sexta-feira, 21 de março de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 2 [03/05]


Expiação Limitada

1. ENUNCIADO DA DOUTRINA

A questão que nós discutiremos sobre o assunto da "Expiação Limitada" é: Cristo ofereceu a Si mesmo como sacrifício por toda raça humana, por cada indivíduo sem distinção ou exceção; ou Sua morte teve especial referência aos eleitos ? Em outras palavras, foi o sacrifício de Cristo meramente tencionado a fazer a salvação de todos homens possível, ou ela foi pretendida a fazer certa a salvação daqueles que foram dados a Ele pelo Pai ? Os Arminianos sustentam que Cristo morreu da mesma forma por todos homens, enquanto que os Calvinistas sustentam que na intenção e no secreto plano de Deus, Cristo morreu somente pelos eleitos, e que Sua morte tem somente uma referência incidental para os outros até que eles sejam participantes da graça comum. O sentido pode ser mais salientado claramente se nós usarmos a frase "Redenção Limitada" ao invés de "Expiação Limitada." A Expiação é, com certeza, estritamente uma transação infinita; a limitação vem, teologicamente, na aplicação dos benefícios da expiação, que é na redenção. Mas desde que a frase "Expiação Limitada" tem sido bem estabelecida no uso teológico e seu significado é bem conhecido, nós continuaremos usando-o.

Concernente esta doutrina a Confissão de Westminster diz: ". . . Os que, portanto, são eleitos, achando-se caídos em Adão, são redimidos por Cristo, são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo Seu Espírito, que opera no tempo devido; são justificados, adotados, santificados, e guardados pelo Seu poder por meio da fé salvadora. Além dos eleitos não há nenhum outro que seja redimido por Cristo, eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado, e salvo." 1

Poderá ser entendido de imediato que esta doutrina necessariamente segue a doutrina da eleição. Se desde a eternidade Deus tem planejado salvar uma porção da raça humana e não outra, parece ser uma contradição dizer que Sua obra [salvadora] tem igual referência a ambas porções, ou que Ele enviou Seu Filho para morrer por aqueles que Ele tem predestinado não salvar, como verdadeiramente e no mesmo sentido que Ele foi enviado para morrer por aqueles que Ele tem escolhido para salvação. Essas duas doutrinas [eleição e expiação limitadas] devem permanecer ou cair juntamente. Nós não podemos logicamente aceitar uma e rejeitar a outra. Se Deus tem eleito alguns e não outros para vida eterna, então claramente o propósito primário da obra de Cristo foi redimir os eleitos.

2. O INFINITO VALO DA EXPIAÇÃO DE CRISTO

Esta doutrina não significa que qualquer limite pode ser ficado para o valor ou poder da expiação que Cristo fez. O valor da expiação depende de, e é medida pela dignidade da pessoa que a fez; e desde que Cristo sofreu como uma pessoa humana e Divina, o valor de Seu sofrimento foi infinito. Os escritores da Escritura nos contam claramente que o "Senhor da glória" foi crucificado (1 Coríntios 2:8); que homens ímpios "mataram o Príncipe da vida" (Atos 3:15); e que Deus "comprou" a Igreja "com Seu próprio sangue" (Atos 20:28). A expiação, então, foi infinitamente meritória e poderia ter salvo cada membro da raça humana, tivesse este sido o plano de Deus. Ela foi limitada somente no sentido que ela foi intentada para, e é aplicada para pessoas particulares; em outras palavras, para aqueles que são realmente salvos.

Alguns mal-entendidos ocasionalmente se levantam aqui, por causa da falsa suposição de que os Calvinistas ensinam que Cristo sofreu tanto por uma alma, e tanto por outra, e que Ele deveria ter sofrido mais se mais almas tivessem sido salvas. Nós cremos, no entanto, que mesmo se muito menos dos da raça humana tivessem sido perdoados e salvos, uma expiação de infinito valor deveria ter sido necessária para fazer segura para eles aquelas bênçãos; e mesmo que muito mais pessoas, ou mesmo que todos homens tivessem sido perdoados e salvos, o sacrifício de Cristo teria sido amplamente suficiente como o fundamento ou base da salvação deles.

