quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Sinais e Maravilhas: Antes e Agora [01/03]

Maravilhas são contra a Palavra?

Eu sou uma daquelas pessoas da Conferência Geral Batista que crê que "sinais e maravilhas" e todos os dons espirituais de 1 Coríntios 12:8-10 são validos para hoje, e devem ser "procurados com zelo" (1 Coríntios 14:1), para a edificação da igreja e divulgação do evangelho. Eu concordo com as palavras de Martyn Lloyd-Jones, pregadas em 1965:
Está perfeitamente claro que na época do Novo Testamento, o evangelho era autenticado dessa forma por sinais, maravilhas e milagres de várias personagens e descrições. . . . Isso estava destinado a ser realidade somente para a igreja primitiva? . . . As Escrituras nunca, em lugar algum, dizem que essas coisas eram apenas temporárias – nunca! Não há tal afirmação em nenhum lugar. (The Sovereign Spirit, pg. 31-32 - "O Espírito Soberano", ainda sem tradução em português)
Meu propósito aqui não é defender qualquer padrão de ministério contemporâneo. Em vez disso, quero dar razões bíblicas para minha convicção e respostas bíblicas para algumas objeções. Essa convicção flui do meu compromisso calvinista, centrado em Deus e baseado na Bíblia com a soberania de Deus e a supremacia da sua Palavra revelada. Não é o afastamento de qualquer verdade que eu tenha defendido no passado.
Esta questão determina meu ponto de partida: A experiência de sinais e maravilhas é prejudicial à centralidade da Escritura e da pregação? Em outras palavras, isso deprecia o poder sobrenatural da Palavra de Deus escrita e pregada? Isso contradiz a suficiência do evangelho para salvar pecadores? A procura por sinais significa uma perda de confiança na palavra da cruz?
A razão pela qual levo essa questão tão a sério é que ela está enraizada nos textos bíblicos. Romanos 1:16 diz, "O evangelho é o poder de Deus para salvação". O evangelho, não sinais e maravilhas. Paulo diz, "Os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; Mas nós pregamos a Cristo crucificado . . . o poder de Deus . . ." (1 Coríntios 1:22-23). A "palavra da cruz é . . . o poder de Deus" (1 Coríntios 1:18). A busca por sinais é um desvio do poder de Cristo crucificado. Então, Jesus mesmo disse, "Uma geração má e adúltera pede um sinal" (Mateus 12:39; 16:4).
Mas há uma falha fatal em trazer esses textos contra todo anseio por sinais e maravilhas. Eles provariam demais. Se desejar sinais e maravilhas dilui o poder do evangelho – então os primeiros Cristãos e os próprios apóstolos eram imorais e adúlteros, porque eles apaixonadamente queriam que Deus fizesse sinais e maravilhas juntamente com sua poderosa pregação.
Por exemplo, Pedro e João e os discípulos oraram em Atos 4:29-30, "Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem com toda a ousadia a tua palavra; Enquanto estendes a tua mão para curar, e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Filho Jesus." Aqui temos homens e mulheres de Deus orando para que sinais e maravilhas aconteçam no nome de Jesus. E Lucas não os retrata como uma "geração ímpia e adúltera" por fazer isso. Eles são exemplares.
Não somente isso, mas o próprio Lucas trabalha no livro de Atos para mostrar como sinais e maravilhas são valiosos em ganhar pessoas para Cristo. Ele não os retrata como uma ameaça ao evangelho, mas como testemunhas do evangelho. A razão pela qual a igreja orou tão apaixonadamente em Atos 4:29-30 para que sinais e maravilhas acontecessem, é porque Deus estava usando-os para trazer multidões a Cristo.
Eu contei pelo menos 17 vezes onde milagres ajudam a levar a conversões no livro de Atos. Os exemplos mais claros estão em Atos 9:34-35 e 9:40,42. Pedro cura Enéias, e Lucas diz, "E viram-no todos os que habitavam em Lida e Sarona, os quais se converteram ao Senhor." Pedro levanta Tabita dos mortos, e Lucas diz, "E foi isto notório por toda a Jope, e muitos creram no Senhor."
Não há dúvida que a operação de milagres, sinais e maravilhas ajudaram a trazer pessoas a Cristo. Isso é o que Lucas quer que nós vejamos, e é por isso que os Cristãos oraram para que sinais e maravilhas acontecessem.
Isso levanta duas perguntas: 1) Por que a oração por sinais e maravilhas em Atos 4:29-30 não era imoral e adúltera, tendo em vista o que Jesus disse em Mateus 12:39-42) Por que a busca e ocorrência de sinais e maravilhas, no esforço missionário dos cristãos do primeiro século, não contradiz a suficiência do evangelho como o poder de Deus para salvação?
