quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Blasfêmia e Mistério na Teologia

Um leitor nos enviou um debate mantido com certa pessoa. Entre outras coisas, eles tocaram na relação entre Deus e o mal. Essa outra pessoa escreveu o seguinte (suas palavras foram levemente editadas por uma questão de legibilidade): Nesse livro, How Long, O Lord? Reflections on Suffering and Evil [Ó Senhor, até quando? Reflexões sobre sofrimento e o mal], Donald A. Carson diz: “É essencial — sou incapaz de frisá-lo o suficiente — é, de fato, fundamental para o bem-estar doutrinário e espiritual afirmar simultaneamente as polaridades distintas da natureza de Deus. Por exemplo, caso você trabalhe com as passagens bíblicas que sustentam de forma clara que Deus, em algum sentido, está por trás do mal, e não trouxer à mente, no mesmo instante, as inúmeras passagens que declaram ser ele incessantemente bom, então, num período de sofrimento você pode ser tentado a pensar em Deus como um sanguinário soberano e cruel”.2 Esse conceito dá espaço à permanência do mistério em relação a essa doutrina, em lugar de tentar levá-la até as últimas conseqüências lógicas apreendidas. Não devemos ir além da Escritura.

Introdução

Sobre este assunto, os leitores constantes já entendem meu posicionamento e minhas razões para ele. O que temos aqui é outro exemplo de uma posição popular e tradicional, que já se demonstrou não só antibíblica e irracional, mas também blasfema, ainda que involuntariamente. Portanto, devemos condenar essas palavras de forma implacável. Visto que a discussão envolve o respeitado estudioso bíblico Donald A. Carson, desejo apresentar uma perspectiva mais ampla sobre sua pessoa antes de continuar. Carson é um dos meus escritores cristãos prediletos. Suas obras são caracterizadas pela exegese sóbria e pelo estilo claro. Em várias passagens, ele não receia romper com as falácias tradicionais a fim de propor alternativas mais bíblicas e racionais. Apesar de discordar dele em certos detalhes, endosso suas obras de forma geral, com duas exceções principais. A primeira é o livro já mencionado, How Long, O Lord? Reflections on Suffering and Evil. A segunda é Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension [Soberania divina e responsabilidade humana: perspectivas bíblicas em tensão].

Em lugar de receber o subtítulo “doutrinas bíblicas em harmonia”, algo parecido com o que eu escreveria, o livro reforça a enfadonha alegação de que a Escritura apresenta uma tensão “interna” — uma palavra mais apresentável para contradição. O ponto é que, em geral, não contesto a ortodoxia, piedade ou competência de Carson; contudo, sobre este tópico, ele não consegue romper com a posição tradicional antibíblica e irracional, e o resultado é o comprometimento com uma posição tão profana e pecaminosa que, se não tivesse o intuito de ensinar, eu dificilmente ousaria repeti-la. A pessoa que cita Carson também reproduz alguns bordões tradicionais, de forma que também examinaremos suas declarações. Como procederemos? Quase todas as linhas do parágrafo contêm alguma abominação teológica. O método mais adequado seria a análise linha por linha; fazê-lo, porém, seria ineficiente e repetitivo, visto que a cada frase teríamos de examinar sua relação com as frases que a antecedem ou sucedem. Assim, em vez disso, percorreremos o parágrafo e destacaremos alguns tópicos para exame.

Polaridades

Carson escreve que é essencial “afirmar simultaneamente as polaridades distintas da natureza de Deus”. Ao leitor desatento, acostumado com esse tipo de conversa, a declaração parece inocente, e o vocábulo “polaridades” pode até mesmo parecer refinado e fascinante. Entretanto, o termo “polaridades” refere-se a opostos (esse é o significado da palavra). E “distintas” significa certa variedade ou multiplicidade. Essas palavras são aplicadas à “natureza de Deus”. Em outras palavras, Carson diz que é “de fato, fundamental” afirmar a existência de muitos opostos na própria natureza de Deus. Ele não diz muitas facetas, mas muitos opostos. Mesmo Satanás dificilmente apareceria com uma blasfêmia pior que essa. Isso toca na própria natureza de Deus e o divide internamente.

Mas isto é apenas o início.

