sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Jejum, Onisciência e Gênesis 22:12


Como é que o jejum nos ajuda a não transformar as dádivas divinas em deuses? Pense no quase-sacrifício de Isaque pelo seu pai Abraão. Quando Abraão estendeu a mão para matar seu filho e herdeiro da promessa de Deus, 
“… do céu lhe bradou o Anjo do SENHOR: Abraão! Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui! Então, lhe disse: ‘Não estendas a mão sobre o rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho.” (Gn 22.11, 12)
Ora, aqui temos um tipo de jejum[1] altamente radical: o sacrifício de um filho. Deus não ordenou esse sacrifício porque Isaque fosse mau. Ao contrário, foi porque aos olhos de Abraão ele era bom. Na verdade ele parecia indispensável para o cumprimento da promessa de Deus. Jejum não é o confisco do mau, mas do bem. Mas por que Deus ordenou uma coisa dessas? Porque era uma prova. Porventura teria Abraão mais deleite no temor do Senhor (Is 11.3), do que tinha no seu próprio filho? Deus falou por meio do anjo: “agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho”. Essas palavras, “agora sei” – o que elas significam? Por acaso Deus desconhecia o fato que Abraão era um homem temente a Deus e que ele prezava a Deus acima de seu filho?

 A Bíblia ensina que Deus é “conhecedor do coração de todos os filhos dos homens” (1Rs 8.39; At 1.24); na verdade, ele “forma o coração de todos eles” (Sl 33.15). Então por que a prova? A seguir fornecemos a resposta de C. S. Lewis à questão: [Sinto-me preocupado com a pergunta] “Se Deus é onisciente, ele devia saber o que Abraão iria fazer sem prova alguma; por que, então, essa tortura desnecessária?” Agostinho chama atenção para o fato de que, independente do saber de Deus, Abraão não sabia de modo algum que essa obediência iria suportar tal ordem até que a consumação lho provasse; e a obediência que ele não sabia que escolheria, ele não poderia dizer ter escolhido.

A realidade da obediência de Abraão era o ato em si; e o que Deus sabia em conhecer que Abraão “obedeceria” era a obediência de fato de Abraão naquele cimo de montanha, naquele momento exato. Dizer que Deus “não tinha necessidade de fazer a prova” é dizer que por que Deus sabe, a coisa conhecida por Deus não precisa existir.[2] Deus deseja conhecer a realidade vivida, concreta, da nossa preferência por ele acima de todas as outras coisas. E ele deseja saber que nós possuímos o testemunho da nossa própria autenticidade por meio de atos de preferência concreta por Deus acima de suas dádivas. Lewis está correto em dizer que Deus poderia muito bem não ter criado o mundo, mas apenas o imaginado, se o fato de ele saber que “seria” fosse tão bom quanto conhecer isso no ato em si. Deus deseja ter um conhecimento experimental, um concreto conhecimento pela vista, um conhecimento pelo assistir. Um ato humano real vivido da preferência por Deus acima de suas dádivas é a glorificação vivida concreta da excelência de Deus para a qual ele criou o mundo. Jejum não é o único caminho, ou o caminho principal, pelo qual nós glorificamos a Deus na preferência a ele acima de suas dádivas. Mas é um caminho. E é um caminho que pode auxiliar todos os outros. 
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[1] Numa seção anterior Piper já tinha citado um trecho de um sermão do dr. Lloy-Jones sobre jejum: “Se nós realmente compreendemos o jejum, devemos saber que… não deve ser confinado à questão de comida e bebida; o jejum deve, na verdade, incluir a abstinência de qualquer coisa, que seja legítima em si e por si, em favor de algum propósito espiritual especial…” (Nota do Monergismo.com)
[2] C. S. Lewis, The Problem of Pain (Nova York: The Macmillan Co., 1962), pp. 101, 102.

Por John Piper
Fonte Moergismo
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