quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sinais e Maravilhas: Antes e Agora [02/03]

Sinais e Maravilhas e "os Sinais do Apóstolo"

Na seção anterior eu argumentei que quando os primeiros Cristãos oraram por sinais e maravilhas (Atos 4:29-30) eles não eram "maus e adúlteros"; nem estavam abandonando a centralidade da pregação da cruz. Sinais e maravilhas testemunharam à palavra da graça (Atos 14:3); eles não a substituíram. Eles não salvaram; eles ajudaram abrir as pessoas ao evangelho que é o poder de Deus para salvação.
Outra objeção levantada contra os sinais e maravilhas é que aqueles que os perseguem, não levam a sério a futilidade de um mundo caído, o chamado cristão para sofrer, e o "ainda não" do reino. Essa é uma objeção muito importante, porque vivemos em um mundo fútil e caído (Romanos 8:21-22). Nós gememos em corpos que não serão redimidos antes da segunda vinda (Romanos 8:23). O poder de Cristo se aperfeiçoa em nossa fraqueza (2 Coríntios 12:9-10). Por muitas aflições nos importa entrar no reino (Atos 14:22). E nossa tribulação produz para nós um peso eterno de glória (2 Coríntios 4:17).
A resposta à essa objeção é que sinais e maravilhas acontecem dentro do sofrimento ministerial, não em vez disso. Perceba que todos os textos citados no parágrafo anterior sobre o papel do sofrimento vem de Paulo. Isso não é surpreendente, porque bem no início do seu ministério, Jesus disse, "E eu lhe mostrarei [Paulo] quanto deve padecer pelo meu nome" (Atos 9:16). A vida de Paulo foi uma longa experiência de sofrimentos - fisicamente, emocionalmente, espiritualmente e relacionalmente.
Por isso perguntamos: Isso tornou os sinais e maravilhas inconsistentes no seu ministério? Não. Ele resumiu seu ministério dessa forma: "Porque não ousarei dizer coisa alguma, que Cristo por mim não tenha feito, para fazer obedientes os gentios, por palavra e por obras; pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus" (Romanos 15:18-19).
Em outras palavras, uma vida de sofrimento e um ministério de sinais e maravilhas não eram inconsistentes para o apóstolo. C. K. Barrett colocou assim no seu Comentário de 2 Coríntios: "Milagres não eram contradição da teologia da cruz que Paulo proclamou e praticou, uma vez que eles não foram realizados em um contexto de triunfante sucesso e prosperidade, mas no meio da aflição e da calúnia que ele foi obrigado a encarar" (p. 321).
O que isso significa é que muitos curandeiros extravagantes de hoje estão longe do espírito de Paulo. Mas isso significa também que a oração por sinais e maravilhas hoje, não é, necessariamente, uma negação do chamado Bíblico ao sofrimento. O ministério de Paulo (para não mencionar o de Jesus) prova isso. Se virmos um homem em uma cadeira de rodas realizando um ministério de cura para os outros, que não estejamos entre aqueles que se afastam e dizem as ameaçadoras palavras, "Médico, cura-te a ti mesmo." O "espinho" de Paulo, sem dúvida, se aprofundou mais ainda com cada cura que ele realizou.
Agora a pergunta surge: Os milagres de Paulo eram o único "sinal de um apóstolo"? Será que devemos evitar orar por sinais e maravilhas hoje, uma vez que eles foram feitos para autenticar a autoridade dos apóstolos que eram, de uma vez por todas, a fundação da igreja (Efésios 2:20)?
Em 2 Coríntios 12:11-12, Paulo está defendendo seu apostolado. Ele diz, "Em nada fui inferior aos mais excelentes apóstolos, ainda que nada sou. Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas." Observe as palavras com cuidado. Os "sinais do apóstolo" não são equivalentes a sinais e maravilhas. Os "sinais do apóstolo" são feitos "por (ou com) sinais, maravilhas e prodígios." (Cuidado: a NVI perde totalmente a construção grega!)
Isso provavelmente significa que "sinais, maravilhas e prodígios" eram parte do trabalho de validação de Deus na vida de Paulo, mas de jeito nenhum sua totalidade. Por exemplo, Paulo chama o poder transformador da sua pregação de "selo do apostolado": "Não sou eu apóstolo? . . . Vós [meus convertidos] sois o selo do meu apostolado" (1 Coríntios 9:1-2; veja também 2 Coríntios 3:2). Ele também diz que a maneira que ele trabalha sem pedir por pagamento, é uma maneira de mostrar sua autenticidade (2 Coríntios 11:7-12); e todos os sofrimentos que ele suporta pelo evangelho, são mencionados como evidência da sua vindicação sobre os "falsos apóstolos" (2 Coríntios 11:22-33). Charles Hodge sugere oito evidências do apostolado que devem ser incluídos no "os sinais do apóstolo" (Commentary on 2nd Corinthians, pg 291 - "Comentário sobre 2 Coríntios", ainda sem tradução em português).
