segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As Institutas da Religião Cristã e Judas Iscariotes

Extratos sobre Judas Iscariotes 

Institutas III Cap. XXII, 7 

Entretanto, o fato de Cristo, em outro lugar, incluir Judas entre os eleitos, quando era um diabo [Jo 6.70], isto se refere apenas ao ofício apostólico, o qual, ainda que seja um nítido espelho do favor de Deus, como em sua pessoa tantas vezes Paulo reconhece, contudo não contém em si a esperança da salvação eterna. Portanto, como exercesse ele perfidamente o apostolado, Judas veio a ser pior que um diabo; aqueles, contudo, a quem Cristo uma vez enxertou em seu corpo, não deixará perecer a nenhum deles [Jo 10.28], porque, ao preservar-lhes a salvação, cumprirá o que foi prometido, isto é, manifestará o poder de Deus que “é maior do que tudo [Jo 10.29]. Ora, o que diz em outro lugar: “Pai, nenhum dos que me deste pereceu, exceto o filho da perdição” [Jo 17.12], ainda que seja uma maneira difícil de falar, contudo não contém nenhuma ambiguidade. 

A síntese é: Deus, por uma adoção graciosa, cria aqueles a quem quer ter por filhos. A causa intrínseca disto, porém, está nele próprio, porque não leva em conta nada mais além de seu secreto e singular beneplácito. 

Institutas III Cap. XXIV, 7

Mas, acontece diariamente que aqueles que pareciam ser de Cristo, de novo dele decaiam e se arrojem à perdição. Com efeito, nessa mesma passagem onde afirma que ninguém pereceu dentre aqueles que lhe foram dados pelo Pai, contudo, excetua o filho da perdição [Jo 17.12]. Certamente que isto é verdadeiro, mas igualmente verdadeiro é também que os tais nunca foram unidos a Cristo com aquela confiança de coração mercê da qual afirmo que a certeza da eleição se nos faz firme. “Saíram de nós”, diz João, “mas não eram de nós, pois se fossem de nós, ficariam conosco” [1Jo 2.19]. Tampouco nego que tenham com os eleitos sinais afins de vocação, mas de modo algum lhes concedo que tenham esse arrimo infalível da eleição o qual prescrevo que os fiéis busquem na palavra do evangelho. Portanto, que semelhantes exemplos não nos alterem nem nos impeçam de descansar confiados na promessa do Senhor, quando diz que o Pai lhe deu a todos aqueles que com verdadeira fé o recebem, dos quais nem um sequer perecerá por ser ele seu guardião e pastor [Jo 3.16; 6.39]. 

Institutas III, Cap. XXIV, 9 

Esta é a mesma causa de que Cristo faz a exceção há pouco referida, onde diz que “ninguém pereceu, exceto o filho da perdição” [Jo 17.12]. E de fato é uma expressão imprópria, todavia, muito longe de obscura, pois ele não era contado entre as ovelhas de Cristo porque o era realmente, mas porque ocupava seu lugar. Que de fato o Senhor declara em outro lugar que ele foi escolhido para si, com os apóstolos, isto se refere somente ao ministério. “Não vos escolhi”, diz ele, “em número de doze? Contudo, um dentre vós é um diabo” [Jo 6.70]. Isto é, o havia escolhido para o cargo de Apóstolo. Quando, porém, fala da eleição para a salvação, o mantém longe do número dos eleitos: “Não falo a respeito de todos; eu sei a quem escolhi” [Jo 13.18]. Se alguém confunde o termo eleição em ambas essas modalidades de passagens, se enleará miseravelmente; se as distingue, nada é mais livre de embaraço. 

Por isso, Gregório se expressa péssima e perniciosamente, quando ensina que temos consciência apenas de nossa vocação, mas que somos incertos de nossa eleição, donde a todos exorta ao temor e tremor, usando ainda deste argumento porque, ainda que saibamos o que somos hoje, entretanto, o que haveremos de ser, nos é desconhecido. Mas com sua maneira de proceder dá a entender bem claramente quanto se enganou nesta matéria. Porque fazia a eleição depender dos méritos das obras, tinha motivo mais que suficiente para abater os ânimos; firmá-los não podia, porque não os transferia de si próprio para a confiança da bondade divina. Daqui os fiéis podem ter algum sabor daquilo que já discutimos no início: a predestinação, se for entendida corretamente, não produz a convulsão da fé, mas, antes, sua melhor confirmação. Entretanto, tampouco nego que às vezes o Espírito acomoda a linguagem à medida de nosso senso, como quando diz: “No conselho secreto de meu povo não estarão e na lista de meus servos não serão escritos” [Ez 13.9]. Como se Deus começasse a inscrever no livro da vida aqueles a quem conta no número dos seus, quando, no entanto, sabemos que o próprio Cristo o atesta [Lc 10.20], dizendo que os nomes dos filhos de Deus foram escritos no livro da vida desde o início [Fp 4.3]. Com estas palavras, porém, simplesmente se assinala a exclusão daqueles que pareceram principais entre os eleitos, como lemos no Salmo: “Sejam apagados do livro da vida e com os justos não sejam inscritos” [Sl 69.28]. 

