domingo, 3 de novembro de 2013

A Soberania de Deus na Reprovação [02/02]


Versículo 22: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição”. Aqui, o apóstolo nos diz, em segundo lugar, o porquê Deus atua assim, isto é, diferentemente com pessoas diferentes — tendo misericórdia de alguns e endurecendo outros, fazendo um vaso “para honra” e outra “para desonra”. Observe que aqui no verso 22 o apóstolo primeiro menciona “os vasos de ira”, antes de se referir no verso 23 aos “vasos de misericórdia”. Porque isto? A resposta a esta questão é de importância primária: respondemos, porque são os “vasos de ira” que são os objetos em vista diante da pessoa que objeta no verso 19. Duas razões são dadas pelas quais Deus faz de alguns “vasos para desonra”: primeiro, para “mostrar Sua ira”, e em segundo lugar “para fazer Seu poder conhecido” — ambos dos quais são exemplificados no caso de Faraó.

Um ponto no verso acima requer consideração separada — “Vasos de ira preparados para destruição”. Uma explicação comum que é dada destas palavras é que os vasos de ira se preparam para a destruição, isto é, se preparam em virtude de sua impiedade; e é argüido que não há necessidade de Deus “prepará-los para a destruição”, porque eles já são preparados pela sua própria depravação, e que este deve ser o real significado desta expressão. Pois bem, se por “destruição” entendemos castigo, é perfeitamente verdade que os não-eleitos “se preparam”, porque cada um será julgado “de acordo com suas obras”; e além do mais, nós livremente concordamos que subjetivamente os não-eleitos se preparam para destruição. Mas o ponto a ser decidido é: é a isto que o apóstolo está se referindo aqui? E, sem hesitação, replicamos que não. Volte aos versos 11-13: Esaú se preparou para ser um objeto do ódio de Deus, ou ele já o era antes de nascer? Novamente; Faraó se preparou para destruição, ou Deus endureceu o seu coração antes das pragas serem enviadas ao Egito? — veja Êxodo 4:21!

Romanos 9:22 é claramente uma continuação do pensamento do verso 21, e o verso 21 é parte da réplica do apóstolo às questões levantadas no verso 20: portanto, para seguir corretamente a expressão até o fim, deve ser o próprio Deus que “prepara” para destruição os vasos de ira. Se for perguntado como Deus faz isto, a resposta, necessariamente, é, objetivamente, — Ele prepara os não-eleitos para destruição pelos Seus decretos pré-ordenados. Se for perguntado porque Deus faz isto, a resposta deve ser, para promover a Sua própria glória, isto é, a glória de Sua justiça, poder e ira. “A soma da resposta do apóstolo aqui é, que o grande objetivo de Deus, tanto na eleição como na reprovação dos homens, é aquela que é suprema sobre todas as coisas na criação dos homens, a saber, Sua própria glória” (Robert Haldane).

Versículo 23: “Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou”. O único ponto neste verso que demanda atenção é o fato de que os “vasos de misericórdia” são aqui ditos ser “dantes preparados para glória”. Muitos têm apontado que o versículo anterior não diz que os vasos de ira foram preparados dantes para destruição, e desta omissão eles concluem que devemos entender a referência ali aos não-eleitos se prepararem no tempo, ao invés de entender Deus ordenando-lhes para destruição desde toda eternidade. Mas esta conclusão não é válida de forma alguma. Precisamos olhar de volta ao verso 21 e observar a figura que é ali empregada. “Barro” é matéria inanimada , corrupta, decomposta e, portanto, uma substância apropriada para representar a humanidade caída. E visto que o apóstolo está contemplando os tratamentos soberanos de Deus com a humanidade em vista da Queda, ele não diz que os vasos de ira foram “dantes” preparados para destruição, pela óbvia e suficiente razão que, não foi até depois da Queda que eles se tornaram (em si mesmos) o que é aqui simbolizado por “barro”. Tudo o que é necessário para se refutar a conclusão errônea referida acima, é apontar que o que é dito dos vasos de ira não é que eles “estão preparados” para destruição (a qual seria o termo que deveria ser usado se a referência a eles fosse que se preparam pela sua própria impiedade), mas que são preparados para destruição que, à luz de todo contexto, significa uma ordenação soberana para destruição pelo Criador. Citamos aqui as palavras de Calvino sobre esta passagem:

