sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pedocomunhão: Um Exame Bíblico

Introdução

Nenhum estudo sobre a Ceia do Senhor estaria completo sem que se considerasse a pergunta: Quem são os participantes adequados da comunhão? Como um dos aspectos desta questão, nós iremos considerar o tema da pedocomunhão. O termo pedocomunhão refere-se ao ensino de que crianças e bebês de pais crentes, que sejam membros da igreja, têm direito de receber os elementos da Ceia do Senhor. Uma consideração sobre esta doutrina é importante por um grande número de razões:

(a) A pedocomunhão é um repúdio aos ensinos de todos os Protestantes Reformados, assim como de todos os símbolos Reformados com respeito aos participantes adequados da comunhão. Como Presbiterianos Reformados nós aderimos de todo o coração aos Padrões de Westminster, os quais são explicitamente anti-pedocomunhão. (ver Confissão de Fé, 29:1,3,7,8; Breve Catecismo P 91, 96, 97; Catecismo Maior P 170, 171, 172, 174, 175, 177). A posição Reformada padrão (brevemente afirmada) é que os elementos da Ceia do Senhor devem ser recebidos apenas pelos membros da igreja que tenham idade suficiente para se examinar a si mesmos e receber os elementos pela fé.

(b) O ensino da pedocomunhão se espalhou rapidamente, tantos nos círculos da Igreja Presbiteriana como da igreja Reformada da Holanda nos últimos trinta anos. Se a pedocomunhão é contrária à Escritura e aos Padrões Reformados (o que ela claramente é), então os crentes Reformados precisam compreender os argumentos a favor da pedocomunhão e refutá-los efetivamente, baseados na interpretação bíblica da Escritura (i.e., o método teológico-histórico-gramatical).

(c) Os argumentos favoráveis à pedocomunhão são geralmente atraentes a pessoas que, apesar de aceitarem a teologia do pacto, não possuem treinamento em hermenêutica bíblica (i.e., a ciência da interpretação), teologia e história da igreja.

(d) A doutrina da pedocomunhão freqüentemente leva ou está ligada a outros ensinamentos falsos e perigosos (e.g., ao sacramentalismo [i.e., os sacramentos operam automaticamente ou magicamente, ex opere operato], ao misticismo [e.g., à hermenêutica “criativa” de James Jordan e à rejeição da adoração Reformada em favor de conceitos de adoração da Ortodoxia Oriental], e à rejeição da distinção bíblica entre igreja visível e invisível, etc).

O Argumento Pedocomunialista

Para se refutar o ensino pedocomunialista precisa-se primeiro apresentar os argumentos básicos para a admissão de crianças e bebês à Ceia do Senhor. (A apresentação dos argumentos básicos deles deve ser justa e feita sem desnecessários ataques ad hominem e sem falácias facilmente refutáveis). Então, uma vez que a posição pedocomunialista esteja elaborada e compreendida, ela será sistematicamente refutada ao se apresentar a posição bíblica.

Os argumentos básicos a favor da pedocomunhão são simples, diretos e lógicos (se forem aceitas as falaciosas pressuposições pedocomunialistas). É a simplicidade do argumento pedocomunialista somado a uma surpreendente falta de conhecimento teológico na maioria das igrejas Reformadas de hoje que, na minha opinião, explica a popularidade desta doutrina.

O argumento pedocomunialista está enraizado na aplicação equivocada da teologia do pacto à Ceia do Senhor. Com relação ao batismo infantil, todos os crentes Reformados concordam que o batismo corresponde à circuncisão e a substitui. É por isso que é obrigatório aos filhos dos crentes receberem o sinal e selo do batismo. Os pedocomunialistas aplicam um raciocínio similar à Ceia do Senhor. Eles chamam a atenção para o fato de que a Ceia do Senhor corresponde à Páscoa do Antigo Testamento e a substitui. Uma vez que (assim nos é dito), todas as famílias do pacto, incluindo crianças e bebês participavam da refeição Pascal, não deveriam também as crianças e os bebês ter permissão para participar da mesa da comunhão? A conecção entre a Páscoa e a Ceia do Senhor é o coração da doutrina pedocomunialista. O argumento principal deles recebe apoio de outras afirmações. Eles argumentam que 1 Coríntios 11:27-30, que fala da necessidade dos participantes de discernirem o corpo do Senhor (que é um texto de prova comumente usado contra a participação de crianças e bebês na comunhão), é dirigido aos adultos e não às crianças. Enquanto que os adultos devem se examinar a si mesmos para evitar os grosseiros abusos que estavam ocorrendo em Corinto, as crianças são incapazes de se examinar a si mesmas e, sendo assim, a admoestação do apóstolo não se aplica a elas. De forma similar, enquanto que se requer uma profissão de fé confiável dos adultos antes do batismo, isto obviamente não é requerido das crianças que fazem parte do pacto. Além do mais, é feito um apelo à história da Igreja. É afirmado (erroneamente) [1] que, pelo menos nos primeiros mil anos de sua existência, a igreja da nova aliança praticou a pedocomunhão [2].

Refutação

Ainda que os argumentos centrais a favor da pedocomunhão sejam convincentes para muitas pessoas, um cuidadoso exame destes argumentos revela um grande número de problemas graves que desacreditam a teoria geral.

O argumento principal a favor da pedocomunhão fundamenta-se na ligação da Ceia do Senhor com a Páscoa Egípcia original. A Páscoa Egípcia original fala de “um cordeiro para cada família” (Êx 12:3), ou para duas famílias, se for preciso mais gente para consumir todo o cordeiro (Êx 12:4). O relato diz: “naquela noite, (eles) comerão a carne assada no fogo; com pães asmos e ervas amargas a comerão” (Êx 12:8). O “eles” provavelmente refere-se a “todo o ajuntamento da congregação de Israel” no versículo 6. Que as crianças estavam presentes fica óbvio por causa do emprego da palavra “família” e do versículo 26, onde as crianças (literalmente “filhos”) devem perguntar ao cabeça da família: “Que rito é este?” (Êx 12:26). Isto não prova cabalmente que as crianças e os bebês devem participar da Ceia do Senhor, visto que eles estavam presentes à Páscoa? Não. Nós veremos que isto não prova absolutamente nada. Há um grande número de razões pelas quais nós devemos rejeitar as afirmações pedocomunialistas com respeito à Páscoa.

Um exame atento da Bíblia mostra que qualquer tentativa de estabelecer uma correspondência bi-unívoca entre a Páscoa Egípcia original e a Ceia do Senhor não passa de uma super simplificação e é simplesmente errada. A Ceia do Senhor não substitui simplesmente a Páscoa original do Êxodo, mas também todas as refeições sacrificiais do Antigo Testamento. A Páscoa original era uma continuação de um sistema sacramental maior que a precedia. A Páscoa original também passou por um processo de esclarecimentos e adições conforme a revelação progredia. Para se conseguir provar que a comunhão de crianças e bebês é correta, tem-se que examinar a Páscoa do Êxodo fora do seu contexto bíblico geral. Também se deve considerar a Páscoa Levítica (i.e., a Páscoa permanente) a qual foi praticada por séculos e que era a Páscoa praticada nos dias de Jesus. Considere as seguintes seções pertinentes da Escritura.