Soberania

Como exemplo da necessidade da manutenção do conceito de opostos na própria natureza divina, Carson escreve: “... caso você trabalhe com as passagens bíblicas que sustentam de forma clara que Deus, em algum sentido, está por trás do mal, e não trouxer à mente, no mesmo instante, as inúmeras passagens que declaram ser ele incessantemente bom, então, num período de sofrimento você pode ser tentado a pensar em Deus como um sanguinário soberano e cruel”. Mais uma vez, para a pessoa irrefletida, acostumada a esse tipo de insensatez, isso soa de modo inocente, até mesmo reverente. Considere, porém, o que ele diz aqui. Tenha em mente que Carson fala a respeito de polaridades — opostos — na própria natureza de Deus. Não existe nenhum ardil aqui — ele não se refere apenas a contradições aparentes, o que já seria ruim o suficiente; todavia, ele afirma que são polaridades da natureza de Deus. Então, o que é citado acima apresenta o exemplo de uma dessas polaridades. Portanto, de acordo com Carson, o fato de que Deus soberanamente “está por trás do mal” é o oposto de ser ele “incessantemente bom”. Em outras palavras, quando Deus “está por trás do mal”, ele é mal ou está fazendo o mal. Se essa não for a implicação, então não existirá polaridade aqui. Perturbo-me até em mostrar a implicação da declaração de Carson, mas parece que muitos cristãos se orgulham de proferir essa blasfêmia. E quando alguém pensa dessa forma, não é de admirar que seja tentado a considerar Deus um “sanguinário soberano e cruel”. Carson sugere que devemos lembrar também que Deus é incessantemente bom. Contudo, se Deus é bom quando está soberanamente “por trás do mal”, então qual a causa da polaridade? Se a polaridade for mantida, então seu significado deve ser que ele é mau nos momentos em que se encontra soberanamente por trás do mal, embora seja bom nas demais ocasiões. Porém, se for assim, como ele pode ser incessantemente bom? Que tipo de pessoa pensaria que Deus é um “sanguinário soberano e cruel” ao ler os relatos bíblicos da soberania de Deus sobre o mal? Será que a própria Bíblia sugere essa ideia? Caso ela não proceda da Bíblia, de onde ela vem? Um padrão não bíblico foi usado para julgar o controle soberano de Deus sobre o mal. O falso conceito não é inerente às passagens bíblicas. E se ele não é inerente a essas passagens, não há necessidade de contrabalançar nenhuma polaridade. Ao contrário de Carson, o conceito bíblico afirma que Deus é bom por definição, além de ser o único padrão de bondade. Constitui rebelião obstinada apresentar um padrão antibíblico de bondade e verificar se Deus se enquadra nele, alegando que às vezes ele se assemelha a um indivíduo sanguinário, e em outras circunstâncias parece ser bom. Ao contrário, descobrimos o significado da bondade por meio das palavras e ações de Deus registradas na Escritura, e a partir dessa perspectiva, percebemos que Deus é “incessantemente bom”, mesmo ao controlar o mal de forma soberana. Não existe nenhuma polaridade em sua natureza. Na declaração de Carson não há espaço para essa harmonia, porque ele o apresenta como exemplo das “polaridades distintas” de Deus. Portanto, para ele, isso deve significar que um conjunto de passagens bíblicas nos leva a pensar que Deus é um “sanguinário soberano e cruel”, e isso é contrabalançado por outro conjunto de passagens bíblicas que ensinam a parte oposta da natureza divina — que ele é “incessantemente bom”. Alegro-me em presumir que não era isso o que ele pretendia afirmar, que se trata de um lapso de sua parte. No entanto, esta é de fato uma implicação do que ele declarou. Não faço aqui nenhuma acusação de blasfêmia deliberada, mas quem pode censurar-me por acusá-lo, bem como a outras pessoas, de pensar de forma desordenada e antibíblica? Quem pode me acusar de ir contra esse sacrilégio “ortodoxo”? Que ninguém seja tão tolo a ponto de me acusar de deturpação. Se eu o tiver representado de forma equivocada, então qual é seu verdadeiro conceito? Qualquer entendimento proposto sobre seu conceito deve manter a ênfase nas “polaridades diversas em Deus” e no uso de dois conjuntos de passagens bíblicas que apresentam essas polaridades, e esse conceito deve ainda evitar os problemas que destaquei. Mas não existe nenhuma deturpação aqui — embora algumas versões sejam mais bem formuladas que outras, o conceito popular de Carson é ensinado na tradição Reformada e em outras tradições teológicas, e constitui uma blasfêmia.

Mistério

Então, a pessoa que cita Carson comenta: “Esse conceito dá espaço à permanência do mistério em relação a essa doutrina, em lugar de tentar levá-la até as últimas conseqüências lógicas apreendidas. Não devemos ir além da Escritura”. Outra vez, pessoas distintas poderiam declarar a mesma coisa de forma um pouco diferente, mas isso representa apenas um conceito popular. Continuando com nossa análise tópica, devemos debater aqui as idéias de mistério, implicação lógica e extensão da revelação bíblica.

