quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Clemente de Roma - Aos Coríntios

INTRODUÇÃO

A Igreja de Deus estabelecida transitoriamente em Roma à Igreja de Deus estabelecida transitoriamente em Corinto, aos eleitos santificados na vontade de Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo: que a graça e a paz vos sejam dadas em plenitude da parte de Deus todo-poderoso, por Jesus Cristo.

CAPÍTULO I

1. Por causa das desgraças e calamidades que repentina e continuamente se abateram sobre nós, talvez estejamos a tratar tardiamente dos acontecimentos que se deram entre vós, meus caros, e daquele motim, não conveniente a eleitos de Deus, iniciado por algumas pessoas irrefletidas e audaciosas, de uma forma sórdida e ímpia, surgido de tal ponto de loucura, que o vosso nome, dantes estimado, acatado e celebrado por todos, fosse seriamente denigrido.
2. Ora, quem é que esteve entre vós e não elogiou vossa fé extraordinária e firme? Quem não admirou vossa piedade consciente e suave em Cristo? Quem não louvou a tradição da vossa hospitalidade generosa? Ou quem não vos felicitou por vossa doutrina perfeita e segura?
3. Fazíeis tudo sem distinguir as pessoas e andáveis dentro dos preceitos de Deus, sujeitando-vos aos vossos guias e respeitando devidamente os vossos anciãos. Aos jovens, transmitíeis conceitos prudentes e honrosos; às mulheres, recomendáveis para que cumprissem todos os seus deveres com consciência irrepreensível, de forma santa e pura, amando convenientemente seus maridos; e ainda as ensináveis a administrar a vida doméstica dentro das normas de obediência e da mais absoluta discrição.

CAPÍTULO II

1. Vós todos ainda possuíeis sentimentos de humildade, isentos de qualquer vaidade, mais dispostos a submeter-vos do que a submeter, dando com mais gosto do que esperando receber. Contentando-vos com o que Cristo vos dava como alimento e meditando sobre suas palavras, vós as guardáveis com tanto cuidado no coração mesmo enquanto tínheis sofrimentos pairando diante dos vossos olhos.
2. Assim, uma paz profunda e abençoada comunicava-se a todos, e um desejo insaciável de praticar o bem, assim como a plena efusão do Espírito Santo, eram produzidos em todos.
3. Repletos de uma santa vontade, em bom zelo, levantáveis as vossas mãos piedosamente para o Deus onipotente, suplicando-lhe sua misericórdia quando cometíeis involuntariamente alguma falta.
4. Dia e noite, travava-se entre vós uma luta em favor da total fraternidade, para conseguir, pela misericórdia e conscienciosidade, a salvação de todos os seus eleitos.
5. Autênticos e incorruptos vós éreis, não possuíeis malícia uns para com os outros.
6. Toda revolta e todo cisma vos causavam horror. Ficáveis entristecidos ao ver as faltas dos outros; o que os outros cometiam, tínheis como vossas próprias faltas.
7. Não havia por que vos arrepender de qualquer omissão de bondade, já que estáveis dispostos a toda boa ação.
8. Ornados por uma conduta virtuosa e honrosa, cumpríeis todas as vossas ações em seu temor. Os mandamentos e as justas normas do Senhor estavam escritos sobre as fibras dos vossos corações.

CAPÍTULO III

1. Plena reputação e prosperidade vos foi concedida, cumprindo-se a palavra da Escritura: "O bem amado comeu e bebeu, engordou e encheu-se de comida, e tornou-se desobediente".
2. Daí nasceram o ciúme e a inveja, a discórdia e a revolta, a perseguição e a desordem, a guerra e o cativeiro.
3. Desta forma, os desonrados levantaram-se contra os honrados, os desrespeitados contra os respeitados, os insensatos contra os sensatos, os jovens contra os anciãos.
4. Por isso, afastou-se para longe a justiça e a paz no exato momento em que cada um abandonou o temor de Deus e obscureceu o olhar em sua fé, não andando conforme o que prescreve os seus mandamentos, não se conduzindo da maneira digna de Cristo. Ao invés, cada qual anda segundo os desejos de seu coração perverso, admitindo em si um ciúme injusto e ímpio, ciúme este que gerou a morte para o mundo.

