quinta-feira, 13 de março de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 2 [01/05]


Os Cinco Pontos do Calvinismo

1. Apresentação da Doutrina. 2. A Extensão e os Efeitos do Pecado Original. 3. Os Defeitos das Virtudes Comuns do Homem. 4. A Queda do Homem. 5. O Princípio Representativo. 6. A Bondade e a Severidade de Deus. 7. Provas nas Escrituras.

1. Apresentação da Doutrina

Na Confissão de Fé de Westminster, a doutrina da Depravação Total (Incapacidade Total) é apresentada como se segue: "O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu pr6prio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso." {Referências: Rm. 5:6 e 8:7-8; Jo 15:5; Rm. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; Jo 6:44, 65; I Co. 2:14; Tt 3:3-5.} 1

Paulo, Agostinho, e Calvino têm seus pontos de partida no fato de que toda a humanidade pecou em Adão, e que todos os homens estão "sem desculpas", conforme Romanos 2:1 [Portanto, és inescusável, ó homem, qualquer que sejas, quando julgas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu que julgas, praticas o mesmo.] Vez após outra Paulo nos diz que estamos mortos em pecados e transgressões, alienados de Deus, e sem defesa. Ao escrever aos Cristãos de Éfeso, ele lembrou-os que antes que haverem recebido o Evangelho, eles estavam "...naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo."[Efésios 2:12]. Ali notamos a "ênfase de cinco partes", à medida em que ele acumula frase sobre frase, para reforçar esta verdade.

2. A Extensão e Os Efeitos do Pecado Original

A doutrina da Depravação Total (Incapacidade Total), que declara que os homens estão mortos no pecado, não quer dizer que todos os homens são igualmente maus, nem que algum homem seja tão mau quanto ele pudesse sê-lo, ou ainda que algum homem seja totalmente destituído de virtude, nem que a natureza humana seja má em si mesma, ou que o espírito do homem seja inativo, e muito menos ainda significa que o corpo esteja morto. O que significa na verdade é que desde a queda o homem permanece sob a maldição do pecado, que ele agiu conforme princípios errados, e que ele é completamente incapaz de amar a Deus ou de fazer o que seja para merecer salvação. Sua corrupção é extensa, mas não necessariamente intensa.

É neste sentido que os homens, desde a queda, são "...totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal,..."[CFW, cap. VI, par. iv]. O homem possui uma tendência fixa do mal contra Deus, e instintivamente e voluntariamente volta-se para o mal. Ele é um estrangeiro por nascimento, e um pecador por escolha. A incapacidade (depravação) sob a qual ele se move não é incapacidade de exercer poder de escolha, mas uma incapacidade de estar pronto a fazer escolhas santas. E é esta fase que levou Lutero a declarar que "Livre arbítrio é um termo vazio, cuja realidade está perdida. E uma liberdade perdida, de acordo com a minha gramática, não é liberdade." 2 Em matérias pertinentes à sua salvação, o homem ainda não regenerado, obstinado, não tem então liberdade para escolher entre o bem e o mal, mas somente escolher entre mal maior ou menor, o que não é propriamente livre arbítrio. O fato de o homem caído ainda ser capaz de certos atos moralmente bons em si próprios não prova que ele possa agir para o mérito da salvação, pois seus motivos podem estar completamente errados.

O homem é um agente livre mas ele não pode começar (originar, criar) o amor de Deus em seu coração. Sua vontade é livre no sentido de que não seja controlada por nenhuma força fora de si próprio. Como o pássaro com uma asa quebrada é "livre" para voar mas não é capaz de faze-lo, assim o homem natural é livre para vir a amar a Deus, mas é incapaz. Como ele pode arrepender-se do seu pecado quando ele O ama? Como ele pode vir a Deus quando ele O odeia? Esta é a incapacidade da vontade sob a qual o homem vive. Jesus disse, "O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais a as trevas que a luz; porque as suas obras eram más."[João 3:19]; e de novo, "Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida."[João 5:40]. A ruína do homem está na sua própria e perversa vontade. Ele não pode vir, porque ele não quer. Auxílio bastante é providenciado, se ele somente quisesse aceitá-lo. Paulo nos diz, "Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar."[Romanos 8:7].

Assumir que porque o homem tem a capacidade para amar ele então tem também capacidade para amar a Deus, é tão sábio quanto assumir que a água, já que tem a capacidade de fluir, tem portanto a capacidade de fluir morro acima; ou raciocinar que porque o homem tem o poder de não atirar-se precipício abaixo, ele portanto tem igual poder para transportar-se desde o fundo do precipício até o topo.

O homem caído não vê nada desejável no "Aquele que é igualmente amável, o mais junto em dez mil." Ele pode admirar a Jesus como um homem, mas ele não quer ter nada a ver como Ele como Deus, e ele resiste contra a santa influência do Espírito Santo, com todas as suas forças. Pecado e não retidão, tem sido seu elemento natural, de maneira que ele não tem o desejo da salvação.

A natureza caída do homem cria uma mais obtusa cegueira, estupidez, e oposição relativa às coisas de Deus. Sua vontade está sob o controle de uma compreensão obscura, a qual troca o doce pelo amargo, e o amargo pelo doce, o bem pelo mal e o mal pelo bem. Tanto quanto refere-se à suas relações com Deus, ele quer somente o que é mal, embora sua vontade seja livre. Espontaneidade e escravidão realmente coexistem.