Se mistério significa algo que não entendemos plenamente, e que, de fato, não pode ser entendido plenamente nesta vida, então, falando de modo geral, não é possível demonstrar a existência de algum mistério relativo a Deus e a seu controle soberano sobre o mal. Tenho demonstrado repetidamente que a Escritura nos diz de forma clara que Deus controla o mal, como ele o faz e por que o faz. É verdade que não sabemos tudo sobre o assunto, pois a Escritura não nos concede onisciência. Todavia, essa limitação é irrelevante — a onisciência não é o assunto em pauta. Em vez disso, afirma-se que a questão permanece um mistério mesmo no nível mais amplo, e isso é completamente falso. O chamado mistério, então, não se dá pelo porque de Deus reter informação de nós, nem porque a questão é tão complexa que a chamada “mente humana finita” não pode alcançá-la (na verdade, o fato de precisarmos debater este assunto indica que a mente de algumas pessoas é bem mais finita que a de outras). Porém, o mistério existe porque essas pessoas se recusam a aceitar o que Deus revelou de forma inequívoca e coerente. Pode até existir um problema de aptidão teológica, mas junto com ele há uma forte rebelião contra a revelação divina. A questão em si é muito simples. Sua afirmação de designar “mistério” ao ponto onde a revelação bíblica finda é mentirosa. A Escritura apresenta uma doutrina elaborada sobre o assunto muito mais completa que a disposição de reconhecê-la. A verdade é que para eles o mistério não principia onde a revelação termina, mas começa onde sua posição se torna tão evidentemente falsa e incoerente que apelam para o mistério com o objetivo de terminar a discussão à força. Para eles, o mistério principia onde finda sua aceitação da Escritura. Essa pessoa diz a seguir que deveríamos chamar o assunto de mistério, antes mesmo de tentar levá-la até as últimas conseqüências lógicas apreendidas. Para ser justo, quer ele seja intencionalmente preciso, quer não, escreveu: “conseqüências lógicas apreendidas”, abrindo a possibilidade de oposição apenas às falsas inferências consideradas verdadeiras. Concordamos de imediato que falsas deduções são apenas isso — falsas. Mas o que dizer sobre inferências verdadeiras, deduções válidas? A resistência comum em seguir o que a Escritura ensina até as últimas conseqüências lógicas representa a deturpação de que a conclusão lógica de um conjunto de premissas pode produzir algo diferente das premissas ou desabonado por elas. Isso, porém, é verdadeiro apenas em relação à indução. Com referência à dedução, o processo de raciocínio por definição produz uma conclusão logicamente necessária a partir das premissas, isto é, algo já contido nas premissas. A dedução não produz novas informações, e a conclusão não cria nada em adição às premissas ou diferente delas. Não se chega a essa conclusão como a melhor estimativa baseada nas premissas; pelo contrário, ela é apenas destacada e explicitada. Portanto, recusar-se a fazer uma inferência dedutiva a partir do que a Escritura afirma, ou aceitá-la, equivale à recusa a aceitar o que a Escritura afirma, visto que a conclusão de tal dedução é o que a Escritura declara. Ele escreve: “Não devemos ir além da Escritura”. Bom! Contudo, essa deveria ser a menor preocupação. Seu problema é a recusa a ir até onde a Escritura clara e explicitamente vai. Esse bordão popular é por si só verdadeiro, porém, do modo freqüentemente usado, não significa nada além de uma desculpa para encobrir a recusa flagrante da aceitação do que Deus revela. Caminhemos, em primeiro lugar, até onde a Escritura vai antes de nos preocuparmos em não ultrapassá-la.

Conclusão

É doloroso aguentar as constantes blasfêmias que nossos irmãos em Cristo proferem contra Deus enquanto pensam que o cultuam. Entretanto, blasfêmia não é um pecado inferior ao assassinato ou adultério — em princípio, é muito pior. Portanto, por mais doloroso que seja lidar com isso, devemos condenar totalmente seus falsos ensinos e sua rebelião obstinada nos termos mais duros possíveis, instando-os ao arrependimento e à correção. Os poucos de nós que afirmam a perfeita e óbvia coerência de Deus e sua revelação são freqüentemente acusados de ensinar uma forma de racionalismo. Se a acusação se baseasse na possibilidade de exaltarmos a razão acima da revelação, eu me perguntaria como isso seria possível, pois afirmo que apenas a revelação é racional. E, não raro, expomos só o que a Escritura ensina de forma direta, mesmo em relação às suas declarações explícitas, ao passo que nossos oponentes criam problemas onde não existe nenhum. Eles parecem amar mais a idéia de mistério do que o Deus que falou-nos tão claramente. Em vez de sacrificar seu conceito de mistério, eles preferem matar Deus, destruindo-o de dentro para fora. Uma descrição mais acurada do racionalismo não-bíblico é que ele exalta a epistemologia não-revelada da especulação humana a fim de julgar o conteúdo da revelação. Com certeza eu não o faço. Na realidade, por essa definição, nossos oponentes são os candidatos mais prováveis da rotulação de racionalistas, pois vimos que eles julgam o controle soberano de Deus sobre o mal a partir de padrões não bíblicos. Todavia, aplicar-lhes esse termo seria um contra-senso, porque eles não são racionais em nenhum sentido. A verdade é que sua rejeição da revelação, dedução válida e do apelo ilegítimo ao conceito de mistério produz uma forma de irracionalismo anticristão. Em todo o caso, se afirmar que Deus é clara e perfeitamente harmônico em sua natureza e em sua revelação é ensinar racionalismo, então graças a Deus pelo racionalismo. Possa o Senhor da Razão enviar muitos trabalhadores para ensinar esse tipo de racionalismo! Ele não é do tipo humanístico ou anti-sobrenatural — que não é racional de forma nenhuma —, mas é do tipo bíblico — o racionalismo bíblico, que reconhece a perfeita coerência de Deus e de sua revelação.
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Por Vincent Cheung
Fonte Monergismo
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