quinta-feira, 14 de novembro de 2013

As Marcas de Um Líder Espiritual [02/03]

O Exemplo de Hudson Taylor

Dr. Howard Taylor, em Hudson Taylor's Spiritual Secret (pág 234f.) descreve uma experiência que teve viajando com seu pai, Hudson Taylor, pela China. Ele escreve,
Não foi fácil para o Sr. Taylor encontrar tempo para oração e estudo da Bíblia em meio à sua vida agitada, mas ele sabia que isso era vital. Bem lembram os escritores, viajando com ele mês após mês no norte da China, de carroça e carrinho de mão, nas mais pobres estalagens à noite. Frequentemente com apenas um quarto para orientais e viajantes, eles separavam um canto para seu pai e outro para si mesmos, com cortinas de alguma espécie; e depois que o sono finalmente trazia certa medida de quietude, eles ouviam um fósforo riscado e percebiam a luz da vela bruxuleando, o que significava que o Sr. Taylor, apesar de cansado, estava se debruçando sobre a pequena Bíblia em dois volumes, sempre à mão. Das duas às quatro da manhã era o período que ele se dedicava à oração; o tempo que ele podia estar certo de não ser interrompido, para esperar por Deus. Aquele bruxulear da luz da vela significou mais para eles do que tudo que leram ou ouviram a respeito da oração em secreto; significava realidade, não pregação, mas prática.
A parte mais difícil da carreira missionária para o Sr. Taylor era manter o estudo regular, em espírito de oração, da Bíblia. "Satanás sempre arrumará alguma coisa para você fazer," ele dizia, "quando você deveria estar ocupado com isso, mesmo que seja apenas arrumar a cortina de uma janela.".

O Exemplo de George Mueller

George Mueller é notável por sua grande fé no trabalho de seus orfanatos. Em sua autobiografia, há uma seção chamada, "Como estar constantemente alegre no Senhor.". Ele reclama de como, durante anos, tentou usar a oração cedo pela manhã, e percebia que sua mente divagava outra e outra vez. Então fez uma descoberta. Ele a registrou assim:
O ponto é este: Vi mais claramente do que nunca que a primeira grande e essencial questão à qual deveria me dedicar era ter minha alma alegre no Senhor. A primeira coisa com a qual me preocupar não era quanto eu poderia servir ao Senhor, quanto eu poderia glorificar o Senhor; mas como poderia trazer minha alma a um estado alegre, e como meu homem interior poderia ser nutrido... Antes disso, minha prática tinha sido, pelo menos nos últimos dez anos como um hábito, de me entregar à oração depois de me vestir pela manhã. Agora, eu enxergava que a coisa mais importante que eu tinha que fazer era me entregar à leitura da palavra de Deus e à meditação, para que meu coração pudesse ser confortado, encorajado, alertado, reprovado, instruído; e para que, durante a meditação, meu coração pudesse ser levado à comunhão experimental com o Senhor. Comecei, portanto, a meditar no Novo Testamento desde o início, cedo pela manhã. A primeira coisa que fazia, depois de ter rogado em poucas palavras pelas bençãos do Senhor em sua preciosa palavra, era começar a meditar na palavra de Deus, buscando, como que em cada verso, encontrar uma benção; não para o ministério público da palavra; não para a pregação a respeito daquilo que havia meditado; mas para obter alimento para a minha alma. O resultado que encontrei foi quase que invariavelmente este: que após alguns minutos minha alma havia sido conduzida à confissão, ou à ação de graças, ou à intercessão, ou à súplica; de modo que, apesar de não estar me entregando à oração, mas à meditação, aquilo se transformava quase que imediatamente, mais ou menos, em oração. Após ter confessado ou intercedido ou suplicado ou dado graças, eu avançava às próximas palavras ou verso, transformando tudo em oração por mim e por outros, à medida que avançava, como a palavra me conduzia; mas ainda assim, mantendo diante de mim o alimento para a minha alma como o objeto da minha meditação.
O resultado disso é que sempre há uma boa porção de confissão, ação de graças, súplica ou intercessão misturada com minha meditação e que meu homem interior quase que invariavelmente é mais sensivelmente nutrido e fortalecido e que por ocasião do café da manhã, com raras exceções, estou em um estado de paz no coração, senão em um estado alegre.
Agora que Deus me ensinou esse ponto, está claro para mim como qualquer outra coisa que a primeira coisa que o filho de Deus deve fazer toda manhã é obter alimento para seu homem interior. Assim como o homem exterior não se adequa ao trabalho por qualquer período de tempo, exceto se comermos, e assim como isso é uma das primeiras coisas que fazemos pela manhã, assim também deve ser com o homem interior. Devemos encontrar alimento para isso, como todo mundo. Agora, o que é alimento para o homem interior? Não é a oração, mas a palavra de Deus; e aqui, outra vez, não apenas a leitura da palavra de Deus, de modo que apenas passe por nossas mentes, como a água corre por um cano, mas considerando o que lemos, ponderando a respeito, e aplicando aos nossos corações.
Pela benção de Deus atribuo a esse costume a ajuda e força que tenho tido para atravessar em paz profundas provações de diversas maneiras que nunca tinha atravessado; e após quarenta anos tentando dessa forma, posso quase que absolutamente, no temor do Senhor, recomendar tal prática. Que diferença quando a alma é saciada e levada à alegria logo pela manhã, do que quando, sem preparação espiritual, o serviço, as provações, e as tentações do dia vêm sobre alguém!
Deveria ser um encorajamento para todos nós perseverar na meditação sobre a Palavra de Deus quando lemos uma carta que, em 1897, George Mueller enviou a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, na qual ele precisou se desculpar por não comparecer a um encontro em Burmingham. Ele disse, "Vocês fariam a gentileza de ler no encontro que tenho sido por sessenta e oito anos e três meses, viz., desde Julho de 1929, um amante da palavra de Deus e o tenho sido ininterruptamente. Durante esse período, li consideravelmente mais do que cem vezes o Antigo e Novo Testamentos em oração e meditação." Se queremos ser poderosos líderes espirituais, precisamos caminhar na direção de Hudson Taylor e George Mueller.