(1) Em Êxodo 12:43-49 os que podem e os que não podem participar da refeição pascal são identificados. A passagem diz que nem incircuncisos, nem estrangeiros, nem servos nem forasteiros devem participar. Contudo, os servos circuncidados e estrangeiros que habitassem com o povo da aliança que quisessem guardar a Páscoa e que se submetessem à circuncisão eram admitidos.

(2) Tanto em Êxodo 23:14-19; 34:18-25 como em Deuteronômio 16:1-8 nós aprendemos que um grande número de elementos da Páscoa original eram únicos e aplicáveis exclusivamente à Páscoa Egípcia original. Em primeiro lugar, a Páscoa Egípcia foi um acontecimento que se realizou em casa (i.e., localmente). Deus mudou o local desta celebração em passagens subseqüentes para o futuro complexo do Templo (i.e., “o lugar que o Senhor, teu Deus, escolher para ali por o seu nome”). Craigie escreve: “A Páscoa original no Egito foi realizada pelas famílias em suas casas; o sangue aspergido na verga e nas ombreiras das portas proveu proteção da ira destruidora do Senhor (ver Êxodo 12:21-27). A continuação da celebração e comemoração da Páscoa, porém, era para ser realizada em um só lugar, onde o santuário do Senhor estava localizado; a mudança do evento original para a comemoração deste evento deve ter um significado importante. No Egito, os Israelitas tinham-se constituído em um grande número de famílias sob a suserania de um poder mundano. Depois do Êxodo e da instituição da aliança no Sinai, Israel tornou-se uma única nação, a família de Deus; desse modo, a Páscoa tornou-se um ato, simbolicamente falando, da grande família de Deus, celebrado em um único lugar, onde se localizava o santuário ou a casa de Deus [3]. Realmente, conforme a história da redenção progredia, um grande número de atos que os patriarcas anteriormente realizavam, como parte do culto familiar (tais como oferecer sacrifícios) foram, mais tarde, restringidos a um sacerdócio especializado. Sendo assim, aqueles que argumentam que os pais devem celebrar a Ceia do Senhor com suas próprias famílias ou que eles devem distribuir os elementos às suas crianças e bebês estão sendo, na realidade, antibíblicos.

Continuando, a ordem de se apresentar diante do Senhor (i.e., realizar uma peregrinação ao santuário central) aplicava-se unicamente aos membros masculinos da nação. Esta ordem, provavelmente, aplicava-se a todos os homens acima de 20 anos incluídos no censo (cf. Nm 1:3) assim como a meninos que tivessem sido catequizados com sucesso (Pv 22:6) e que tivessem, pelo menos, de 12 a 13 anos de idade (Lc 2:42). Esta exigência nos ensina que ou: (a) as circunstâncias da Páscoa original Egípcia foram extraordinárias e não tiveram continuidade na Páscoa permanente ou (b) que talvez as mulheres, as meninas e os meninos não catequizados não participaram da refeição pascal original. A narrativa da Páscoa original não especifica explicitamente que mulheres, meninas e meninos tenham participado da refeição. Esse ponto de vista sempre foi inferido do termo “família” ou simplesmente suposto. Os intérpretes que crêem que as mulheres e as crianças não comeram as ervas amargas e o cordeiro assado freqüentemente se valem da pergunta original: “O que vocês querem dizer com este rito?” (Êx 12:26) como evidenciando que as crianças eram observadoras e não participavam diretamente do cordeiro assado. “Êxodo 12:26 não nos dá uma evidência concreta que a própria criança participava...A pergunta, “O que vocês querem dizer com este ritual?” parece indicar que a criança [fazendo a pergunta aos participantes da refeição] não era um dos participantes... A ausência de um mandamento explícito em conecção com a Páscoa, mais provavelmente fornece suporte ao fato de que [as crianças] não estavam incluídas...” [4]. Esta interpretação tem respaldo em Josué 4:6, onde uma linguagem quase que idêntica é utilizada para descrever os filhos perguntando sobre um evento do qual eles não participaram. “Para que isto seja por sinal entre vós; e, quando vossos filhos, no futuro, perguntarem, dizendo: Que vos significam estas pedras?”. O ato é o de tirar as pedras do fundo do rio Jordão para erigir um memorial na terra prometida. As pedras foram carregadas por um homem de cada tribo (Js 4:4-5; cf. Is 3:15; Ez 18:2; At 21:13).

(3) Em Números 9:6-12 nós lemos como Deus tomou providências especiais para que os homens que estivessem impuros (e.g., por tocar num cadáver) ou em uma longa jornada (v.10) durante o período da Páscoa a celebrassem em uma outra ocasião. Ao invés de celebrar a Páscoa no seu tempo próprio no primeiro mês (Abib), estes homens poderiam celebrá-la no segundo mês (Ziv). O que é extremamente interessante com respeito a esta mudança divinamente inspirada é que ela teria pouco ou nenhum efeito sobre as mulheres que estivessem ritualmente impuras por causa da menstruação. O relato não apenas menciona só homens que estivessem impuros como ignora completamente o fato de que em qualquer dado momento do mês, aproximadamente 25% das mulheres estariam impuras por causa do seu ciclo menstrual. “Adicionalmente, uma vez que Israel observava um mês lunar, a solução que Deus deu a Moisés não daria absolutamente nenhuma solução para o problema das mulheres menstruadas. Elas continuariam impuras no décimo quarto dia do mês seguinte [5]. Além do mais, é extremamente improvável que fosse permitido a mulheres ritualmente impuras sequer preparar e servir a refeição Pascal a suas famílias.

(4) Informação adicional é dada com respeito à Páscoa em 2 Crônicas 30. Neste capítulo, o qual descreve a reforma contínua que está tendo lugar sob Ezequias, nós aprendemos que (a) as providências especiais que Deus tomou para adiar a Páscoa por um mês devido a circunstâncias especiais são usadas para adiar a Páscoa para a nação toda. (b) A Páscoa não é um ritual mecânico, mas sim um ritual que deve ser executado com corações quebrantados. O povo não devia ser como seus pais e como seus irmãos, que prevaricaram contra o Senhor (v.7), nem deveriam endurecer sua cerviz (v.8, i.e., permanecer sem arrependimento), mas deviam confiar-se ao Senhor (v.8, i.e., deviam submeter-se à autoridade de Deus). A fé em Deus e na sua palavra, que é o que leva ao arrependimento, é um pré-requisito para se participar da Páscoa.

(5) Outra passagem que derrama luz sobre a Páscoa é encontrada em Lucas 2. “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. Ora, anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a Festa da Páscoa. Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa” (v.40-42). Aqui nós aprendemos que, embora não fosse requerido às mulheres que atendessem à celebração, elas freqüentemente acompanhavam seus maridos na viagem. Gill escreve: “José era obrigado a ir três vezes por ano, assim como todos os homens em Israel, na Páscoa, Pentecostes, e Tabernáculos, Dt. 16:16. A primeira destas festas é expressa aqui, para a Festa da Páscoa, mas as mulheres não eram obrigadas a ir: pois assim é dito pelos Judeus [T. Hieros. Kiddushim, ss. 61.3.]...a Páscoa das mulheres é voluntária [6].

