quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Senhorio de Cristo

(Dezembro, 1932. Estudos nas Escrituras – “Examinais as Escrituras” João 5:39)
Nosso presente tema coloca diante de nós um mui diferente aspecto da Verdade a partir do que chamou a nossa atenção no último artigo: um mais grandioso contraste poderia ser raramente imaginado – Cristo o Servo, Cristo o Soberano; sujeito da vontade de Outro, exercitando o Seu próprio prazer imperial; e isto, ao mesmo tempo! Verdadeiramente, “E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne” (1 Timóteo 3:16). De passagem, deixe ser sinalizado que o aparente conflito entre a Justiça Divina e a Misericórdia Divina, entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana, entre os Cristãos estando “debaixo da graça” (Romanos 6:14) e ainda “debaixo da lei” (1 Coríntios 9:21), entre a salvação em si sendo tanto um “dom” (Efésios 2:8) e uma “galardão” (Colossenses 3:24), não apresentam maior paradoxo do que o acima. Nosso inegável dever é acreditar em ambos os lados do paradoxo como eles são revelados nas Escrituras, indo tão longe quanto vá as Escrituras, e deixando com Deus a perfeita consistência entre eles.
A palavra Grega para “senhor” significa alguém tendo o direito pessoal de reger, como é exercitado no direcionamento e governo da família; mais apropriadamente isto significa um mestre ou governador sobre os servos, que são obrigados a obedecê-lo. Tal um Governador e Regente é Cristo, se nós consideramos o Seu título a este domínio ou o exercício disto. Ele tem o título de universal Senhor pela criação (João 1:3) – tendo feito todas as coisas. Ele tem o direito de dispor delas; pela sustentação (Colossenses 1:16) – como o Preservador, Ele tem o direito de reger todas as coisas; pela indicação Divina (João 3:35) – todas as coisas tem sido dadas a Ele; por adequação pessoal (Colossenses 1:19).
Há um duplo “Senhorio” pertencente a Cristo: um que é natural, absoluto, inato, pertencendo-O por Ele ser simplesmente considerado como a segunda Pessoa da Trindade, a quem todas as dignidades e realezas da Divina natureza pertencem, igualmente ao Pai e ao Espírito Santo; cujo Senhorio em todos Três é encontrado sobre Sua resolução comum em fazer todas as coisas e também no governo delas. Mas há também outro “Senhorio” pertencente a Cristo, nomeadamente, um derivado e dispensatório, que é estabelecido pelos conselhos de Deus para a realização de todas as Suas obras, tanto para e a Ele; cujo Senhorio é apropriado e peculiar a Cristo, considerado como o Mediador Deus-homem, a quem tanto “todo o poder” ou “autoridade” tem sido dado a Ele “no céu e na terra” (Mateus 28: 18); “E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem” (João 5:27).
Este é o Senhorio delegado ou mediador de Cristo, o qual nós contemplaremos agora. Isto era sobre aquilo que Pedro falou quando disse: “Saiba, pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2:36). Este é um Senhorio “feito” dEle, a quem ainda, pela virtude disto, fez todas as coisas. Paulo também se referiu a isto quando ele disse: “A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo” (Hebreus 1:2): “Herdeiro” aqui é equivalente a “Senhor”, e “constituiu” a “fez”. Cristo sendo “Senhor” evidentemente significa um ofício e economia comprometidos a Ele e realizado por Ele, como “Cristo” também o faz.
Como “Senhor” Cristo tem sido designado pela Divindade para “governar todas as coisas”. Ele mesmo declarou: “Assim como lhe deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste” (João 17:2). Agora, é um sério erro supor que nosso bendito Redentor apenas assumiu este ofício após a Sua ascensão, como o é pensar que Ele cessou de ser Servo e não mais obedece no Céu. Lucas 2:11 enfaticamente declara: “Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor”, Em verdade, ali era apenas um assumir inicial deste ofício em Seu nascimento, a plena assunção e exercício disto aguardando a Sua exaltação; não obstante isto, como veremos, era real.
