quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O JEJUM [06/08]


A última coisa que precisamos considerar sob esse título é que, conforme é lógico, devemos usar de grande cautela para não confundir aquilo que é físico com aquilo que é espiritual. Por enquanto, não podemos ventilar plenamente essa questão; mas, tendo lido algumas narrativas sobre pessoas que têm posto em prática o jejum, penso que elas cruzaram a fronteira do físico para o espiritual. Elas descrevem como, após o mal-estar físico inicial, durante os três ou quatro primeiros dias, e especialmente após o quinto dia, houve um período de notável clareza mental. E algumas vezes essas pessoas descrevem tais sensações como se elas fossem de natureza inteiramente espiritual. Ora, não posso provar que isso não é espiritual; mas posso afirmar com segurança: pessoas que não são crentes, mas que experimentam períodos similares de abstinência de alimentos, invariavelmente testificam sobre resultados idênticos. 

Não se pode duvidar que o jejum, em um nível puramente físico e corporal, é algo excelente para nossa estrutura física, contanto que realizado de modo apropriado. Também não há que duvidar que um de seus resultados é uma maior perceptibilidade mental, uma maior clareza no entendimento. Não obstante, sempre devemos ter o máximo cuidado para não atribuirmos ao espiritual aquilo que pode ser explicado adequadamente por fatores físicos. Uma vez mais, temos nisso um profundo princípio geral. Isso é o que deveríamos replicar àqueles que afirmam estar envolvida alguma questão de fé ou de santidade, como também àqueles que anseiam por asseverar que se trata de algum fenômeno miraculoso, quando não há certeza absoluta a esse respeito. Prejudicamos a causa de Cristo ao atribuirmos a fatores miraculosos alguma coisa que pode ser explicada segundo um nível totalmente natural. Idêntico perigo se manifesta nessa questão do jejum — o perigo de confundirmos o espiritual com o físico.

Portanto, tendo considerado algumas maneiras erradas de se encarar a questão do jejum, examinemos agora a maneira certa. Já tive ocasião de sugeri-la. O jejum sempre deveria ser conceituado como um meio para se chegar a um fim, e não como um fim em si mesmo. O jejum só deveria ser praticado quando alguém se sentisse impelido ou fosse levado a isso por razões estritamente espirituais. O jejum não deve ser posto em prática somente porque algum segmento da igreja decretou essa prática às sextas-feiras, ou durante o período da Quaresma, ou durante qualquer outra época do ano. Não devemos jejuar mecanicamente. Antes, precisamos disciplinar nossas vidas. Deveríamos praticar esses preceitos religiosos o tempo todo, e não apenas em períodos prefixados. É mister que eu me discipline o tempo todo, mas devo jejuar somente quando sentir que estou sendo levado a isso pelo Espírito de Deus, quando eu tiver por objetivo algum elevado propósito espiritual. Jamais devo jejuar em harmonia com alguma regra ou norma, e, sim, porque sinto que há alguma necessidade peculiar de uma inteira concentração da inteireza do meu ser em Deus e na minha adoração a Ele.

Então terá chegado, de fato, a oportunidade de jejuar, e essa é a maneira certa de abordar a questão. Mas, voltemos nossa atenção para outro aspecto da questão. Tendo considerado o assunto em geral, passemos a considerá-lo na maneira como deve ser feito. A maneira errada é de chamar atenção ao fato que estamos jejuando. “Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas: porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam.” Naturalmente, quando eles jejuaram dessa forma as pessoas perceberam que eles estavam observando um período de jejum. Eles não lavaram os rostos, nem ungiram as suas cabeças. Alguns deles foram além desses fatos: eles desfiguraram seus rostos e colocaram cinzas sobre as cabeças. Queriam chamar atenção ao fato que estavam jejuando, por isso mantiveram a aparência de miseráveis, infelizes, e todos os que os olharam, disseram: “Ah! Ele está observando um período de jejum. Ele é uma pessoa de uma espiritualidade fora do comum. Olhe para ele, olhe o que ele está sacrificando e sofrendo por causa da sua devoção a Deus.” Nosso Senhor condena aquela atitude total e completamente. 

Qualquer pronunciamento do fato do que estamos fazendo, ou o chamar atenção para o mesmo, é algo que é inteiramente repreensível por Ele, como o foi no caso da oração e no ato de dar esmolas. É exatamente o mesmo princípio. Você não deve soar a trombeta proclamando as coisas que você irá fazer. Você não deve pôr-se de pé nas esquinas das ruas ou em lugares proeminentes na sinagoga quando você for orar. E, da mesma maneira, você não deve chamar atenção ao fato que está jejuando. Entretanto, não devemos pensar somente na questão do jejum. Parece-me que esse é um princípio que cobre todos os ângulos de nossa vida cristã. Ele condena, igualmente, a questão da aparência piedosa proposital, a adoção de atitudes religiosas que deem na vista. É patético observar-se como, às vezes, algumas pessoas caem nesse erro até mesmo ao entoarem hinos — erguem um pouco o rosto, em certos trechos, ou se põem nas pontas dos pés.

Todas as atitudes assim são afetadas, e é quando as nossas atitudes são assim hipócritas que se tornam tão lamentáveis. Por esta altura da exposição, posso formular uma pergunta, para a sua consideração e seu interesse? Dentro de todo esse assunto, onde cabe toda a questão das vestes do crente? Para mim, esse é um dos problemas mais atordoantes e causadores de perplexidade em relação à nossa vida cristã, pois eu mesmo vacilo entre duas opiniões óbvias. Há muita coisa em mim que não somente compreende, mas que também aprecia a prática dos primeiros “Quakers”, os quais costumavam trajar-se de maneira diferente das demais pessoas. A ideia deles era demonstrar a diferença que há entre crentes e incrédulos, entre a Igreja e o mundo — “precisamos dar uma impressão diferente”, disseram eles. Ora, diante disso, em todo crente deve haver algo que, de todo o coração, aprove tal prática com um “amém”. Sinto-me incapaz de entender o crente que queira parecer-se com um indivíduo típico, comum e mundano, em sua aparência externa, em suas vestes ou em qualquer outro particular — a loquacidade, a vulgaridade e a sensualidade. Crente nenhum deveria assemelhar-se a isso. Por conseguinte, existe algo de perfeitamente natural nessa reação do crente contra a aparência mundana e no seu desejo de ser diferente.
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Por Dr. David Martyn Lloyd-Jones
Fonte Monergismo
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