sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 1 [04/09]


A Soberania de Deus

Toda pessoa que pensa, rapidamente vê que alguma soberania rege sua vida. Não lhe foi perguntado se ele existiria; nem quando, onde ou como nasceria; se no século vinte, ou antes do dilúvio; se branco ou negro, se na América ou na China. É reconhecido pelos Cristãos de todas as épocas que Deus é o Criador e o Regente do universo, e que como o Criador e Regente do universo, Ele é a única fonte de todo o poder que é encontrado nas criaturas. Assim, nada pode passar à parte de Sua soberana vontade; e quando nós permanecemos nesta verdade, percebemos que ela envolve considerações que estabelecem a posição Calvinista e desaprovam a posição Arminiana.

Pelo fato de Deus ter criado tudo o que existe, Ele é o Dono absoluto e Regulador de tudo o quanto Ele fez. Ele não exerce influência meramente, mas na verdade rege o mundo que Ele criou. As nações da terra, em sua insignificância, são como grãos de poeira na balança, quando comparadas com a Sua grandeza; e muito mais cedo poderá o sol parar o seu curso, do que Deus ser impedido em Seu trabalho ou em Sua vontade. Em meio a todas as aparentes derrotas e inconsistências da vida, Deus realmente move-se adiante, em imperturbável majestade. Mesmo os atos pecaminosos dos homens podem ocorrer somente com a Sua permissão. E desde que Ele assim o permite, não relutantemente, mas voluntariamente, tudo o que venha a existir — incluindo as ações e o destino final dos homens — deve estar, de alguma forma, de acordo com os Seus desejos e propósitos. Na mesma proporção em que tal é negado, Deus é excluído do governo do mundo. Naturalmente alguns problemas aparecem aqui, os quais nós, em nosso presente estado de conhecimento não somos totalmente capazes de resolver, mas isto não é razão suficiente para rejeitar o que as Escrituras e os plenos princípios regentes da razão afirmam ser verdadeiro.

Se o poder de um soberano terreno é lei em seu reino, quanto mais ainda será a palavra de Deus no Seu reino! Por exemplo, os Cristãos sabem que o dia certamente está chegando quando, voluntária ou involuntariamente, todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. Nas Escrituras Ele nos está representado como Deus ONIPOTENTE, que se assenta no trono do domínio universal. Ele sabe e conhece desde o princípio o resultado e os meios a serem utilizados para que tal resultado seja atingido. Ele é capaz de fazer por nós excedentemente e abundantemente mais do que nós pedimos ou mesmo pensamos. A categoria do impossível não existe para Ele “porque para Deus tudo é possível”, [Marcos 10:27 ; também Mateus 19:26]. Isto, contudo, não significa que Deus tenha poder para fazer o que seja contra a Sua natureza, “operar contradições”. É impossível para Deus mentir, ou fazer alguma coisa que seja moralmente errada. Ele não pode fazer com que dois mais dois não totalize quatro, nem pode Ele fazer uma roda girar e permanecer parada ao mesmo tempo. Sua onipotência é tão certamente uma garantia de que o curso do mundo será conforme o Seu plano, quanto a Sua santidade é uma garantia de que todas as Suas obras serão certas.

Não somente no Novo Testamento, mas também no Velho testamento, nós podemos encontrar esta doutrina da soberania de Deus consistentemente desenvolvida. O Dr. Warfield diz, com relação à doutrina, como ela pode ser encontrada ali: “O Todo Poderoso Criador de tudo está representado igualmente como o irresistível Regente de tudo o quanto Ele fez” ; “Senhor se assenta como rei, perpetuamente” [Salmo 29:10]. Ele segue dizendo que os escritores raramente utilizam expressões tais como “está chovendo”; eles instintivamente falam de Deus mandando chuva, etc. As possibilidades de acidente e acaso são excluídas e mesmo “que sorte fosse uma maneira de obter a decisão de Deus” (como em Josué 7:16 ; 14:2 : 18:6 ; I Samuel 10:19 ; Jonas 1:7). Todas coisas, sem exceção, realmente são dispostas por Ele, e a Sua vontade é a responsável por tudo quanto acontece. Céu e terra, e tudo o que neles existe, são instrumentos através dos quais Ele opera os Seus propósitos. Natureza, nações, e destino de indivíduos apresentam igualmente em todas as suas mudanças a transcrição dos Seus propósitos. Os ventos são Seus mensageiros, a flama flamejante é Sua serva; cada fenômeno natural, Seus atos; prosperidade, a Sua dádiva, e se calamidade cai sobre o homem, é o Senhor quem o permitiu (veja Amós 3:5,6 ; Lamentações 3:33-38 ; Isaías 47:7 ; Eclesiastes 7:14 ; Isaías 54:16). É Ele quem direciona os passos dos homens, saibam eles para onde ou não; Ele quem ergue e derruba; quem abre e endurece o coração; e cria os pensamentos e intenções da alma”. [1]

