terça-feira, 25 de março de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 2 [04/05]


A Vocação Eficaz

1. Ensinamentos da Confissão de Westminster. 2. Necessidade de Mudança. 3. Uma Mudança Interna Provocada por poder Sobrenatural. 4. O Efeito Produzido na Alma. 5. A Suficiência da Obra de Cristo -- Evangelicalismo. 6. A Visão Arminiana da Graça Universal. 7. Não Violação do Livre Arbítrio do Homem. 8. Graça Comum

1. ENSINAMENTOS DA CONFISSÃO DE WESTMINSTER

A Confissão de Fé de Westminster assim apresenta a doutrina da Graça Eficaz: -- "I. Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça." (Capítulo X, Seção I - Referências Bíblicas: João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14; IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef. 1:17-18; II Çor. 4:6; Eze. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped. 1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; João6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17. ).

"II. Esta vocação eficaz é só da livre e especial graça de Deus e não provem de qualquer coisa prevista no homem; na vocação o homem é inteiramente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, fica habilitado a corresponder a ela e a receber a graça nela oferecida e comunicada." (Capítulo X, Seção II - Referências Bíblicas: II Tim. 1:9; Tito 3:4-5; Rom. 9:11; I Cor. 2:14; Rom. 8:7-9; Ef. 2:5; João 6:37; Ez. 36:27; João5:25.) 1

E o Catecismo Menor, respondendo à questão "O que é vocação Eficaz?" diz, "Vocação eficaz é a obra do Espírito de Deus, pela qual, convencendo-nos de nosso pecado e de nossa miséria, iluminando nossos entendimentos no conhecimento de Cristo, e renovando nossa vontade, nos persuade e habilita a abraçar Jesus Cristo, que nos é oferecido de graça no Evangelho." (Pergunta nº 31 - Referências Bíblicas: II Tm 1.9,9; Ef 1.18,20; At 2.37; At 26.18; Ez 11.19; Ez 36.26,27; Jo 6.44,45; Fp 2.13; Dt 30.6; Ef 2.5). 2

2. NECESSIDADE DE MUDANÇA

Os méritos da obediência e do sofrimento de Cristo são, adaptados e gratuitamente oferecidos a todos os homens. A pergunta com que nos deparamos então é, 'Por que um é salvo enquanto que o outro é perdido? O que faz com que alguns homens arrependam-se e creiam, enquanto outros, com os mesmos privilégios externos , rejeitem o Evangelho e continuem em impenitência e descrença?' Os Calvinistas dizem que é Deus quem faz tal diferença, que Ele eficazmente persuade alguns a virem até Ele; mas os Arminianos atribuem-na aos próprios homens.

Como Calvinistas, sustentamos que a condição dos homens desde a queda é tal que se deixados por sua própria conta eles continuariam no mesmo estado de rebelião e recusariam todas ofertas de salvação. Cristo, então, teria morrido em vão. Mas desde que havia sido prometido que Ele veria o trabalho de Sua alma e se satisfaria, os resultados daquele sacrifício não têm sido suspensos à mercê dos caprichos da vontade pecadora e mutável do homem. Ao contrário, a obra de Deus na redenção têm tido efetivo resultado, através da missão do Espírito Santo, que então opera naquelas pessoas escolhidas, de forma que eles são trazidos ao arrependimento e à fé, e assim feito herdeiros da vida eterna.

O ensinamento das Escrituras Sagradas é tal que devemos dizer que o homem em seu estado natural é radicalmente corrupto, e que ele nunca pode tornar-se santo através de qualquer poder próprio. Ele está espiritualmente morto, e se salvo, deve sê-lo por Cristo. O senso comum nos diz que se um homem é tão caído ao ponto de hostil para com Deus, tal hostilidade deve ser removida antes que ele tenha qualquer desejo de fazer a vontade de Deus. Se um pecador deve desejar a redenção através de Cristo, ele deve receber uma nova disposição. Ele deve nascer de novo, e do alto (veja em João 3:3). É fácil o bastante para nós vermos que o Diabo e os demônios teriam então de serem soberanamente mudados, se fosse o caso de serem salvos; todavia os princípios inatos que atuam no homem caído são da mesma natureza, embora não tão intensos quanto aqueles que atuam nos anjos caídos. Se o homem está morto no pecado, então nada, nenhum poder menor que o poder do Espírito Santo, sobrenatural e doador de vida, poderá fazer com que ele venha a agir de modo espiritualmente bom. Se lhe fosse possível entrar no céu ainda possuído pela velha natureza, então, para ele, o céu seria tão ruim quanto o inferno; pois ele estaria fora de harmonia com o seu meio ambiente. Ele detestaria a própria atmosfera e estaria em miséria quando na presença de Deus. Daí a necessidade da obra interna do Espírito Santo.

Na natureza do caso, o primeiro movimento em direção à salvação não mais pode vir do homem, tanto quanto do seu próprio corpo, quando morto, poderia vir a vida. A regeneração é uma dádiva soberana de Deus, graciosamente ofertada àqueles a quem Ele escolheu; e somente Deus é competente para realizar obra tão grandiosa e re-criadora. A regeneração não pode ser creditada à pré visão de nenhum bom atributo naqueles que são objeto desta mudança salvadora, pois em sua natureza não regenerada, eles são incapazes de boas ações para com Deus; daí que nenhum deles poderia possivelmente ser pré visto. Neste estado não regenerado o homem nunca compreende adequadamente sua condição íntima de indefesa. Ele imagina ser capaz de reformar-se, de regenerar-se a si mesmo e voltar-se a Deus, caso assim escolha. Ele até imagina ser capaz de neutralizar os desígnios da Sabedoria infinita, e de derrotar o próprio poder da Onipotência. Como o Dr. Warfield diz, "O homem pecaminoso permanece na necessidade, não de motivos ou de assistência, de ajuda para salvar-se, mas precisamente de salvação; e Jesus Cristo veio não para alertar, ou incitar, ou cortejar, ou ajudar o homem a salvar-se, mas para salvá-lo."

