sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O JEJUM [01/08]


Voltamo-nos agora para a consideração da terceira ilustração oferecida por nosso Senhor sobre como nos deveríamos conduzir nessa questão da retidão pessoal. Nos capítulos quarto e quinto voltaremos ao nosso estudo pormenorizado do ensino de Jesus concernente à oração, especialmente como é dado na comumente intitulada “oração do Pai Nosso”. Porém, antes disso, parece-me que deveríamos ter bem claras na mente essas três ilustrações particulares sobre a retidão pessoal. Você deve estar lembrado de que nesta seção do Sermão do Monte nosso Senhor falava sobre a questão da retidão pessoal. Ele já havia descrito o crente em sua atitude geral em relação à vida — a sua vida mental, se assim alguém preferir chamá-la. Aqui, entretanto, estamos considerando mais de perto a conduta cristã. A declaração geral de nosso Senhor foi a seguinte: 
“Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis galardão junto de vosso Pai celeste” (Mateus 6:1). 
Já tivemos oportunidade de salientar como nosso Senhor mostrou que nossa vida cristã pode ser dividida em três seções principais. Há aquele aspecto ou porção de nossas vidas em que fazemos o bem ao próximo — a doação de esmolas.Também há a questão de nossa relação pessoal e íntima com Deus — a nossa vida de oração. E o terceiro ponto é justamente aquele que vamos considerar nos versículos 16 a 18 — a questão da disciplina pessoal na vida espiritual do indivíduo, considerada especialmente em termos do jejum.

Entretanto, é importante que entendamos que aquilo que o Senhor disse neste trecho, acerca do jejum, é igualmente aplicável à questão inteira da disciplina em nossa vida espiritual. Tenho os meus contatos pessoais com homens e mulheres; tenho os meus contatos com Deus; e também entro em contacto comigo. Por semelhante modo, podemos pensar nessa tríplice divisão em termos daquilo que faço acerca dos meus semelhantes, acerca de Deus e acerca de mim mesmo.

Esta última divisão é o tema que o Senhor Jesus tomou em Suas mãos, neste breve parágrafo bíblico. Não podemos ventilar essa declaração a respeito do jejum sem antes fazermos algumas poucas observações gerais e preliminares. Penso que todos deveríamos ficar impressionados, logo de saída, diante do fato que há uma constante necessidade de mudança de ênfase, não somente em nossa pregação do Evangelho, mas também em toda a nossa abordagem do Evangelho e em nossa maneira de pensar a respeito. Embora a verdade permaneça imutável, não obstante, por causa de seu caráter multilateral, e porque a natureza humana é aquilo que é, em resultado do pecado, em certas épocas particulares da História da Igreja tem havido necessidade de alguma ênfase especial sobre determinados aspectos da verdade.

Esse princípio pode ser detectado na própria Bíblia. Existem aqueles que gostariam que acreditássemos que houve um imenso debate, ao longo do período do Antigo Testamento, entre os sacerdotes e os profetas, ou seja, entre aqueles que frisavam as boas obras e aqueles que destacavam a fé, respectivamente. Mas a verdade, como facilmente se verifica, é que jamais houve tal conflito, jamais houve qualquer contradição dessa ordem. Houve, sim, indivíduos que emprestaram uma falsa ênfase a aspectos particulares da verdade, e isso exigiu correção. O ponto que estou salientando é que em uma época em que a ênfase sacerdotal estava em grande voga, o que se tornava especialmente necessário era a ênfase sobre o elemento profético. Mas, em outras ocasiões, quando o interesse cambava demasiadamente para o lado do elemento profético, era chegado o tempo de se reequilibrar a balança, e o povo era novamente lembrado a respeito do aspecto sacerdotal. 

Vê-se a mesma coisa acontecendo nas páginas do Novo Testamento. Assim, não há qualquer contradição verdadeira entre Tiago e Paulo. Somente uma visão particularmente superficial da doutrina neotestamentária é que diz que esses dois homens se contradiziam mutuamente em seus ensinamentos. Eles não o fazem. Antes, cada um deles, em face de determinadas circunstâncias, foi impelido pelo Espírito Santo a dar determinada ênfase à verdade. Como é evidente, Tiago escrevia para pessoas que se inclinavam por dizer que enquanto estivessem confiando no Senhor Jesus Cristo tudo estaria bem com eles, não havendo necessidade alguma de se preocuparem. Isso posto, a única coisa que podia ser dita a tais indivíduos era a seguinte: “… a fé sem obras é morta” (Tiago 2:26). Todavia, se tivermos de tratar com pessoas que vivem chamando atenção para aquilo que fazem, que dão excessiva importância às obras, então será mister enfatizarmos diante delas esse notável aspecto e elemento da fé. 
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Por Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Fonte Monergismo
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