Nós também aprendemos neste capítulo da Escritura que Jesus foi à Festa. “Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa” (v.42). O contexto indica que o nosso Senhor havia atingido uma idade na qual os seus pais entendiam que ele tinha a sabedoria, a graça e a habilidade de participar da Páscoa (ver vs. 40,46-47). “Aos doze anos um jovem judeu tornava-se ‘um filho da Lei’, e começava a guardar suas obrigações a respeito das festas, jejuns, etc. A menção à idade implica que desde a sua apresentação Jesus não havia subido a Jerusalém” [7]. David A. Bass escreve:
Que esta era a primeira viagem de Jesus para a Páscoa é manifesto do contexto, e nisto a maioria dos comentaristas concorda. J. Jeremias, em sua obra Jerusalém nos tempos de Jesus, lança uma valiosa luz sobre este costume. Ele diz: “nós podemos concluir (de Lucas 2) que havia o costume, entre os que moravam mais distante, de trazer seus filhos quando eles alcançavam a idade de doze anos” (pg. 76). Até aos doze anos, eles permaneciam em casa. O Talmude narra o caso de um sacerdote chamado José (não o José da Sagrada Família do NT) tão cheio de zelo que trouxe o seu oikos inteiro (sua casa), crianças e tudo, à segunda Páscoa, celebrada um mês depois como provisão para aqueles que estivessem impuros na primeira ou incapacitados de guardá-la (ele não ousou trazê-los para a Páscoa no mês de Abib). A Pesshita registra que o mandaram voltar (M.Pes.IX) para que ele não estabelecesse um precedente com esse comportamento! Se, de fato, a Páscoa foi instituída para a família inteira – mulheres e crianças, como afirmam os pedocomunialistas – como José e Maria e os demais judeus piedosos estavam enganados! Mas, ao que parece, os pedocomunialistas estão aqui agora para endireitar as tradições [8].
Hendriksen escreve: “As fontes judaicas não demonstram unanimidade com respeito à idade exata em que um rapaz se tornava um ‘bar mitzvah’ (filho da lei), ou seja, quando ele atingia uma idade de maturidade e responsabilidade suficientes com respeito à guarda dos mandamentos de Deus. A opinião prevalecente tem sido que com a idade de 13 anos um rapaz devia abraçar essa responsabilidade mas, para que ele se preparasse para isso, seria sábio que seus pais o levassem ao templo mais cedo. Nós sabemos que, pelo menos quando Jesus fez 12 anos José e Maria o levaram a Jerusalém para participar do festival da Páscoa. Embora não seja explicitamente dito que era a primeira vez que ele participava, não seria esta uma inferência razoável?” [9]

É muito interessante que o Talmude Hebraico (uma antiga coletânea de comentários rabínicos (c.400 AC a 200 DC) sobre o velho Testamento) diga que os meninos tinham a sua catequização mais intensiva aos 12 anos, porque logo seriam vistos como homens e admitidos à mesa da Páscoa aos 13 anos. “Diz o Talmud: ‘Deve-se treinar os meninos um ano ou dois antes [da idade de treze anos], para que eles possam se acostumar aos rituais religiosos” [M. Yom 8:4]...o Talmud descreve as primeiras participações à mesa da Festa da Páscoa – por rapazes, filhos de Israelitas piedosos. Estas participações aconteciam logo após esses rapazes terem se tornado “Filhos da Lei”, aos treze anos de idade. Isto acontecia após terem eles feito seus votos solenes e serem, então, admitidos e confirmados como Comungantes. De acordo com o Talmud, após terem sido catequizados e, ao atingirem a puberdade –‘ diziam aos seus filhos: “Eu estou pronto para sacrificar a Páscoa por você que irá [agora] pela primeira vez a Jerusalém”’ [Pes. 7:6 e 8:1-7].[10] Embora o Talmud Judaico não seja inspirado e com freqüência não seja digno de confiança, com respeito à Páscoa os seus comentários em geral refletem as informações bíblicas que já foram consideradas (i.e., que a Páscoa era restrita aos homens e aos rapazes maduros).

(6) A instituição da Ceia do Senhor, a qual teve lugar durante uma refeição pascal, também é bastante instrutiva. Os discípulos foram a Jerusalém à noite para comer a Páscoa (Mc 14:17). A refeição tinha que ser comida em Jerusalém, onde ficava a Casa de Deus. Os relatos da ceia nos dizem que os discípulos se reclinaram à mesa. Esta posição refletia o costume judeu da época (M. Pesachim X.I). Lane observa algumas semelhanças e algumas diferenças entre uma típica refeição Pascal do primeiro século e a Ceia do Senhor. Ele escreve: “Enquanto que uma refeição normal começava com o partir do pão, nesta ocasião Jesus partiu o pão durante a ceia e depois do prato ser servido (Mc 26:18-20,22). A refeição Pascal era a ocasião em que o servir do prato precedia o partir do pão. O uso do vinho era geralmente reservado para ocasiões festivas e era característico da Páscoa (M. Pesachim X.I). Por último, a interpretação dos elementos da refeição está conforme o costume pascal onde o haggadah (ou interpretação) é uma parte integrante da refeição. A evidência acumulada apoia a afirmação feita nos versículos 12, 14 e 16 de Marcos 26, que os discípulos prepararam a refeição Pascal e que a forma externa desta foi seguida durante a ceia propriamente dita.” [11]

O que é particularmente importante para este estudo é o fato de que a esta Páscoa apenas homens adultos se fizeram presentes. Embora se possa argumentar que esta refeição Pascal era extraordinária (pois nela o nosso Senhor instituiu a primeira Ceia), não há nada em nenhum dos relatos que indique que os discípulos tenham pensado haver algo fora do comum em celebrarem a refeição Pascal separados de suas famílias. (Lembre-se, os discípulos não tinham um conhecimento antecipado de que Jesus ia instituir um novo sacramento. Eles se prepararam para uma refeição Pascal normal). A razão dos discípulos acharem tudo normal é simples. Como vimos do exame de textos pertinentes do Velho Testamento, era requerida a presença apenas dos pais e dos filhos catequizados que já houvessem alcançado a puberdade (Êx 23:14-19; 34:18-25; Dt 15:1-8; Pv 22:6). Apesar das esposas às vezes acompanharem seus maridos às três principais festas centralizadas (Lc 2:41), não há evidência de que comessem a refeição Pascal com seus maridos.[12] Nesta ceia nós vemos precisamente o que o nosso modelo vétero-testamentário nos leva a esperar. Embora Cristo tenha demonstrado um supremo amor pelas suas seguidoras e pelas crianças durante o Seu ministério terreno, para esta refeição Pascal apenas homens adultos foram convidados. A Ceia não teve lugar em Nazaré, onde morava, nem na Sua cidade adotiva, Cafarnaum, nem sequer no seu local de nascimento, em Belém, mas em Jerusalém, à vista do templo.” [13]