A resposta para a primeira pergunta vem do contexto da acusação de Jesus sobre a busca de sinais. Buscar sinais de Deus é "imoral e adúltero" quando a demanda por mais e mais evidências vem de um coração resistente, e quando simplesmente mascara uma falta de vontade de acreditar. Se estamos tendo um caso de amor com o mundo, e nosso esposo, Jesus, depois de uma longa separação, vem a nós e diz "Eu te amo e te quero de volta", uma das melhores formas de proteger nossa relação adúltera com o mundo é dizer, "Você não é meu marido; você não me ama de verdade. Prove. Me dê algum sinal." Se esse é o modo como exigimos um sinal, então somos um geração imoral e adúltera.
Mas se nos aproximamos de Deus com um coração dolorido ansiando pelo louvor da sua glória e salvação de pecadores, então não somos imorais e adúlteros. Somos uma esposa fiel, querendo somente honrar nosso esposo.
A resposta para a segunda pergunta – a pergunta, por que sinais e maravilhas não precisam diminuir o poder do evangelho – vem da própria explicação de Lucas de como as maravilhas e a palavra estão relacionadas. Em Atos 14:3 ele diz que Paulo e Barnabé "Detiveram-se, pois, muito tempo [em Icônico], falando ousadamente acerca do Senhor, o qual dava testemunho à palavra da sua graça, permitindo que por suas mãos se fizessem sinais e prodígios". Isso é absolutamente crucial: sinais e maravilhas são testemunhas de Deus para sua palavra. Eles não estão em competição com a palavra. Eles não são contra a palavra. Eles não estão acima da palavra. Eles são testemunhas divinas para o valor, verdade, necessidade e centralidade da palavra (veja também Hebreus 2:4; Marcos 16:20).
Sinais e maravilhas não são a palavra salvífica da graça; eles são o testemunho secundário de Deus à palavra da sua graça. Sinais e maravilhas não salvam. Eles não são o poder de Deus para salvação. Eles não transformam o coração – não mais do que música ou arte ou drama que acompanham o evangelho. Sinais e maravilhas podem ser imitados por Satanás (2 Tessalonicenses 2:9; Mateus 24:24), mas o evangelho é totalmente contrário à sua natureza. O que transforma o coração e salva a alma é a glória auto-autenticadora de Cristo vista na mensagem do evangelho (2 Coríntios 3:18-4:6).
Mas mesmo que sinais e maravilhas não possam salvar a alma, eles podem, se Deus quiser, quebrar a casca de desinteresse; eles podem quebrar a casca do cinismo; eles podem quebrar a casca da falsa religião. Como qualquer outro bom testemunho da palavra da graça, eles podem ajudar o coração caído a fixar seu olhar no evangelho, onde a glória do Senhor auto-autenticadora e que salva a alma, brilha. Portanto, a igreja primitiva ansiava que Deus estendesse sua mão para curar, e para que sinais e maravilhas fossem realizados em nome de Jesus.
O fato de que os primeiros Cristãos oraram tão fervorosamente por sinais e maravilhas (Atos 4:29-30) é ainda mais impressionante quando você percebe que eles, de todas as gerações, não estavam tão necessitados de autenticação sobrenatural. Essa era a geração cuja pregação (de Pedro, Estevão, Filipe e Paulo) era mais ungida do que a pregação de qualquer geração seguinte. Se alguma pregação foi o poder de Deus para salvação e não precisou do acompanhamento de sinais e maravilhas, foi essa pregação.
Além disso, essa era a geração que tinha provas mais imediatas e convincentes da verdade da ressurreição do qualquer geração desde então. Centenas de testemunhas oculares da ressurreição do Senhor estavam vivas em Jerusalém. Se alguma geração na história da igreja conhecia o poder da pregação e a autenticação do evangelho por provas em primeira mão da ressurreição, foi essa. Contudo, foram eles que oraram apaixonadamente para que Deus estendesse a mão em sinais e maravilhas.
Portanto, concluo que em nosso zelo pela centralidade da palavra, não devemos ir além da palavra, fazendo sinais e maravilhas inimigas da palavra da cruz. Ninguém foi mais zeloso pelo poder da palavra do que Paulo. Contudo, ele descreveu sua missão como Cristo trabalhando através dele "pelo poder dos sinais e prodígios" (Romanos 15:19). Seria este o exclusivo "sinal de um apóstolo" e portanto, não válido para nós? Eu não penso assim. Essa será a pergunta respondida na próxima seção.
Por John Piper. © Desiring God. Site em inglês: desiringGod.org | Português: satisfacaoemDeus.org |
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