“Há vasos preparados para a destruição, ou seja: nomeados e destinados para destruição. Há também vasos de ira, ou seja: feitos e formados com o propósito de serem provas da vingança e desprazer divinos...Ainda que Paulo seja mais explícito nesta segunda cláusula, ao afirmar que é Deus quem prepara os eleitos para glória, quando antes de dizer simplesmente que os réprobos eram vasos preparados para a destruição, não há dúvida de que a preparação de ambos depende do secreto conselho de Deus. Outrossim, Paulo teria dito que os réprobos se entregam ou se lançam na destruição. Agora, contudo, ele insinua que sua porção já lhes foi designada mesmo antes de seu nascimento” (João Calvino, Romanos , Editora Paracletos, páginas 342-344).

Com isto estamos em sincero acordo. Romanos 9:22 não diz que os vasos de ira se preparam, nem diz que eles estão preparados para [NT: no sentido de se preparam no tempo] destruição mas, pelo contrário, que eles foram “preparados para destruição”, e o contexto mostra claramente que é Deus quem assim os “prepara” — objetivamente pelos Seus decretos eternos.

Embora Romanos 9 contenha a mais completa apresentação da doutrina da Reprovação, há ainda outras passagens que se referem a ela, uma ou mais duas das quais observaremos brevemente agora: —

“Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos” (Romanos 11:7). Aqui temos duas distintas e claramente definidas classes que são postas em total antítese: os “eleitos” e “os outros”; uma “alcançou”, os da outra foram “endurecidos”. Sobre este verso citamos os comentários de John Bunyan de memória imortal: — “Estas são palavras solenes: elas separam homens dentre homens — os eleitos e os outros, os escolhidos e os deixados, os abraçados e os rejeitados. Por ‘outros' aqui deve ser entendido aqueles não-eleitos, porque são postos um em oposição ao outro, e se não são os eleitos, quem são então, senão os réprobos?”.

Escrevendo aos santos em Tessalônica, o apóstolo declarou: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:9). Ora, certamente é patente para qualquer mente imparcial que esta declaração seria totalmente sem sentido se Deus não tivesse “apontado” alguém para a ira. Dizer que Deus “não nos destinou para a ira”, claramente implica que há alguns que Ele “apontou para ira”, e se as mentes de tantos que professam ser cristão não fossem tão cegas pelo preconceito, elas não poderiam falhar em ver isto claramente isto .

“E uma Pedra de tropeço e Rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” (1 Pedro 2:8). O “para o que” manifestadamente aponta para o tropeço na Palavra, e sua desobediência. Aqui, então, Deus expressamente afirma que há alguns que foram “destinados” (está é a mesma palavra grega de 1 Tessalonicenses 5:9) para desobediência. Nossa tarefa não é argumentar sobre isso, mas nos curvar diante das Sagradas Escrituras. Nosso dever primário não é entender, mas crer no que Deus disse.

“Mas estes, como animais irracionais, que seguem a natureza, feitos para serem presos e mortos, blasfemando do que não entendem, perecerão na sua corrupção” (2 Pedro 2:12). Aqui, novamente, todo esforço é feito para escapar do claro ensino desta solene passagem. Nos dizem que são os “animais irracionais” que são “feitos para serem presos e mortos”, e não as pessoas aqui comparadas com eles. Tudo o que é necessário para refutar tal sofisma é inquirir onde reside o ponto de analogia entre os “estes” (homens) e os “animais racionais”? Qual é a força do “como” – senão “estes como animais racionais”? Claramente, é que “estes” homens como animais irracionais, são os que, como animais, são “feitos para serem presos e destruídos”: as palavras finais confirmando isto pela reiteração do mesmo conceito — “perecerão na sua corrupção”.