Da mesma forma que é necessário que o sol emita tanto calor se somente uma planta deva crescer sobre a terra como se a terra devesse ser coberta com vegetação, assim era necessário Cristo sofrer tanto quanto se somente uma alma devesse ser salva como se um largo número ou mesmo toda humanidade devessem ser salvas. Visto que o pecador tem ofendido uma Pessoa de infinita dignidade, e havia sido sentenciado para sofrer eternamente, nada exceto um sacrifício de infinito valor poderá expiá-lo. Ninguém supõe que, visto que o pecado de Adão foi o fundamento da condenação da raça, ele pecou tanto por um homem e tanto por outro, e que poderia ter pecado mais se houvesse existido mais pecadores .Por que então eles devem fazer a suposição com respeito ao sofrimento de Cristo ?

3. A EXPIAÇÃO É LIMITADA NO PROPÓSITO E APLICAÇÃO

Apesar do valor da expiação ter sido suficiente para salvar toda humanidade, ela foi eficiente para salvar somente os eleitos. Ela está indiferentemente bem adaptada à salvação de um homem como de outro, assim fazendo a salvação de cada homem objetivamente possível; todavia, por causa de dificuldades subjetivas, aparecendo por causa da inabilidade dos pecadores para ver ou apreciar as coisas de Deus, somente aqueles [os eleitos] são salvos, os quais são regenerados e santificados pelo Espírito Santo. A razão porque Deus não aplica esta graça a todos homem não tem sido revelada completamente. Quando a expiação é feita universal, o seu valor inerente é destruído. Se ela é aplicada a todos os homens, e se alguns se perdem, a conclusão é que isto faz a salvação objetivamente possível para todos os homens, porém que não salva realmente a qualquer um.

Segundo a teoria Arminiana, a expiação tem simplesmente tornado possível para todos os homens o cooperar com a divina graça e assim, salvar a si mesmos - se eles assim quiserem. Porém, conte-nos de um curado de enfermidade e todavia morto de câncer, e a história será igualmente luminosa com a de um expiado do pecado, porém que pereceu através da incredulidade. A natureza da expiação determina sua extensão. Se ela meramente fez a salvação possível, ela foi aplicada a todos os homens. Se ela efetivamente assegura a salvação, ela teve referência somente aos eleitos. Como o Dr. Warfield disse: "As coisas que tenho de escolher são entre uma expiação de alto valor, ou uma expiação de larga extensão. As duas coisas não podem andar juntas". A obra de Cristo pode ser universalmente somente pela evaporação de sua substância.

Não deixemos haver mal-entendido neste ponto. O Arminiano limita a expiação tão certamente como o faz o Calvinista. O Calvinista limita a extensão dela, ao dizer que ela não se aplica a todas pessoas (ainda que, como se tem demonstrado já, ele creia que é eficaz para a salvação de uma larga proporção da raça humana); enquanto o Arminiano limita o poder dela, porque ele diz que ela em si mesma, não salva realmente ninguém. O Calvinista a limita quantitativamente, mas não qualitativamente; o Arminiano a limita qualitativamente, mas não quantitativamente. Para o Calvinista ela é como uma ponte estreita que vai até o fim do caminho acima da correnteza; para o Arminiano ela é como uma grande e larga ponte que vai somente até a metade do caminho. Na verdade, o Arminiano põe limitações mais severas na obra de Cristo do que o Calvinista.

4. A OBRA DE CRISTO COMO UMA PERFEITA SATISFAÇÃO DA LEI

Se os benefícios da expiação são universais e ilimitados, ela deve ter sido o que os Arminianos a representam ter sido - meramente um sacrifício para apagar a maldição que repousava sobre a raça humana através da queda de Adão, um mero substituto da execução da lei que Deus em Sua soberania achou certo aceitar em lugar do que o pecador era obrigado a render, e não uma perfeita satisfação que cumpriu as demandas da justiça. Significaria que Deus não mais demanda perfeita obediência como Ele fez com Adão, porém que Ele agora oferece salvação em termos inferiores. Deus, então, tirará obstáculos legais e aceitará tal fé e obediência evangélica que a pessoa com uma capacidade graciosamente restaurada pode render se assim escolher, o Espírito Santo certamente ajudando em uma maneira geral. Dessa forma, a graça seria estendida em que Deus oferece uma caminho fácil de salvação - Ele aceita cinqüenta cents de dólar, aparentemente, visto que o pecador inválido não pode pagar mais.