Em outras palavras, o homem caído é tão moralmente cego que uniformemente prefere e escolhe o mal ao invés do bem, como o fazem os anjos caídos e os demônios. Quando o Cristão é completamente santificado ele alcança um estado no qual ele uniformemente prefere e escolhe o bem, como fazem os santos anjos. Ambos estados são consistentes com liberdade e responsabilidade de agentes morais. Ainda quando o homem caído age assim uniformemente ele nunca é compelido a pecar, mas ele o faz livremente e regozija-se em faze-lo. Suas disposições e desejos são tão inclinadas, e ele age sabendo e desejando, desde a espontânea batida do seu coração. Esta tendência ou apetite natural pelo mal é característica da natureza caída e corrompida do homem, de modo que Jó diz, ele "...bebe a iniquidade como água!"[15;16]

Nós lemos que "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente."[I Co 2:14]. Nós estamos perdidos quanto a entender como alguém pode entender, tem uma vista plena desta passagem da Bíblia e ainda assim enfrentar a doutrina da capacidade humana. O homem em seu estado natural não pode ao menos ver o reino de Deus, muito menos adentrar nele. Uma pessoa inculta pode olhar para uma linda obra de arte como um mero objeto, sem contudo poder apreciar a sua excelência. Ele pode ver figuras numa equação matemática complexa, mas estas figuras terão nenhum significado para ele. Cavalos e bois podem são capazes de enxergar o mesmo maravilhoso por do sol, ou qualquer outro fenômeno da natureza que o homem vê, mas no entanto são cegos quanto à beleza artística dos mesmos. Assim é quando o Evangelho da cruz é apresentado para aquela pessoa ainda não resgatada. Ela pode ter um conhecimento intelectual dos fatos e das doutrinas da Bíblia, mas não terá todo o discernimento espiritual da excelência daqueles fatos e doutrinas, e não encontrará nenhum contentamento ou alegria neles. O mesmo Cristo é, para alguns, sem a forma ou a beleza e santidade para que O desejassem; para outros, Ele é o Príncipe da vida e o Salvador do mundo, Deus manifesto na carne, a quem é impossível não adorar, amar e obedecer.

Esta depravação total (incapacidade total), contudo, advém não meramente de uma natureza moral pervertida, mas também da ignorância. Paulo escreveu que os gentios "...que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração,"[Efésios 4:17,18]. E antes disso, havia escrito, "Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus."[I Coríntios 1:18]. Quando ele escreveu das coisas que "...Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam." ele fez referência, não às glórias do estado celestial como comumente suposto, mas às realidades espirituais nesta vida, as quais não podem ser vistas por uma mente ainda não resgatada, como é plenamente apresentado no verso seguinte: "Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus." [I Coríntios 2:9,10]. Numa ocasião Jesus disse, "...Ninguém conhece o filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o filho o quiser revelar."[Mateus 11:27]. Neste versículo nós somos plenamente advertidos que o homem em sua natureza não resgatada, não iluminada, não conhece a Deus em nenhum sentido que valha o nome, e que o Filho é soberano para escolher quem deverá adentrar a este salvador conhecimento de Deus.

O homem caído tem falta do poder espiritual do discernimento. Sua razão ou compreensão é cega, e o gosto e sentidos são pervertidos. E desde que este estado de memória é inato, como uma condição da natureza do homem, está além do poder da vontade de muda-lo. Antes, controla ambos, as afeições e as vontades. O efeito da regeneração é claramente ensinado na divina comissão que Paulo recebeu quando de sua conversão, momento em que a ele foi dito que ele estaria sendo enviado aos gentios "para lhe abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus,..."[Atos 26:18]

Jesus ensinou a mesma verdade sob um figuração diferente, quando ele disse aos Fariseus, "Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? È porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. Vós sois do Diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. ..."[João 8:43,44]. Eles não podiam compreender, nem mesmo ouvir as Suas palavras em qualquer maneira inteligente. Para eles, as Suas palavras eram somente tolices, loucuras; e eles O acusaram de estar possuído pelo demônio (vv 48, 52). Somente os Seus discípulos podiam saber a verdade (vv 31,32); os fariseus eram crianças do Diabo (vv 42,44) e conservos do pecado (v 34), embora pensassem ser livres (v 33).

Em outra ocasião, Jesus ensinou que uma árvore boa não poderia dar frutos ruins, nem tampouco uma árvore ruim poderia dar frutos bons. E que nesta similaridade árvores representam homens bons e maus, o que significa senão que uma classe de homens é governada por um conjunto de princípios básico, enquanto outra classe é governada por outro conjunto? Os frutos desses dois tipos de árvores são os atos, palavras, pensamentos dos quais, se bons, procedem de uma boa natureza, enquanto que se ruins procedem de uma natureza má. É impossível, então, proceder da mesma raiz frutos de diferentes tipos. E é assim que negamos no homem a existência de um poder que possa agir de qualquer uma das formas, no terreno lógico que ambos, virtude e vício não podem proceder da mesma condição moral do agente. E afirmamos que as ações humanas que referem-se a Deus procedem tanto de uma condição moral que necessariamente produz boas ações como de uma condição moral a qual produz necessariamente ações más.

Na Epístola de Paulo aos Efésios, ele assim declara. Antes da manifestação do Espírito de Deus, cada alma jaz morda em transgressões e pecados. Agora, será com certeza admitido que estar morto, e estar morto no pecado, é evidência clara e positiva de que não há nem atitude nem poder suficientes para a realização de nenhuma ação espiritual. Se um homem estivesse morto, no sentido físico e natural, estaria imediatamente claro que não haveria qualquer possibilidade de tal homem ser capaz de performar quaisquer ações físicas. Um cadáver não pode agir de qualquer forma que seja, e se alguém dissesse o contrário, seria tomado como estando fora de si. Se um homem está morto espiritualmente, portanto, é certo e igualmente evidente que ele não é capaz de performar quaisquer ações espirituais, e destarte a doutrina da incapacidade moral do homem baseia-se em forte evidência Bíblica." 3

"No princípio de que nenhuma coisa pura não pode proceder do que é impuro [Jó 14:4], todos que são nascidos de mulher são declarados serem 'abomináveis e corruptos', aos quais somente a natureza iníqua é atrativa [Jó 15:14-16]. De igual forma, para tornarem-se pecadores, os homens não esperam até a idade da razão. Antes, eles são apóstatas desde o útero, e logo que nascem desviam-se, proferindo mentiras [Salmo 58:3]; são até mesmo moldados em iniquidade, e concebidos em pecado [Salmo 51:5]. A propensão de seus corações é para o mal desde a sua infância [Gênesis 8:21], e é do coração que todas as fontes da vida procedem [Provérbios 4:23, 20:11]. Atos de pecado são portanto a expressão do coração natural, o qual é enganoso mais que todas as coisas e excedentemente corrupto [Jeremias 17:9]." 4

Ezequiel apresenta a mesma verdade em linguagem gráfica, e nos dá o quadro do bebê indefeso que estava ainda banhado em seu próprio sangue e deixado para morrer, mas que o Senhor graciosamente encontrou e cuidou dele [capítulo16].