Antes de considerarmos a Ceia do Senhor propriamente dita, como uma ordenança da nova aliança, faz-se necessário uma revisão do ensino do Velho Testamento sobre a Páscoa. (1) A Páscoa Egípcia original teve lugar nas casas dos Hebreus. Contudo, a natureza localizada da Páscoa original foi temporária e extraordinária. Os pré-requisitos permanentes para a Páscoa são encontrados na lei de Deus e são revelados em exemplos históricos vétero-testamentários subsequentes. (2) Enquanto que os primeiros participantes da primeira Páscoa em casa não sejam especificados, o contexto imediato restringe a refeição aos judeus circuncidados, seus servos circuncidados e estrangeiros (i.e., forasteiros) que se submetessem à circuncisão (i.e., que se converteram à verdadeira religião) e que quisessem guardar a Páscoa (Êx 12:42-49). Até mesmo a celebração da Páscoa original (a qual foi única em vários aspectos) não oferece apoio à idéia da participação de crianças e bebes porque eles não seriam capazes de comer do cordeiro assado, do pão sem fermento e das ervas amargas. (3) A lei de Deus ensina que a Páscoa permanente não era para ser celebrada localmente, nas casas, e sim em Jerusalém, próximo da casa de Deus (Dt 16:2,5-7). (4) O mandamento de guardar a Páscoa em Jerusalém aplicava-se unicamente aos varões da nação israelita (i.e., meninos que tivessem sido catequizados com sucesso e houvessem atingido a puberdade [Êx 23:14-19; 34:18-25; Nm 1:3; 22:6; Pv 22:6; Lc 2:41]). (5) Deus fez uma provisão especial na lei para que os homens que estivessem ritualmente impuros ou em uma grande jornada (Nm 9:6-12) guardassem a Páscoa em uma data diferente (um mês depois da Páscoa normal). Esta provisão não adiantaria de nada para a maioria das mulheres que estivessem impuras devido ao seu ciclo menstrual. (6) Fé e arrependimento para com Deus são pré-requisitos para se participar da Páscoa (2 Cr 30:7-8). A Páscoa (assim como a Ceia do Senhor) é uma ordenança ligada à santificação progressiva e, sendo assim, requer fé e entendimento. A interpretação pedocomunialista da Páscoa pressupõe uma compreensão romanista mágica (ex opere operato) da celebração. (7) Jesus provavelmente celebrou sua primeira Páscoa com a idade de doze anos (Lc 2:41). (8) O nosso Senhor e Seus apóstolos participaram da última Páscoa sem suas famílias, em Jerusalém, de acordo com a lei de Deus (Mt 26:26-29; Lc 22:17-20; Mc 14:22-25)[14].

Outra razão pela qual a pedocomunhão é anti-bíblica é que a Ceia do Senhor não substitui apenas a Páscoa original do Êxodo, mas também substitui todos as refeições sacrificiais do Velho Testamento. Na antiga aliança havia diferentes sacrifícios, refeições sacrificiais com diferentes participantes. Por exemplo, a Páscoa Levítica incluía varões judeus circuncidados, escravos circuncidados, estrangeiros convertidos circuncidados e meninos e rapazes catequizados com sucesso (Êx 12:43-48; 23:14-19; 34:18-25; Nm 1:2, 22:6; Pv 22:6; 2 Cr 30:7-8; Lc 2:41). A refeição pactual no Monte Sinai admitia apenas os líderes varões de Israel (Moisés, Arão, Nadabe e Abiú e os setenta anciões de Israel, ver Êxodo 24:9-11). O que é particularmente interessante com respeito a esta refeição pactual é o seu paralelo com a Ceia do Senhor. Na refeição pactual de Êxodo 24, os líderes da nação (a igreja da antiga aliança) comeram na presença de Jeová. Isto ocorre no começo do que, para eles, é o estabelecimento de uma nova aliança. Do mesmo modo, o Deus encarnado (Cristo), come uma refeição pactual com os líderes da nova nação – a igreja da Nova Aliança. Isto acontece apenas horas antes da morte sacrificial de Jesus. A oferta pela culpa era para ser comida apenas pelos filhos varões de Arão, os sacerdotes (Lv 6:17-18). Esta restrição também é verdadeira para a oferta pelo pecado (ver Lv 6:25-30; 7:10), para a oferta de manjares (ver Lv 6:16-17) e para a oferta queimada (ver Lv 7:6-7). Todos estes sacrifícios apontam para o próprio Cristo, o qual é a nossa Páscoa (cf. Jo 1:29; 1 Co 5:7; Hb 10:19-22). Uma vez que a Ceia do Senhor retrata a morte de Cristo e, desse modo, substitui todos os sacrifícios sangrentos e suas refeições, é exegeticamente ilegítimo selecionar arbitrariamente o registro bíblico da refeição Pascal Egípcia como o texto primário ou único que estabelece os termos da participação à Ceia do Senhor. Colocado de uma maneira simples, apesar do fato de haver diferentes modos de admissão às diferentes refeições pactuais, a maioria ou talvez até a totalidade das quais excluíam as crianças e bebês, o relato das Páscoa original não justifica jogar fora os ensinos e práticas de toda a Reforma Protestante. Além disso (como foi anteriormente colocado), por que deveriam os crentes dar atenção à Páscoa Egípcia e assim ignorar os requerimentos da Páscoa Levítica permanente, os quais foram repetidamente apresentados na lei mosaica e praticado por vários séculos? O argumento pedocomunialista sobre a Páscoa Egípcia é arbitrário, inconsistente e ignora a progressividade da revelação.

O argumento mais forte contra a comunhão das crianças e dos bebês vem do significado teológico da própria Ceia do Senhor. O poder ou eficácia da comunhão não está contido no pão e no vinho propriamente ditos, mas, ao invés disso, depende do poder soberano do Espírito Santo, que abre as nossas mentes e corações, fazendo com que nos alimentemos, pela fé, de toda a Pessoa e Obra de Cristo. Na condição de simples pão e vinho, os símbolos divinamente ordenados não produzem nenhum efeito espiritual sobre o crente. Mas, quando o Espírito Santo ilumina a mente do participante para perceber a verdade do evangelho que esses referidos símbolos “exibem, significam e selam”, então e só então é que eles se tornam meios de santificação. Se a santificação progressiva oriunda da ordenança depende da compreensão e da fé, então a comunhão das crianças e dos bebês é inútil. Aqueles que recebem os elementos, e não entendem o que está se passando, nem têm fé, não recebem realmente nenhum benefício dos mesmos.

A doutrina da pedocomunhão logicamente se apoia numa compreensão materialística mágica, mística, irracional e supersticiosa da Ceia do Senhor. Todos os símbolos Reformados rejeitam a idéia de que o pão e o vinho tenham o poder intrínseco de mudar a alma, de que os que participam da eucaristia são automaticamente transformados (ex opera operato). Esse ponto de vista é geralmente baseado na doutrina Romanista da presença real ou transubstanciação dos elementos (i.e., o pão se torna literalmente o corpo de Cristo, o vinho se torna literalmente o sangue de Cristo). Tragicamente, a doutrina da pedocomunhão tem levado muitos Cristão professos à herética e apóstata Igreja Ortodoxa Oriental [15].

Há alguns argumentos pedocomunialistas relacionados com o significado da Ceia do Senhor que precisam ser considerados. Um argumento muito comum é que, aos filhos dos crentes, os quais são membros do pacto e da igreja visível, é negado um importante benefício do pacto se não lhes for permitido participar da comunhão. Os escritores pedocomunialistas referem-se frequentemente à compreensão confessional da comunhão como batística ou individualística, tratando as crianças da aliança como se elas fossem excomungadas. Esse argumento deve ser rejeitado por uma série de razões.

