domingo, 2 de março de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 1 [08/09]


As Escrituras são a Autoridade Final Pela Qual os Sistemas Serão Julgados

Em todos assuntos polêmicos entre Cristãos as Escrituras são aceitas como o mais privilegiado foro para dirimir quaisquer controvérsias. Historicamente elas têm sido a autoridade comum da Cristandade. Cremos que elas contêm um sistema completo e harmonioso de doutrina; que todas as suas partes são consistentes entre si, e que é nosso dever procurar tal consistência através de uma investigação cuidadosa do significado de passagens em particular.1

"A Palavra de Deus," diz Warburtons, com relação a estas doutrinas, "é o tribunal maior e final ante o qual elas devem ser trazidas, e pelo qual elas devem ser julgadas. E a verdade ou a falsidade de nossa crença é medida pela correspondente concordância com, ou pela correspondente diversidade, da forma de doutrina que é mostrada pela inerrante revelação que Deus nos tem dado através de sua Palavra inspirada. É por este critério que o Calvinismo deve ser julgado. É por este critério que o Arminianismo ou o Pelagianismo deve ser julgado. É por este critério, e somente por este critério, que qualquer forma de crença, seja ela religiosa ou científica, deve ser julgada; e se não falarem de acordo com esta Palavra, é porque não há luz nelas . . . Nos cremos na inspiração total, verbal da Palavra de Deus. Nós sustentamo-la como sendo a única autoridade em todos os assuntos e concordamos que nenhuma doutrina pode ser verdadeira, ou essencial, se não encontrar lugar nesta Palavra."2

É óbvio que a verdade ou a falsidade desta profunda doutrina da Predestinação pode ser decidida somente por revelação divina. Nenhuma pessoa, agindo meramente por suas observações e julgamentos, pode saber quais são os princípios básicos do plano que Deus está seguindo. Especulação filosófica e todo o arrazoado abstrato devem ser mantidos suspensos até que tenhamos primeiro conhecido o testemunho da Bíblia, - e quando o conhecermos, devemos humildemente submetermo-nos. Tomara tivéssemos mais pessoas com aquele mesmo nobre caráter dos Bereanos, que procuravam nas Escrituras diariamente, buscando conhecimento sobre todas as coisas.

Com relação a cada uma das doutrinas discutidas neste livre, apresentamos uma grande massa de evidência Bíblica - evidência em ambos aspectos, direto e inferente - evidência que não pode ser respondida ou explicada - evidência em muito superior em peso, extensão e explicitude, a qualquer que possa ser arrolada em contrapartida. A Bíblia desdobra um esquema de redenção que é Calvinista do princípio ao fim, e todas as doutrinas são ensinadas com clareza tão inescapável que a questão é aceita por todos aqueles que aceitam a Bíblia como a Palavra de Deus. Estas doutrinas são estabelecidas da maneira mais impressionante, e o modo não erudito, a naturalidade e simplicidade com que são transmitidas fazem-nas ainda mais impressionantes. Se alguém nos perguntasse, "Existe alguma estrela nos céus?", nossa resposta seria, "Os céus estão cheios de estrelas"[Salmo 8:3, 4]. Ou novamente, "Há peixes no mar?", nossa resposta seria "O mar está cheio de peixes"[Salmo 104:25, 27]. Ou de novo, "Há alguma árvore na floresta?", nós ainda uma vez mais replicaríamos, "A floresta está cheia de árvores". E de maneira similar, se fôssemos inquiridos com a pergunta, "A doutrina da Predestinação está na Bíblia?", nossa resposta deveria ser, "A Bíblia está cheia dela, desde o Gênesis até o Apocalipse."

Que doutrinas tais como a da Trindade, a da Divindade de Cristo, a da personalidade do Espírito Santo, a da pecaminosidade do homem, e a da realidade de castigos futuros, são Bíblicas, não é negado nem por aqueles que recusam-se a admiti-las como doutrinas verdadeiras. É comum para os racionalistas e os assim chamados altos críticos admitir que os apóstolos creram e ensinaram as doutrinas evangélicas e Calvinistas, e que com a aplicação direta das regras de exegese os seus testemunhos não admitem qualquer outra interpretação; mas é claro, aquelas pessoas não se consideram passíveis de submissão à autoridade de qualquer apóstolo. Por exemplo, eles referem-se à crença dos apóstolos nestas doutrinas, como sendo "as noções erradas de uma era bruta e incivilizada." Contudo, isto não diminui e valor dos seus testemunhos, de que tais passagens Bíblicas, se criticamente interpretadas, não podem ter nenhum outro significado. Mais ainda, preferiríamos dizer com os racionalistas que as Escrituras ensinam estas doutrinas mas que as Escrituras não são autoridade para nós, do que professar a aceitação dos ensinamentos deles enquanto inteligentemente evadindo a força do seu argumento.

Mostraremos agora que não há grande dificuldade - nem a necessidade de pressão ou de violência indevida - para consistentemente interpretar com a nossa doutrina as passagens que são apresentadas pelos Arminianos, enquanto que é impossível, sem a mais injustificável e não natural força e pressão, reconciliar a doutrinas deles com as nossas passagens. Mais ainda, nossa doutrina não poderia ser derrotada meramente por trazer-se à baila outras passagens que contradiriam aquelas passagens, pois tanto, no máximo nos daria uma Bíblia contraditória consigo mesma.

À luz da exegese moderna, fica bem evidente que as objeções que são levantadas contra a Teologia Reformada são mais emocionais ou filosóficas, do que exegéticas. E tivessem os homens se contentado em interpretar a linguagem das Escrituras de acordo com os princípios reconhecidos de interpretação, a fé dos Cristãos poderia ser muito mais harmoniosa. Nossos oponentes, diz Cunningham, são capazes de "discutir com alguma plausibilidade somente quando estão lidando com passagens isoladas, ou classes particulares de passagens, mas mantendo fora do escopo, ou relegando a posição de fundo, a massa geral de evidências Bíblicas que versam sobre o tema como um todo. Quando temos uma visão conjunta de todo o corpo dos ensinamentos Bíblicos, manifestamente entendidos a mostrar-nos a natureza, as causas e conseqüências da morte de Cristo, tanto literal como figuradamente - vemo-los combinados entre si - e razoavelmente compreendemos o que eles estão propostos a ensinar-nos, não há terreno propício para dúvida quanto às conclusões gerais que deveríamos sentirmo-nos compelidos a adotar."3

Tanto quanto nos atermos ao princípio Reformado de que as Escrituras Sagradas têm de ser aceitas como a única autoridade em matéria de doutrina Calvinista, o sistema se manterá como o único que adequadamente versa sobre Deus, homem e redenção.

Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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