Esta doutrina do pecado original supõe que os homens caídos têm o mesmo tipo e o mesmo grau de liberdade para pecar sob a influência de uma natureza corrupta, como a têm o Diabo e os demônios; ou que os santos anjos têm para agir corretamente sob a influência de uma natureza santa. Quer dizer, homens e anjos agem conforme a suas naturezas. Como os santos e os anjos são confirmados em santidade, -- ou seja, possuídos por uma natureza que é completamente inclinada à retidão e aversão ao pecado, -- também a natureza do homem caído e de demônios é tal que eles não são capazes de um único ato com motivos justos para de Deus. Daí a necessidade de que Deus soberanamente mude o caráter da pessoa, em regeneração.

A cerimônia de circuncisão do bebê recém nascido de acordo com o Velho Testamento, e a da purificação da mãe, foram concebidas para ensinar que o homem vem ao mundo em pecado desde que a natureza do homem é corrupta na própria origem. Paulo escreveu esta verdade em uma outra e, se possível, ainda mais forte em II Coríntios 4:3,4: "[3] Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, é naqueles que se perdem que está encoberto, [4] nos quais o deus deste século {pelo qual ele refere-se ao Diabo} cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus." Resumindo, então, os homens caídos, sem a intervenção do Espírito de Deus, estão sob o governo de satã. São por ele levados cativos, à sua vontade [II Timóteo 2:26]. Então, enquanto este "valente, totalmente armado" não for molestado pelo que é "mais forte que ele" ele mantém seu reino em paz e seus cativos prontamente o obedecem. Mas quando o "mais forte que ele" o derrotou, arrancou a sua armadura, e libertou uma parte dos seus cativos [Lucas 11:21, 22]. Agora Deus exerce o direito de libertar aqueles que Ele deseja; e todos Cristãos nascidos de novo são pecadores resgatados daquele reino.

A Bíblia declara que o homem caído é cativo, um escravo do pecado, e completamente incapaz de livrar-se da servidão e da corrupção. Ele é incapaz de entender, e muito menos de fazer, as coisas de Deus. Há o que pode ser chamado de "a liberdade da escravidão", --um estado no qual o cativo é livre somente para fazer a vontade de seu mestre, neste caso o pecado. Foi a isso que Jesus se referiu quando disse, "...todo aquele que comete pecado é escravo do pecado."[João 8:34]

E sendo tal a profundeza da corrupção do homem, é completamente além de suas próprias forças livrar-se dela. Sua única esperança de uma mudança de vida está portanto em uma mudança de coração, mudança esta que lhe é oferecida pelo poder soberano e re-criador do Espírito Santo, que opera quando e onde e como Lhe apraz. Da mesma forma que alguém pode tentar bombear água para fora de um barco que afunda, sem contudo reparar o furo por onde entra a água, assim também regenerar um pecador sem a mudança interior. Ou então, a um Etíope seria possível mudar sua pele, ou o leopardo suas pintas, se a quem está acostumado a fazer o mal corrigir os seus próprios caminhos. Esta transferência da morte espiritual para a vida espiritual chamamos "regeneração". A ela a Bíblia se refere com vários termos: "regeneração", "vivificação", "chamado das trevas para a luz", "renovação", "trocar um coração de pedra por um coração de carne", etc., operações estas que são exclusivamente obras do Espírito Santo. Como resultado de tal mudança, o homem passa a enxergar a verdade e alegremente a aceita. Seus instintos e impulsos íntimos são transferidos para o lado da lei, obediência à qual passa a ser a expressão espontânea de sua natureza. É dito que a Regeneração é operada por aquele mesmo poder sobrenatural que Deus operou em Cristo quanto O ressuscitou de entre os mortos [Efésios 1:18-20]. O homem não possui o poder para sua própria regeneração, e até que ocorra aquela mudança interior, ele não pode ser convencido da verdade do Evangelho por qualquer tipo de testemunho, de exemplo externo. "Se não ouvirem a Moisés e os profetas, não serão persuadidos se alguém levantar de entre os mortos."

3. OS DEFEITOS NAS VIRTUDES COMUNS DO HOMEM

O homem não regenerado pode, através de graça comum, amar a sua família, bem como ser um bom cidadão. Ele pode doar um milhão de dólares para a construção de um hospital, mas não é capaz de dar nem mesmo um copo d'água a um discípulo no nome de Jesus. Se alcoólatra, ele pode abster-se da bebida por propósitos altruístas, mas não pode faze-lo como resultado de amor a Deus. Todas as suas virtudes comuns ou boas obras têm um defeito fatal no qual seus motivos, que o motivam a faze-las, não são para glorificar a Deus, -- um defeito tão vital que atira às sombras qualquer elemento de bondade do homem. Não importa quão boas as obras possam ser em si mesmas, pois desde que o que as faz não esteja em harmonia com Deus, nenhuma delas são espiritualmente aceitáveis. Além do mais, as boas obras do não regenerado não tem fundações estáveis, pois sua natureza ainda não foi mudada: e tão natural e certo quanto a porca lavada volta a revolver-se na lama, ele cedo ou tarde retornará aos seus maus caminhos.

Na esfera moral, é regra que a moralidade do homem deve preceder a moralidade da ação. Alguém pode falar em línguas de homens e de anjos; ainda assim se ele não tiver o princípio interior de amor para com Deus, ele será como um címbalo, ou como o tocar de um sino. Ele poderá doar todos os seus bens para os pobres, e poderá dar o seu próprio corpo para ser queimado; porém se a ele faltar aquele princípio interior, não se lhe resultará em nada. Como seres humanos nós sabemos que uma ação rendida a nós (qualquer que sejam os motivos altruístas) por alguém que no coração seja nosso inimigo, não merece nosso amor aprovação. A explicação para o testemunho Bíblico de que "Sem fé é impossível agradar a Deus" é esta, que a fé é a fundação, o alicerce de todas as demais virtudes, e nada é aceitável para Deus se não fluir dos sentimentos certos.