Se nós formos cuidadosamente através dos quarto Evangelhos, com este pensamento diante de nós, colheremos muitos vislumbres da realização de Cristo de Seu Senhorio mesmo durante os Seus dias em carne. Ouçam as Suas palavras quando o pobre leproso veio até Ele buscando cura: “E Jesus, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo” (Mateus 8:3). Vejam-nO amaldiçoando a figueira (Mateus 21:19) – ninguém poderia precisamente fazer isto, a não ser o Criador e Senhor disto. Contemplem-nO dando ordem para os ventos e ondas para se acalmarem (Mateus 8:26). Ponderem em Seu repetido: “Em verdade, em verdade, Eu vos digo”: nenhum outro jamais usou tal linguagem. Observem-nO autoritariamente ordenando a doença a sair, e o morto a ressuscitar. Vejam-nO expulsando demônios, e fazendo-os tremer diante dEle. Que demonstrações foram estas que Ele que [havendo] tomado sobre Si a forma de um Servo, não abdicou o Seu Senhorio. Apropriadamente foi o Seu nome chamado “Maravilhoso” (Isaías 9:6).
Uma e outra vez, Ele refere a Si mesmo neste caráter. Aos Seus discípulos Ele disse: “Rogai, pois, ao Senhor da seara, que mande ceifeiros para a sua seara” (Mateus 9: 38). Quando ordenou a eles que solicitassem o uso de uma jumenta e um jumentinho, Ele disse: “E, se alguém vos disser alguma coisa, direis que o Senhor os há de mister; e logo os enviará” (Mateus 21:3). Ele elogiou os Seus Apóstolos por considerarem-nO como tal: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou” (João 13: 13). O Seu comissionamento aos Seus servos evidenciou o mesmo fato (Mateus 10:5-7; 28:19). Sua implícita solicitação por obediência da parte de Seus seguidores demonstrou a mesma coisa (João 14:15). Sua posse das chaves da morte e do Inferno (Apocalipse 1:18) manifestam o Seu elevado domínio. Seu estabelecimento dos ofícios na Igreja exibem o Seu Senhorio (Efésios 4:11-12). O Seu governo sobre as igrejas demonstram o Seu soberano domínio (Apocalipse 1:3). O Seu abrir e fechar de portas aos Seus servos (Apocalipse 3:7) claramente exibem o Seu Senhorio. O galardoar aos Seus santos (Apocalipse 22:12) testemunha esta verdade. O Seu destruir de Seus inimigos (Mateus 22:13) solenemente atestará isto.
Uma palavra sobre o caráter e escopo de Seu Senhorio. Ele é “Senhor de todos” (Atos 10: 36). “Senhor sobre todos” (Romanos 10:12), e Senhor por quem todas as criaturas e coisas existem e subsistem: “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Coríntios 8:6) – “um Deus” em três Pessoas; “um Senhor” ou Mediador. Todas as coisas são de Deus originalmente, por Cristo derivadamente. Este fato será universalmente conhecido no último dia, quando “ao nome de Jesus se dobrará todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, [para glória de Deus Pai] (Filipenses 2: 10-11). Ele não é apenas um Senhor universal, mas um [Senhor] Todo-Poderoso, pois Ele “transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” (Filipenses 3:21). Ele é um Senhor imbatível, o “único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1 Timóteo 6: 15).
Nós cremos que o que foi expresso acima habilitará o leitor a discernir claramente entre a Deidade e o Senhorio de Cristo. Em Sua Pessoa Em sua Pessoa Ele é verdadeira e propriamente Deus. Mas quando Ele toma a humanidade em união com Ele mesmo, como Mediador o ofício do Senhorio universal foi delegado a Ele. Este ofício Ele assumiu em Seu nascimento, executou-o em toda a Sua vida terrena, continua a desempenhar no Céu, e o fará por toda a eternidade. Mesmo na nova terra, o Cordeiro ocupa o trono com Deus (Apocalipse 22:1). Que a Divina graça nos mova a dizer de coração: “Meu Senhor, e meu Deus” (João 20:28). Quais são as nossas responsabilidades sob um tal Senhor? Primeiro, servir a Ele somente – não o pecado e Satanás: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mateus 4:10). Ele deve ser servido sem reservas: “E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor” (Romanos 12:11). Ele deve ser servido perpetuamente: “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, ou vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Romanos 14:8). Que a Divina Graça nos capacite a atentarmos para esta exortação: “Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele” (Colossenses 2:6).
Por Arthur Walkington Pink
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