terça-feira, 19 de novembro de 2013

O JEJUM [04/08]


Ora, esse é um ponto importantíssimo, razão por que deveríamos também colocá-lo sob forma negativa. Recentemente, eu estava lendo um artigo que abordava esse assunto e onde o autor se referia àquela declaração do apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 9:27, onde se lê: “Mas esmurro o meu corpo”. O apóstolo diz que ele fazia isso a fim de que pudesse realizar a sua obra com maior eficiência. O escritor dizia ali que isso ilustra a prática do jejum. Ora, sugiro que necessariamente esse texto nada tem a ver com o jejum. Isso é o que eu chamaria de disciplina geral do ser humano. Sempre deveríamos esmurrar o próprio corpo, mas isso não quer dizer que sempre deveríamos jejuar. O jejum, pelo contrário, é algo incomum, excepcional, algo que um homem põe em prática apenas ocasionalmente, com uma finalidade especial, ao passo que a disciplina pessoal deveria ser algo perpétuo e permanente. Por conseguinte, não posso aceitar textos como “Esmurro o meu corpo” e “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena” (I Coríntios 9:27 e Colossenses 3:5), como se eles fizessem parte do ensino do jejum. Em outras palavras, a moderação ao comer não equivale a jejuar. A moderação ao comer faz parte da disciplina pessoal no tocante ao corpo, sendo uma excelente maneira de esmurrá-lo; mas isso não é a mesma coisa que jejuar. Jejuar é abster-se completamente de alimentos, na busca de certos alvos especiais, como a oração, a meditação ou a busca do Senhor, devido a alguma razão peculiar, ou sob circunstâncias especiais. 

Para completar a nossa definição, deveríamos acrescentar que o jejum, quando realisticamente concebido, não somente deve confinar-se à questão de alimentos sólidos e líquidos; pelo contrário, o jejum, na realidade, deveria incluir a abstinência de qualquer coisa, legítima em si mesma, tendo-se em vista algum propósito espiritual especial. Existem muitas funções corporais corretas, normais e perfeitamente legítimas, mas que, por razões peculiares e especiais, também deveriam ser submetidas a controle, em determinadas circunstâncias. Isso é jejuar. Conforme estou sugerindo, temos aqui uma espécie de definição geral do que se deveria entender por jejum.[1] 

Antes de pensarmos sobre as diferentes maneiras de se observar o jejum, ponderemos sobre como devemos considerar e abordar a questão inteira do jejum. Novamente, dividir o assunto é questão simples, pois, afinal de contas, há somente a maneira errada e a maneira certa de o observarmos. Sim, há certas maneiras erradas de jejuar. Eis uma delas. Se jejuarmos de maneira mecânica, ou meramente com a finalidade de jejuar, então sugiro que estaremos violando o ensino bíblico atinente à questão toda. Em outras palavras, se eu fizer do jejum uma finalidade em si mesma, algo acerca do que eu possa dizer: “Bem, agora que eu me tornei crente, terei de jejuar em tal dia e em tal época do ano, porque isso faz parte da religião cristã”, então seria melhor se eu não jejuasse. O elemento especial do jejum desaparece quando é praticado dessa maneira. 

Isso é algo que não ocorre somente no caso do jejum. Porventura não vimos exatamente a mesma coisa no tocante à oração? É boa norma, quando possível, as pessoas fixarem certas ocasiões especiais para se dedicarem à oração. Porém, se eu traçar o meu programa para um determinado dia e resolver que às horas tais eu terei de orar, e então puser-me a orar somente para cumprir o programa traçado, não estarei mais orando verdadeiramente. Dá-se precisamente o mesmo na questão do jejum. Há pessoas que abordam o problema precisamente assim. Tornaram-se crentes; mas preferem agora submeter-se a alguma espécie de lei, de norma. Preferem que se lhes diga exatamente o que devem e o que não devem fazer. Em determinado dia da semana não podem comer carne, e coisas desse tipo. Isso é algo que nunca deve ser utilizado na prática cristã, a saber, não comer tal ou qual coisa em certo dia da semana ou do ano! Ou então, abster-se de alimentos, ou comer menos, em certos períodos do ano, e assim por diante. Em tudo isso oculta-se uma sutil ameaça. Qualquer coisa que fizermos somente por fazê-la, como se fosse uma rotina, certamente viola ensinamentos bíblicos importantes. Jamais deveríamos considerar o jejum como um fim em si mesmo.
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[1] O dr. Lloyd-Jones foi muito feliz nessa definição de jejum, e infelizmente vemos de maneira trágica a falta desse conhecimento em nosso meio. Embora sejam atividades legítimas, gastar o seu tempo no dia do jejum diante da TV, navegando na internet, passeando no Shopping, é algo ridículo e inútil. Estaremos enganando a nós mesmos e zombando de Deus. (Nota do Monergismo.com)

Por Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Fonte Monergismo
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