Um ato moral deve ser julgado pelo padrão de amor a Deus, amor que é, como se fosse, a alma de todas as demais virtudes, e o qual é derramado sobre nós somente por intermédio da graça. Agostinho não negou a existência de outras virtudes, tais como moderação, honestidade, generosidade, que constituem um certo mérito entre os homens; mas ele traçou uma linha de separação entre estas e as graças Cristãs específicas (fé, amor e gratidão a Deus, etc.), as quais somente são boas no sentido estrito da palavra, e as quais somente têm valor perante Deus. Esta distinção é plenamente ilustrada num exemplo dado por W. D. Smith. Diz ele: "Num bando de piratas podemos encontrar muitas coisas que em si mesmas são boas. Embora eles estejam em rebelião feroz contra as leis do governo, eles têm suas próprias leis e regras, às quais obedecem estritamente. Encontramos entre eles coragem e fidelidade, com muitas outras coisas que os recomendará como piratas. Eles também são capazes de fazer muitas coisas, que as leis do governo exigem, mas elas não são feitas porque o governo as exigiu, mas em obediência às suas próprias leis. Por exemplo, o governo requer honestidade e eles podem ser estritamente honestos, uns para com os outros, em suas transações e na divisão de qualquer espólio. Mesmo assim, com relação ao governo e ao princípio geral, sua vida toda é exemplo da mais feroz desonestidade. Agora, é certo, que enquanto eles continuam em sua rebelião, não podem fazer nada que os recomende ao governo como cidadãos. Seu primeiro passo deve ser desistir da rebelião, reconhecer sua obediência ao governo e procurar por misericórdia. Então todos os homens, no seu estado natural, são rebeldes contra Deus, e mesmo que eles possam fazer muitas coisas que a lei de Deus exige, e as quais os recomendará como homens, ainda nada é feito, com referência a Deus e à Sua lei. Ao contrário, as regras da sociedade, respeito pela opinião pública, interesse próprio, seu próprio caráter à vista do mundo, ou algum outro motivo sórdido ou mundano, reinam supremamente; e Deus, a quem eles devem seus corações e suas vidas, é esquecido; ou, se porventura pensam nEle, os Seus mandamentos são perfidamente rejeitados, Seus conselhos desprezados, e o coração, obstinadamente rebelde, rejeita obedece-LO. Mas é certo que enquanto o coração continua neste estado o homem é um rebelde contra Deus, e pode fazer nada que o recomende para o Seu favor. O primeiro passo é desistir da rebelião, arrepender-se dos seus pecados, voltar-se para Deus e suplicar por perdão e reconciliação através do Salvador. Por si mesmo o homem não está preparado para fazer tudo isto, até que ele seja mudado. Ele ama os seus pecados, e continuará a amá-los, até que o seu coração seja mudado."

As boas ações dos homens não regenerados, continua Smith, "não são por si mesmas positivamente pecaminosas, mas pecaminosas por defeito. Falta-lhes o princípio, que somente pode faze-las corretas à vista de Deus. No caso dos piratas é fácil ver que todas as suas ações são faltas contra o governo. Enquanto continuarem piratas, suas navegações, reparos e suprimentos do navio e mesmo seu comer e beber, são todos crimes aos olhos do governo, como são também meros expedientes que os capacita a seguir adiante em sua carreira de pirataria, e são partes de sua vida de rebelião. Assim também com pecadores. Enquanto seus corações estiverem errados, denigrem tudo à vista de Deus, mesmo suas mais ordinárias ocupações; pelo que é certo, a inequívoca linguagem de Deus diz, '... tal lâmpada dos ímpios é pecado.'[Provérbios 21:4]". 5

É esta a incapacidade que as Escrituras ensinam quando declaram que "e os que estão na carne não podem agradar a Deus"[Romanos 8:8]; "...e tudo o que não provém da fé é pecado."[Romanos 14:23] e "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus..."[Hebreus 11:6]. Portanto mesmo as virtudes do homem não regenerado nada são senão como flores murchas. Foi por causa disso que Jesus disse aos Seus discípulos, "Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus."[Mateus 5:20]. E porque as virtudes do homem não regenerado são de sua própria natureza, elas são consequentemente temporárias. Aquele que as possui é como a semente que cai em solo pedregoso, que talvez germine prometendo boa safra, mas logo seca ao sol porque não tem raiz.

Acrescente-se também o que foi dito que a salvação é SOMENTE E ABSOLUTAMENTE FRUTO DA GRAÇA, -- que Deus é livre, em consistência com as infinitas perfeições da Sua natureza, para salvar nenhum, uns poucos ou todos, conforme o soberano bel prazer da sua vontade. Também acrescente-se que a salvação não é baseada em nenhum mérito da criatura, e que depende de Deus, e não de homens, que terão e que não terão a vida eterna. Deus age como soberano quando salva alguns e quando deixa que outros recebam a justa recompensa pelos seus pecados. Pecadores são comparados a homens mortos, ou mesmo a ossos secos em sua total falta de defesa. Nesta maneira são todos iguais. A escolha de alguns para a vida eterna é algo tão soberano quanto foi o fato de Cristo haver passado por um cemitério e levantado alguns e deixando outros; a razão para restaurar um à vida enquanto outro é deixado na tumba pode ser encontrada somente em Sua santa vontade, e não nos mortos. Assim é que o mandamento de que somos pré ordenados de acordo com o bel prazer da Sua vontade, e não conforme as nossas próprias boas ações; e de forma que possamos ser santos, não porque somos santos [Efésios 1:41] "como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor;". "Desde que todos os homens igualmente mereceram somente a ira de Deus e renegaram a dádiva de o Seu único Filho ter morrido no lugar de malfeitores, como a única maneira possível de expiar as suas culpas, a mais estupenda exibição de favor imerecido e amor pessoal que o universo jamais testemunhou." 6