Primeiro, o argumento pedocomunialista pode ser aplicado ao próprio Deus, que não ordenou a participação das crianças e dos bebês na Páscoa Levítica permanente. As crianças, na velha aliança, eram membros do pacto e da igreja visível. Ainda assim, o próprio Jeová não viu nenhuma inconsistência em restringir a Páscoa aos homens adultos e aos seus filhos homens devidamente catequizados. Será Deus “racionalista, inconsistente, gnóstico, individualistico ou batístico, no tratamento dado às crianças e bebês debaixo da velha ordem pactual? Com certeza que não. Um ponto de vista desse é claramente blasfemo.

Segundo, o argumento pedocomunialista não leva em conta as diferenças entre o batismo e a Ceia do Senhor. O batismo é um sinal e selo da regeneração. A regeneração é uma ação de Deus no coração, na qual o indivíduo é passivo. Tudo que é requerido para um bebê ser batizado é que pelo menos um dos pais seja um Cristão professo e um membro de bom testemunho de uma igreja biblicamente constituída. O bebê não precisa compreender o que está acontecendo para receber o sinal e selo do batismo (muitos bebês até dormem durante o ato). O batismo, assim como a circuncisão, é um sinal e selo de algo que pode ter acontecido no passado (e.g., João Batista, convertidos adultos), no presente (e.g., a maioria dos bebês eleitos) ou até mesmo no futuro (e.g., os filhos dos crentes os quais Deus soberanamente escolhe regenerar algum tempo mais tarde).

A Ceia do Senhor, contudo, é diferente de várias maneiras. (1) A Ceia do Senhor não é um rito iniciatório único, como o batismo, mas sim uma ordenança repetida que, juntamente com a Palavra, é utilizada para nutrição espiritual ou santificação progressiva. Diferente da regeneração ou santificação inicial, a santificação progressiva requer conhecimento, compreensão e fé. “Embora tanto o Batismo como a Santa Ceia tenham como contexto a mesma aliança da graça, e embora ambos nos assegurem dos benefícios da remissão dos pecados, a Santa Ceia difere do Batismo a esse respeito, em que é um sinal e selo, não da incorporação e sim da maturidade e do fortalecimento da comunhão com Cristo e com Seus membros”.[16] Os comentários de Calvino a este respeito são excelentes. Ele escreve:
Além do mais, eles objetam que não há mais razões para se administrar o batismo aos bebês do que para se lhes administrar a Ceia do Senhor, a qual não lhes é permitida. Como se a Escritura não mostrasse uma grande diferença nos dois casos! Esta permissão era, na verdade, comumente dada na igreja antiga, como fica claro em Cipriano e Agostinho, mas o costume caiu, merecidamente, em desuso. Pois, se nós considerarmos o caráter singular do batismo, ele seguramente é uma entrada e um tipo de iniciação na igreja, através do qual nós somos contados entre o povo de Deus: um sinal da nossa regeneração espiritual, através da qual renascemos como filhos de Deus. Por outro lado, a Ceia é dada às pessoas mais velhas, que, tendo passado da infância, agora podem receber alimento sólido.
Esta distinção é muito claramente mostrada na Escritura. Pois, com respeito ao batismo, o Senhor não define uma idade definida. Mas Ele não age do mesmo modo dizendo que a Ceia é para que todos participem dela, mas apenas para aqueles que são capazes de discernir o corpo e o sangue do Senhor, de examinar suas próprias consciências, de proclamar a morte do Senhor, e de considerar o seu poder. Podemos desejar algo mais claro do que o ensino do apóstolo, quando ele exorta cada homem a se examinar a si mesmo, e só então comer do corpo e beber o cálice (1 Co 11:28)? O auto exame deve, portanto, vir primeiro, e não se pode esperar isto de bebês. Novamente: “pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si” (1 Co 11:29). Se apenas aqueles que são capazes de discernir corretamente a santidade do corpo de Cristo podem participar dignamente, então, por que ofereceríamos veneno em vez de comida nutritiva às nossas tenras crianças? Qual é a ordem do Senhor: “Fazei isso em memória de mim” [Lc 22:19; 1 Co 11:25]? Que outro mandamento o apóstolo deduz disso: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” [1 Co 11:26]? Que memória deste fato, pergunto eu, devemos exigir de crianças que nunca o compreenderam? Que pregação da cruz de Cristo é possível, cujo poder e benefícios suas mentes ainda não compreenderam? Nenhuma destas coisas é prescrita no batismo. Conseqüentemente, há uma grande diferença entre estes dois sinais, assim como já mencionamos haver no mesmo signo sob a Velha Aliança. A circuncisão, que sabemos corresponder ao nosso batismo, foi ordenada às crianças [Gn 17:12]. Mas a Páscoa, cujo lugar foi ocupado pela Ceia, não admitia qualquer participante indiscriminadamente, mas era adequadamente comida apenas por aqueles que tinham idade suficiente para ser capazes de perguntar sobre o seu significado [Êx 12:26]. Se os que defendem a pedocomunhão tivessem um pouco de raciocínio, estariam cegos para um ensino tão claro e óbvio? [17]
Compreender a diferença entre regeneração e santificação é importante para entender por que há diferentes pré-requisitos para o batismo e para a Ceia do Senhor. A santificação começa com a regeneração, quando Deus implanta a nova natureza espiritual no objeto da sua graça. (Os primeiros teólogos Reformados freqüentemente chamavam este primeiro passo de santificação inicial). A santificação é definitiva no sentido em que é assegurada pela nossa união com Cristo. E é progressiva no sentido que é um processo que dura toda a vida, onde o Espírito Santo subjuga o pecado e aumenta a justiça pessoal do crente ao longo do tempo. A santificação é a obra de Deus no crente. Na santificação, o Espírito Santo opera sobre o homem, tanto de uma maneira mediata como imediata. Por exemplo, na regeneração (i.e., santificação inicial), o Espírito Santo opera imediatamente; ou seja, ele opera diretamente sobre a alma do homem, implantando uma nova natureza espiritual. A regeneração não depende de nenhum meio externo. A operação do Espírito Santo diretamente sobre o coração da pessoa eleita está além da compreensão humana e é cercada de mistério. Na santificação progressiva, o Espírito Santo opera mediatamente, ou seja, através de meios. Ele opera sobre a vida consciente do homem através de meios de graça, tais como, a Palavra de Deus, a pregação da Palavra (Jo 17:17,19; 1 Pe 1:22; 2:2; Rm 10:17; etc), o sacramento da Ceia do Senhor (1 Co 11:23-26), a comunhão com Deus através da oração (Jo 14:13-14) e da prática de boas obras (Jo 15:2; Rm 5:3-4; Hb 12:5-11). A Palavra de Deus é o fundamento de cada meio de graça na santificação progressiva (Jo 17:17,19; 1 Pe 1:22; 2:2; Sl 119:9,11,15,16,33,34, etc). Uma vez que se entenda que o Espírito Santo se utiliza de meios externos no processo de santificação progressiva, então, não se pode aceitar a idéia que crianças e bebês sejam progressivamente santificados durante a comunhão, a não ser que se adote o ponto de vista de que o pão e o vinho operam automaticamente (ex opere operato); que Jesus está fisicamente presente no pão e no vinho, unido aos elementos. Francis Nigel Lee escreve: “A posição Pedo nos obrigaria a abraçar o entendimento Católico Romano ou o Luterano de como o sacramento ministra a graça... Para qualquer um oriundo de uma perspectiva Reformada, esta deve ser uma preocupação majoritária. Afinal, pessoas foram queimadas em estacas durante a Reforma Inglesa por causa do ponto de vista Reformado sobre o Sacramento. Os proponentes da Pedocomunhão apenas têm queresponder a questão de como a graça é ministrada no novo sistema deles... Na melhor das hipóteses, eles ficam com a posição Luterana; na pior, a Romana....”.[18]