CAPÍTULO IV

1. Porque assim está escrito: "E aconteceu, após alguns dias, que Caim oferecesse a Deus um sacrifício com os frutos da terra e também, por sua vez, Abel oferecesse das primícias dos rebanhos e de suas gorduras.
2. E Deus olhou para Abel e seus dons, não reparando, porém, em Caim e seus sacrifícios.
3. Então Caim se entristeceu muito e seu rosto se abateu.
4. Então o Senhor falou a Caim: 'Por que te tornaste sombrio e por que teu rosto anda abatido? Acaso não pecaste? Ora, embora tua oferenda seja correta, tua escolha não o foi.
5. Acalma-te, pois a oferenda voltará a ti e poderás dispor dela'.
6. Então Caim falou a Abel, seu irmão: 'Vamos para a planície'. E ocorreu que, enquanto estavam na planície, Caim se levantou contra Abel, seu irmão, e o matou".
7. Vide, irmãos: foram o ciúme e a inveja que produziram o fratricídio.
8. Por causa do ciúme, nosso pai Jacó teve que fugir da presença de Esaú, seu irmão.
9. O ciúme fez com que José fosse perseguido à morte e acabasse preso.
10. Foi o ciúme que obrigou Moisés a fugir da presença do faraó, rei do Egito, na hora de ouvir um de seus compatriotas: quem é que te constituiu árbitro e juiz sobre nós? Não queres matar-me, da mesma forma como ontem mataste o egípcio?
11. Por causa do ciúme, Aarão e Maria foram expulsos do acampamento.
12. O ciúme conduziu Datã e Abirão vivos para o Mundo dos Mortos, por se revoltarem contra Moisés, servo de Deus.
13. Por ciúme, Davi não apenas obteve inveja da parte dos estrangeiros, como também foi perseguido por Saul, rei de Israel.

CAPÍTULO V

1. Agora, para colocarmos fim aos exemplos antigos, passemos aos atletas que nos tocam de perto; verifiquemos os nobres exemplos da nossa geração.
2. Por ciúme e inveja foram perseguidos e lutaram até à morte as nossas colunas mais elevadas e retas.
3. Fixemos nossos olhos sobre os valorosos apóstolos:
4. Pedro, que por ciúme injusto não suportou apenas uma ou duas, mas numerosas provas e, depois de assim render testemunho, chegou ao merecido lugar da glória.
5. Por ciúme e discórdia, Paulo ostentou o preço da paciência.
6. Sete vezes acorrentado, exilado, apedrejado, missionário no Oriente e no Ocidente, recebeu a ilustre glória por sua fé.
7. Ensinou a justiça no mundo todo e chegou até os confins do Ocidente, dando testemunho diante das autoridades. Assim, deixou o mundo e foi buscar o lugar santo, ele, que se tornou o mais ilustre exemplo da paciência.

CAPÍTULO VI

1. A esses homens de conduta santa, ajuntou-se grande multidão de eleitos que, por ciúme, suportaram muitos insultos e torturas, transformando-se no mais belo exemplo entre nós.
2. Por ciúmes, mulheres foram perseguidas, como Danaídes e Dircês, e sofreram afrontas cruéis e sacrílegas, percorrendo a segura trajetória da fé e obtendo o nobre prêmio, elas, que eram fracas de corpo.
3. Foi o ciúme que separou esposas e maridos, afrontando a palavra de nosso pai Adão: "Ela é osso dos meus ossos e carne da minha carne".
4. Ciúme e intriga destruíram grandes cidades e eliminaram nações poderosas.