Por outro lado, os Calvinistas sustentam que a lei de perfeita obediência que foi originalmente dada a Adão foi "permanente", que Deus nunca tem feito qualquer coisa que conduziria a impressão que a lei era rígida demais em seus requerimentos, ou severa demais em suas penalidades, ou que tampouco ela estivesse em necessidade de abolição ou derrogação. A Divina justiça demanda que o pecador seja punido, em si mesmo ou em seu substituto. Nós sustentamos que Cristo atuou de uma maneira estritamente substitutiva pelo Seu povo, que Ele fez uma completa satisfação pelos pecados deles, dessa forma apagando a maldição de Adão e todos pecados temporais deles; e que pela Sua vida inocente, Ele perfeitamente guardou por eles a lei que Adão quebrou, deste modo adquirindo para o Seu povo a recompensa da vida eterna. Nós cremos que o requerimento para salvação agora como originalmente, é a perfeita obediência, que os méritos de Cristo são imputados a Seu povo como o única fundamento da salvação deles, e que eles entram no céu vestidos somente com o manto de Sua perfeita justiça e absolutamente destituídos de qualquer mérito propriamente deles. Assim graça, pura graça, é estendida não em se reduzir os requerimentos para salvação, mas na substituição de Cristo pelo Seu povo. Ele tomou o lugar deles diante da lei, e fez por eles o que eles não poderiam fazer por si mesmos. Este princípio Calvinista é adaptado em cada caminho para impressionar sob nós a absoluta perfeição e imutável obrigação da lei que foi originalmente dada a Adão. Ela não foi afrouxada ou desprezada, porém é apropriadamente honrada de forma que sua excelência é demonstrada. Em benefício daqueles que são salvos, por quem Cristo atuou, e em benefício daqueles que são submetidos ao castigo eterno, a lei em sua majestade se executa e se faz cumprir.

Se a teoria Arminiana fosse verdadeira, ela compreenderia que milhões daqueles por quem Cristo morreu são no final perdidos, e que a salvação é dessa forma nunca aplicada a muitos daqueles por quem ela foi adquirida. Que benefícios, por exemplo, nós podemos apontar para as vidas dos pagãos e dizer que eles tem recebido da expiação ? Isto pode também significar que os planos de Deus muitas vezes tem sido frustados e desmoronados pelas Suas criaturas e que, enquanto Ele pode fazer de acordo com Sua vontade com os exército dos céus, Ele não faz assim entre os habitantes da terra.

"O pecado de Adão", disse Charles Hodge, "não fez a condenação de todos os homens meramente possível; ele foi o fundamento da real condenação deles. Assim, a justiça de Cristo não fez a salvação dos homens meramente possível, ela assegurou a real salvação daqueles por quem Ele morreu." O grande pregador Batista Charles H. Spurgeon disse: "Se Cristo morreu por você, você nunca poderá perecer. Deus não irá punir duas vezes uma mesma coisa. Se Deus puniu a Cristo pelos seus pecados, Ele não pode te punir. O pagamento da justiça de Deus não pode ser demandado duas vezes; primeiro, da mão sangrenta do Salvador, e então da minha. Como pode Deus ser justo se Ele puniu Cristo, o substituto, e então o próprio homem mais tarde"?

5. UM RESGATE

Cristo é dito ter sido um resgate para Seu povo: "O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em regaste de muitos", Mateus 20:28. Note, este verso não diz que Ele deu Sua vida em resgate de todos, mas por muitos. A natureza de um resgate é tal que quando paga e aceita, ela automaticamente liberta as pessoas por quem ela foi pretendida. De outra forma, ele não seria um verdadeiro resgate. A justiça demanda que aqueles por quem ela foi paga, sejam livres de qualquer obrigação adicional. Se o sofrimento e morte de Cristo foi um resgate para todos os homens antes que somente para os eleitos, então os méritos de Sua obra devem ser comunicados a todos igualmente e a penalidade do eterno castigo não pode ser justamente infligido em alguém. Deus seria injusto se Ele exigisse essa penalidade duas vezes, primeiramente do substituto e então das próprias pessoas. A conclusão é que a expiação de Cristo não estende a todos os homens, mas que ela é limitada àqueles por quem Ele pagou a fiança ; isto é, àqueles que compõem Sua verdadeira Igreja.