Quando as diferenças entre o batismo e a Ceia do Senhor são compreendidas, vemos que um pai Cristão, que não dá o pão e o vinho a um bebê de dois meses não é mais negligente do que um patriarca judeu que só começa a catequizar verbalmente seus filhos quando estes eram capazes de compreender o significado das palavras. A única maneira pela qual um pedocomunialista pode argumentar contra esta objeção à sua posição é, ou se equivocar quanto ao significado da palavra santificação (e.g., ignorando as diferenças entre santificação inicial [i.e., ser regenerado e separado por Deus] e santificação progressiva [19], ou recorrendo a uma definição não escriturística de comunhão (i.e., uma formulação mágica ou ex opere operato). Não é por acaso que alguns dos paladinos da pedocomunhão queiram que as pessoas rejeitem as conquistas da Reforma a respeito da adoração e da justificação em favor de uma concepção mais medieval-Romana destas doutrinas.

A Ceia do Senhor é diferente do batismo porque exige a participação ativa. É ordenado aos crentes “tomai e comei” (Mt 26:26; 1 Co 11:24, Texto Majoritário). À igreja é ordenado “fazei isto” (Touto poiete). Esta ordenança envolve olhar com atenção, tocar, partir, provar, beber, e assim por diante. Molhar o dedo no vinho e colocá-lo na boca do bebê não pode ser considerado participação ativa da parte do bebê. Além disso, até mesmo a palavra “memória” (Lc 22:19; 1 Co 11:24-25) se refere a algo mais do que uma simples atividade mental da parte dos participantes. Para o pensamento hebraico, a mente está envolvida tanto no pensar como no agir, ou no pensamento que leva diretamente às ações correspondentes. No Velho Testamento, “freqüentemente ‘memória’ e ‘atividade’ andam juntas. Deus ‘recorda-se’ e ‘visita’ ou ‘perdoa’ ou ‘apaga’. Do mesmo modo, também Israel deve ‘lembra-se’ erigindo um ‘memorial’ ou através da representação do rito (cf. Êx 13:9)”.[20] Assim como a Páscoa, que é um memorial a ser mantido por Israel, a Ceia do Senhor é para ser lembrada e celebrada pela igreja da nova aliança. A igreja lembra-se através da sua fé viva, fielmente participando da ordenança da comunhão. Crianças pequenas e bebês que ainda mamam, embora estejam dentro da aliança, são incapazes da atividade mental adequada e da correspondente participação ativa! Isto não implica que elas não sejam santas ou que estejam sob disciplina; não mais do que as crianças da velha aliança que não acompanhavam seus pais e irmãos mais velhos à Páscoa em Jerusalém. Embora as crianças e os bebês não sejam maduros o suficiente para participar da Ceia do Senhor, é-lhes ainda assim permitido sentar à mesa com suas famílias. Na refeição pascal original, as crianças muito pequenas e os bebês que mamavam não podiam comer o cordeiro assado, as ervas amargas e o pão sem fermento. Contudo, elas não eram consideradas excomungadas. Elas faziam parte da casa. Elas sentaram-se à mesa, protegidas do anjo da morte pelo sangue colocado nas ombreiras e na verga das portas. A repetida acusação de que os não-pedocomunialistas estão tratando os seus filhos como se estes fossem excomungados é pura retórica ad hominem.

Os ensinamentos do Novo Testamento com respeito à Ceia do Senhor pressupõem um nível de maturidade mental da parte dos comungantes que exclui as crianças pequenas e os bebês da participação na ordenança. A mesa da comunhão envolve comemoração, a qual exige a habilidade de meditar e refletir sobre quem Jesus é e o que ele fez em nosso favor. “Lembrar de Jesus com gratidão e fé é, com certeza, a parte do homem nesta festa”.[21] Esse lembrar obviamente envolve fé na pessoa e obra de Cristo. Hogde escreve: “Em memória de mim, i.e., que eu possa ser lembrado como aquele que morreu pelos vossos pecados. Este é o objeto específico, definido da Ceia do Senhor, ao qual todos os outros fins devem estar subordinados, pois é exatamente isto que Jesus disse ao instituí-la. E é o que está implícito nestas palavras, que nós professamos fé nele como o sacrifício pelos nossos pecados; que nós o recebemos como tal; que nós reconhecemos as obrigações que recaem sobre nós como aqueles que foram redimidos pelo seu sangue; e que nós nos reconhecemos como membros constituintes da sua igreja e todos os crentes como nossos irmãos. Nós somos, portanto, como nos ensina o capítulo anterior, trazidos a uma comunhão real com Cristo e com todo o seu povo quando participamos desta ordenança crendo em tudo o que acabamos de dizer” [22]. Calvino contribui: “Se, portanto, devemos celebrar corretamente a Ceia, devemos ter em mente que é requerido de nós a profissão da nossa fé” [23].

A Ceia do Senhor envolve proclamação. “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1 Co 11:26). “É uma comemoração de sua morte, por que é, em sua própria natureza, a proclamação deste fato” [24]. O apóstolo “entende por Kataggelleinanunciar, a proclamação individual e coletiva do amor de Cristo em Seu sacrifício, e da gloriosa eficácia deste ato. Cada um de nós confessa que deve a sua salvação a esta morte sangrenta” [25].

O fato da Ceia do Senhor ser uma proclamação da morte sacrificial de Jesus leva Paulo a advertir os coríntios da necessidade do auto-exame (ver 1 Co 11:26-29). A expressão “exame” denota um exercício moral que pressupõe certo nível de maturidade mental que exclui crianças e bebês. Deve haver uma preparação apropriada antes da participação aos elementos. No contexto imediato, este exame requer discernimento, ou seja, um reconhecimento adequado do corpo do Senhor (1 Co 11:29). Tanto o contexto restrito desta passagem quanto o amplo indicam que este auto-exame se estende a três diferentes áreas interrelacionadas. Em primeiro lugar, o exame estende-se ao nosso relacionamento com o corpo de Cristo, a igreja. Este ponto fica claro no contexto imediato, que lança Paulo numa digressão sobre a Santa Ceia. Alguns dos coríntios eram culpados de tratar os crentes pobres como cidadãos de segunda classe nas festas ágape, que nessa época eram celebradas juntamente com a comunhão. (Os coríntios eram provavelmente culpados de seguir o antigo costume grego de terem diferentes lugares na casa para se assentar, assim como diferentes quantidades e qualidades de comida de acordo com o status social e econômico de cada um. Em outras palavras, os ricos comiam como glutões, enquanto que os pobres passavam fome.) A Escritura indica que este exame ético estende-se a outras áreas tais como a reconciliação com o irmão (Mt 5:23-24) e a recusa de se arrepender da imoralidade (e.g., 1 Co 5:1,5,8,9,11,13). O auto-exame requer o conhecimento das exigências éticas de Deus bem como fé na Palavra, pois de outro modo este exame seria subjetivo e legalista. Este exame, contudo, não deve ser de um introspectismo mórbido ou uma expectativa de impecabilidade, pois cada Cristão sabe que é Cristo somente e os seus méritos que o torna digno de se achegar à comunhão.