3. UMA MUDANÇA INTERIOR PROVOCADA POR PODER SOBRENATURAL

Esta mudança, na Bíblia, é chamada de regeneração (veja em Tito 3:5 = "não em virtude de obras de justiça que nós houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou mediante o lavar da regeneração e renovação pelo Espírito Santo"), uma ressurreição espiritual que é provocada pelo mesmo poder extraordinário com o qual Deus operou em Cristo quando Ele O ressuscitou dos mortos [veja em Efésios 1:19, 20 = "(19) e qual a suprema grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, (20) que operou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar-se à sua direita nos céus"], um chamado de entre as trevas para a maravilhosa luz de Deus (veja em I Pedro 2:9 = "Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz"), uma passagem desde a morte para a vida (veja em João 5:24 = "Em verdade, em verdade vos digo que quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida."), um novo nascimento (veja em João 3:3 = "Respondeu-lhe Jesus: "Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus."), uma 'vivificação' (veja em Colossenses 2:13 = "a vós, quando estáveis mortos nos vossos delitos e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-nos todos os delito"), uma substituição de um coração de pedra por um coração de carne (veja em Ezequiel 11:19 = "E lhes darei um só coração, e porei dentro deles um novo espírito; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne"); e daquele que é sujeito à mudança é dito ser uma nova criatura (veja II Coríntios 5:17 = "Pelo que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo."). Todas essas descrições refutam completamente a noção Arminiana de que a regeneração é primariamente um ato do homem, induzido por persuasão moral ou a mera influência da verdade como apresentada de maneira geral pelo Espírito Santo. E simplesmente porque esta mudança é produzida pelo poder do alto, que é o florescer de uma vida nova e re-criada, é irresistível e permanente.

A regeneração da alma é algo que é provocado, que é operado em nós; e não um ato por nós performado. É uma mudança instantânea, da morte espiritual para a vida espiritual. Não é nem mesmo algo do que estejamos conscientes no momento em que ocorre, mas sim alguma coisa que se encontra mais profunda que a consciência. No momento em que acontece, a alma está tão passiva quanto estava Lázaro quando foi chamado por Jesus de volta à vida. No que diz respeito à regeneração da alma, Charles Hodge diz: "É o objeto, e não o agente da mudança. A alma coopera, ou, é ativa no que precede e no que se segue à mudança, mas a mudança é alguma coisa do que se tem experiência, não que se faça. O cego e o coxo que vieram até Cristo, podem ter tido muito trabalho para conseguir chegar até a Sua presença, e eles alegremente exerceram o novo poder com que foram presenteados, mas eles permaneceram inteiramente passivos durante o instante da cura. Eles, de nenhuma forma, cooperaram na produção do resultado. O mesmo é verdadeiro quanto à regeneração." 3 E de novo Charles Hodge diz, "A mesma doutrina sobre este tema é ensinada com outras palavras quando a regeneração é declarada como sendo um novo nascimento. Ao vir ao mundo a criança adentra um novo estado de existência. O nascimento não é um ato do próprio bebê. O bebê é trazido ao mundo. Ele vêm de um estado de escuridão, no qual os objetos adaptados à sua natureza não podem agir nele ou mesmo despertar as suas atividades. Tão logo ele venha ao mundo, todas as suas faculdades estarão despertas; ele vê, ele sente e ouve, e gradualmente desenvolve todas as suas faculdades tanto como um ser físico como moral e racional. As Escrituras ensinam que assim também é na regeneração. A alma adentra a um novo estado. Ela é introduzida num mundo novo. Toda uma nova classe de objetos anteriormente desconhecidos ou não compreendidos são revelados à ela; e doravante exercem sobre ela sua apropriada influência." 4

A regeneração envolve uma mudança de caráter essencial. É o transformar a árvore em boa árvore, de modo que os seus frutos também sejam bons frutos. Como resultado dessa mudança, a pessoa passa de um estado de descrença para um estado de fé salvadora, não por qualquer processo de pesquisa ou de argumento ou de discussão, mas através de uma experiência interior. E como no caso do nosso nascimento físico não temos nem podemos fazer nada, a não ser recebê-lo como uma dádiva soberana de Deus, de igual forma também nada temos nem podemos fazer no caso do nosso nascimento espiritual, a não ser recebê-lo como uma dádiva soberana. Cada um deles ocorre sem qualquer demonstração do nosso próprio poder, e mesmo sem o nosso consentimento. Não resistimos mais ao segundo que resistimos ao primeiro. E à medida em que vamos em frente e vivemos nossas vidas naturais depois de havermos nascido, também vamos em frente e trabalhamos na nossa própria salvação depois de havermos sido regenerados.

As Escrituras Sagradas ensinam enfaticamente que um pré requisito para a entrada no Reino de Deus é uma transformação radical operada, provocada pelo próprio Espírito de Deus. E desde que esta obra na alma é soberana e sobrenatural, ela pode tanto ser concedida como reprimida, de acordo com o beneplácito de Deus. Consequentemente, a salvação, para quem quer que ela possa ser concedida, é inteiramente de graça. O Cristão nascido de novo passa a ver que Deus é, na realidade "o autor e o consumador" da sua fé (veja em Hebreus 12:2 = "olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus."), e que nesse aspecto Ele operou uma obra em favor dele (o Cristão nascido de novo), a qual Ele não operou em favor do seu vizinho não convertido. Em resposta à questão, "Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido?..."[I Coríntios 4:7], ele responde que é Deus quem tem feito a diferença entre homens, especialmente entre os redimidos e os perdidos. Se qualquer pessoa crer, é porque Deus assim o fez proceder; e se qualquer pessoa deixa de crer, é porque Deus reprimiu dele aquela graça a qual Ele não estava sob a obrigação de conceder. Falando estritamente, não há algo como alguém que seja resultado de "produção própria"; a mais alta categoria de ser humano é aquele que pode dizer como Paulo, "pela graça de Deus, eu sou o que sou."