CAPÍTULO VII

1. Caríssimos, ao vos escrever tais coisas, não apenas vos levamos à refletir, mas também advertimos a nós mesmos, já que nos encontramos no mesmo campo de batalha, nos esperando a mesma luta.
2. Abandonemos, assim, as opiniões vazias e tolas, voltando-nos para a gloriosa e santa regra da tradição.
3. Vejamos o que é belo, agradável e aceito aos olhos daquele que nos criou.
4. Fixemos a vista no sangue de Cristo e compreendamos o quanto é precioso aos olhos do Pai pois, derramando-o por nossa salvação, ofereceu-o ao mundo inteiro pela conversão.
5. Percorramos todas as gerações e aprendamos que de geração em geração o Senhor deu possibilidade de conversão àqueles que a Ele quiseram retornar.
6. Noé anunciou a conversão e os que a aceitaram se salvaram.
7. Jonas anunciou a ruína aos ninivitas; os que fizeram penitência de seus pecados, por suas súplicas, reconciliaram-se com Deus e alcançaram a salvação, ainda que fossem estranhos a Deus.

CAPÍTULO VIII

1. Sobre a conversão falaram os ministros da graça de Deus, sob inspiração do Espírito Santo.
2. Sobre a conversão também falou o próprio Senhor de tudo, ao jurar: "Tão certo como vivo - diz o Senhor - não quero a morte do pecador, mas sua conversão". E acrescentou:
3. "Convertei-vos de vosso erro, casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: 'ainda que os vossos pecados se amontoassem da terra até o céu, ainda que estes fossem mais vermelhos que a púrpura e mais negros que o saco, se vos voltardes para mim de todo coração e disserdes: 'Pai!', eu vos atenderei como se fosses um povo santo'".
4. Em outra parte, ainda fala: "Lavai e purificai-vos. Afastai dos meus olhos as maldades de vossas almas. Deixai vossas maldades e aprendei a praticar o bem; procurai a justiça, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a viúva, e então vinde para colocarmos as coisas em ordem - diz o Senhor. E se os vossos pecados forem como a púrpura, os tornarei brancos como a neve; se forem escarlate como a lã, os farei alvos. Se vos dispuserdes a me escutar, comereis os bens desta terra; porém, se não quiserdes me ouvir, a espada vos devorará - assim fala a boca do Senhor".
5. No desejo de levar a todos os seus amados a participarem da conversão, fortaleceu-vos por sua vontade toda-poderosa.

CAPÍTULO IX

1. Por isso, obedeçamos sua vontade excelsa e gloriosa. Supliquemos, prostrados, pela piedade e bondade. Recorramos à sua misericórdia. Abandonemos a vaidade, a discórdia e o ciúme que conduz à morte.
2. Fixemos o olhar naqueles que serviram com perfeição a sua magnífica glória.
3. Tomemos, por exemplo, Enoque, que, encontrado justo em sua submissão, foi arrebatado e não se encontrou indício de sua morte.
4. Noé, reconhecido fiel, recebeu o encargo de anunciar o renascimento do mundo e o Senhor salvou, por ele, os seres que entraram em harmonia na sua arca.

CAPÍTULO X

1. Abraão, proclamado "o amigo", se revelou fiel em sua submissão à palavra de Deus.
2. Por obediência, ele saiu de sua terra, deixou seus parentes e a casa do pai, saindo de uma terra pequenina, parentes sem importância, uma casa modesta, para herdar as promessas de Deus. Pois é Ele quem lhe diz:
3. "Deixa tua terra, teus parentes e a casa de teu pai, para te dirigires à terra que te mostrarei. Farei de ti um povo grande. Abençoar-te-ei e engrandecerei teu nome; serás abençoado. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti, todas as tribos da terra serão benditas".
4. Outra vez, ao se separar de Ló, falou-lhe Deus: "Levanta teus olhos e mede o espaço existente entre ti, entre o norte e o sul, leste e mar: pois toda essa terra vos darei e à tua descendência para sempre.
5. Farei tua descendência como o pó da terra: se alguém conseguir contar o pó da terra então saberá também contar a tua descendência".
6. E ainda diz: "Conduziu Deus a Abraão para fora e lhe falou: 'Levanta os olhos para o céu e conta os astros, se é que consegues contá-los. Assim será a tua descendência'. Abraão acreditou em Deus e isso lhe foi imputado como justificação".
7. Por causa da fé e da hospitalidade, foi-lhe dado um filho na velhice e, por obediência, ele o ofereceu como sacrifício a Deus sobre um dos montes que Ele lhe mostrou.