Em segundo lugar, este exame envolve o “discernir o corpo de Cristo” (1 Co 11:29) que no contexto se refere à consideração adequada do significado e implicação da salvação comprada por Cristo. Este ponto fica óbvio na citação de Paulo das palavras originais na instituição da Ceia em Lc 22:19, onde o corpo partido do Senhor é colocado diante dos nossos olhos como a expiação pelos nossos pecados. Lembrar-se da paixão de Cristo e meditar em como Jesus nos libertou da culpa, da penalidade e do poder do pecado estão ligados não apenas à natureza santificadora da ordenança, mas também aos avisos terríveis relacionados ao abuso do sacramento. Maltratar o corpo de Cristo, a igreja, através de um comportamento sem amor aos irmãos é uma negação implícita do que a Ceia indica. Um discernimento apropriado do corpo de Cristo (ou seja, da sua pessoa e obra) leva a um discernimento adequado do seu corpo, a igreja. Os dois estão intimamente ligados.

Em terceiro lugar, o contexto de 1 Coríntios 11:29 indica que a comunhão também envolve um reconhecimento correto dos elementos separados para uso sagrado. Os elementos são separados do uso comum para o santo. Devido a isso, é perverso e perigoso usá-los de uma maneira profana (e.g., se embriagar). Por esta razão muitos comentaristas vêem a conclusão deste capítulo como uma exortação para separar a comunhão da festa ágape ou refeição da fraternidade.

Mais uma vez observe que as exortações associadas à comunhão pressupõem fé, compreensão e reconhecimento da ética bíblica. É totalmente inadequado desconsiderar as implicações destas exortações argumentando que elas se aplicam apenas aos adultos porque (como observado) a santa ceia, diferente do batismo, requer fé, conhecimento e compreensão para a santificação progressiva. A tentativa de estabelecer um paralelo entre estas ordenanças não funciona sem uma completa redefinição da comunhão (i.e., uma redefinição na direção ex opere operato).

A Ceia do Senhor também envolve comunhão, que envolve a habilidade de olhar para o Salvador ressurrecto como estando espiritualmente presente com o seu povo, ativamente fortalecendo a fé deles e encorajando os seus corações. Cristo comunga e santifica as almas dos crentes pela fé. Todas as funções mentais importantes associadas à comunhão, tais como o auto-exame, a lembrança, a comunhão e o discernimento do corpo são de natureza tal que requerem fé, pensamento maduro e compreensão.

Os comentários de James S. Candish sobre este assunto são muito úteis, especialmente sua ênfase sobre a necessidade de fé. Ele escreve:
Antes de vir à mesa do Senhor, é necessário também, além do auto-exame pelo qual nós julgamos se podemos participar justamente dela, uma estimulação daquelas disposições e desejos que são requeridas para assim fazer, especialmente a fé, o arrependimento e o amor. Porque nós precisamos ter estes não como hábitos meramente, os quais podem ficar dormentes na alma por um tempo, mas como atos da alma num exercício vivo. É pela fé que nós somos, não somente preparados para nos alimentar de Cristo, mas para realmente nos alimentarmos dEle (João 6:35,47). Vir a Cristo, crer nEle, comer Sua carne e beber Seu sangue, são expressos pelo nosso Senhor como sendo uma e a mesma coisa; e tudo, igualmente, está associado com ter a vida eterna, viver por Ele, habitar nEle e Ele em nós. Se então haveremos de desfrutar esta benção na ceia do Senhor, devemos não somente ter tido fé em algum tempo do passado, ou ter a disposição habitual para confiar nEle, mas estar realmente confiando nEle no momento em que observamos a ceia. Devemos nos achegar com um verdadeiro coração em inteira certeza de fé, isto é, com plena confiança em Cristo como nosso Sumo Sacerdote. Assim, também, nosso amor deve ser um exercício real. “Fazei isto em memória de mim”, são as palavras de Cristo, fazendo da Ceia a garantia de amor entre Ele mesmo e os Seus discípulos. Mas, o próprio propósito de uma garantia ou sinal de amor é realizada num exercício vivo de amor que existe como um princípio natural na alma. Há sempre afeição filial no coração de um filho inteligente para com os seus pais, embora algumas vezes seus pensamentos possam estar necessariamente engajados com outros deveres. Mas quando ele olha para uma lembrança que ele recebeu deles, os sentimentos reais de amor filial despertam em seu seio e enchem-no de emoção. Assim, enquanto engajado nos deveres ordinários da vida, o filho de Deus pode não ter realmente sentimentos presentes de amor a Deus e a Cristo, embora estes habitem em seu coração, mas quando chamado para a mesa do Senhor, ele deve ter esses sentimentos em fresco e vívido exercício.[26]
Dado o entendimento bíblico da santa ceia, não deve ser uma surpresa descobrir que as igrejas reformadas têm sempre insistido que a participação da comunhão nunca deve ser separada da Palavra pregada. Alimentar-se da Palavra de Deus é um pré-requisito necessário para comer o corpo de Cristo. Assim, nosso Senhor proclamou: “É o Espírito que dá vida; a carne para nada aproveita. As palavras que eu vos falo são espírito, e elas são vida” (João 6:63). Não somente a Palavra pregada define os sacramentos, dando-lhes significado, mas também fortalece nossa fé. “A fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Romanos 10:17). Interessantemente, o simbolismo da própria ceia aponta para a importância da fé para o alimento ou para santificação progressiva. As figuras de comer e beber descrevem um cristão recebendo Cristo pela fé. Não estamos falando sobre um mero assentimento intelectual de certas proposições (dessa forma, a freqüente acusação do pedocomunialista é que o entendimento confessional da santa ceia é gnóstico e totalmente falso), mas um confiar somente em Jesus para salvação e para o alimento espiritual. A comunhão vividamente apresenta a união vital efetuada pela fé entre Cristo e o crente. Além do mais, o auto-exame em todos os seus aspectos é fundamentado na fé, conhecimento e compreensão da santa Palavra de Deus.

Uma vez que alguém elimina a necessidade de fé, ele também elimina a necessidade do acompanhamento da Palavra pregada. Assim, o entendimento pedocomunialista da ceia do Senhor logicamente deveria conduzir à participação da comunhão aparte da Palavra. Em outras palavras, não haveria razão para abandonar a prática romanista de dispensar os elementos aos indivíduos doentes, aparte da adoração pública. Se os elementos operam ex opere operato, aparte da fé e do entendimento, então, porque não dispensar os elementos aos indivíduos como pílulas mágicas? O pedocomunialista simplesmente ignora a abundante evidência bíblica com respeito às diferenças entre batismo e ceia do Senhor, arguindo que: (a) todas as admoestações com respeito à ceia do Senhor são direcionadas somente aos adultos; e (b) o ensino geral da teologia do pacto prova que os infantes e crianças pequenas devem ser incluídas na ceia do Senhor.