Quando Jesus disse, "Lázaro, venha para fora," um poder espetacular acompanhou o comando de voz e tornou-o efetivo. Lázaro, é claro, não estava consciente de qualquer outro senão do seu próprio poder; mas quando ele mais tarde entendeu a situação ele indubitavelmente viu que ele tinha sido chamado de entre os mortos para a vida, inteira e completamente pelo poder divino. O poder de Deus foi o primário, o seu próprio poder foi o secundário, e nunca haveria sido exercido, exceto em resposta ao poder divino. É nesta maneira que cada alma redimida é trazida da morte espiritual para a vida espiritual. E tanto como o Lázaro morto foi primeiramente chamado de volta à vida e depois respirou e comeu, também a alma morta no pecado é primeiramente transferida para a vida espiritual e depois então exercita a fé e o arrependimento e produz boas obras.

O apóstolo Paulo enfatizou este mesmo ponto quanto ele disse que muito embora Paulo pudesse plantar e que Apolo pudesse regar, é Deus quem proporciona o crescimento. O mero esforço humano é inválido. Se uma semente de trigo deve germinar, o homem pode fazer somente as coisas mais externas e mecânicas na tentativa de atingir tal objetivo. É Deus quem proporciona a germinação e o crescimento através do controle soberano de forças que encontram-se inteiramente fora da esfera de influência do homem. Igualmente, com relação à alma, não importa o quão eloquente o pregador possa ser; a menos que Deus abra o coração não haverá conversão. Especialmente neste ponto, o homem faz somente as coisas mais externas e mecânicas; e é o Espírito Santo quem transmite o novo princípio de vida espiritual.

A doutrina Bíblica da queda apresenta o homem como moralmente arruinado, incapaz por natureza de fazer qualquer coisa boa. O Cristão verdadeiramente convertido, passa a enxergar sua inabilidade e sabe que ele não se faz merecedor do céu por conta das suas próprias boas obras e méritos. Ele compreende que ele não pode mover-se espiritualmente mas que ele é movido; como os galhos de uma árvore, ele é incapaz de germinar, nem produzir folhas, nem tampouco frutos, exceto se ele receber a seiva da raiz. Ou como Calvino diz, "Nenhum homem transforma-se a si mesmo em uma ovelha, mas é assim criado, pela graça divina." Os eleitos ouvem o Evangelho e crêem -- nem sempre quando O ouvem pela primeira vez, mas no tempo divinamente apontado -- os não eleitos ouvem mas não crêem, não porque lhes falte suficientes evidências, mas porque a sua natureza interior é oposta à santidade. A razão para os dois tipos de resposta deve ser rastreado até uma fonte externa. "Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne."[Ezequiel 36:26]. O vocábulo "coração" em linguagem Bíblica inclui todo o homem interior.

Sob os temos do pacto eterno que foi feito entre o Pai e o Filho, Cristo foi exaltado como o Governante mediador sobre toda a terra, de maneira que Ele possa dirigir o reino em desenvolvimento. Esta é uma das recompensas da Sua obediência e do Seu sofrimento. O Seu poder direcionador é exercido pela da ação do Espírito Santo, através de quem a Sua redenção comprada é aplicada em todos aqueles a quem a mesma foi intencionada e sob as condições precisas de tempo e circunstância predeterminados no pacto. A nós foi dito que não é através de nenhuma providência ordinária de Deus que um homem crê, mas é através do mesmo poder extraordinário operado quando Cristo foi levantado de entre os mortos [veja em Efésios 1:19, 20 = "(19) e qual a suprema grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, (20) que operou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar-se à sua direita nos céus."]. Tão certamente como aquele poder foi efetivo na ressurreição de Cristo, também certamente será efetivo quando aplicado num indivíduo, seja na ressurreição física ou espiritual.

O mundo físico e o mundo espiritual são cada um uma criação de Deus. No mundo físico a água é soberanamente transformada em vinho, e o leproso é curado por um toque somente. Os Arminianos prontamente admitem o poder miraculoso de Deus no mundo físico; por que, então, eles negam o mesmo poder no mundo espiritual, como se os espíritos dos homens estivessem além do Seu controle? Nós cremos que Deus pode transformar um homem mau num homem bom quando Lhe convier. É uma forma de autoridade, que é de direito, do Criador sobre a criatura. É um dos meios pelos quais o mundo é governado; e quando Deus vê que em assim operando é o melhor para em estar do indivíduo e para o desenvolvimento do Seu reino, não é somente permissível, mas de direito que assim Ele o faça. O efeito segue imediatamente quando da decisão tomada, como quando Ele comandou: 'Haja luz'. "O ato salvador Divino", diz Mozley, "é a dádiva desta graça irresistível. O alvo da predeterminação Divina, por um ato de poder absoluto é resgatado do domínio do pecado, é tirado de lá como se fosse, por força, convertido, enchido com o amor a Deus e ao seu próximo, e infalivelmente qualificado para um estado de máxima recompensa." 5

Como o olho físico uma vez cego não pode ser restaurado por qualquer quantidade ou intensidade de luz aplicada sobre ele, assim também a alma quando morta em pecado não pode adquirir visão espiritual seja qual for a quantidade da verdade do Evangelho que lhe seja apresentada. Assim como a visão é impossível, no caso do olho, a menos que uma cirurgia ou um milagre restaure o olho à sua condição normal; assim também no caso da alma, e a menos que ela seja regenerada, ela nunca vai compreender e aceitar a verdade do Evangelho. Na regeneração, Deus faz com que o pecador viva; e ele vive, imediatamente, cheio com uma nova vida espiritual. Lídia, a vendedora de púrpura na cidade de Tiatira, prestou atenção às coisas ditas por Paulo, porque o Senhor primeiro lhe abriu o coração (veja em Atos 16:14 = "E certa mulher chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que temia a Deus, nos escutava e o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia.") Cristo ensinou esta mesma verdade quando em Sua oração de intercessão Ele disse a respeito de Si mesmo que Deus "assim como lhe deste autoridade sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos aqueles que lhe tens dado."[João 17:2]; e novamente, "Pois, assim como o Pai levanta os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida a quem ele quer."[João 5:21].