E não devemos crer que Deus pode converter um pecador quando Lhe convier? Não pode o Todo-Poderoso, o onipotente Soberano do universo, mudar o caráter das criaturas que Ele fez? Ele transformou a água em vinho em Caná, e converteu Saulo na estrada para Damasco. O leproso disse: “Senhor, se quiseres podes purificar-me”, e com uma palavra, sua lepra foi curada. Deus é capaz de limpar tanto a alma como o corpo, e nós cremos que se Ele decidir fazê-lo, Ele pode levantar uma multidão de ministros Cristãos, missionários e obreiros de várias categorias, que o mundo seria convertido num espaço de tempo muito curto. Se Ele realmente se propusesse a salvar todos os homens, Ele poderia enviar legiões de anjos para instruí-los e para fazer prodígios sobrenaturais na terra. Ele mesmo poderia operar maravilhas no coração de cada pessoa para que ninguém se perdesse. Desde que o mal existe somente por Sua permissão, Ele poderia, caso Ele escolhesse, simplesmente eliminar a sua existência. Seu poder, nesse respeito, foi mostrado pelo trabalho do anjo destruidor que em uma noite massacrou todos os primogênitos dos Egípcios (Êxodo 12:29), e que em outra noite executou 185.000 do exército Assírio (II Reis 19:35). Foi mostrado quando a terra abriu-se e engoliu Corá e seus aliados rebeldes (Números 16:31-33). Ananias e Safira foram atingidos (Atos 5:1-11); Herodes foi atingido e morreu de uma maneira horrível (Atos 12:23). Deus não perdeu nem um pouco do Seu poder, e é altamente desonroso para Ele supor que Ele estaria disputando com a raça humana fazendo o melhor que Ele pode, mas incapaz de atingir os Seus propósitos.

Embora a soberania de Deus seja universal e absoluta, não é a soberania de poder cego. É aliada à sabedoria infinita, santidade e amor. E esta doutrina, quando apropriadamente compreendida, é muito confortadora e digna de confiança. Quem não preferiria ter toda a sua vida nas mãos de um Deus de poder, sabedoria, santidade e amor infinitos, do que ter de deixá-la à mercê do acaso, do destino ou de irrevogável lei natural, ou de ego pervertido e sem visão? Aqueles que rejeitam a soberania de Deus deveriam considerar que outras alternativas existem.

Como, então, são controladas e guiadas as ações do universo? “De acordo com o propósito dAquele que desenvolveu todas as coisas de conforme a Sua vontade”. A tendência atual é de deixar de lado doutrinas de Soberania Divina e Predestinação, de modo a obter espaço para a autocracia da vontade humana. O orgulho e a presunção do homem, de um lado, e a sua ignorância e depravação do outro, levam-no a excluir Deus e a exaltar-se a si próprio tanto quanto ele é capaz; e estas duas tendências combinadas afastam a maioria da raça humana para longe do Calvinismo.

A idéia Arminiana que assume que as intenções sérias do caminho de Deus sejam em alguns casos no mínimo anuladas, e que o homem, que não é somente uma criatura, mas uma criatura singular, possa exercer poder de veto sobre os planos de Deus Todo-Poderoso, está diretamente em confronto com a idéia Bíblica de Sua imensurável exaltação, pela qual Ele está separado de toda a fraqueza da humanidade. Que os planos de homens não sejam sempre executados é devido a uma falta de poder, ou uma falta de sabedoria; mas desde que Deus é ilimitado nestes e em todos os outros recursos, nenhuma emergência imprevista pode ocorrer, e para Ele causas para mudanças não existem. Supor que os Seus planos falhem e que Ele Se esforce para nada, é reduzi-Lo ao nível de Suas criaturas.

PROVAS NAS ESCRITURAS

Daniel 4:35: “...ele opera no exército do céu e entre os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?”.

Jeremias 32:17: “Ah! Senhor Deus! És tu que fizeste os céus e a terra com o teu grande poder, e com o teu braço estendido! Nada há que te seja demasiado difícil!”.

Mateus 28:18: “E, aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra”.

Efésios 1:22: “E sujeitou todas as coisas debaixo dos seus pés, e para ser cabeça sobre todas as coisas o deu à igreja”.

Efésios 1:11: “nEle, digo, no qual também fomos feitos herança, havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade”.

Isaías 14:24,27: “[24] - O Senhor dos exércitos jurou, dizendo: Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará. [27] Pois o Senhor dos exércitos o determinou, e quem o invalidará? A sua mão estendida está, e quem a fará voltar atrás?”.

Isaías 46:9 - 11: “[9] - Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro; eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; [10] que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho subsistirá, e farei toda a minha vontade; [11] chamando do oriente uma ave de rapina, e dum país remoto o homem do meu conselho; sim, eu o disse, e eu o cumprirei; formei esse propósito, e também o executarei”.

Gênesis 18:14: “Há, porventura, alguma coisa difícil ao Senhor?...”.

Jó 42:2: “Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus propósitos pode ser impedido”.
Salmo 115:3: “Mas o nosso Deus está nos céus; ele faz tudo o que lhe apraz”.

Salmo 135:6: “Tudo o que o Senhor deseja ele o faz, no céu e na terra, nos mares e em todos os abismos”.

Isaías 55:11: “Assim será a palavra que sair da minha boca: ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a enviei”.

Romanos 9:20,21: “[20] Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?[21] Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso?”.


NOTAS:
[1] - Doutrinas Bíblicas, art. Predestinação, p. 09.

Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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