Temos provado que estes argumentos são falaciosos, notando o seguinte: (1) Infantes e bebês não participavam na festa da Páscoa permanente. Assim, a acusação que os pedocomunialistas levantam contra os cristãos que são fiéis aos símbolos reformados, pode ser levantada contra o próprio Deus. Se Deus não ordenou que infantes e bebês, que eram circuncidados, devessem participar da Páscoa Levítica, então Deus seria tão culpado de violar a interpretação dos pedocomunialistas da teologia do pacto quanto os crentes reformados. (2) Batismo e ceia do Senhor são sacramentos diferentes com requerimentos diferentes. A ceia do Senhor não é um sacramento iniciatório no qual a pessoa é passiva, mas uma ordenança de santificação progressiva. Os pedocomunialistas precisam explicar como infantes e bebês são santificados progressivamente aparte do conhecimento, compreensão e fé. Os pedocomunialistas devem redefinir a doutrina bíblica da santificação ou perverter o significado de comunhão, adotando uma formulação ex opere operato.

Um autor pedocomunialista tentou burlar o argumento da santificação progressiva arguindo que a ceia do Senhor opera ex opere operato (isto é, automaticamente), no sentido de que os recipientes recebem invariavelmente bênçãos ou maldições durante a refeição da comunhão. Paulo diz que o julgamento vem sobre aqueles recipientes que recebem o corpo e o sangue de nosso Senhor de uma maneira indigna. Este argumento levanta a questão: Como podem os infantes e bebês receberem a comunhão de uma maneira indigna, se eles não diferem sua mão direita da esquerda, se eles não tem habilidade para comunicar, maltratar as pessoas ou discernir o corpo? Um estudo da advertência de Paulo no contexto deixa abundantemente claro que esta advertência se aplica aos cristãos professos que são capazes de agir de uma maneira sem amor para com os irmãos. O argumento modificado ex opere operato ainda pressupõe um entendimento mágico e mecânico da ceia.

Outro argumento comum dos pedocomunialistas é baseado sobre o fato de que a ceia do Senhor é uma refeição de renovação do pacto. O argumento é como se segue: Se crianças batizadas são incluídas no pacto e são membros da igreja visível, então, obviamente elas têm o direito e a obrigação de participar da refeição de renovação do pacto que Jesus instituiu. Não é pecaminoso e errado tirar a eucaristia dos cordeirinhos de Cristo? Embora este argumento seja comum e tenha um apelo sentimental, ele é facilmente refutado pela Escritura. Os filhos de crentes não faziam parte do pacto e não eram contados como membros da igreja visível na economia do Antigo Testamento? Sim, certamente eram. Tinham elas então, o direito de participar de toda refeição pactual que Jeová instituía? Não. Elas não participaram da refeição pactual no Monte Sinai (Êxodo 24:9-11), nem participaram na Páscoa Levítica permanente (Êxodo 23:14-19, 34:18-25; Números 1:3; 22:6; Provérbios 22:6; 2 Crônicas 30:7-8; Lucas 2:41). Esta exclusão significa que elas foram excomungadas ou consideradas como estando fora do pacto de Deus? Não, absolutamente não. Foi o próprio Deus quem instituiu as várias refeições pactuais e determinou os recipientes apropriados. Se, sob a antiga economia, Deus pôde dizer que os infantes e crianças estavam no pacto e que, todavia, não podiam participar de certas atividades sagradas até que elas fossem capazes de entender o que estava acontecendo, então, Ele obviamente pode fazer o mesmo no Novo Testamento. Nós podemos não gostar disto. Pode não parecer lógico para nós. Contudo, devemos nos submeter ao ensino de Deus, que é refletido em nossos símbolos reformados.

Outro argumento muito comum usado pelos pedocomunialistas contra a posição reformada histórica é que a restrição de comunhão aos membros adultos da igreja e de forma bem sucedida às crianças catequizadas que tenham feito uma profissão de fé crível, é que, o entendimento confessional acontece por causa da influência da filosofia grega e do racionalismo de Calvino e dos antigos reformadores [27]. Este argumento é refutado de duas formas. Primeiro, é necessário ser apontado que esta acusação nunca é suportada por qualquer evidência real. Se os reformadores calvinistas e os teólogos reformados fossem influenciados pelo aristotelismo, neo-platonismo ou tomismo (com respeito à comunhão), então, alguém deveria facilmente ser capaz de demonstrar este fato mostrando citações, similaridades de pensamento e conexões filosóficas. Até que isto seja feito, a idéia de que os teólogos de Westminster foram influenciados pelo pensamento grego no seu entendimento da ceia do Senhor precisa ser considerar pelo que ela é: acusações que soam ser intelectuais, mas que são vazias. Segundo, qualquer pessoa que seja familiar com as confissões e teólogos reformados do passado sabem que seus argumentos eram baseados sobre a exegese da Escritura, e não sobre considerações filosóficas esotéricas. Mesmo este breve estudo tem mostrado que a ceia do Senhor do novo pacto, como entendida pelos símbolos reformados, está perfeitamente enraizada na Escritura, não na filosofia pagã. Talvez a razão desta acusação (que a visão reformada histórica é grega ou racionalista) ser feita tão freqüentemente pelos pedocomunialistas é que sua posição é inerentemente irracional. A Bíblia ensina que a santificação progressiva vem pela verdade de Deus (João 17:17; 1 Pedro 1:22; 2:2; Salmos 19:9 ss., etc.). Arguir que os infantes e bebês são santificados progressivamente por migalhas de pão, aparte de qualquer de conhecimento, é irracional. Embora Deus seja todo-poderoso e possa fazer tudo quanto Ele desejar, Ele não pode contradizer Sua própria natureza e obra.

Conclusão

Nosso estudo da pedocomunhão revelou que a doutrina da comunhão infantil é confrontada com várias dificuldades exegéticas e teológicas insuperáveis. Um exame do Antigo Testamento mostra que “o forte suporte para a pedocomunhão”, que deve ser supostamente encontrado ali, não existe. Não somente não há nada tangível no Antigo Testamento ao qual se agarrar como uma garantia divina, mas o material relevante contradiz a pedocomunhão. As ordenanças sacramentais para santificação progressiva requerem fé, conhecimento e compreensão na Antiga Aliança assim como a Ceia do Senhor na Nova Aliança.

Um breve exame de passagens tratando com a ceia do Senhor no Novo Testamento demonstra que a santa ceia é um sacramento para santificação progressiva (isto é, alimento e crescimento espiritual) e, portanto, requer discernimento do corpo do Senhor. Simplesmente não há como um protestante reformado adotar a pedocomunhão sem redefinir a doutrina da santificação. (Muitos certamente adotam a comunhão infantil por causa da ignorância de ambas as doutrinas. Se um teonomista popular ou um conferencista promovê-la, então ela deve ser correta.).

Embora o assunto da pedocomunhão possa servir como questão doutrinária menor sobre a qual não valha arguir, a adoção da comunhão infantil pelas igrejas reformadas tem grande potencial para levar as pessoas a pontos de vista supersticiosos e sacramentalistas acerca da comunhão. Estas prática pode ser e, tristemente, já tem sido um canal para o misticismo, o Romanismo e a Ortodoxia Oriental, para inúmeras pobres almas enganadas. Portanto, apeguemo-nos firmemente aos padrões doutrinários de nossa reforma pactual, não porque temos um amor pela tradição, mas porque eles (os símbolos reformados) são excelentes expressões do ensino escriturístico.
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Por Rev. Brian M. Schwertley
Notas: Link
Fonte: Monergismo
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