Sob o pacto feito com Adão, o destino do homem dependia das suas próprias obras. Sabemos qual foi o resultado daquele julgamento. Agora, se o homem não podia operar a sua própria salvação enquanto ele 'estava na vertical', que chance tem ele depois de haver caído? Felizmente para nós, Deus tomou o assunto em Suas próprias mãos, desta vez. E se Deus novamente deu ao homem livre arbítrio para que ele pudesse operar a sua própria salvação, o que estaria Ele fazendo, a não ser instituir novamente a dispensação que já foi tentada e que resultou em falha? Suponha que um homem é levado por uma correnteza à qual ele é incapaz de resistir, seria razoável ou sábio resgatá-lo daquela correnteza somente para que recupere sua energia, para uma segunda tentativa? Não seria como uma ridícula imprudência salvá-lo, somente para repetir o processo? Desde que Deus não repete as Suas dispensações, podemos dizer que na segunda vez Ele ordenaria a salvação com um plano diferente. Se obras adicionais deverão ser operadas, então Deus, não o homem, será o autor; e a nova dispensação, tanto quanto a antiga, é ajustada ao estado no qual o homem se encontra.

Estamos seguros de que nenhum atributo, nenhuma qualidade pode aliar-se à vontade do homem, seja ele caído ou não, e levá-lo para além do alcance do controle soberano de Deus. Saulo foi chamado no ápice da sua perseguição zelosa e foi transformado no apóstolo Paulo. O ladrão crucificado foi chamado na última hora da sua vida terrena. Quando Paulo pregou em Antioquia, "...creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna."[Atos 13:48]. Se o propósito de Deus é que todos os homens devessem ser salvos, ele mais que certamente poderia traze-los todos à salvação. Mas por razões que só nos têm sido reveladas parcialmente, Ele deixa a muitos impenitentes. Através de todas as Suas obras, no entanto, vemos que nada do que Deus faz é inconsistente com a natureza humana, como sendo o homem um ser racional e responsável.

Um dos maiores defeitos do Arminianismo tem sido a falha em reconhecer a necessidade da obra sobrenatural do Espírito Santo no coração. Ao contrário, o Arminianismo resumiu a regeneração numa mudança mais ou menos gradual, que é levada a cabo pelo indivíduo, uma simples mudança de propósito na mente do pecador, que é resultado de persuasão moral e da força geral da verdade. O Arminianismo tem insistido no "livre arbítrio", "no poder de escolher o contrário", etc., e tem ensinado acima de tudo que o pecador determina o seu próprio destino. Nas suas formas mais consistentes, o Arminianismo faz do homem um "co-salvador" com Cristo, como se a glória na redenção pudesse ser dividida entre a graça de Cristo e a vontade do homem, este último também dividindo os espólios com o primeiro.

Se, como os Arminianos dizem, Deus está sinceramente tentando convencer a cada pessoa, Ele está falhando grandemente com a Sua obra; pois no meio da população adulta do mundo até o momento, onde ele obteve sucesso em salvar um, Ele tem feito com que talvez uns vinte e cinco fossem para o inferno. Tal ponto de vista concede muito pouca glória à Majestade Divina. Com relação à doutrina Arminiana da graça irresistível, Toplady diz que é "uma doutrina que representa a Onipotência como querendo, tentando e esforçando-se para nada. Conforme este princípio, Deus, ao tentar (pois parece que nada mais é que tentativa) converter os pecadores, estes pecadores podem enganá-LO, derrotá-LO e desapontá-LO; Ele pode estabelecer um cerco à alma, e aquela alma pode, na fortaleza impenetrável do livre arbítrio, levantar uma bandeira desafiadora ao Próprio Deus, e por uma contínua obstinação de defesa, e alguns assaltos do livre arbítrio farão com que Ele levante o cerco. Numa palavra, o Espírito Santo, depois talvez por anos haver tentado aproximação e aceitação pelo livre arbítrio do homem, pode ao final, como se fosse um general derrotado ou um político que não logrou êxito, ser vergonhosamente jogado na derrota, ou dispensado com desdém, em vão, sem haver alcançado o objetivo para o qual Ele havia sido enviado."

Não é razoável supor que o pecador pode assim derrotar o poder criativo do Deus Todo Poderoso. "Toda autoridade me foi dada no céu e na terra," disse o Senhor ao ascender ao céu. Nenhum limite é estabelecido para tal autoridade. ""Há, porventura, alguma coisa difícil ao Senhor?"[Gênesis 18:14]; "...e segundo a sua vontade ele opera no exército do céu e entre os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?"[Daniel 4:35]. Em vista destas e de muitas outras passagens cuja mensagem é a mesma, parece-nos doentio imaginar que Deus está pelejando com o homem da melhor maneira que Ele consegue, persuadindo, exortando, implorando, mas incapaz de alcançar os Seus propósitos, se as Suas criaturas quiserem diferentemente. Se o chamado de Deus não é efetivo, nós podemos imaginá-LO dizendo, "Eu quero que todos os homens sejam salvos, não obstante, tal deve finalmente ser, não como Eu quero mas sim como eles querem." Assim fosse, Deus estaria então sendo colocado na mesma extremidade com o Rei Dario, que podia e que alegremente teria salvo Daniel, mas não podia (veja em Daniel 6). Nenhum Cristão que seja familiar com o que as Escrituras Sagradas ensinam a respeito da soberania de Deus pode crer que Ele seja de tal forma derrotado em Suas criaturas. Não é necessário que uma criatura deva ter poder para desafiar e opor-se aos propósitos do Deus Todo-Poderoso antes que as suas ações sejam recompensadas ou punidas. Ademais, se Deus estivesse realmente sem poder perante a majestade da vontade do homem, seria de pouca utilidade orar para que Ele converta quem quer que seja. Seria então mais razoável que as nossas preces fossem dirigidas ao próprio homem.