CAPÍTULO XI

1. Por causa da hospitalidade e piedade, Ló salvou-se de Sodoma, quando a terra em redor foi castigada com fogo e enxofre. Desta forma, Deus deixou claro que não abandona aqueles que esperam nele, mas que entrega os ímpios ao castigo e ao suplício.
2. Sua mulher acompanhava-o na saída, no entanto, não compartilhava sua fé e crença, transformando-se num sinal disso, a ponto de reduzir-se a mera estátua de sal até os dias de hoje, para que todos, assim, possam se inteirar que Deus pune os desconfiados e os de alma dupla para escárnio de todas as gerações.

CAPÍTULO XII

1. Por causa da fé e hospitalidade, Raabe, a prostituta, se salvou.
2. Pois quando Josué, filho de Num, mandou espiões para Jericó, o rei daquela nação ficou sabendo que haviam chegado homens para explorar a terra; então mandou homens para os prenderem e, após presos, matarem-nos.
3. Raabe, a hospitaleira, recebeu-os e os ocultou sob a palha do linho no andar superior.
4. Quando os emissários do rei se apresentaram e lhe falaram: "Aqui entraram os espiões que vieram reconhecer nosso território. O rei manda que os entregueis", ela respondeu-lhes: "De fato, os homens que procurais entraram em minha casa, porém já se retiraram e continuam seu caminho". E ela apontou-lhes em direção oposta.
5. Então ela falou aos espiões: "Disto sei e me convenci: o Senhor vos entregou esta terra porque o medo e pânico se apossaram de seus habitantes. Quando a conquistardes, salvai a mim e a casa de meu pai".
6. Os espiões responderam: "Será como falaste! Quando nos vires aproximar, reúnam-se todos os teus parentes sob o teto da tua morada e todos serão salvos; porém, aqueles que estiverem do lado de fora perecerão".
7. Como outro sinal, propuseram-lhe ainda que dependurasse algo vermelho na casa, tornando evidente que, pelo sangue do Senhor, viria a redenção para todos aqueles que cressem e esperassem em Deus.
8. Vede, amados: nesta mulher não houve apenas fé, mas também o dom da profecia.

CAPÍTULO XIII

1. Portanto, tornemo-nos humildes, irmãos, deixando de lado toda a ostentação, o orgulho, o excesso e a ira, e cumpramos o que está escrito. Pois assim diz o Espírito Santo: "Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte em sua força, nem o rico em sua riqueza, mas aquele que se gloriar, glorie no Senhor, procurando-O e praticando o direito e a justiça". Antes de mais nada, recordemos as palavras ditas por Jesus, mestre da equidade e grandiosidade.
2. Pois foi ele que disse isto: "Sede misericordiosos para obterdes misericórdia. Perdoai para que sejais perdoados. Assim como fizerdes, assim vos será feito. Da forma como derdes, assim vos será dado. Do modo como julgardes, assim sereis julgados. Como fizerdes o bem, assim vos será feito. Com a medida que medirdes, também vos será medido em troca".
3. Com este mandamento e estes preceitos, fortaleçamo-nos, para que possamos andar humildes e submissos às suas santas palavras. Pois a sagrada palavra assim reza:
4. "Para quem hei de olhar senão para o manso e pacífico e para aquele que respeita os meus oráculos?".

CAPÍTULO XIV

1. É justo e santo, irmãos, tornarmo-nos submissos a Deus do que seguirmos aqueles que se deixam guiar pela arrogância e orgulho, aos promotores do ciúme.
2. Estaremos nos expondo não a um prejuízo qualquer, mas a um grande perigo, se nos entregarmos aos caprichos dos homens, que buscam a discórdia e a revolta para nos separar da boa conduta.
3. Sejamos bondosos uns para com os outros, seguindo a misericórdia e doçura do nosso Criador.
4. Pois assim está escrito: "Os mansos habitarão a terra, os inocentes serão deixados sobre ela enquanto os pecadores serão exterminados dela".
5. E em outro ponto: "Vi o ímpio gabar-se orgulhoso como os cedros do Líbano; passei e ele não mais existia; então procurei seu lugar e não encontrei. Guarda a inocência e observa a justiça pois se consagra a memória do homem que guarda a paz".