4. A QUEDA DO HOMEM

A queda da raça humana num estado de pecado e miséria é a base e a fundação do sistema da redenção que é mostrado nas Escrituras, assim como também é a base do sistema que ensinamos. Somente os Calvinistas parecem levar realmente a sério a doutrina da queda. Ainda assim, a Bíblia desde o início até o fim declara que o homem está arruinado - totalmente arruinado - que ele está num estado de culpa e depravação do qual ele é totalmente incapaz de livrar-se, e que Deus pode em justiça ter deixado-o a perecer. No Velho Testamento a narrativa da queda é encontrada no terceiro capítulo de Gênesis; enquanto que no Novo Testamento referências diretas são feitas a ela em Romanos 5:12-21; I Coríntios 15:22; II Coríntios 11:3; I Timóteo 2:13,14 e etc. Embora o Novo Testamento enfatize literalmente não o fato histórico da queda do homem, mas o fato ético que o homem está caído. Os escritores do Novo Testamento interpretaram a queda literalmente e nela basearam a sua teologia. Para Paulo Adão foi tão real como Cristo, a queda tão real quanto a expiação. Pode ser dito que os apóstolos estavam errados, mas não pode negar-se que esta era a sua opinião.

O Dr A.A. Hodge nos deu uma ótima apresentação da doutrina da queda, o qual teremos o privilégio de parafrasear: --"Do mesmo modo como uma provação justa não poderia, na natureza do caso, ser dada a cada novo membro em pessoa, quando vem ao mundo como um bebê ainda não desenvolvido, Deus, como guardião da raça (humana) e para o melhor do seu interesse, deu a todos os seus membros um julgamento na pessoa de Adão, sob as circunstâncias mais favoráveis - fazendo o para aquela mesma finalidade o representante e substituto pessoal de cada um dos seus descendentes naturais. Ele fez com ele um pacto de obras e de vida, ou seja, Ele deu a ele para si próprio, e no nome de todos os que ele representava, uma promessa de vida eterna, condicionada à perfeita obediência, quer dizer, a obras. A obediência demandada era um teste específico por um período temporário, período o qual deveria terminar, seja pela recompensa devida à obediência, ou a morte como conseqüência da desobediência. A 'recompensa' prometida era a vida eterna, que era uma graça incluindo muito mais do que havia sido originalmente pactuado com Adão em sua criação, uma dádiva que teria elevado a raça humana a uma condição de gozo e de santidade inquestionável para sempre. O 'castigo' ameaçado e executado era a morte; '...; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.'[Gênesis 2:17]. A natureza da morte ameaçada neste versículo pode ser determinada somente a partir de uma consideração de tudo o que estava envolvido na maldição realmente imposta. Isto nós sabemos haver sido incluído no instante em que foram retirados o favor divino e a intercomunicação espiritual dos quais a vida do homem dependia. Daí a alienação e a maldição imposta por Deus; o senso de culpa e a corrupção da natureza, consequentes transgressões reais, as misérias da vida, a dissolução do corpo, as dores do inferno." 7

As conseqüências do pecado de Adão estão todas compreendidas sob o termo morte, no seu sentido mais amplo. Paulo nos dá o mandamento sumário de que "... o salário do pecado é a morte"[Romanos 6:23]. O peso total da morte que foi imposta a Adão somente pode ser vislumbrado em se considerando todas as conseqüências terríveis que o homem tem desde a queda. Primeiramente foi a morte espiritual, ou a eterna separação de Deus, a qual foi imposta; e a morte física, ou a morte do corpo, que é um dos primeiros frutos e conseqüência relativamente sem importância daquele castigo maior. Adão não morreu fisicamente até 930 anos após a queda, mas ele morreu sim, espiritualmente, no mesmo instante em que ele caiu no pecado. Ele morreu simplesmente como um peixe morre quando tirado da água, ou como uma planta morre quando é arrancada do solo.

"Em geral nós abraçamos uma ideia muito errada de como Adão caiu .... Adão não foi tentado por Satã de uma forma direta .... Eva foi tentada por Satã, que a enganou e a fez cair. Mas nós temos evidência inspirada provando que Adão não foi enganado [I Timóteo 2:14]"E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão;". Ele foi pego não pelas vontades de Satã, mas o que ele fez, ele o fez de livre, espontânea e deliberada vontade. E a consciência do que ele estava fazendo, com uma perfeita compreensão das solenes conseqüências envolvidas, ele deliberadamente escolheu seguir a sua mulher no seu ato de desobediência pecaminosa. Foi a vontade deliberada do pecado do homem que constituiu o seu caráter hediondo. Tivesse ele sido atacado por Satã, e forçado a render-se como resultado de um poder avassalador ser imposto contra ele, nós poderíamos tentar encontrar alguma desculpa para a sua queda. Mas quando, com os olhos bem abertos, e com a mente perfeita e inteiramente ciente da terrível natureza do seu ato, ele usou o seu livre arbítrio para responder ao clamor da natureza em desafio ao Criador, nenhuma desculpa ele poderia dar para a sua queda. Seu ato, na realidade, foi deliberado, rebelião desafiadora, e com isto ele abertamente transferiu a sua lealdade de Deus para Satã." 8

E não houvesse havido uma queda - uma queda aterradora? Quanto mais nós estudamos a natureza humana como é manifesta no mundo ao nosso redor, mais fácil nos é crer nesta grande doutrina do pecado original. Considere o mundo como um todo, cheio como está de assassinatos, roubos, bebedeiras, guerras, lares destruídos, e crimes de toda a espécie. As milhares de formas geniais que o crime e o vício assumiram nas mãos de praticantes contumazes são todos peças que nos contam uma estória aterrorizante. Uma grande porção da raça humana hoje em dia, assim como nas eras passadas, é abandonada para viver e morrer na escuridão do paganismo, sem esperanças desviados de Deus. O modernismo e negação de todo tipo são incontroláveis atém mesmo na Igreja. Mesmo a assim chamada imprensa religiosa, está fortemente tingida com descrença. Observe a aversão generalizada à oração, ao estudo da Bíblia, ou a falar de assuntos espirituais. Não é o homem agora, como seu progenitor Adão, fugindo da presença de Deus, não querendo comunicar-se com Ele, e com inimizade em seu coração, para com o seu Criador? Certamente a natureza humana é radicalmente errada. Os jornais diários nos dão conta de eventos, mesmo numa terra abençoada como a América, mostrando que o homem é pecador, está perdido de Deus, e é norteado por princípios que não são santos. E a única e adequada explicação para tudo isso é o castigo da morte, que foi alertado ao homem antes da queda; e agora encontra-se na raça humana.