6. O PROPÓSITO DIVINO NO SACRIFÍCIO DE CRISTO

Se a morte de Cristo intencionou salvar a todos os homens, eles devem dizer que Deus ou foi incapaz ou indisposto em realizar os Seus planos. Mas, desde que a obra de Deus é sempre eficiente, aqueles por quem a expiação foi feita e aqueles que são realmente salvos devem ser as mesmas pessoas. Os Arminianos supõe que os propósitos de Deus são mutáveis, e que Seus propósitos podem falhar. Em afirmar que Ele enviou Seu Filho para redimir todos os homens, mas que depois vendo que tal plano poderia não ser executado, Ele "elegeu" aqueles que Ele previu que teriam fé e se arrependeriam, eles O representam como querendo o que nunca ocorre, - como suspendendo Seus propósitos e planos sob a volições e ações de criaturas que são totalmente dependentes dEle. Nenhum ser racional que tenha a sabedoria e poder para realizar seus planos, pretende o que Ele nunca realiza ou adota planos para um fim que nunca será alcançado. Muito menos pode Deus, cujo poder e sabedoria são infinitos, trabalhar desta maneira. Nós podemos descansar assegurados que se alguns homens se perdem, Deus nunca tencionou sua salvação, e nunca desenvolve e colocou em operação meios determinados a efetuar este fim.

O próprio Jesus limitou o propósito de Sua morte quando Ele disse: "Dou a minha vida pelas ovelhas." Se, então, Ele deu Sua vida pelas ovelhas, o caráter expiatório de Sua obra não foi universal. Em outra ocasião Ele disse aos Fariseus, "não sois das minhas ovelhas;" e outra vez, "vós tendes por pai ao diabo." Irá alguém manter que Ele deu Sua vida por estes, vendo que Ele tão explicitamente os excluiu ? O anjo que apareceu a José disse-lhe que o filho de Maria deveria ser chamado JESUS, porque Sua missão no mundo era salvar Seu povo de seus pecados. Ele então não veio meramente para fazer a salvação possível, mas para realmente salvar o Seu povo; e o que Ele veio fazer, podemos confiadamente esperar que Ele consumou.

Visto que a obra de Deus nunca é em vão, aqueles que são escolhidos por Deus, aqueles que são redimidos pelo Filho, e aqueles que são santificados pelo Espírito Santo, - ou em outras palavras, eleição, redenção e santificação, - devem incluir as mesmas pessoas. A doutrina Arminiana de uma expiação universal faz estes desiguais e através disso destroi a perfeita harmonia dentro da Trindade. A redenção universal significa salvação universal.

Cristo declarou que os eleitos e os redimidos são as mesmas pessoas quando na oração intercessória Ele disse: "Eram teus, e tu mos deste", e "Eu rogo por eles: não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus. E todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas; e nisso sou glorificado." (João 17:6,9,10). E outra vez, "Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas." (João 10:14,15). O mesmo ensino é encontrado quando somos ordenados a "apascentar a igreja de Deus, que Ele resgatou com seu próprio sangue." (Atos 20:28) Somos informados que "Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou por ela" (Efésios 5:25); e que Ele deu Sua vida pelos Seus amigos. (João 15:13) Cristo morreu por Paulo assim como por João, e não morreu por Faraó assim como não morreu por Judas, que eram bodes e não ovelhas. Nós não podemos dizer que Sua morte foi intencionada a todos, a menos que digamos que Faraó, Judas, etc., eram das ovelhas, amigos, e Igrejas de Cristo. 

Além do mais, quando é dito que Cristo deu Sua vida por Sua Igreja, ou por Seu povo, nós encontramos impossível acreditar que Ele Se Deu tanto quanto para os reprovados como para aqueles que Ele intencionou salvar. A humanidade é dividida em duas classes e o que é distintamente afirmada de uma é implicitamente negada de outra. Em cada caso algo é dito daqueles que pertencem a um grupo que não é verdadeiro daqueles que pertencem ao outro. Quando se diz que um homem trabalha e sacrifica a saúde e força para suas crianças, através disso é negado que o motivo que o controla é meramente filantropia, ou que o desígnio que tem em vista é o bem da sociedade. E quando é dito que Cristo morreu pelo Seu povo, é negado que Ele morreu igualmente por todos os homens.

7. A EXCLUSÃO DOS NÃO-ELEITOS

Não era, então, um amor geral e indiscriminado do qual todos os homens eram igualmente os objetos, mas um peculiar, misterioso, e infinito amor por Seus eleitos, que fez Deus enviar Seu Filho ao mundo para sofrer e morrer. Toda teoria que negar esta grande e preciosa verdade, e que explicar este amor como benevolência meramente indiscriminada ou filantrópica, a qual teve todos os homens por seus objetos, muitos dos quais são permitidos perecer, deve ser anti-Escriturística. Cristo não morreu para uma multidão desordenada, mar por Seu povo, Sua noiva, Sua Igreja.

