terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Religião do Coração


Auto exame

Nós vivemos num tempo de peculiar perigo espiritual. Talvez nunca, desde que o mundo começou, tenha havido uma tal imensidão de profissão de religião meramente exterior, como existe nos dias atuais. Uma proporção dolorosamente grande de todas as congregações da terra consiste de pessoas não convertidas que nada conhecem sobre uma religião do coração e nunca confessam Cristo nas suas vidas diárias. Milhares daqueles que estão seguindo pregadores e amontoando-se para ouvir sermões não são melhores do que címbalos que retinem, sem uma gota de cristianismo verdadeiro em casa.

As vidas de muitos crentes professos, receio, não são melhores do que um trajeto contínuo de embriaguez espiritual. Estão frequentemente sedentos de novos excitamentos, e parecem pouco se importar com significados e consequências, contanto que consigam a excitação almejada. Toda pregação parece ser igual para eles. E são aparentemente incapazes de ver diferenças, contanto que ouçam o que é talentoso e sintam seus ouvidos deleitados. Muitos destes professos, ah!, comportam-se como jovens recrutas que mostram quão pouco profundas são suas raízes e conhecem pouco seus próprios corações — pelo barulho, exterioridade, prontidão para contradizer e censurar cristãos antigos e confiança presunçosa em sua própria imaginária sanidade e sabedoria recente. Certamente, em tempos como estes há grande necessidade de auto-exame.

Deixe-me perguntar se você está tentando satisfazer sua consciência com uma religião meramente formal. Milhares há que estão naufragando neste rochedo. Como os fariseus de outrora, eles têm em alta conta o cristianismo exterior, enquanto que a parte interior, espiritual, está totalmente negligenciada. Eles são cuidadosos em assistir a todos os trabalhos do seu lugar de adoração e são regulares em usar seus ritos e ordenanças. Frequentemente eles são vivos partidários da sua própria igreja ou congregação e estão prontos para brigar com qualquer um que não concorde com eles. Contudo, o tempo todo, não existe coração em sua religião. Qualquer um que os conheça intimamente pode ver até de olhos fechados que sua afeição está colocada nas coisas de baixo, não nas coisas de cima, e que estão tentando compor a falta de cristianismo interior com uma ênfase excessiva na forma exterior.

Esta religião formal não lhes faz bem realmente. Eles não estão verdadeiramente satisfeitos. Começando pelo lado errado, fazendo primeiro as coisas exteriores, eles nada conhecem da paz e alegria interiores, passando suas vidas num constante esforço, secretamente conscientes de que existe algo errado, embora não saibam porque quando cristãos professos desta espécie são tão dolorosamente numerosos, a ninguém causa admiração se eu pressiono sobre eles a suprema importância de um íntimo auto-exame; se você ama a vida e o Senhor, não se contente com a casca e o invólucro da religião. Meios de graça e ritos de religião são úteis a seu modo e Deus raramente faz algo para a Sua Igreja sem eles. Mas, tenhamos cuidado para não nos chocarmos contra o mesmo farol que mostra o canal para o porto.

Deixe-me perguntar: “Você conhece algo, por experiência, de conversão a Deus?”. Sem conversão não há salvação. Nós somos por natureza tão fracos, tão mundanos, tão propensos ao que é terreno, tão inclinados ao pecado, que sem uma profunda mudança não podemos servir a Deus em vida nem usufruí-lo após a morte. Um senso de pecado e profunda aversão a ele, fé em Cristo e amor por Ele, deleite na santidade e desejo ardente por mais santidade, amor ao povo de Deus e aborrecimento das coisas do mundo — são estes sinais e evidências que sempre acompanham a conversão.

União na Comunhão

Você conhece alguma coisa do viver a vida de comunhão habitual com Cristo? Por comunhão eu quero dizer aquele hábito de permanecer em Cristo, do qual nosso Senhor fala como algo essencial para a fertilidade cristã (Jo 15.4-8). Fica entendido que União com Cristo é uma coisa e Comunhão é outra. Não pode haver qualquer comunhão com o Senhor Jesus sem primeiro haver união; infelizmente porém, frequentemente há união mas, depois, pouca comunhão. União é o privilégio comum de todos quantos sentem seus pecados e, verdadeiramente se arrependem e vêm a Cristo pela fé, e são aceitos, perdoados e justificados por Ele. Receia-se que muitos crentes jamais ultrapassam este estágio. Em parte por ignorância, em parte por preguiça, em parte por medo dos homens, em parte por um secreto amor ao mundo, em parte por bloqueio de algum pecado não mortificado, eles contentam-se com uma fé pequena, uma pequena esperança, uma pequena paz e uma pequena medida de santidade. E continuam vivendo suas vidas nestas condições — duvidando, fraquejando, vacilando e dando frutos apenas “a trinta” até o fim de seus dias.