Nós vivemos num mundo perdido, um mundo que se deixado à sua própria vontade, degeneraria em sua própria corrupção de eternidade a eternidade, -- um mundo recendendo a iniquidade e blasfêmia. Os efeitos da queda são tais que a vontade própria do homem tende somente afundar mais e mais no pecado e na lascívia. De fato, Deus não permite que a raça humana venha a tornar-se tão corrupta o quanto naturalmente seria se deixada à sua própria vontade. Ele põe em prática influências que restringem, incitando os homens a amarem-se uns aos outros, a serem honestos, filantrópicos; e a preocuparem-se com o bem estar de cada um. Se Deus assim não fizesse, se Ele não exercitasse essas influências, os homens perniciosos se tornariam piores e piores, sobrepassando convenções e barreiras sociais, até que o zênite da impunidade e da falta de lei e de ordem fosse alcançado, e a terra se tornasse então tão inteiramente corrupta que os eleitos não mais poderiam nela viver.

5. O PRINCÍPIO DA REPRESENTATIVIDADE

É fácil entender como uma pessoa pode agir através de um representante. O povo de um estado age através dos parlamentares que os representam na Legislatura. Se um país tem um bom presidente ou rei, todo o povo partilhará os bons resultados de sua administração; se por outro lado tiver um mau presidente ou rei, todos sofrerão as conseqüências. Num sentido muito real, pais atuam como representantes, e num sentido mais amplo, decidem os destinos dos seus filhos. Se os pais forem sábios, virtuosos, bons administradores do orçamento doméstico, as crianças colhem as bênçãos; mas se eles forem indolentes e imorais as crianças sofre. De mil maneiras diferentes o bem estar de indivíduos está condicionado aos atos e atitudes de outros, tão íntimo é o princípio da representatividade na nossa vida humana. Assim, uma vez que na doutrina da Bíblia Adão era o cabeça oficial e representante do seu povo, temos somente a aplicação de um princípio que vemos ativo em todos nós.

O Dr. Charles Hodge tratou o assunto com grande habilidade, na seguinte seção:
"O princípio da representatividade permeia toda a Bíblia. A imputação do pecado de Adão à posteridade não é um fato isolado. É somente uma ilustração de um princípio geral que caracteriza as dispensações de Deus deste o princípio do mundo. Deus declarou-Se a Si mesmo a Moisés, como o que visita a iniquidade dos pais nos filhos, e nos filhos dos filhos até a terceira e quarta gerações {veja em Êxodo 34:6,7}....... A maldição proferida em Canaã caiu sobre a sua prosperidade. O fato de Esaú haver vendido sua primogenitura, tirou a sua descendência do pacto da promessa. Os filhos de Moabe e de Amon foram excluídos da congregação do Senhor para sempre, porque seus ancestrais se opuseram aos Israelitas quando eles saíram do Egito. No caso de Datã e de Abirão, como no de Acã, 'suas esposas, e seus filhos, e seus pequeninos pereceram pelos pecados dos seus pais.' Deus disse a Eli, que a iniquidade da sua casa não deveria ser purgada para sempre com sacrifícios e oferendas. Para Davi foi dito, 'Agora, pois, a espada jamais se apartará da tua casa, porquanto me desprezaste, e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para ser tua mulher.'[II Samuel 12:10]. Para o desobediente Geazi foi dito: "Portanto a lepra de Naamã se pegará a ti e à tua descendência para sempre."[II Reis 5:27]. A sina de Jeroboão e dos homens da sua geração determinaram o destino das dez tribos para sempre. A imprecação dos Judeus quando demandaram a crucificação de Cristo, '...O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.'[Mateus, 27:25], ainda pesa sobre o povo disperso de Israel ..... Este princípio corre através das Escrituras. Quando Deus pactuou com Abraão, não foi somente para ele mesmo, mas também para a sua posteridade. Ele tornaram-se ligados a todas as estipulações do pacto. Eles compartilharam das promessas e dos alertas de castigo, e em centenas de casos o castigo da desobediência veio sobre aqueles que nem tinham parte pessoal nas transgressões. Crianças sofreram igualmente com adultos nos julgamentos. Fosse fome, peste, ou guerra, que viesse sobre o povo em conseqüência dos seus pecados ..... E os Judeus até hoje estão sofrendo o castigo pelos pecados dos seus pais, pela rejeição dAquele sobre quem Moisés e os profetas falaram. O plano inteiro da rejeição baseia-se neste mesmo princípio. Cristo é o representante do Seu povo, e nestas bases os seus pecados são imputados nEle e a Sua retidão para eles ..... Nenhum homem que creia na Bíblia pode fechar seus olhos ao fato de que ela em todos os lugares reconhece o caráter representativo dos pais, e que as dispensações de Deus têm desde o começo sido encontradas no princípio de que as crianças sofrem pela iniquidade dos seus pais. Esta é uma das razões que os infiéis assinalam ao rejeitar a origem divina das Escrituras. Mas a infidelidade não proporciona alívio. A história está tão cheia desta doutrina como está a Bíblia. O castigo do perverso também envolve sua família na desgraça e na miséria. O perdulário e o alcoólatra trazem a pobreza e a miséria sobre todos os que são conectados consigo. Não há nenhuma nação da terra hoje, cujas condições de prosperidade ou de miséria não sejam em muito determinadas pela conduta dos seus ancestrais .... A ideia da transferência de culpa ou de castigo vicário encontra-se verdadeiramente na base de todas as ofertas expiatórias do Velho Testamento, e da grande expiação sob a nova dispensação. Pecar, conforme a linguagem Bíblica, e carregar o castigo do pecado. A vítima (o animal sacrificado) carregava em si o pecado daquele que oferecia o sacrifício. Mãos eram impostas sobre a cabeça do animal antes do abate, para expressar a transferência de culpa. O animal devia ser livre de qualquer defeito, de modo a ser mais aparente que o seu sangue era vertido não por suas próprias deficiências, mas pelo pecado de outrem. Tudo isso era típico e simbólico .... E é isto que as Escrituras ensinam com relação à expiação de Cristo. Ele levou sobre si os nossos pecados; Ele foi feito maldição por nós; Ele sofreu o castigo da lei em nosso lugar. Tudo isto procede, faz sentido, tem valor no terreno em que os pecados de um homem podem ser justamente, em casos adequados, imputados a outro." 9
As Escrituras nos dizem que, "...pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores,..."[Romanos 5:19], "...por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram."[Romanos 5:12], "...assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, ..."[Romanos 5:18]. É como se Deus tivesse dito: Se o pecado entrar, deixemos que entre somente por um homem, de modo que a retidão também possa entrar por um homem.