Institutas III, Cap. XXV, 6 

Enquanto isso, uma vez que a Escritura por toda parte nos ordena que dependamos da expectativa da vinda de Cristo e que prorroga a coroa de glória até esse momento, estejamos contentes com estes limites divinamente prescritos: uma vez desincumbidas de sua militância, as almas dos piedosos passa para o bem-aventurado descanso, onde, com feliz alegria, aguardam desfrutar da glória prometida, e assim todas as coisas sejam tidas em suspenso todas até que Cristo apareça como Redentor. Os réprobos, porém, não há dúvida de que têm a mesma sorte que é prescrita a Judas e aos diabos, a saber, são mantidos atados por cadeias, até que sejam arrastados ao suplício a que foram destinados [Jd 6]. 

Institutas IV, Cap. XIV, 15 

A isto se refere também aquela distinção entre o sacramento e a realidade do sacramento, a qual Agostinho também estabelece. Porque não significa apenas que aí se contêm a figura e a realidade, mas que de tal maneira estão unidas, que não podem separar-se, e também que na própria união convém distinguir-se sempre a realidade do sinal, para que não transfiramos a um o que é do outro. Agostinho fala da separação quando escreve que somente nos eleitos os sacramentos efetuam o que figuram. De igual modo, quando escreve a respeito dos judeus: “Embora os sacramentos fossem comuns a todos, a graça não era comum, a qual é o poder dos sacramentos. Assim também a lavagem da regeneração [Tt 3.5] é agora comum a todos, mas a própria graça, pela qual os membros de Cristo são regenerados juntamente com seu Cabeça, não é comum a todos.” De novo, em outro lugar, a respeito da Ceia do Senhor: “Nós também recebemos hoje o alimento visível; mas uma coisa é o sacramento, outra o poder do sacramento. Por que é que muitos se aproximam do altar, e lhes serve de condenação o que ali recebem? Ora, inclusive o bocado do Senhor foi veneno para Judas, não porque recebeu o mal, mas porque, sendo mau, recebeu mal o bem.” Pouco depois: “O sacramento desta matéria, isto é, da unidade da corpo e do sangue de Cristo, é preparado na mesa do Senhor em alguma parte, diariamente; em outra parte, em intervalos, em certos dias; e alguns tomam dela para vida, e outros, para perdição. 

Institutas VI, Cap. XVII, 34 

E para que melhor se remova a dúvida, depois de haver dito que este pão requer a fome do homem interior, Agostinho acrescenta: “Moisés, Arão, Finéas e muitos outros que comeram o maná agradaram a Deus. Por quê? Porque entendiam o alimento visível espiritualmente, apeteciam espiritualmente, degustavam espiritualmente, de sorte que fossem saciados espiritualmente. Ora, também nós hoje temos recebido o alimento visível, mas uma coisa é o sacramento; outra, a virtude do sacramento.” Pouco depois: “E mediante isto, aquele que não permanece em Cristo, e em quem Cristo não permanece, indubitavelmente nem ingere espiritualmente sua carne, nem espiritualmente bebe seu sangue, ainda que triture carnal e visivelmente com os dentes o sinal do corpo e do sangue.” Ouvimos de novo que o sinal visível se contrapõe à ingestão espiritual, com que se refuta este erro: que o corpo invisível de Cristo seja deveras comido sacramentalmente, se bem que não espiritualmente. Ouvimos também que nada se concede dele aos profanos e impuros, senão o recebimento visível do sinal. Daqui seu célebre dito de que os demais discípulos ingeriram o Pão Senhor; Judas, porém, o Pão do Senhor, com que claramente exclui aos incrédulos da participação de seu corpo e sangue. Tampouco a outro propósito visa ao que diz em outra parte: “Por que te maravilhas se a Judas foi dado o pão de Cristo, mediante o qual se fizesse servo do Diabo, quando vês, em contrário, que a Paulo foi dado um mensageiro do Diabo, através do qual fosse aperfeiçoado em Cristo” [2Co 12.7]?

"Extratos das Institutas da Religião Cristã", Ed. Cultura Cristã.


Por João Calvino
Fonte: Projeto Os Puritanos
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