domingo, 24 de novembro de 2013

O JEJUM [05/08]


Contudo, devemos adicionar a isso algo do que já havia ficado entendido, e que poderia ser expresso como segue: Jamais deveríamos considerar o jejum como parte integrante da disciplina pessoal. Algumas pessoas afirmam que é excelente a prática de não se comer certas coisas em determinados dias da semana, ou então que, em dados períodos do ano, nos deveríamos abster de certas coisas. Dizem elas que isso é excelente do ponto de vista da disciplina pessoal. Na verdade, a disciplina é algo que deve ser permanente, é algo que deve ser perpétuo. Sempre deveríamos estar exercendo disciplina quanto a nós mesmos. Quanto a isso, não pode haver contestação. Sempre deveríamos refrear os nossos corpos, sempre deveríamos segurar com firmeza as rédeas que nos controlam a vida diária, sempre deveríamos sujeitar-nos à disciplina, em todas as facetas da vida. Portanto, é um erro grave reduzir-se o jejum meramente a uma parcela do processo da disciplina pessoal. Pelo contrário, a disciplina é algo para o que eu deveria apelar a fim de atingir aquele terreno espiritual mais elevado das orações dirigidas a Deus, ou da meditação ou da intercessão intensa. E isso situa o jejum dentro de uma categoria inteiramente diferente da disciplina pessoal.

Uma outra forma de se entender erroneamente o jejum pode ser descrita como segue. Existem algumas pessoas que jejuam porque esperam resultados diretos e imediatos do jejum. Em outras palavras, consideram o jejum como uma espécie de aparelho mecânico; por falta de melhor ilustração, elas têm um ponto de vista do jejum que tenho chamado de “moeda na fenda”. Alguém mete uma moeda na fenda de um aparelho qualquer, puxa a manivela, e obtém um resultado imediato. Para muitos essa é a perspectiva do jejum. Se alguém quiser auferir certos benefícios, dizem elas, então que jejue; se alguém jejuar, receberá benefícios imediatos. Essa atitude, todavia, não se limita à questão do jejum. Já vimos que há muitos indivíduos que encaram a oração por esse prisma. Leem relatos de como certos indivíduos, em determinadas oportunidades, resolveram ter vigílias de uma noite inteira dedicada à oração, como vararam a noite em oração e como, em resultado disso, teve início um reavivamento religioso. E assim decidem que também passarão uma noite de vigília, esperando obter resultados idênticos. “Visto que já oramos, forçosamente terá de ocorrer um reavivamento”, dizem os tais. E essas idéias também podem ser encontradas em conexão com os movimentos de “santidade”. Há quem diga que se ao menos obedecermos a certas condições, obteremos uma bênção, com resultados imediatos e diretos. Ora, jamais encontrei qualquer coisa parecida com isso nas Escrituras, em conexão com o jejum ou com qualquer outra prática. Jamais deveríamos jejuar em busca de resultados diretos e imediatos. 

Quero expressar o problema em termos ainda mais incisivos do que isso. Há pessoas que advogam o jejum como uma das melhores maneiras ou métodos de se obter bênçãos da parte de Deus. Uma porção de recente literatura parece culpada dessa distorção. Algumas pessoas têm escrito acontecimentos notáveis sobre suas vidas, e então testificam: “A minha vida cristã sempre me pareceu vinculada a fracassos e derrotas, e nunca me senti verdadeiramente feliz. Minha vida parecia uma série de altos e baixos. Eu já era crente, mas parecia-me não ter recebido certas coisas que outras pessoas, a quem eu conhecia, possuíam. E isso se prolongou durante vários anos. Eu já havia frequentado todas as convenções, eu já lera os livros recomendados mas jamais recebera a grande bênção. Então aconteceu-me encontrar o ensino que enfatiza a importância do jejum; e jejuei, e recebi a bênção”. E então, a exortação é: “Se você quer uma bênção, então jejue”. Isso me parece uma doutrina extremamente perigosa. Nunca deveríamos falar desse modo, no que tange à vida espiritual. As bênçãos celestiais jamais se tornam automáticas. No momento em que começarmos a dizer, “Porquanto faço isto, obtenho aquilo”, isso significará que teremos começado a controlar a bênção divina. Isso é um insulto a Deus, violando a grande doutrina de Sua soberania final. Não, jamais deveríamos defender a prática do jejum como um meio de se receber alguma bênção. 

Consideremos uma outra ilustração acerca desse ponto. Tomemos a questão dos dízimos, por exemplo. Esse é um outro assunto que também está voltando à proeminência. Ora, existem certas bases bíblicas excelentes para a prática dos dízimos. Entretanto, há muitos que tendem por ensinar essa questão dos dízimos conforme os seguintes moldes. Alguém escreve uma narrativa sobre a sua vida. Novamente, assevera que sua vida era insatisfatória. As coisas não iam bem com ele; de fato, estava enfrentando desastres financeiros em seus negócios. Mas eis que descobriu a doutrina bíblica do dízimo, e começou a dar os seus dízimos. Imediatamente, profunda alegria invadiu-lhe a alma. Não somente isso, entretanto, mas seus negócios também começaram a melhorar e a obter sucesso. Já li livros que chegam a dizer ousadamente o seguinte: “Se você realmente quer ser próspero, comece a dar os seus dízimos”. Vale dizer: “Pague os seus dízimos, e o resultado benéfico será inevitável. Se você quiser receber uma bênção, então comece a ser dizimista”. É precisamente a mesma coisa que se verifica no caso do jejum. Todos os ensinamentos dessa categoria são inteiramente antibíblicos. De fato, tais ensinamentos são piores ainda do que isso, pois detratam da glória e da majestade do próprio Deus. Por conseguinte, jamais deveríamos aceitar, praticar ou advogar a prática do jejum como um método ou como um meio para se obter diretamente qualquer bênção.

O valor do jejum é indireto, e não direto.
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Por Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Fonte Monergismo
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