Adão foi feito não somente o pai, mas também o representante de toda a raça humana. E se nós compreendermos corretamente a estreiteza da relação entre ele e eles nós entenderíamos finalmente a justiça da transmissão do seu pecado a eles. O pecado de Adão é imputado aos seus descendentes na mesma maneira que a retidão de Cristo é imputada àqueles que crêem nEle. Os descendentes de Adão são, é claro, não mais pessoalmente culpados pelo pecado dele do que os remidos por Cristo são pessoalmente merecedores da Sua retidão.

Sofrimento e morte são declarados serem a conseqüência do pecado, e a razão porque todos estão mortos é que "todos pecaram". Agora sabemos que muitos sofrem e morrem na infância, antes que tenham cometido qualquer pecado. A lógica diz então que ou Deus é injusto em castigar o inocente, ou que aquelas crianças são de alguma forma criaturas culpadas. E se culpadas, como teriam pecado? É impossível explicar tal fato por qualquer outra suposição que não seja a que elas (as crianças) pecaram em Adão (I Coríntios 15:22; Romanos 5:12, 18); e não poderiam haver pecado em Adão, a não ser pela representatividade.

Mas enquanto nós não somos pessoalmente culpados do pecado de Adão, nós somos, não obstante, passíveis de castigo por ele. "A culpa pelo pecado público de Adão," diz o Dr A.A. Hodge, "é por um ato judicial de Deus imediatamente debitada na conta de cada um dos seus descendentes a partir do momento em que eles passam a existir, e antecedentemente a qualquer um dos seus próprios atos. Já que todos os homens vêm ao mundo privados de todas aquelas influências do Espírito Santo, das quais dependem a sua vida moral e espiritual dependem .... e com uma tendência anterior para o pecado prevalecendo na natureza deles; tendência a qual é ela mesma da natureza do pecado, e portanto passível de castigo. A natureza humana desde a queda mantém suas faculdades constitucionais de razão, consciência e livre arbítrio, e assim o homem continua a ser um agente moral responsável. Ainda assim ele está espiritualmente morto, e totalmente avesso e incapaz de livrar-se de qualquer desses pesos que impedem o seu relacionamento com Deus, e totalmente incapaz de mudar suas próprias e maléficas disposições ou tendências morais inatas, ou dispor-se a tal empreendimento, ou cooperar com o Espírito Santo na efetivação de tal mudança." 10

E para o mesmo efeito geral, o Dr. R. L. Dabney, o renomado teólogo da Igreja Presbiteriana do Sul, diz, "A explicação apresentada pela doutrina da imputação é demandada por todos exceto os Pelagianos e Socinianos. O ser humano é uma raça espiritualmente morta e condenada. Veja Efésios 2:1-5 e seguintes. Ele obviamente está sob uma maldição de alguma espécie, desde o início de sua vida. Testemunha a depravação nativa das crianças, e sua herança de miséria e de morte. Agora, ou o homem foi julgado e caiu em Adão, ou ele foi condenado sem um julgamento. Ou ele está sob a maldição (como ela permanece nele desde o início da sua existência) pela culpa de Adão, ou por nenhuma culpa que seja. Juiz que é honorável a Deus, uma doutrina que, embora mistério profundo, representa-O como concedendo ao homem uma provação justa e mais favorável sobre sua cabeça; ou que faz com Deus condene o homem sem julgamento, e mesmo antes que ele venha a existir." 11

6. A BONDADE E A SEVERIDADE DE DEUS

Uma pesquisa sobre a queda e os seus desdobramentos é um trabalho humilhante. Prova ao homem que todas as suas alegações de bondade são infundadas, e mostra-lhe que sua única esperança está na soberana graça de Deus Todo-Poderoso. A "graciosamente restaurada habilidade" de que os Arminianos falam não é consistente com os fatos. As Sagradas Escrituras, a história e a experiência Cristã se nenhuma forma avalizam tal como sendo uma visão favorável da condição moral do homem como o sistema Arminiano ensina. Ao contrário, cada um deles nos proporciona um quadro pessimista de uma corrupção horrível e de uma inclinação universal para o mal, a qual somente pode ser ultrapassada pela intervenção da divina graça. O sistema Calvinista ensina uma queda muito mais profunda no pecado e uma muito mais gloriosa manifestação da graça redentora. Dessas profundezas o Cristão é levado a desprezar-se a si mesmo, largando-se incondicionalmente nos braços de Deus, e permanecer na graça imerecida, somente a qual pode salva-lo.