CAPÍTULO XV

1. Unamo-nos, pois, àqueles que mantêm a paz na santidade e não aos que defendem a paz por pura hipocrisia.
2. Pois é dito em algum lugar: "Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim".
3. E novamente: "Abençoavam com a boca, mas amaldiçoavam com o coração".
4. E novamente: "Amavam-no com os lábios, mas mentiam-lhe com a língua; o coração não era sincero para com Ele, nem se mantinham fiéis à sua aliança.
5. Por isso, tornem-se mudos os lábios ímpios que proferem maldades contra os justos". E ainda: "Que o Senhor extermine todos os lábios ímpios, a língua arrogante e todos os que dizem: 'Engrandecemos a nossa língua, em nossos lábios estão o poder! Quem é o nosso Senhor?'.
6. Por causa da miséria dos pobres e dos gemidos dos desamparados, levantar-me-ei agora - diz o Senhor - e os colocarei a salvo.
7. Julgarei seu caso com isenção".

CAPÍTULO XVI

1. Porque Cristo pertence aos humildes e não aos que se elevam acima da comunidade.
2. O cetro da majestade de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, não veio com ares de arrogância e orgulho, muito embora assim pudesse ter feito, mas com humildade, como, sobre ele, o Espírito Santo anunciou. Pois disse:
3. "Senhor, quem deu crédito à nossa palavra? A quem se revelou o braço do Senhor? Nós anunciamos na presença Dele: Ele é como o escravo, como a raiz numa terra sedenta! Não possui beleza, nem brilho. Nós o vimos: não tinha beleza, nem aparência agradável. Ao invés, sua beleza era desprezível e perdia para a beleza dos homens. Um homem açoitado, trabalhado e acostumado a sofrer fraquezas; menosprezado, afastou o rosto e não contou para nada.
4. Ele carrega nossos pecados e sofre por nós. Vimos nele um homem atormentado, açoitado e humilhado.
5. Foi coberto de chagas por causa de nossos pecados; tornou-se debilitado por causa de nossos crimes; o castigo que nos educa para a paz caiu sobre ele e nós fomos curados, graças às suas chagas.
6. Todos, como ovelhas, andávamos desviados; o homem havia se desviado de sua rota.
7. O Senhor o entregou em resgate por nossos pecados e ele não abriu a boca diante dos maus tratos. Como cordeiro, foi conduzido ao matadouro e, como ovelha, na frente do tosquiador permaneceu calado, sem abrir a boca. Na humilhação foi levantada sua condenação.
8. Quem pregava sua geração já que sua vida será tirada da terra?
9. Por causa das iniquidades do meu povo, ele será levado à morte.
10. E Eu entregarei os ímpios como reféns de sua sepultura e os ricos em troca da sua morte, pois não cometeu mal algum, nem culpa foi encontrada em sua boca. Mas o Senhor quer purificá-lo de suas feridas.
11. Se oferecerdes um sacrifício por vosso pecado, vossa alma verá descendência pela longa vida.
12. O Senhor quer arrancar o tormento de sua alma, mostrar-lhe a luz e formá-lo na consciência, justificando o justo que bem serviu a muitos; ele próprio tomará sobre si os pecados deles.
13. Por isso terá multidões como herança e distribuirá os troféus dos poderosos pelo fato de sua alma ser entregue à morte e ele ter sido contado entre os ímpios.
14. E ele próprio suportou os pecados de muitos e se entregou pelos pecados deles".
15. Ele próprio ainda diz: "Eu, porém, não sou mais que um verme, não sou homem, mas último entre os homens e escória do povo.
16. Todos os que me viram, zombaram de mim, murmuraram com os lábios e moveram a cabeça em sinal de negação. Confiou no Senhor, que o livre; se o quiser bem, que o salve".
17. Vede, amados, que exemplo nos foi dado! Se o Senhor assim se humilhou, o que faremos nós que chegamos, por Ele, ao jugo de sua graça?

