sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A Igreja em meio ao deserto

Quem é esta que sobe do deserto, e vem encostada ao seu amado? Debaixo da macieira te despertei, ali esteve tua mãe com dores; ali esteve com dores aquela que te deu à luz. Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam.” (Cânticos 8:5-7)

Este texto nos leva a própria presença do Redentor e de uma alma crente, e nos permite ouvir sua conversa.

I. A Posição da Igreja

1. No deserto – Para um filho de Deus este mundo é um deserto. Primeiramente, por tudo o que nele há. Não há aqui na terra nada permanente; o dinheiro nos parece escapar, os amigos morrem. Tudo, tudo é como a erva, e se algumas são mais bonitas ou são mais atrativas que outras, contudo, são somente como a flor da erva, algo mais ornamentado, porém, destinadas a passar logo. Quase sempre o conforto deste mundo é semelhante a abóbora de Jonas: cresce sobre sua cabeça oferecendo sombra para livrar suas aflições. Assim Jonas ficou muito satisfeito com sua abóbora. Mas Deus enviou um verme e quando o sol saiu, no dia seguinte, a abóbora secou. Do mesmo modo muitas consolações e alegrias humanas crescem sobre nossas cabeças dando-nos sua sombra e nos regozijamos com nossa abóbora; mas Deus prepara um verme que seca-a, e tais consolos perecem. Aqui não temos cidade permanente, buscamos a futura. Este mundo é um deserto para nós. “Levantai-vos, e ide-vos, porque este não é lugar de descanso; por causa da imundícia que traz destruição” [Miquéias 2:10]. Um cristão experiente olha para todas as coisas aqui como coisas perecíveis, “porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas.” (2 Coríntios 4:18). Em segundo lugar, porque tudo aqui está contaminado pelo pecado. Mesmo a própria natureza (bosques, campos, etc.) estão manchados pelo pecado. Cardos e espinhos nos falam de uma terra amaldiçoada. Sobretudo, vemos isso quando vemos as incontáveis multidões de ímpios.

“Sabemos que somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno.” [1 João 5:19]. O mundo não conhece o cristão e nem o ama. Apesar de vocês, cristãos, amarem aos outros e estarem dispostos a oferecer vossos corpos para que eles passem por cima de vocês para a glória e a salvação, ainda assim eles não ouviriam. E, sobretudo, o pecado que ainda habita em nosso coração nos oprime e faz cair sua carga pesada fazendo-nos sentir que este mundo realmente é um vale de lágrimas. Ah! Desprezadores, se não tivéssemos corpo de pecado, e que doce esperança e que gloriosa experiência é a nossa! Cantaríamos como fazem os pássaros na primavera.

2. Deixando-o – Os não-convertidos andam pelo deserto e nele perecerão. Em vez disso, todo cristão está saindo dele. Os dias de repouso, os domingos, são como os postes indicadores que apontam o caminho, ou melhor são os poços que costumamos ir todas as tardes. Todo verdadeiro crente progride. Se a ovelha está nas costas de seu pastor, é sempre dirigida para o rebanho. Com alguma ovelha, o pastor haverá de dar numerosos passos. Queridos cristãos, deveis estar avançando sempre, aproximando-se mais de Canaã, e amadurecendo mais para a glória.

No sul da Rússia, o país tem numerosas planícies, formadas de estepes escalonados. Queridos amigos, deveis avançar uma mais alta posição; deveis dar um passo a mais a cada dia e subir um passo adiante no dia do Senhor.

Durante uma viagem nunca aconteceu de se construir uma casa em um deserto. Assim, queridos amigos vocês não devem fazer um lugar de descanso aqui; estamos de viagem. Pelo contrário, todos os vossos bens deveis levar na viagem.