Um fazendeiro estima seu campo. Mas ninguém supõe que ele se importa igualmente por cada planta que cresce ali, pelas "ervas daninhas" assim como pelo "trigo". O campo de Deus é o mundo, Mateus 13:38, e Ele o ama com um olho exclusivo para sua "boa semente", as crianças do reino, e não as crianças do maligno. Não é todo da humanidade que é igualmente amado de Deus e confusamente redimido por Cristo. Deus não é necessariamente comunicador de Sua bondade, como o sol de sua luz, ou a árvore de sua sombra refrescante, que não escolhe seus objetos, mas serve a todos indiferentemente sem variação ou distinção. Isto seria fazer Deus de não mais entendimento do que o sol, que brilha não onde lhe agrada, mas onde deve. Ele é uma pessoa compreensiva, e tem um direito soberano de escolher Seus próprios objetos.

Em Gênesis lemos que Deus "colocou inimizade" entre a semente da mulher e a semente da serpente. Agora quem foram significados por semente da mulher e semente da serpente ? No primeiro pensamento, podemos supor que a semente da mulher significa a raça humana inteira descendente de Eva. Mas em Gálatas 3:16 Paulo usa este termo "semente", e o aplica a Cristo como um indivíduo. "Não diz: E às sementes, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua semente, que é Cristo."

Em uma investigação mais avançada, nós encontraremos também que a semente da serpente não significa descendentes literais do Diabo, mas aqueles membros não-eleitos da raça humana, que participam de sua natureza pecaminosa. Jesus disse de Seus inimigos: "Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai" (João 8:44). Paulo denunciou Elimas, o encantador, como um filho do Diabo e um inimigo de toda justiça. Judas é até chamado de um diabo (João 6:70). Então, a semente da mulher e a semente da serpente são cada uma parte da raça humana. Em outras partes das Escrituras, encontramos que Cristo e Seu povo são "um", que Ele habita neles e é unido com eles assim como a videira e os ramos são unidos. E desde que no extremo princípio Deus "colocou inimizade" entre estes dois grupos, é claro que Ele nunca amou todos igualmente, nem intentou redimir a todos igualmente. A redenção universal e a sentença de Deus na serpente não podem nunca andar juntas.

Há também um paralelo para ser observado entre o sumo sacerdote do antigo Israel e Cristo que é o nosso sumo sacerdote; porque o primeiro, como sabemos, era um tipo do último. No grande dia da expiação, o sumo sacerdote oferecia sacrifícios pelos pecados das doze tribos de Israel. Ele intercedia por eles e por eles somente. Semelhantemente, Cristo não orou pelo mundo, mas pelo Seu povo. A intercessão do sumo sacerdote assegurava para os Israelitas bênçãos das quais todos outros povos estavam excluídos; e a intercessão de Cristo, que também é limitada porém de uma ordem muito maior, certamente será eficaz em elevado sentido, porque Ele, o Pai sempre ouve. Além do mais, não é necessário que a misericórdia de Deus se estenda a todos os homens sem exceção para que possa ser chamada verdadeiramente e propriamente infinita; porque todos homens tomados juntos não constituíram uma multidão estritamente e propriamente infinita. As Escrituras claramente nos ensina que o Diabo e os anjos caídos foram deixados fora de Seus benevolentes propósitos. Mas Sua misericórdia é infinita nisso: ela resgata a grande multidão de Seus eleitos do indescritível e eterno pecado e miséria para a indescritível e eterna bem-aventurança.

Enquanto os Arminianos sustentam que Cristo morreu igualmente por todos os homens e que Ele obteve suficiente graça para capacitar todos os homens a arrepender-se, crer, e perseverar, se eles conseguem somente cooperar com ela, eles também sustentam que aqueles que recusam a cooperar, deverão prestar contas e através de toda eternidade serem castigados mais severamente do que se Cristo nunca tivesse morrido por eles de nenhuma maneira. Nós vemos que até aqui, na história da raça humana, a larga proporção da população adulta tem falhado em cooperar e tem dessa forma sido permitido trazer para si mesmos grande miséria do que se Cristo nunca tivesse vindo. Certamente, uma visão que permite a obra da redenção de Deus ser lançada em semelhante falência, e que projeta tão pequena glória na expiação de Cristo, não pode ser verdadeira. Vastamente, mais do amor e misericórdia de Deus pelo Seu povo é visto nas doutrinas Calvinistas da eleição incondicional e expiação limitada do que é vista na doutrina Arminiana da eleição condicional e expiação ilimitada.