CAPÍTULO XVII

1. Tornemo-nos imitadores daqueles que em peles de carneiros e ovelhas percorriam a terra, anunciando a chegada de Cristo: pensemos em Elias e Eliseu, também em Ezequiel, nos profetas e, além destes, naqueles que receberam testemunho favorável.
2. Abraão recebeu magnífico testemunho, sendo proclamado 'amigo de Deus'. Mesmo assim, contemplando a glória de Deus, confessou em sua humildade: "Eu, por mim, sou terra e cinza".
3. Também sobre Jó se escreveu desta forma: "Jó, porém, era justo e irrepreensível; verdadeiro, temente a Deus e afastado de todo o mal".
4. Apesar disso, ele próprio se acusa, dizendo: "Ninguém é isento de impureza, mesmo que sua vida se resumisse a um só dia".
5. Moisés foi chamado de 'fiel servidor em toda a casa de Deus' e através de seu ministério, Deus castigou o Egito com pragas e sofrimentos. Contudo, mesmo sendo tão magnificamente exaltado, não se excedeu em palavras grandiloquentes, mas, ao revelar-lhe o oráculo da sarça, falou apenas: "Quem sou eu para me enviares? Tenho a voz fraca e dificuldade para falar".
6. E novamente assim fala: "Não passo de vapor que sai da panela quente".

CAPÍTULO XVIII

1. O que dizer de Davi e seu testemunho? A ele, Deus falou: "Descobri um homem segundo o meu coração: Davi, filho de Jessé. Em eterna misericórdia eu o ungi".
2. Mas também ele falou para Deus: "Tende piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande piedade e, segundo a tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.
3. Lava-me sempre mais de minha iniquidade e purifica-me do meu pecado, pois reconheço a minha injustiça e o meu pecado está sempre diante de mim.
4. Pequei somente contra ti e pratiquei o que é mau perante os Vossos olhos; para que estejas justificado em tuas palavras e venças, se te julgarem.
5. Eis que fui concebido na iniquidade e no pecado minha mãe me carregou em seu seio.
6. Eis que amaste a verdade e me revelaste os obscuros mistérios da tua sabedoria.
7. Hás de me aspergir com hissopo e serei purificado; hás de me lavar e tornar-me-ei mais branco do que a neve.
8. Hás de fazer-me ouvir o som da alegria e da festa e os ossos humilhados se rejubilarão.
9. Afasta o rosto de meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades.
10. Cria um coração puro em mim, ó Deus, e forma um espírito firme em meu peito.
11. Não me afastes de tua presença e não retires de mim teu santo espírito.
12. Restitui-me a alegria da tua salvação e confirma-me com um espírito magnânimo.
13. Ensinarei teu caminho aos pecadores e os ímpios hão de converter-se para ti.
14. Livra-me de ações sanguinárias, ó Deus, Deus de minha salvação.
15. Minha língua exaltará a tua justiça. Senhor, hás de me abrir a boca e meus lábios proclamarão o teu louvor.
16. Se tivesses desejado um sacrifício, te-lo-ia oferecido, porém, não te agradas com holocaustos.
17. Para Deus, sacrifício é o espírito arrependido. Deus não desprezará um coração contrito e humilhado".

CAPÍTULO XIX

1. A humildade e a modéstia de homens tão grandes e santos foram aprovados pela sua obediência. Os que receber am as palavras Dele em temor e verdade não só nos tornaram melhores como também as gerações que nos precederam.
2. Assim, após participarmos de muitas grandes e gloriosas ações, corramos para a meta de paz que nos foi proposta desde o início. Fixemos o nosso olhar sobre o Pai e Criador de todo o mundo e agarremo-nos aos seus magníficos e excelsos dons de paz e benefícios.
3. Olhemos para Ele em espírito e consideremos com os olhos da alma sua generosa vontade. Reconheçamos o quanto é indulgente para com toda a sua criação.

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