4. O EFEITO PRODUZIDO NA ALMA

O efeito importante e imediato desta mudança interior, purificadora da natureza é que a pessoa ame a retidão e a justiça e confie em Cristo para a sua salvação. Enquanto que o seu elemento natural era o pecado, agora passa a ser santidade; o pecado torna-se repulsivo para ele, e ele ama fazer o bem. Esta graça irresistível e efetiva converte a própria vontade e forma um caráter santo na pessoa, através de um ato criativo. Ela remove o apetite do homem por coisas pecaminosas de maneira que ele se abstém do pecado, não com o dispéptico recusa comer as delicias que ele adora, já que em fazendo-o poderia ser punido com as agonias da doença, mas sim porque ele odeia o pecado pelo seu próprio bem. A santa e total submissão à vontade de Deus, a qual o convertido antes lutava e resistia, ele agora ama e aprova. Obediência se torna não somente obrigatória, mas o bem preferível.

Mas enquanto as pessoas permanecerem neste mundo elas estarão todas sujeitas às tentações e terão ainda os resquícios da velha natureza 'grudados' neles. Daí é que são constantemente enganados, e comentem pecado; todavia estes pecados são somente os ataques da morte e tentativas alucinadas da natureza antiga, que já recebeu o golpe mortal. Os regenerado também sofrem dores, doenças, desencorajamento e até mesmo a morte, embora eles estejam avançando firmemente em direção à completa salvação.

Neste ponto muitas pessoas confundem regeneração com santificação. A regeneração é obra exclusiva de Deus, e um ato de Sua graciosa graça, com a qual Ele implanta um novo princípio de vida espiritual na alma. Acontece por intermédio de poder sobrenatural e se completa num instante. Por outro lado, santificação é um processo através do qual os traços, os resquícios de pecado na vida exterior são gradualmente removidos, de modo que, como diz o Catecismo Menor, nós somos habilitados a morrer cada vez mais para o pecado e a viver para a retidão. Trata-se de um trabalho conjunto entre Deus e homem. Consiste no triunfo gradativo da nova natureza implantada em regeneração sobre o mal que ainda permanece depois de o coração haver sido renovado. Ou, em outras palavras, podemos dizer que a completa santificação desenvolve-se como que em efeito retardado, após a vida tenha em princípio ganha para Deus. Retidão perfeita é o alvo estabelecido a todos nós nesta vida; e de cada Cristão seria esperado um progresso contínuo na direção de tal alvo. A santificação, no entanto, não é inteiramente completa até a hora da morte, momento no qual o Espírito Santo limpa a alma de todo e qualquer vestígio de pecado, fazendo-a santa e até elevando-a acima da possibilidade de pecar.

De modo mais preciso, podemos dizer que a redenção não é inteiramente completa até que os salvos tenham recebido os seus corpos ressuscitados. Em um sentido foi completa quando Cristo morreu no Calvário, ainda que seja aplicada só gradualmente, pelo Espírito Santo. E uma vez que o Espírito Santo efetivamente assim aplica aos eleitos os méritos do sacrifício de Cristo, a sua salvação é muito infalivelmente certa e não pode de forma alguma ser evitada. Daí a certeza de que a vontade de Deus para a salvação do Seu povo não é de forma alguma desapontada ou anulada, por Suas criaturas.

5. A SUFICIÊNCIA DA OBRA DE CRISTO -- EVANGELICALISMO

Passamos agora a discutir a suficiência da obra de Cristo no que diz respeito à redenção. Nós cremos que através do Seu sacrifício vicário e da Sua morte, Ele pagou o débito que o Seu povo tinha para com a justiça divina, assim livrando-os das conseqüências do pecado; e que por haver mantido a lei da perfeita obediência e vivido uma vida sem pecado, Ele ganhou para eles a recompensa da vida eterna. A obra de Cristo integralmente proveu o seu resgate do pecado e o seu estabelecimento no céu. Algumas vezes tem sido referido a estas duas fases da obra de Cristo como sendo a Sua obediência ativa e passiva. A doutrina da suficiência da Sua obra é apresentada na Confissão de Westiminster, que nos diz que "O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, . . . . . satisfez plenamente à justiça do Pai. e para todos aqueles que o Pai lhe deu adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no Reino dos Céus." (Capítulo VIII, Seção V = Referências Bíblicas: Rom. 5: 19 e :25-26; Heb. 10: 14; Ef. 1: 11, 14; Cl.1:20; II Cor.5: 18; 20; João 17:2; Heb.9:12,15.) 6 Tivesse ele somente sofrido o castigo pelo pecado, sem também ganhar a recompensa da vida eterna, o Seu povo teria sido somente elevado até o marco zero. Eles estariam então no mesmo ponto e no mesmo plano em que encontrava-se Adão antes da queda, e ainda estariam sob a obrigação de ganhar para si próprios a vida eterna. Ao que Paulo declarou, que Cristo é tudo em todos em matéria de salvação (veja Colossenses 3:11 = "onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas Cristo é tudo em todos."), podemos acrescentar que o homem não é nada de nada quanto àquela obra, e não tem em si próprio nada que mereça salvação. Deveríamos lembrar que o Evangelho não são bons conselhos, mas sim boas novas. Ele não dos diz o que devemos fazer para ganhar a salvação, mas proclama a nós o que Cristo fez para salvar-nos.

Por em dúvida que todos por quantos Cristo morreu serão salvos, ou que a retidão triunfará, é o mesmo que duvidar da suficiência de Jesus Cristo quanto ao que Ele tomou sobre si em nosso lugar. Na cruz Jesus declarou que Ele havia terminado a obra de redenção que o Pai deu-Lhe para fazer. Mas, como Toplady assinala, "a pessoa com poder para aceitar ou rejeitar, como lhe convenha, deve dizer: "Não, não terminastes a obra de redenção que vos foi dada para fazer; na realidade fizeste uma parte dela, mas eu devo pessoalmente acrescentar algo a ela, ou vosso trabalho inteiro não terá valido nada."

Somente aqueles pontos de vista que atribuem a Deus todo o poder na salvação de pecadores são evangélicos e consistentes, já que a palavra "evangélico" significa que é somente Deus quem salva. Se porventura a fé e a obediência deverem ser acrescentadas, dependendo da escolha independente do homem, não mais teremos evangelicalismo. O evangelicalismo, com uma expiação universal leva à salvação universal; e na medida em que o Arminianismo sustenta que Cristo morreu por todos os homens e que o Espírito luta para aplicar esta redenção a todos homens mas somente alguns são salvos, ele não é evangélico.