“Porque se introduziram alguns, que desde tempos antigos foram ordenados para esta condenação, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 4). Tentativas têm sido feitas para escapar da força óbvia deste verso, substituindo-o por uma tradução diferente. A R.V. dá a seguinte tradução: “Mas se introduziram alguns, que já de antemão estavam escritos para esta mesma condenação”. Mas esta alteração não nos livra de forma alguma do que é tão desagradável para as nossas sensibilidades. A questão que se levanta é: Onde estes homens foram “já de antemão escritos”? Certamente não foi no Velho Testamento, porque em nenhuma parte há qualquer referência ali a homens ímpios se introduzindo em assembléias Cristãs. Se “escritos” for a melhor tradução de “prographo”, a referência pode somente ser ao livro dos decretos Divinos. Assim, seja qual for a alternativa selecionada, não pode haver evasão do fato de que certos homens foram “desde tempos antigos” marcados por Deus “para condenação”.

“E adoraram-na (a saber, o Anticristo) todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” (Apocalipse 13:8, compare com Apocalipse 17:8). Aqui, então, está uma declaração positiva afirmando que há aqueles cujos nomes não estão escritos no Livro da Vida . Por causa disto, eles prestarão serviço ao Anticristo e se curvarão diante dele.

Aqui, então, há não menos do que dez passagens que mui claramente implicam ou expressamente ensinam o fato da reprovação. Elas afirmam que os ímpios foram feitos para o Dia do Mal; que Deus forma alguns vasos para desonra; e por Sue decreto eterno (objetivamente) prepara-os para destruição; que eles são como animais irracionais, feitos para serem presos e mortos, sendo desde os tempos antigos ordenados para esta condenação. Portanto, em face destas passagens da Escritura, afirmamos sem hesitação (após aproximadamente vinte anos de cuidadoso estudo e muita oração sobre o assunto) que a Palavra de Deus inquestionavelmente ensina tanto a Predestinação como a Reprovação, ou para usar as palavras de Calvino: “Eleição Eterna é a predestinação de Deus de alguns para salvação, e outros para destruição”.

Tendo, portanto, declarado a doutrina da Reprovação, como esta é apresentada nas Sagradas Escrituras, mencionemos agora uma ou duas importantes considerações para nos guardar contra o abuso e prevenir o leitor de fazer quaisquer deduções não permitidas: —

Primeiro, a doutrina da Reprovação não significa que Deus propôs tomar criaturas inocentes, fazê-las ímpias, e então condená-las. A Escritura diz: “Eis aqui, o que tão-somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém eles buscaram muitas invenções” (Eclesiastes 7:29). Deus não criou criaturas pecaminosas para então destruí-las, porque Deus não pode ser culpado do pecado de Suas criaturas. A responsabilidade e a criminalidade são do homem.

O decreto de Reprovação de Deus contemplou a raça de Adão como uma raça caída, pecaminosa, corrupta e culpada. Desta, Deus propôs salvar alguns como monumentos de Sua graça soberana; os outros Ele determinou destruir como a exemplificação de Sua justiça e severidade. Ao determinar destruir estes outros, Deus não lhes fez nenhuma injustiça. Eles já estavam caídos em Adão, o representante legal deles; eles, portanto, nascem com uma natureza pecaminosa, e nem seus pecados Ele lhes deixa. Ninguém pode se queixar. Isto é o que eles desejam; eles não têm desejo por santidade; eles amam mais as trevas do que a luz. Onde, então, há injustiça se Deus “lhes entrega aos desejos dos seus corações” (Salmos 81:12)?

Segundo, a doutrina da Reprovação não significa que Deus recusa salvar aqueles que ardentemente buscam a salvação. O fato é que o réprobo não tem nenhum desejo pelo Salvador : eles não vêem nEle nenhuma beleza para que O desejem. Eles não vêem a Cristo – porque, então, Deus deveria forçá-los a vir? Ele não lança fora ninguém que venha — onde, então, há injustiça de Deus por pré-determinar a justa condenação deles? Ninguém será punido, senão pelas suas iniquidades; onde, então, está a suposta tirânica crueldade do procedimento Divino? Lembre-se que Deus é o Criador do ímpio, não de sua impiedade; Ele é o Autor de sua existência, mas não Aquele que infunde o seu pecado.

Deus não compele (como muitos, através de calúnias, dizem que afirmamos) o ímpio para pecar, como o cavaleiro esporeia o cavalo indisposto. Deus somente diz, em efeito, esta terrível palavra: “Deixai-os” (Mateus 15:14). Ele necessita somente abrandar as rédeas da restrição providencial, e reter a influência da graça salvadora, e o homem apóstata prestíssimo em seu afã, com toda certeza, de seu próprio consentimento, cairá por suas iniquidades. Portanto, o decreto da reprovação nem interfere com a propensão da própria natureza caída do homem, nem serve para torná-lo menos inescusável.