Comunhão com Cristo é o privilégio daqueles que estão continuamente procurando crescer na graça, fé, conhecimento e conformidade à imagem e mente de Cristo em todas as coisas. União é o botão, mas comunhão é a flor; união é o bebê, mas comunhão é o homem forte. Aquele que tem união com Cristo faz bem, mas aquele que goza comunhão com Ele faz muitíssimo melhor. Ambos têm uma vida, uma esperança, uma semente celestial em seus corações — um Senhor, um Salvador, um Espírito Santo, um lar eterno, mas, união não é tão bom quanto comunhão. O grande segredo da comunhão com Cristo é estar continuamente “vivendo a vida de fé n’Ele” e retirar d’Ele, cada hora, a provisão que cada hora requer. “Para mim”, diz Paulo, “o viver é Cristo”, “Eu vivo; não mais eu mas, Cristo vive em mim” (Fp 1.21 Gl2.20).

Comunhão como esta é o segredo de permanente “alegria e paz em crer”, o que eminentes santos como Bradford e Rutherford possuíram. A comunhão genuína é o segredo de vitórias esplêndidas que homens como aqueles tiveram sobre o pecado e o medo da morte. A comunhão com Cristo é uma coisa comum? Ah! E’ muito rara, realmente! A maioria dos Cristãos parece satisfeita com a mais pobre e elementar posse da justificação pela fé e uma dúzia de outras doutrinas, e continuam duvidando, manquejando, lamentando ao longo do caminho para o céu; e pouco experimentam do senso de vitória ou júbilo. As igrejas estão cheias de crentes fracos, sem poder e sem influência, salvos no fim das contas, “como que pelo fogo” porém jamais abalando o mundo e nada sabendo sobre uma “entrada abundante” (1Co 3.15; 29 e 1.11). Em “O Peregrino” os personagens Desânimo, Débil e Muito-Medroso alcançaram a Cidade Celeste, como também Valente Pela-Verdade e Grande-Coração, mas, certamente, não com a mesma comodidade. Acho que assim é com muitos em nossos dias. Leitor, em matéria de comunhão com Cristo eu pergunto: ”como está a sua alma?”

J.C.Ryle (1816-1900) serviu como bispo de Liverpool, Inglaterra, durante vinte anos e foi um ávido escritor da teologia Reformada, prática.

Algumas diferenças entre Justificação e Santificação
1. A substância da justificação é a justiça de Cristo. A substância da santificação é a graça de Cristo.
2. Justificação muda nosso estado. Santificação muda coração e vida.
3. Na justificação, a justiça de Cristo é imputada aos crentes. Na santificação a graça de Cristo é infundida neles.
4. A justificação é perfeita. A santificação é imperfeita
5. A justiça da justificação é meritória. A graça da santificação não é
6. A justificação é igual para todos os crentes. A santificação é desigual.
7. A justificação diz respeito a nossas pessoas. A santificação diz respeito a nossas naturezas.
8. A justificação revela o amor de Deus em nosso perdão e aceitação. A santificação expressa nosso amor em Seu serviço e na obediência.
9. A justificação liberta os crentes da lei como um pacto. A santificação os prende à lei como uma regra de vida.
10.A justificação jorra principalmente do ofício sacerdotal de Cristo. A santificação jorra principalmente do seu ofício real.
11. A justificação dá aos crentes um título para o céu. A santificação prepara-os para o céu.
12. A justificação é ato de Deus removendo a culpa e declarando os crentes justos. A santificação é obra de Deus removendo sua iniquidade e fazendo-os justos.
13. A justificação estabelece-nos no favor de Deus. A santificação conforma-nos à sua imagem.
14. A justificação é pela graça por meio da fé somente. A santificação é pela graça por meio da fé e boas obras.
15. O sujeito da justificação é uma pecador crente. O sujeito da santificação é um pecador justificado.
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