O Círculo Externo da Liderança Espiritual

Todos na igreja têm um ou mais dons espirituais. Todos devem estar envolvidos no ministério. Todos devem estar buscando conduzir outro ao ponto onde tragam glória a Deus pelo modo como pensam e sentem e agem. Mas há pessoas a quem o Senhor deu qualidades de personalidade que tendem a torná-las líderes mais aptos que outros. Nem todas essas qualidades são distintivamente cristãs, mas quando o Espírito Santo enche a vida de uma pessoa, cada uma dessas qualidades é selada e transformada para os propósitos de Deus.

1. Incansável

Líderes espirituais têm um descontentamento santo com o status quo. Aqueles que não são líderes têm uma inércia que os leva a se estabelecerem e que os torna muito difíceis de serem tirados do seu centro de morte. Líderes têm um anseio por mudar, por se mexer, por alcançar, e por levar um grupo ou uma instituição a novas dimensões de ministério. Eles têm o espírito de Paulo, que disse em Filipenses 3:13, "Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus." Líderes são pessoas orientadas por alvos.
A história da redenção de Deus não está terminada. A igreja é assolada por imperfeições, ovelhas perdidas ainda não estão no aprisco, necessidades de todo o tipo no mundo ainda não foram atendidas, o pecado infesta os santos. É impensável que devamos estar contentes com as coisas do jeito que estão em um mundo caído e em uma igreja imperfeita. Portanto, Deus tem se agradado de colocar uma santa inquietude em alguns de Seu povo, e tais pessoas com certeza serão os líderes.

2. Otimista

Líderes espirituais são otimistas não porque o homem é bom, mas porque Deus está no controle. O líder não pode deixar seu descontentamento se transformar em desconsolo. Quando vê a imperfeição da igreja, deve dizer com o escritor de Hebreus (6:9), "Amados, mesmo falando dessa forma, estamos convictos de coisas melhores em relação a vocês, coisas próprias da salvação." O fundamento de sua vida é Romanos 8:28, "Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito." Ele considera com Paulo que, "Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas" (Romanos 8:32). Sem essa confiança baseada na bondade de Deus manifestada em Jesus Cristo, a perseverança do líder titubearia e as pessoas não seriam inspiradas. Sem otimismo, a inquietude se torna desespero.

3. Intenso

A grande qualidade que quero em meus parceiros é a intensidade. Romanos 12:8 diz que se seu dom é a liderança, "que a exerça com zelo.". Romanos 12:11 diz, "Nunca lhes falte o zelo, sejam fervorosos no espírito!". Quando os discípulos se lembraram do modo como Jesus se portou em relação ao templo de Deus, eles caracterizaram sua atitude com palavras do Antigo Testamento, "O zelo pela tua casa me consumirá.". (João 2:17). O líder segue o conselho de Eclesiastes 9:10, "O que as suas mãos tiverem que fazer, que o façam com toda a sua força.". Quando Jonathan Edwards era um jovem rapaz, ele escreveu uma lista de setenta resoluções. A resolução que mais me tem inspirado diz assim: "Viver com todas as minhas forças enquanto viver.". O Conde Zinzendorf dos Morávios disse, "Tenho uma paixão. É Ele, e Ele somente." Jesus nos alerta em Apocalipse 3:16 que não se apraz com pessoas mornas: "Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.". Líderes espirituais devem ir a algum lugar sozinhos e ponderar as inexprimíveis e estupendas coisas que sabem a respeito de Deus. Se suas vidas são um bocejo prolongado, estão simplesmente cegos. Líderes devem dar evidência de que as coisas do Espírito são intensamente reais. Eles não podem fazer isso, a não ser que sejam intensos.

4. Com Domínio Próprio

Por domínio próprio não quero dizer 'afetado' e 'conveniente' e sem emoção, mas mestre dos nossos impulsos. Se vamos conduzir outros em direção a Deus, não podemos ser conduzidos em direção ao mundo. De acordo com Gálatas 5:23, domínio próprio é um fruto do Espírito. Não é mera força de vontade. É a apropriação do poder de Deus para obter domínio sobre nossas emoções e nossos apetites que poderiam nos desviar ou nos levar a ocupar nosso tempo com empreitadas vãs. Em I Coríntios 6:12, Paulo diz, "Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine.".
O líder cristão deve examinar sua vida impiedosamente, para ver se está minimamente escravizado por televisão, álcool, café, golfe, jogos de computador, pescaria, Playboy, masturbação, boa comida. Paulo diz em I Coríntios 9:25, “Todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece; mas nós o fazemos para ganhar uma coroa que dura para sempre. Sendo assim, não corro como quem corre sem alvo, e não luto como quem esmurra o ar. Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado." E ele diz em Gálatas 5:24, "Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos." Líderes espirituais devem rastrear maus hábitos impiedosamente, e quebrá-los pelo poder do Espírito. Eles ouvem e seguem Romanos 8:13, "Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão." Líderes espirituais anseiam por estar libertos de tudo que atrapalha o seu pleno deleite em Deus e seu serviço a outros.
Por John Piper. © Desiring God. Site em inglês: desiringGod.org | Português: satisfacaoemDeus.org |
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