Em terceiro lugar, o decreto da Reprovação de modo algum conflita com a bondade de Deus. Embora os não-eleitos não sejam os objetos de Sua bondade do mesmo modo ou na mesma extensão como os eleitos o são, todavia, eles não estão completamente excluídos de uma participação dela. Eles desfrutam das boas coisas da Providência (bênçãos temporais) em comum com os próprios filhos de Deus, e mui freqüentemente num grau mais alto. Mas como eles as aproveitam? A bondade (temporal) de Deus lhes leva ao arrependimento? Não, pelo contrário, eles “desprezam as riquezas da Sua benignidade, e paciência e longanimidade, e segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus” (Romanos 2:4,5). Com que justiça, então, podem murmurar contra o não serem os objetos de Sua benevolência nas eras vindouras da eternidade? Além do mais, se não se pode contender com a misericórdia e a bondade de Deus em deixar a totalidade dos anjos caídos (2 Pedro 2:4) debaixo da culpa de sua apostasia; muito menos se pode contender com as perfeições Divinas ao deixar alguns da humanidade caída em seus pecados e condená-los por isso.

Finalmente, interpomos esta necessária precaução: é absolutamente impossível para qualquer um de nós, durante a presente vida, assegurar quem estão entre os réprobos. Não devemos julgar assim, agora, nenhum homem, não importa quão ímpio ele possa ser. O mais vil pecador pode estar incluído na eleição da graça e ser um dia vivificado pelo Espírito da graça. Nossa comissão é clara, e ai de nós se formos indiferentes para com ela — “Pregai o Evangelho a toda criatura”. Quando temos feito assim, estamos limpos do sangue deles. Se os homens recusam ouvir, o sangue deles está sobre as suas próprias cabeças; todavia “para Deus somos o bom perfume de Cristo, nos que se salvam e nos que se perdem. Para estes certamente cheiro de morte para morte; mas para aqueles cheiro de vida para vida. E para estas coisas quem é idôneo?” (2 Coríntios 2:15,16).

Devemos agora considerar algumas passagens que são freqüentemente citadas com o propósito de mostrar que Deus não tem preparado certos vasos para destruição ou ordenado certas pessoas para condenação. Primeiro, citemos Ezequiel 18:31 — “Pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” Sobre esta passagem não podemos fazer melhor do que citar o seguinte dos comentários de Augustus Toplady: — “Esta é uma passagem mui freqüentemente, mas muito erroneamente, insistida pelos Arminianos, como se ela fosse um martelo com o qual com um só golpe pudesse esmagar ao pó toda a estrutura da doutrina. Mas acontece que a “morte” aqui aludida não é nem espiritual, nem morte eterna: como é abundantemente evidente a partir de todo o teor do capítulo. A morte da qual o profeta fala é uma morte política; uma morte da prosperidade nacional, da tranqüilidade e segurança. O sentido da questão é precisamente este: O que é que te faz amar o cativeiro, a banição e a ruína civil? Abstinência da adoração de imagens pode, como um povo, eximir vocês destas calamidades, e uma vez mais fazer de vocês uma nação respeitável. São as misérias da devastação pública tão sedutoras para atrair a perseguição determinada de vocês? Porque morreríeis? morreríeis como a casa de Israel, e considerada como um corpo político? Assim o profeta arguía o caso, ao mesmo tempo adicionando — “Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” Isto importa: Primeiro, o cativeiro nacional dos Judeus não adicionaria nada à felicidade de Deus. Segundo, se os Judeus se voltassem da idolatria, e jogassem as suas imagens, eles não morreriam num país estrangeiro, hostil, mas viveriam tranquilamente em sua própria terra e desfrutariam suas liberdades como um povo “independente”. Ao exposto acima, podemos adicionar: morte política deve ser o que está em vista em Ezequiel 18:31,32 pela simples, mas suficiente razão de que eles já estavam mortos espiritualmente!