3. Recostada sobre seu amado – É notável observar que não há aqui nada mais, em todo deserto, senão somente a esposa e seu amado. A esposa não aparece apoiando-se sobre Ele com um braço somente e indo distraída, e por sua conta com o resto de seu corpo, senão, ela toda encostada sobre ele, assim sucede com a alma que tenha sido ensinada por Deus, se sente sozinha com Cristo neste mundo. Ela deseja recostar todo o seu peso, está recostada sobre seu Esposo. Quando uma pessoa é salva da ira, cai sobre Cristo, se deixa cair sobre Cristo, repousa totalmente sobre Seu libertador. Quando uma ovelha perdida é encontrada, ele a coloca sobre seus ombros. Você deveria alegrar-se de poder recostar-te totalmente sobre Ele, e assim deixar cair todo o teu peso sobre Cristo. Coloque o peso de todos [assuntos] temporais sobre Ele. Lance todo o cuidado de sua alma sobre Ele. Se Deus é por nós, quem será contra nós? “Os que esperam no Senhor renovarão as forças” (Isaías 40:31). A águia sobe para cima de forma tão direta que poetas a tem imaginado como mui amadora do sol. Assim acontece com a alma que aguarda a Cristo.

II. A Palavra de Cristo à Alma Sobre Ele Recostada

1. “Te despertei” – Recorda ao crente seu estado natural. Toda alma que está agora em Cristo, houve um tempo em que era como uma jovem virgem abandonada (Ezequiel 16) abandonada em meio ao campo. “Eis que em iniquidade fui formado” [Salmos 51:5]. Não se esqueça do que você era. Se em algum momento esqueceres do que tu eras, tenhas por certo que seu coração não seria reto diante Deus, estarias equivocado. Observe quando vem a contrição. Quando tu estás recostado em Cristo, então Ele lhe fala de seu pecado e miséria (Ezequiel 36:31).

2. Jesus lhe fala de seu amor: “Eu te despertei”. Ele mesmo é a macieira, colocada em todas as partes, oferecendo sombra e fruto. “Eu te despertei”. Cristo não somente nos dá sua proteção, mas nos guia até ela. “A Ele seja a glória”. Não há ninguém aqui que se sinta como uma criança, como a moça abandonada que fala Ezequiel? Volte seu olhar para Cristo. Somente Ele pode despertar sua alma e levar-lhe para debaixo da macieira.

III. A Alma Apoiada Em Cristo Clama Pela Graça Ininterrupta

“Põe-me como um selo”. Sinal e indicação segura da obra que a graça realiza em nós e que sempre desejamos mais. O sumo sacerdote da lei mosaica tinha um belo peitoral (e Cristo também o tem) adornado com joias: “faça-me uma delas” é a oração do crente. Ele tinha também uma jóia em cada ombro: “Faça-me uma joia para Ti” é também o seu pedido. As joias estavam amarradas com correntes de ouro, e o crente o está com cadeias de amor. Este desejo é um verdadeiro início da graça que opera nos crentes. Se estais satisfeitos onde agora vos encontrais, se não tenhais nenhum desejo de maior proximidade a Deus, ou à santidade, é um claro sinal que não tens nada. “Esconde-me mais intimamente, me abraça mais fortemente, guia-me Senhor, mais plenamente”.

1. O amor de Cristo é forte como a morte. – A morte é tragicamente forte. Quando vem sobre um jovem, ele se rende à ela, e o mesmo sucede quando chama a um ancião. Assim é o amor de Cristo.

2. Duro e absoluto, como o sepulcro. – A Sepultura não dará, não devolverá seus mortos, nem Cristo dará e nem permitirá que se percam os seus. Oh, peço que este amor os constranja. É ardente como as brasas do inferno, brasas de fogo que não se apagam nunca. Tu tens que fazer tua eleição, querido amigo, entre os dois fogos eternos. “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Romanos 8). Não o apagarão as muitas águas, nem tampouco poderão as aflições.

3. Não pode ser comprado – “Ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam”. Se o quiseres, deves aceitar livremente, gratuitamente tal como se te oferece. Não tens outra maneira de obtê-lo.
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Por Robert Murray M'Cheyne
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