O texto não exige que "sinais e maravilhas" sejam únicos aos apóstolos. Por exemplo, se eu digo, "O sinal de um ciclista profissional são coxas fortes," eu não quero dizer que nenhum não-profissional tem coxas fortes. Eu só quero dizer que os profissionais tem, e que quando tomado juntamente com outras evidências, isso pode te ajudar a saber que uma pessoa é um ciclista profissional. Paulo não está dizendo que somente os apóstolos podem realizar sinais e maravilhas. Ele está dizendo que os apóstolos certamente podem, e que juntamente com outras coisas, isso ajudará os Coríntios a saberem que ele é um verdadeiro apóstolo.
Considere uma analogia com a operação de milagres de Jesus. Era um sinal do seu messiado? Sim, era. Em Mateus 11:2, os discípulos de João Batista perguntaram, "És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?" A resposta de Jesus foi, "Anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho." Em outras palavras, seria justo dizer que os milagres de Jesus eram "os sinais do messiado."
No entanto, em Mateus 10:8 Jesus envia os doze e diz, "E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios." Eles deveriam fazer os milagres que ele estava fazendo. Mas isso não prova que cada um dos doze era o Messias. Então de alguma forma os milagres de Jesus podiam evidenciar seu messiado, apesar de que os não-messias poderiam realizá-los. A razão é que os próprios milagres são somente parte da evidência. Tomados juntamente com outras coisas, eles confirmam seu messiado. O mesmo acontece com "os sinais do apóstolo". Não é que somente os apóstolos podem realizá-los, mas é que eles são uma parte crucial da evidência.
Existem boas razões bíblicas para pensar que sinais e maravilhas não são destinados por Deus para serem únicos aos apóstolos. Eu vou mencionar quatro.
  1. Jesus enviou os setenta, não somente os doze apóstolos, "E curai os enfermos" (Lucas 10:9). E quando eles voltaram, eles disseram que os demônios foram sujeitados a eles no nome de Jesus (Lucas 10:17). Esses milagres no nome de Jesus mostram que os sinais e maravilhas apostólicos não são únicos aos apóstolos.
  2. No livro de Atos, Estêvão "fazia prodígios e grandes sinais entre o povo" (Atos 6:8), mesmo estando na categoria de "diácono", e não na categoria de apóstolo (Atos 6:5). Semelhantemente o livro diz que "as multidões unanimemente prestavam atenção ao que Filipe dizia, porque ouviam e viam os sinais que ele fazia" (Atos 8:6). Filipe não era um apóstolo, mas realizou sinais milagrosos.
  3. Paulo escreve a todas as igrejas da Galácia e diz, "Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, fá-lo pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?" (Gálatas 3:5). O ponto é que Deus está, agora, dando seu Espírito aos Gálatas e operando milagres entre eles quando ele não está lá. Hans Dieter Betz observa que "o [presente] particípio 'dá' (epichoregon) sugere um suprimento contínuo mais do que um 'derramamento' inicial e momentâneo" (Hermenia, Galatians, pg. 135 - "Gálatas - Hermenia", ainda sem tradução em português). E Ernest Burton diz, "Tendo em vista o dativo 'vos' depois de 'dá', supõe-se que as 'maravilhas' não devem ter sido operadas principalmente por Paulo, mas pelos próprios Gálatas, como 1 Coríntios 12:10, 28, 29 sugere que foi o caso entre os Coríntios" (I.C.C., Galatians, pg. 152 - "Gálatas", I.C.C., ainda sem tradução em português).
    Peter Masters não lida adequadamente com esse fato gramatical, quando ele diz que esses milagres se referem aos próprios milagres de Paulo, os quais ele tinha operado entre os Gálatas quando ele estava recentemente entre eles (The Healing Epidemic, pg. 134 - "A epidemia da cura", ainda sem tradução em português). Burton também luta com nossa mesma questão a respeito dos "sinais do apóstolo" e astutamente observa, "2 Coríntios 12:12 de fato sugere que tais coisas foram sinais do apóstolo; contudo, provavelmente não no sentido de que ele só os operou, mas que os poderes miraculosos do apóstolo foram, de alguma forma, mais notáveis, ou que eles constituíram uma parte da evidência do seu apostolado" ("Gálatas", pg. 152)
  4. Finalmente, 1 Coríntios 12:9-10 diz que entre os dons espirituais dados aos membros da igreja em Corinto estavam "dons de cura" e "operação de maravilhas." Então (como Burton sugere) esses "sinais e maravilhas" não eram o "sinal do apóstolo" no sentido de que somente os apóstolos poderiam realizá-los. Vários membros abençoados da igreja foram também habilitados nesse sentido. Isso é confirmado nos versos 27-29, onde esses dons são distintos do dom do apostolado.
Portanto, se sinais e maravilhas não eram limitados em função de validar o ministério de Jesus e dos apóstolos, mas tinham um papel na edificação e no trabalho evangelístico da igreja em geral, então há uma boa razão para confiar em Deus para seu uso adequado hoje. Na próxima seção, veremos que o Novo Testamento apela para isso mesmo.
Por John Piper. © Desiring God. Site em inglês: desiringGod.org | Português: satisfacaoemDeus.org |
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