Mateus 25:41 é freqüentemente citado para mostrar que Deus não preparou certos vasos para destruição — “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Este é, na realidade, um dos versículos principais usados para refutar a doutrina da Reprovação. Mas sugerimos que a palavra enfática aqui não é “para”, mas “diabo”. Este verso (veja o contexto) apresenta a severidade do julgamento que espera os perdidos. Em outras palavras, a passagem da Escritura citada acima expressa mais o terror do fogo eterno do que os objetos dele –se o fogo foi “preparado para o diabo e seus anjos”, então, quão intolerável deve ser! Se o lugar do tormento eterno para o qual os condenados serão lançados é o mesmo no qual o arqui-inimigo de Deus sofrerá, quão terrível deve ser aquele lugar!

Novamente: se Deus escolheu certas pessoas para salvação, porque somos informados que “ordena agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” (Atos 17:30)? Que Deus ordena a “todos os homens” que se arrependam é apenas o exercício de Suas justas reivindicações como o Governador moral do mundo. Como poderia fazer menos, visto que todos os homens em todo o lugar têm pecado contra Ele? Além do mais; que Deus ordena a todos os homens em todo o lugar que se arrependam arguiu a universalidade da responsabilidade da criatura. Mas esta passagem da Escritura não declara que é o desejo de Deus “dar o arrependimento” (Atos 5:31) a todos os homens em todo o lugar. Que o apóstolo Paulo não cria que Deus dava o arrependimento a toda alma é claro a partir de suas palavras em 2 Timóteo 2:25 – “Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade”.

Novamente, nos perguntam: se Deus “ordenou” somente certas pessoas para a vida eterna, então, porque lemos que Ele “quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4)? A resposta é que a palavra “todos” e “todos os homens”, como o termo “mundo”, são freqüentemente usadas num sentido geral e relativo. Que o leitor examine cuidadosamente as seguintes passagens: Marcos 1:5; João 6:45; 8:2; Atos 21:28; 22:15; 2 Coríntios 3:2 etc., e encontrará uma prova completa de nossa asserção. 1 Timóteo 2:4 não pode ensinar que Deus quer a salvação de toda a humanidade, ou de outra forma toda a humanidade seria salva – “O que a sua alma quiser, isso fará” (Jó 23:13)!

Novamente; nos perguntam: A Escritura não declara, repetidamente, que Deus não faz “acepção de pessoas”? Respondemos: certamente que sim, e a graça eletiva de Deus prova isto. Os sete filhos de Jessé, embora mais velhos e fisicamente superiores a Davi, são deixados de lado, enquanto o jovem pastor de ovelhas é exaltado ao trono de Israel. Os escribas e mestres da lei passam despercebidos, e pescadores ignorantes são escolhidos para serem os apóstolos do Cordeiro. A verdade divina é ocultada dos sábios e entendidos, e é revelada aos pequeninos. A grande maioria dos sábios e nobres é ignorada, enquanto os fracos, humildes e desprezados são chamados e salvos (ver 1 Coríntios 1:26). Meretrizes e publicanos são docemente compelidos a vir para o banquete do evangelho, enquanto os fariseus auto-justificados são deixados a perecer em sua própria moralidade imaculada. Verdadeiramente Deus “não faz acepção” de pessoas senão, não teria me salvado.

Que a Doutrina da Reprovação é uma “palavra dura” para a mente carnal é realmente reconhecido – todavia, é “mais dura” do que o castigo eterno ? Que a doutrina é claramente ensinada na Escritura temos procurado demonstrar, e não é para nós o escolher dentre as verdades reveladas na Palavra de Deus. Que aqueles que estão inclinados para receber aquelas doutrinas que estão de acordo com o seu próprio julgamento, e que rejeitam o que eles não podem entender completamente , lembrem-se daquelas pungentes palavras de nosso Senhor: “Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” (Lucas 24:25): néscios por serem tardos de coração; tardos de coração, não tolos de cabeça!