Ilustremos adicionalmente este princípio de evangelicalismo, imaginando um grupo de pessoas que são acometidas de uma doença terminal. Aí, se um médico lhes administrar um remédio que é cura certa, todos quantos tomarem o remédio se recuperarão. Da mesma forma, se a obra de Cristo for efetiva, e se for aplicada a todos homens pelo Espírito Santo, todos serão salvos. Portanto, para tornar-se evangélico, o Arminiano deve tornar-se um universalista. Só o Calvinismo, que defende ao evangelicalismo com uma expiação limitada e declara que a obra de Cristo alcança o objetivo a que estava proposta, é consistente com os fatos Bíblicos e com a experiência.

6. O PONTO DE VISTA ARMINIANO DA GRAÇA UNIVERSAL

A nota universalista está sempre presente no sistema teológico Arminiano. Um exemplo típico é encontrado na asserção do Prof. Henry C. Sheldon, que por muitos anos esteve ligado à Universidade de Boston. Diz ele: "Nossa peleja é pela universalidade da oportunidade de salvação, em oposição a uma incondicional e exclusiva escolha de indivíduos para a vida eterna." 7. Aqui podemos notar não somente ( 1 ) a ênfase, o 'stress' Arminiano característico no universalismo, mas também ( 2 ) o reconhecimento que, numa análise final, tudo o que Deus faz para a salvação dos homens a ninguém salva realmente, mas que somente abre um caminho de salvação, de maneira que os homens possam salvarem-se a si mesmos, -- e assim, para todos os propósitos práticos, estamos de volta ao plano do puro naturalismo!

Talvez a asserção mais forte da construção Arminiana seja encontrada no credo da denominação 'União Evangélica', ou os chamados "Morisonianos", cujo propósito foi protestar contra a eleição incondicional. Um sumário das suas "Três Universalidades" é fundamentado no credo assim: "O amor de Deus o Pai, na dádiva e no sacrifício de Jesus para todos os homens em todos lugares sem distinção, exceção ou respeito de pessoas; o amor de Deus o Filho, na dádiva e no sacrifício de Si próprio como uma verdadeira propiciação pelos pecados do mundo todo; o amor de Deus o Espírito Santo, na Sua obra pessoal e contínua, aplicando às almas de todos os homens as provisões da divina graça." 8

Certamente, se Deus ama igualmente a todos os homens, e se Cristo morreu igualmente por todos os homens, e se o Espírito Santo aplica as benesses daquela redenção igualmente a todos os homens, uma das duas conclusões a seguir é aplicável. ( 1 ) Todos os homens igualmente estão salvos (o que é contradito pelas Sagradas Escrituras), ou, ( 2 ) tudo o que Deus faz para o homem não o salva, mas deixa-o para que se salve a si mesmo! No que então se transforma o nosso evangelicalismo, que sustenta que é somente Deus quem salva os pecadores? Se aceitarmos que depois de Deus haver feito toda a Sua obra, ainda assim é deixado ao homem a alternativa de "aceitar" ou "não resistir", concedemos ao homem o poder de veto sobre a obra do Poderoso Deus e a salvação permanece, em última instância, nas mãos do homem. Neste sistema teológico, não importa quão grande seja a proporção da obra de salvação que Deus possa fazer, o homem é o fator decisivo final. E o homem que vem até a salvação, tem algum mérito pessoal; ele tem alguma base para vangloriar-se sobre aqueles que estão perdidos. Ele pode apontar-lhes o dedo do escárnio e dizer, "Você teve tão boa chance quanto eu tive. Eu aceitei e você rejeitou a oferta. Portanto, você merece sofrer." Quão diferente isto é da declaração de Paulo que a salvação "não vem das obras, para que ninguém se glorie"[Efésios 2:9] e que "...Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor."[I Coríntios 1:31].

A tendência em todos estes sistemas teológicos universalistas nos quais o homem orgulhosamente toma as rédeas e proclama-se o mestre do seu destino, é reduzir o Cristianismo a uma religião de obras. Lutero tinha este mesmo ponto em mente quanto ele satiricamente comentou referindo-se aos moralistas do seu tempo, "Nós sempre estamos querendo virar a mesa e fazer nosso próprio bem para aquele pobre homem, Deus nosso Senhor, de Quem nós deveríamos é receber tal bem."

Zanchius diz que o Arminianismo sussurra gentilmente no ouvido do homem que mesmo no seu estado de queda ele tem "ambos, a vontade e o poder para fazer o que é bom e aceitável para Deus: -- que a morte de Cristo é aceita por Deus como uma expiação universal para todos os homens; de maneira que cada um pode, se assim desejar, salvar-se a si mesmo através do seu livre arbítrio e boas obras: -- que no exercício de nossos poderes naturais, nós podemos chegar a perfeição, mesmo no nosso estado de vida presente." "A questão", diz o Dr. Warfield, "é realmente fundamental, e é claramente proposta. É o Senhor Deus quem nos salva, ou somos nós mesmos? E será que o Senhor Deus nos salva, ou Ele meramente abre perante nós o caminho da salvação e deixa para a nossa escolha, trilhá-lo ou não? A encruzilhada é a mesma velha encruzilhada entre o Cristianismo e o 'auto soterismo'. É certo que somente pode chamar-se de evangélico aquele que com plena consciência descansa inteira e diretamente em Deus, e somente em Deus, para a sua salvação." 9