8. O ARGUMENTO DA PRESCIÊNCIA DE DEUS

O argumento da presciência de Deus é em si mesmo, suficiente para provar esta doutrina. Não é a mente de Deus infinita ? Não são as suas percepções perfeitas ? Quem pode crer que Ele, como um débil mortal, poderia "disparar no comboio sem perceber os pássaros individuais ?" Visto que Ele conhece antes aqueles que seriam salvos - e que a maioria dos Arminianos evangélicos admitem que Deus tem uma presciência exata de todos eventos - Ele não teria enviado a Cristo intentando salvar aqueles que Ele positivamente previu que se perderiam. Porque, como Calvino adverte, "Onde estaria a consistência de Deus para Si mesmo, assim como Ele sabe que nunca sucederá?". Se um homem sabe que em uma sala há dez laranjas, sete das quais são boas e três das quais são podres, ele não ira para a sala esperando adquirir dez unidades boas. Ou se é conhecido de antemão que dentre um grupo de cinqüenta homens que foram convidados para um banquete, certo dez homens não virão, o anfitrião não enviará convites esperando que aqueles dez assim como os outros o aceitem. Eles apenas enganam a si mesmos, admitindo a presciência de Deus, dizendo que Cristo morreu por todos os homens; porque que isso senão atribuir estupidez a Ele, cujos caminhos são perfeitos ? Representar a Deus como aspirando ardentemente acontecer o que Ele sabe que não acontecerá, é representá-LO como agindo loucamente.

9. CERTOS BENEFÍCIOS QUE SE ESTENDEM A TODA HUMANIDADE EM GERAL

Em conclusão, permita ser dito que os Calvinistas não negam que a humildade em geral recebem alguns importantes benefícios da expiação de Cristo. Os Calvinistas admitem que ela interrompe a punição que deveria Ter sido infligida sobre toda a raça humana por causa do pecado de Adão; que ela forma uma base para a pregação do Evangelho e assim introduz muitas influências morais no mundo e restringe muitas influências perversas. Paulo pode dizer ao povo pagão de Listra que Deus "não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações," Atos 14:17. Deus faz Seu sol brilhar sobre maus e bons, e envia chuva sobre justos e injustos. Muitas bênçãos temporais se asseguram assim para todos os homens, ainda que estas não cheguem a ser suficientes para garantir a salvação. Cunningham expressou a crença do Calvinista mui claramente no seguinte parágrafo: - "Não é negado pelos advogados da redenção particular, ou da expiação limitada, que a humanidade em geral, até mesmos aqueles que no final das contas perecem, desfrutam de algumas vantagens ou benefícios da morte de Cristo; e nenhuma posição que sustentam lhes requer negar isto. Eles crêem que importantes benefícios se tem acrescentado à toda raça humana pela morte de Cristo, e que nestes benefícios aqueles que são finalmente impenitentes e incrédulos participam. O que eles negam é isto: que Cristo intentou alcançar, ou procurou, para todos homens aquelas bênçãos que são frutos próprios e peculiares de Sua morte, em seu caráter específico como uma expiação, - que Ele procurou ou comprou redenção - perdão e reconciliação - para todos os homens. Muitas bênçãos fluem para a humanidade amplamente pela morte de Cristo, colateralmente e incidentemente, na conseqüência da relação na qual os homens, vistos coletivamente, permanecem unidos um ao outro. Todos estes benefícios foram certamente previstos por Deus, quando Ele resolveu enviar Seu Filho ao mundo; eles [os benefícios] foram contemplados ou designados por Ele, em relação a como os homens deveriam receber e gozá-los. Devem ser estimadas e recebidas como concedidas por Ele, e como deste modo desvelando Sua glória, indicando Seu caráter, e realmente cumprindo Seus propósitos; e devem ser vistos como vindo aos homens através do canal da mediação de Cristo, - de Seu sofrimento de morte." ." 2

Há, portanto, um certo sentido no qual Cristo morreu por todos, e não contestamos ao dogma Arminiano com uma negativa desqualificada. Porém que mantemos que a morte de Cristo teve especial referência aos eleitos no que era eficaz para sua salvação, e que os efeitos que são produzidos nos outros são somente incidentais [secundários] a este único grande propósito.
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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