Uma vez mais beneficiemo-nos com a linguagem de Calvino: “Sendo assim, pois, que até agora não tenho feito mais do que citar os testemunhos perfeitamente claros e evidentes da Escritura, considerem bem os que replicam e murmuram contra eles, que classe de censura usam. Pois se, simulando ser incapazes de compreender mistérios tão atos, apetecem serem louvados como homens modestos, que se pode imaginar de mais arrogante e soberbo do que se opor à autoridade de Deus com estas pobres palavras: ‘Parece-me ser de outra forma', ou ‘Não quero me intrometer neste assunto'? Porém, se preferem mostrar-se claramente como inimigos, de que lhes pode aproveitar as suas débeis tentativas contra o céu? Este exemplo de vergonha não é coisa nova, pois em todas as épocas têm havido homens ímpios e mundanos que, como cobras venenosas, têm se oposto a esta doutrina . Mas por experiência se darão conta de que é verdade o que o Espírito Santo pronunciou pela boca de Davi, que ‘Deus é claro quando Ele julga' (Salmos 51:4). Com estas palavras Davi indiretamente diz que na loucura dos homens se mostra excessiva presunção no meio de sua insignificância, não somente por disputar contra Deus, mas também por se arrogarem na autoridade de condená-Lo. Entretanto, ele brevemente sugere que Deus não é afetado por nenhuma de todas as blasfêmias que descarregam contra o céu, mas que Ele dissipa as névoas de calúnia, e ilustrativamente mostra Sua justiça; nossa fé também, estando fundamentada na Palavra Divina, e portanto, superior a todo o mundo, de sua exaltação olha para baixo com desdém para com aquelas névoas” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã ).

Ao terminar este capítulo, propomos citar dos escritos de alguns dos grandes teólogos desde os dias da Reforma; não porque devamos apoiar as nossas próprias declarações por um apelo à autoridade humana, seja venerável ou anciã, mas para mostrar que o que temos promovido nestas páginas não é novidade do século vinte, nem heresias dos “últimos dias” mas, ao invés disso, uma doutrina que tem sido definitivamente formulada e comumente ensinada por muitos dos mais piedosos e eruditos estudiosos das Sagradas Escrituras.

“Nós chamamos o decreto de Deus de predestinação, pela qual Ele determinou em Si mesmo, o que haveria de acontecer com cada indivíduo da humanidade. Porque nem todos foram criados com um destino similar: mas a vida eterna foi pré-ordenada para alguns, e a condenação eterna para outros. Todo homem, portanto, sendo criado para um ou outro desses fins, dizemos, foi predestinado ou para vida ou para morte” – das “Institutas” de João Calvino (1536 DC) Livro III, Capítulo XXI intitulado “Eleição Eterna, ou Predestinação de Deus de Alguns para Salvação e de Outros para Destruição”.

Pedimos aos nossos leitores que considerem bem a linguagem acima. Uma leitura compenetrada mostrará que o que o presente escritor tem promovido neste capítulo não é o “Hiper-Calvinismo”, mas o Calvinismo real, puro e simples. Nosso propósito ao fazer esta observação é mostrar para aqueles que, não conhecendo os escritos de Calvino, em sua ignorância condenam como ultra-Calvinismo o que é simplesmente uma reiteração do que o próprio Calvino ensinou – uma reiteração porque este príncipe dos teólogos, assim como o seu humilde devedor, encontrou esta doutrina na própria Palavra de Deus.

Martinho Lutero em sua mais excelente obra “De Servo Arbítrio” (Livre-Arbítrio, um Escravo), escreveu: “Todas as coisas, sejam quais forem, surgem e dependem dos Divinos apontamentos; pelos quais foram pré-ordenadas quem deveria receber a Palavra da Vida, e quem deveria não acreditar nela, quem deveria ser liberto dos seus pecados, e quem deveriam se endurecer neles, quem deveria ser justificado e quem deveria ser condenado. Esta é a própria verdade que demole o livre-arbítrio a partir de seus fundamentos, a saber, que o amor eterno de Deus por alguns homens e o Seu ódio por outros são imutáveis e não podem ser revertidos”.

John Fox, cujo Livro dos Mártires foi uma das obras mais conhecidas no idioma inglês (ah! Isto não é mais assim hoje, quando o Catolicismo Romano tem crescido como uma grande onda destrutiva!), escreveu: — “A predestinação é o eterno decreto de Deus, proposto diante de Si mesmo, que deve suceder a todos os homens, seja para salvação, ou para condenação”.

