Contudo, bastantes pessoas que esperavam ser ele provavelmente devorado naquela caverna de ladrões, encaminharam-se para a capela, na intenção de lhe acudir aos primeiros sintomas de traição que se manifestassem.

Os prelados tinham ido para o concílio confiados e altivos, certos de uma vitória fácil, mas ao observarem estas manifestações populares, ficaram inquietos e, quando, ao começar os interrogatórios, receberam uma ordem da mãe do jovem rei proibindo-os de pronunciar qualquer sentença definitiva sobre a doutrina conduta de Wycliff, a sua derrota foi completa.

Wycliff Traduz a Bíblia

John Wycliffe entrega a tradução da Bíblia aos padres, que ficaram conhecidos como Lollardos. (quadro de William Frederick Yeames).

Assim pois, pela graça de Deus, Wycliff escapou ainda mais uma vez das garras dos seus perseguidores, e pôde, pouco depois, ocupar-se com a grande obra da tradução da Bíblia na linguagem do país. Havia muito tempo que ele manifestara o desejo de que os seus patrícios pudessem ler o Evangelho da vida de Cristo em inglês, e havia agora todas as possibilidade de ver o seu desejo satisfeito. Poucos meses mais tarde essas probabilidades tornaram-se em certeza, e, à proporção que o trabalho ia chegando ao fim, o ousado reformador começou a sentir que a sua missão na terra estava quase terminada. No ano de 1383 viu a sua obra completa, e, apesar de os bispos fazerem toda a diligência para que a versão fosse suprimida por lei do Parlamento, os seus esforços não tiveram resultado, e em breve a Bíblia começou a circular por todo o reino.

Morte de Wycliff

Wycliff porém não viveu o suficiente para ver a oposição dos bispos, pois que a 31 de dezembro de 1384, depois de uma vida agitada de sessenta anos, entrou no descanso eterno; e, posto que os seus amigos receassem que ele morresse de morte violenta, Deus tinha determinado outra coisa e assim morreu pacificamente em Luterworth. Os agentes de Roma foram pois logrados na esperança de alcançar a desejada presa, mas ainda assim o seu corpo foi mais tarde desterrado e queimado, e as cinzas lançadas num regato próximo, "O regato", diz Fuller, "levou as cinzas ao rio Avon; o Avon levou-as ao Saverna; o Saverna ao canal, e este ao grande oceano. E assim as cinzas de Wycliff são os emblemas da sua doutrina, que se acha agora espalhada pelo mundo inteiro".

Os Lollardos

Quando Wycliff morreu os seus adeptos eram muitos, e havia-os entre todas as classes da comunidade. Parece que era em Oxford que havia maior número, e quando o Dr. Rigge, chanceler da universidade, recebeu ordem para impor silêncio àqueles que favoreciam o reformador, respondeu que não ousava fazê-lo por ter medo de ser morto. Todos os que adotaram publicamente a doutrina de Wycliff eram chamados de lollardos, mas é certo que mesmo antes de Wycliff aparecer já existiam muitos cristãos com essa denominação. As suas doutrinas e opiniões eram em tudo iguais às do reformador, e parece que foram tão infatigáveis como ele em as espalhar. Assim como Wycliff, eles também ensinavam que "o Evangelho de Jesus Cristo é a única origem da verdadeira religião; que não há nada no Evangelho que mostre que Cristo estabeleceu a missa; que o pão e vinho, ainda depois de consagrados, ficam sendo pão e vinho; que os que entram para os mosteiros ainda se tornam incapazes de observar as ordens de Deus; e, finalmente, que a penitência, a confissão, a extrema unção, não são precisas, nem se fundam nas Escrituras Sagradas".

Pensar que Roma deixaria viver tais incorrigíveis hereges, sem se incomodar, seria supor que ela fosse capaz de tolerância e misericórdia – qualidades estas que nunca patenteou. Não era este o seu modo de proceder; e se os lollardos não foram logo perseguidos pela sua cólera, foi unicamente porque lhes faltavam os meios de tornar bastante eficaz a perseguição. Contudo, a subida ao trono de Henrique IV forneceu-lhe a oportunidade que esperava. Os padres e os frades tinham estado no entanto bastante ocupados em espalhar falsos boatos sobre o procedimento revolucionário dos lollardos, e tinham inspirado tais receios à nação que, quando no ano de 1400 o novo rei fez publicar um edito real determinando que os hereges fossem queimados, o Parlamento prontamente o sancionou.

Tempo de Martírios

Se fôssemos descrever todos os martírios que fizeram os "hereges" sofrer durante esta perseguição, teríamos de escrever um martirológio, e isso iria muito além dos nossos limites. Guilherme Sautree teve a honra de ser a primeira vítima desta nova lei. A ele seguiu-se João Badby, um artista de Worcester, cujo martírio foi presenciado pelo jovem príncipe de Gales – depois Henrique V. Conta-se deste mártir que, quando acenderam o fogo, ele pedira misericórdia, e Henrique ordenara que fosse tirado das chamas. Trazido à sua presença, o príncipe perguntou-lhe: "Queres abandonar a heresia e conformar-te com a fé da santa madre igreja? Se queres, terás sustento por um ano tirado do tesouro do rei". Mas João Badby tinha estado a pedir misericórdia de Deus e não dos homens, e a sua firmeza não se abalou com mais esta prova. Foi, em conseqüência, levado segunda vez para as chamas.

Como os lollardos aumentassem cada vez mais, o arcebispo Arundel fez convocar um concílio no ano de 1413, a fim de procurar melhores meios de os suprimir, e desde esse tempo, durante perto de um século, as chamas da perseguição foram ardendo por toda a Inglaterra, e conservou-se o mesmo rigor na busca dos hereges; mas Deus tinha decretado que a obra dos seus servos prosseguisse; e quem poderia deter a sua mão? As miseráveis criaturas de Roma podiam fazer diminuir o pequeno bando de cristãos, por meio do fogo e outras torturas, e prisões (as tribulações eram o quinhão que os fiéis discípulos esperavam), mas não podiam destruir a obra que Deus tinha começado. A sua Palavra – aquela semente incorruptível que vive e permanece eternamente – estava nas mãos do povo, e enquanto o poder dela estivesse entre eles, as armas de Roma eram impotentes, e a obra de Deus nas almas havia de se efetuar para a sua glória.

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