"Not the labors of my hands
Can fulfill Thy law's commands;
Could my zeal no respite know,
Could my tears forever flow,
All for sin could not atone
Thou must save, and Thou alone. 
"As obras das minhas mãos
Não podem satisfazer a Tua lei;
O meu zelo pode ser incansável
Minhas lágrimas rolar para sempre
Tudo isso não poderia meu pecado expiar
Tu podes salvar-me, e Tu somente
"Nothing in my hands I bring -
Simply to Thy cross I cling;
Naked come to Thee for dress -
Helpless look to Thee for grace;
Foul, I to thy fountain fly -
Wash me, Saviour, or I die!" 10
"Nada trago nas mãos -
Simplesmente me apego à Tua cruz;
Venho nu a Ti, para vestir-me -
Indefeso, busco a graça em Ti;
Sujo, eu corro até a Tua fonte -
Lava-me, Salvador, ou morro!" 10

7. NENHUMA VIOLAÇÃO DA LIBERDADE DO HOMEM

É comum ao oponentes referirem-se a esta doutrina como se implicasse que os homens são forçados a crer e voltar-se a Deus contra os seus desejos, ou, que ela reduzisse os homens ao nível de autômatos no que refere-se à salvação. Trata-se de referência ou representação errônea. Os Calvinistas não sustentam tal opinião; e na verdade o enunciado completo da doutrina exclui ou contradiz tais alusões. A Confissão de Fé de Westminster, depois de declarar que esta Vocação Eficaz ("Graça Eficaz") que resulta na conversão é um exercício de onipotência e não pode ser derrotada, acrescenta que, "...eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça."[Final da Seção I, Capítulo X - Referências Bíblicas: João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14; IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef. 1:17-18; II Çor. 4:6; Eze. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped. 1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; Jo 6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17]. O poder pelo qual a obra da regeneração é efetuada não provém de natureza exterior ou forçosa. A Regeneração não produz mais violência à alma que a demonstração produz ao intelecto, ou a persuasão ao coração. A regeneração não lida com o homem como se ele fosse uma pedra ou um pedaço de madeira. Nem tampouco ele é tratado como um escravo, e guiado contra a sua própria vontade, até a salvação. Antes, a mente é iluminada, e é transformado todo o conjunto de concepções com relação a Deus, a si próprio e ao pecado. Deus envia o Seu Santo Espírito e, de uma maneira que redundará eternamente em louvor da Sua graça e misericórdia, docemente faz com que a pessoa se renda. O homem regenerado encontra-se então governado por novos motivos e novos desejos, e as coisas que ele antes odiava agora são amadas e buscadas. Esta mudança não é conseguida através de qualquer compulsão exterior, mas através de um novo princípio de vida, que foi criado dentro da alma e que busca o alimento que somente pode satisfaze-lo.

A lei espiritual, como a lei civil, não é "terror para o bom trabalho, mas para o mal"; e nesse sentido encontramos uma boa analogia para com os assuntos humanos. Compare o cidadão cumpridor da lei e o criminoso. O cidadão que cumpre a lei vive o seu dia a dia inconsciente da maioria das leis do estado e da nação onde vive. Ele encara os oficiais do governo e a polícia como seus amigos. Eles representam a autoridade constituída a qual ele respeita e com a qual ele se satisfaz. É um homem livre. Para ele, a lei existe somente para proteger a sua vida, os seus amados, e o seu patrimônio. Mas quando nos referimos ao criminoso, o quadro é diferente. Ele provavelmente sabe mais acerca dos estatutos do que qualquer outro homem que seja cumpridor da lei. Ele os estuda para que possa evadir-se deles e desrespeitar os seus propósitos. Vive com medo. Ele defende o seu esconderijo com portas à prova de bala, e carrega sempre uma arma por temer o que a polícia ou o povo possam fazer consigo. Ele está sob servidão constante. Sua ideia de liberdade é eliminar a polícia, corromper os tribunais, e trazer à desgraça geral as leis e os costumes da sociedade a qual ele tenta arruinar.

Todos nós temos tido experiências em nossas vidas diárias, quando nos recusamos a fazer certas coisas, mas quando da introdução de novos fatores mudamos nossa ideia e grata e livremente fazemos o que anteriormente nos opúnhamos. Certamente não há nada desta doutrina que garanta a representação que, de acordo com os princípios Calvinistas, os homens sejam forçados a arrepender-se e crer, seja esta a sua escolha ou não.

Mas, alguém pode questionar, as passagens na Bíblia, tais como, "Se obedecerdes", "Se vos voltardes a Jeová", "Se fizeres o que é mal", e assim por diante; não implicam, pelo menos, que o homem tem livre arbítrio e capacidade? Não se segue, contudo, que meramente porque Deus ordena é que o homem capaz de obedecer. Muitas vezes os pais 'brincam' com seus filhos dizendo-lhes para fazerem isto ou aquilo, quando seu principal propósito é mostrar-lhes a sua incapacidade e induzi-los a buscar pelo auxílio dos pais. Quando os homens do mundo ouvem tal tipo de linguagem eles assumem terem suficiente poder em si próprios, e, como o auto-conceituado doutor da lei a quem Jesus respondeu, "...Respondeste bem; faze isso, e viverás."[Lucas 10:28], eles vão adiante crendo serem capazes de alcançar a salvação através de boas obras. Mas quando o verdadeiro homem espiritual ouve este mesmo tipo de linguagem, ele é levado a enxergar que ele não pode cumprir o mandamento, e então clama ao Pai para que Ele faça a obra por ele. Nestas passagens o homem é ensinado não o que ele pode fazer, mas sim o que é esperado que ele faça; e em débito está aquele que é tão cego que não consegue enxergar esta verdade, pois até que ele possa ele nunca poderá entender a obra de Cristo. Em resposta ao lamento desesperado dos pecadores, as Escrituras Sagradas revelam uma salvação que é inteiramente de graça, a dádiva gratuita do amor e da misericórdia de Deus em Cristo. E o que a si mesmo vê assim salvo pela graça, instintivamente clama com Davi, "...Quem sou eu, Senhor Jeová, e que é a minha casa, para me teres trazido até aqui?"[II Samuel 7:18]

A graça especial à qual nos referimos como eficaz é algumas vezes chamada de irresistível. Este termo, contudo, é um tanto quanto não apropriado, uma vez que sugere que um certo poder arrasador seja exercido sobre a pessoa, em conseqüência do qual ele é compelido a agir contrariamente aos seus desejos, ao passo que o significado intencionado, como já dito anteriormente, é que os eleitos sejam tão influenciados pelo poder, que o seu agir a partir de então seja um ato de escolha voluntária.