Nós deveríamos ver a piedade de Deus e também a Sua severidade nas esferas espiritual e física. Em toda a Bíblia, e especialmente nas palavras do próprio Cristo, os tormentos finais dos maus são descritas de tal maneiras a mostrar-nos que são indescritivelmente horríveis. No Evangelho de Mateus somente, vemos nas passagens 5:29,30; 7:19; 10:28; 11:21-24; 13:30,41,42,49,50; 18:8,9,34; 21:41; 24:51; 25:12,30,41; e 26:24. Certamente uma doutrina que recebeu tal ênfase dos lábios de Cristo, Ele mesmo, não pode passar em silêncio, embora tão desagradável que possa ser. No próximo mundo os perversos, com todas as barreiras removidas, mergulharão de cabeça no pecado, na blasfêmia e nas ofensas a Deus, piorando e piorando enquanto afundam cada vez mais no buraco. Castigo sem fim é a recompensa de pecado sem fim. Mais ainda, a glória de Deus é tanta enquanto Ele castiga o perverso, como é quando Ele recompensa o justo. Muito da negligente indiferença para com o Cristianismo nos nossos dias é devida à falha dos ministros Cristãos em enfatizar estas doutrinas que Cristo ensinou tão repetidamente.

No âmbito físico nós vemos a severidade de Deus em guerras, fome, enchentes, desastres, doenças, sofrimentos, mortes, e crimes de toda espécie que avassalam tanto justos como injustos da mesma forma. Tudo isso existe num mundo que está sob o completo controle de Deus, que é infinito nas Suas perfeições.

"Considera pois a bondade e a severidade de Deus..."[Romanos 11:22]. O Naturalismo não faz justiça a nenhum desses. O Arminianismo magnifica o primeiro mas nega o segundo. O Calvinismo é o único sistema que faz justiça a ambos. Somente este sistema adequadamente estabelece os fatos com relação ao eterno e infinito amor de Deus, que O levou a propiciar redenção para o Seu povo, mesmo com o grande custo de mandar o Seu Filho unigênito para morrer numa cruz; e também com relação ao terrível abismo que existe entre o homem pecador e o Deus santo. É verdade que "Deus é Amor", mas juntamente com esta verdade também há que ser colocada outra, que "...o nosso Deus é um fogo consumidor"[Hebreus 12:29]. Qualquer sistema teológico que omita ou que não enfatize alguma dessas verdades será um sistema mutilado, não importa o quão plausível ele possa soar aos homens.

Esta doutrina da Depravação Total (Incapacidade Total) do homem é terrivelmente pesada, severa, proibitiva. Mas deve ser lembrado que nós não temos a liberdade para desenvolver um sistema teológico que satisfaça a nossa vontade. Devemos considerar os fatos como os encontramos. Tais exibições do verdadeiro estado da raça humana são, é claro, geralmente ofensivas ao homem não regenerado, e muitos têm tentado encontrar um sistema de doutrinas que seja mais agradável á mente popular. O estado do homem caído é tal que ele prontamente dá ouvidos a qualquer teoria que faça-o mesmo que parcialmente independente de Deus; ele deseja ser o mestre do seu destino e o capitão da sua alma. O estado de perdição e de ruína do pecador precisa ser constantemente mostrado a ele; pois até que a ele seja feito sentir tal estado, ele nunca buscará ajuda, onde somente tal ajuda pode ser encontrada. Pobre homem! Verdadeiramente carnal e com a alma sob o jugo do pecado, não somente sem nenhum poder mas também sem inclinação para mover-se na direção de Deus; e o que é ainda mais terrível, numa presunção real, blasfemosamente rival do Grande Jeová.

Esta doutrina da Depravação Total (Incapacidade Total), ou do Pecado Original, foi tratada com alguma extensão, de maneira a estabelecer a base fundamental sobre a qual encontra-se a doutrina da Predestinação. Este lado do quadro é negro, na realidade muito negro; mas o suplemento é a glória de Deus na redenção. Cada uma dessas verdades deve ser vista na sua verdadeira luz, antes que a outra possa ser verdadeira e adequadamente apreciada.

7. PROVAS NAS ESCRITURAS

I Coríntios 2:14 : "Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente."
Gênesis 2:17 : "mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás."

Romanos 5:12 : "Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram."

II Coríntios 1:9 : "portanto já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos;"

Efésios 2:1-3 : "[1] Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, [2] nos quais outrora andastes, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos de desobediência, [3] entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os demais."

Efésios 2:12 : "estáveis naquele tempo sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos pactos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo."

Jeremias 13:23 : "pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as suas malhas? então podereis também vós fazer o bem, habituados que estais a fazer o mal."

Salmo 51:5 : "Eis que eu nasci em iniquidade, e em pecado me concedeu minha mãe."

João 3:3 : "Respondeu-lhe Jesus: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus."

Romanos 3:10-12 : "[10] como está escrito: Não há justo, nem sequer um. [11] Não há quem entenda; não há quem busque a Deus. [12] Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só."

Jó 14:4 : "Quem do imundo tirará o puro? Ninguém."

I Coríntios 1:18 : "Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus."

Atos 13:41 : "Vede, ó desprezadores, admirai-vos e desaparecei; porque realizo uma obra em vossos dias, obra em que de modo algum crereis, se alguém vo-la contar."

Provérbios 30:12 : "Há gente que é pura aos seus olhos, e contudo nunca foi lavada da sua imundícia."

João 5:21 : "Pois, assim como o Pai levanta os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida a quem ele quer."

João 6:53 : "Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos."

João 8:19 : "Perguntavam-lhe, pois: Onde está teu pai? Jesus respondeu: Não me conheceis a mim, nem a meu Pai; se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai."

Mateus 11:25 : "Naquele tempo falou Jesus, dizendo: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos."

II Coríntios 5:17 : "Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo."

João 14:16 : "[16]E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Ajudador, para que fique convosco para sempre.[17] a saber, o Espírito da verdade, o qual o mundo não pode receber; porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque ele habita convosco, e estará em vós."

João 3:19 : "E o julgamento é este: A luz veio ao mundo, e os homens amaram antes as trevas que a luz, porque as suas obras eram más."

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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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