O “Catecismo Maior de Westminster” (1688) — adotado pela Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana — declara: “Deus, por um decreto eterno e imutável, unicamente do Seu amor e para o louvor de Sua gloriosa graça, que tinha de ser manifestada em tempo devido, elegeu alguns anjos para a glória, e, em Cristo, escolheu alguns homens para a vida eterna e os meios para consegui-la; e também, segundo o Seu soberano poder e o conselho inescrutável de Sua própria vontade (pela qual Ele concede, ou não, os Seus favores conforme Lhe apraz), deixou e pré-ordenou os demais à desonra e à ira, que lhes serão infligidas por causa de seus pecados, para o louvor da glória de Sua justiça”.

John Bunyan, autor de “O Progresso do Peregrino”, escreve um volume inteiro sobre “Reprovação”. Dele fazemos um breve extrato: “A reprovação é antes de uma pessoa vir ao mundo, ou de fazer o bem ou mal. Isto é evidenciado por Romanos 9:11. Aqui você encontra dois gêmeos no ventre de sua mãe, e ambos recebendo o seu destino, não somente antes de fazer o bem ou mal, mas antes de estarem em capacidade de fazê-lo, eles não tinham nascido ainda — o destino deles, digo, um para a benção vida eterna, o outro não; um eleito, o outro réprobo; um escolhido, o outro rejeitado”. Em seu livro “Suspiros do Inferno” (Sighs From Hell), John Bunyan também escreveu: “Aqueles que continuam rejeitando e menosprezando a Palavra de Deus são os que, em sua grande maioria, foram ordenados para a condenação” .

Comentando sobre Romanos 9:22, “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição”, Jonathan Edwards (Volume 4, página 306—1743 DC) diz: “Quão terrível a majestade de Deus aparece no terror de Sua ira! Devemos aprender que este é o único propósito da condenação dos ímpios!”.

Augustus Toplady, autor do hino “Rock of Ages” e outros hinos sublimes, escreveu: “Deus, desde toda eternidade, decretou deixar alguns da posteridade caída de Adão em seus pecados, e lhes excluir da participação de Cristo e Seus benefícios”. E novamente; “Nós, com as Escrituras, declaramos que há uma predestinação de algumas pessoas em particular para vida, para o louvor da glória da Divina graça; e também uma predestinação de outras pessoas particulares para a morte, para a glória da justiça Divina — cuja morte de castigo eles inevitavelmente experimentarão, e isto justamente, por causa de seus pecados”.

George Whitefield, aquele titã do século XVIII, usado por Deus para abençoar milhares, escreveu: “Sem dúvida, a doutrina da eleição e reprovação devem permanecer ou cair juntas....eu francamente reconheço que creio na doutrina da Reprovação, que Deus intentou dar a graça salvadora, através de Jesus Cristo, somente a um certo número de pessoas; e que o resto da humanidade, depois da queda de Adão, sendo justamente deixados por Deus para continuar no pecado, no final sofrerão aquela morte eterna que é o seu justo salário”.

“Preparados para destruição” (Rom. 9:22). Depois de declarar que esta frase admite duas interpretações, o Dr. Hodge — talvez o mais bem conhecido e o comentarista de Romanos mais amplamente lido — diz, “A outra interpretação assume que a referência é a Deus e que a palavra grega para ‘preparados' tem a força do particípio completo; preparados (por Deus) para destruição”. Isto, diz o Dr. Hodge, “é aceito não somente pela maioria dos Agostinianos, mas também por muitos Luteranos”.

Se fosse necessário, estamos preparados para dar citações dos escritos de Wycliffe, Huss, Ridley, Hooper, Cranmer, Ussher, John Trapp, Thomas Goodwin, Thomas Manton (Capelão de Cromwell), John Owen, Witsius, John Gill (predecessor de Spurgeon), e um exército de outros. Mencionamos isto simplesmente para mostrar que a maioria dos eminentes santos do passado, os homens que foram mais amplamente usados por Deus, sustentaram e ensinaram esta doutrina que é tão amargamente odiada nestes últimos dias, quando os homens não mais “suportam a sã doutrina”; odiada por homens de vãs pretensões, mas que, não obstante sua ortodoxia orgulhosa e tão aplaudida piedade, não são nem sequer dignos de desatar as sandálias daqueles fiéis e destemidos servos de Deus de outrora.

“Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém (Romanos 11:33-36). [1]

Fonte: O Calvinismo
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