quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

“Seja feita Tua vontade assim na Terra como no Céu”


“Com esta prece, somos induzidos à negação de nós mesmos, para que Deus nos reja conforme seu arbítrio. Não só isto, mas também que, nossa mente e coração reduzidos a nada, Deus crie em nós mente nova e coração novo, para que não sintamos em nós qualquer frêmito de desejo senão a pura anuência à sua vontade. Em suma, que nós mesmos não queiramos algo propriamente nosso; ao contrário disso, que seu Espírito nos governe o coração para que, nos ensinando ele interiormente, aprendamos a amar as coisas que lhe são deleitáveis; contudo, odiando as que lhe desagradam. Do quê também procede isto: que todos e quantos sentimentos se opõem à sua vontade, a esses torne-os vãos e sem efeito.

Eis, pois, os primeiros três tópicos da Oração do Senhor, em pronunciando os quais só a glória de Deus convêm ter diante dos olhos, pondo de parte a consideração por nós mesmos, nem contemplado qualquer proveito nosso, o qual, embora nos provenha daí amplamente, contudo, aqui não deve ser buscado por nós. Mas, todas estas coisas, embora não as cogitando, nem as desejando, nem as pedindo, não obstante hajam de ocorrer a seu tempo, no entanto devem ser por nós desejadas e suplicadas. E fazer isto não é de forma alguma pouco, como por esse meio nos atestemos e professemos ser servos e filhos de Deus, quanto em nós está, nos esforçando e verdadeira e profundamente nos devotando à sua honra, o que se deve ao Senhor e Pai. Daí, aqueles que não oram com esse sentimento e empenho de promover a glória de Deus, que o nome de Deus seja santificado, que seu reino venha, que sua vontade seja feita, esses nem mesmo devem ser tidos entre os filhos e servos de Deus; e como todas essas coisas lhes acontecerão a contragosto seu, assim redundarão em confusão e ruína.”
________
João Calvino, Institutas – Livro 3 – cap XX , (Ed. Clássica)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...