segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O JEJUM [03/08]


Quando examinamos o ensino do Senhor Jesus, descobrimos que embora Ele nunca tivesse ensinado diretamente que alguém jejuasse, sem dúvida Ele ensinava indiretamente essa prática. Em Mateus 9, lemos que a Jesus dirigiram uma pergunta específica acerca do jejum. Perguntaram-Lhe: “Por que jejuamos nós e os fariseus [muitas vezes], e teus discípulos não jejuam? Respondeu-lhes Jesus: Podem acaso estar tristes os convidados para o casamento, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (v. 14 e 15). Parece-me que nesse trecho, de forma evidente, temos o ensino implícito sobre o jejum, e quase mesmo a sua defesa. Seja como for, o que não se pode duvidar é que Jesus nunca proibiu o jejum. De fato, no trecho que ora consideramos, a Sua aprovação ao jejum é claramente obviada. O que Ele disse foi: “Tu, porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto” (Mateus 6:17). Com base nessas palavras de Jesus, portanto, concluímos que, para Ele, o jejum nada tinha de errado e era recomendável ao povo crente. E nós mesmos estamos informados de que Ele jejuou por quarenta dias e quarenta noites, quando, no ermo, foi tentado por Satanás. 

Então, passando além da doutrina e da prática de nosso Senhor, e chegando à doutrina e à prática da Igreja primitiva, descobrimos que o jejum era praticado pelos apóstolos. A Igreja de Antioquia, ao enviar Paulo e Barnabé, na primeira viagem missionária deles, só o fez depois de um período de oração e jejum. De fato, em qualquer ocasião importante, quando confrontada por alguma decisão vital, a Igreja primitiva sempre parecia entregar-se à prática da oração e do jejum, e o apóstolo Paulo, ao referir-se a si mesmo e à sua vida cristã, aludiu aos “jejuns” entre as suas práticas e aflições (ver 2 Coríntios 6:5). É patente que, para Paulo, jejuar era um aspecto regular de sua vida. Ora, aqueles que se interessam pelas questões atinentes à crítica textual deverão estar lembrados de que, no trecho de Marcos 9:29, onde nosso Senhor diz: “Esta casta não pode sair senão por meio de oração e jejum”, a verdade mais provável é que as palavras finais, “e jejum”, não deveriam constar do texto, segundo os melhores documentos e manuscritos; mas isso é bastante inconsequente no que concerne à questão geral do jejum, pois dispomos de todas aquelas outras passagens neotestamentárias que nos mostram claramente que o jejum é reconhecido como prática correta e valiosa. E quando inquirimos a História subseqüente da Igreja, descobrimos precisamente a mesma coisa. 

Os santos de Deus, em todas as épocas e em todos os lugares não somente têm crido no jejum, mas também o têm posto em prática. Isso ocorreu entre os reformadores protestantes, e, sem dúvida, foi observado também na vida dos irmãos Wesley e na vida de George Whitefield. Admito que eles tendiam por jejuar muito mais antes do que depois de se terem convertido; não obstante, continuaram jejuando após se haverem convertido. E os que estão familiarizados com a vida do grande crente chinês, pastor Hsi, da China, devem estar lembrados de como o pastor Hsi, defrontado por algum problema novo e excepcionalmente difícil, invariavelmente observava um período de jejum e oração. O povo de Deus sempre sentiu que o jejum não somente é uma prática correta, mas também que ela se reveste de imenso valor, quanto aos seus efeitos, sob determinadas circunstâncias.

Portanto, se esse é o pano de fundo histórico, aproximemo-nos um pouco mais diretamente da questão, a fim de sondá-la. No que consiste, exatamente, o jejum? Qual é o seu propósito? Não se pode duvidar que, em última análise, trata-se de algo alicerçado sobre uma compreensão da relação entre o corpo e o espírito. O homem se compõe de corpo, mente e espírito, e esses elementos estão intimamente relacionados entre si, interagindo uns sobre os outros, bem de perto. Distinguimos entre esses elementos que constituem o ser humano porque são diferentes, mas não devemos separá-los, porquanto há entre eles inter-relação e interação. Não se pode duvidar que os estados e condições corporais exercem influências sobre as atividades da mente e do espírito, pelo que também essa questão do jejum deve ser levada em conta dentro dessa peculiar relação entre o corpo, a mente e o espírito. O que o jejum realmente significa, por conseguinte, é a abstinência de alimentos com vistas a propósitos espirituais. Essa é a noção bíblica do jejum, que precisa ser distinguida daquilo que é puramente físico. A noção bíblica do jejum é que, por causa de certos objetivos e razões espirituais, homens e mulheres resolvem fazer abstinência de alimentos.
________________________________
Por Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Fonte Monergismo
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...