8. GRAÇA COMUM

Além dessa graça especial que resulta na salvação dos seus objetos, há o que podemos chamar de "graça comum", ou influências gerais do Espírito Santo que, a um nível maior ou menor são experimentadas por todos homens. Deus faz com que o Seu sol nasça sobre o mau e sobre o bom, e manda chuva sobre o justo e sobre o injusto. Ele provê estações frutíferas e dá muitas coisas as quais contribuem para a felicidade da humanidade em geral. Entre as bênçãos mais comuns que devem ser atribuídas à esta fonte, podemos enumerar a saúde, a prosperidade material, a inteligência em geral, os talentos para a arte, música, oratória, literatura, arquitetura, comércio, invenções e etc. Em muitos casos, os não eleitos recebem estas bênçãos em abundância maior do que os eleitos, pois muitas vezes vemos que os filhos deste mundo são para a sua própria geração mais sábios que os filhos da luz. A graça comum é a fonte de toda a ordem, o refinamento, a cultura, a virtude comum, etc., que encontramos no mundo, e através dela é que o poder moral da verdade no coração e na consciência é aumentado, e as paixões maléficas dos homens são restringidas. Ela não leva à salvação, mas livra esta terra de transformar-se em inferno. Ela prende a efetivação do pecado, tanto quanto o discernimento humano prende a fúria de bestas selvagens. Ela previne o pecado de ser manifestado em toda sua hedionda expressão, e assim bloqueia a explosão das chamas da fogueira fumegante. Como a pressão da atmosfera, é poderosa e universal, ainda que não sentida.

A graça comum, no entanto, não mata essência do pecado, e portanto não é capaz de produzir uma conversão genuína. Por intermédio da luz da natureza, das obras da consciência, e especialmente por intermédio da apresentação exterior do Evangelho é possível ao homem saber o que ele deveria fazer, mas isto não proporciona o poder do qual o homem necessita. As Escrituras Sagradas ensinam constantemente que o Evangelho torna-se efetivo somente quando é auxiliado pelo poder iluminador do Espírito, e sem este poder ele é pedra de tropeço para os Judeus e tolice para os Gentios. Assim é que o homem não regenerado nunca pode conhecer a Deus, exceto de uma maneira exterior, e por este motivo a retidão exterior dos escribas e dos Fariseus é declarada não ser retidão de forma alguma. Jesus disse aos Seus discípulos que o mundo não poderia receber o Espírito da verdade, "...porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque ele habita convosco, e estará em vós."[João 14:17]. A doutrina Arminiana acaba com a distinção entre graça comum e graça eficaz (vocação eficaz), ou quando muito faz com que a graça eficaz seja uma assistência sem a qual a salvação é impossível, enquanto que a doutrina Calvinista faz dela uma assistência pela qual a salvação é certa.

Com relação às transformações, às reformas produzidas pela graça comum, o Dr. Charles Hodge diz: -- "Freqüentemente acontece de os homens que têm sido imorais em suas vidas mudarem completamente o curso de suas vidas. Eles passam a ser exteriormente corretos em seu comportamento, em sua têmpera, passam a ser puros, honestos e bondosos. É uma grande e louvável mudança. É extremamente benéfica àqueles que dela são objetos, e a todos quantos eles estiverem ligados. Pode ser produzida por diferentes causas, pela força da consciência, ou por uma consideração pela autoridade de Deus e um temor da Sua desaprovação, ou por uma consideração ao bom conceito de homens, ou pela mera força de uma consideração iluminada de interesse próprio. Mas qualquer que seja a causa próxima de tal reforma, de tal transformação, ela está sempre bem longe de santificação. As duas coisas diferem em natureza tanto quanto um coração limpo difere de uma roupa limpa. Tal transformação externa pode deixar o caráter íntimo do homem não transformado, não modificado à luz de Deus. Ele pode permanecer destituído de amor para com Deus, ou de fé em Cristo, e de todos os santos exercícios ou afeições." 11 E diz o Dr. Hewlitt: "Poderia o cadáver no cemitério ser levantado através da mais doce música já composta, ou pelo ribombar do maior trovão, que parece estremecer os pólos da Terra? Assim que o pecador, morto em pecado e ofensas, possa ser movido pelo trovão da lei, ou pela melodia do Evangelho; poderá então o Etíope mudar a cor da sua pele, ou o leopardo as suas malhas." "...então podereis também vós fazer o bem, habituados que estais a fazer o mal..."[Jeremias 13:23]. 12

O parágrafo seguinte, escrito pelo Dr. S. G. Craig estabelece de maneira muito clara as limitações da graça comum: -- "O Cristianismo entende que educação e cultura, que deixam Jesus Cristo fora de consideração, enquanto possam fazer homens mais inteligentes, polidos, brilhantes, não têm o poder para mudar dos seus caracteres. Quando muito tais coisas em si mesmas podem limpar o exterior do recipiente, sem no entanto afetar a natureza do seu conteúdo. Aqueles que depositam a sua confiança na educação, na cultura e em coisas afins, assumem que tudo o que seja necessário para transformar uma oliveira selvagem numa oliveira boa é regar, podar, cultivar e assim por diante, enquanto que o que a árvore precisa, em primeiro lugar, é seja enxertada com um broto de uma oliveira boa. E até que isto seja feito, todo trabalho dispensado à árvore é na maior parte jogado fora. Nós não subestimamos o valor da educação e da cultura, e todavia alguém poderia tanto supor-se capaz de purificar as águas de um rio simplesmente em melhorando as margens do mesmo, como também supor que estas coisas, próprias de si mesmos são capazes de transformar os corações dos filhos dos homens .... como um antigo provérbio Judeu diz: "pegue uma árvore de frutos amargos e plante-a no jardim do Éden e regue-a com as águas dali; e deixe o anjo Gabriel cuidar dela, e a árvore ainda assim produzirá frutos amargos." 13
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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