domingo, 30 de março de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 2 [05/05]


A Perseverança Dos Santos

1. Enunciado da Doutrina. 2. Perseverança Não Depende das Boas Obras do Indivíduo, Mas Da Graça de Deus. 3. Embora Verdadeiramente Salvos, Os Cristãos Podem Temporariamente Degenerar-se e Voltar a Pecar. 4. Uma Profissão Exterior de Retidão Não É Garantia que O Indivíduo Seja Um Cristão Verdadeiro. 5. O Senso de Insegurança Arminiano. 6. Propósito dos Alertas das Escrituras Contra A Apostasia. 7. Prova Na Bíblia.

1. ENUNCIADO DA DOUTRINA

A doutrina da Perseverança dos Santos é apresentada na Confissão de Fé de Westminster com as seguintes palavras: "Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão eternamente salvos."[Capítulo XVII, Seção I. Referências Bíblicas: Fil. 1: 6; João 10: 28-29; I Ped. 1:5, 9.]. (1). Ou, em outras palavras, cremos que aqueles que uma vez tornaram-se Cristãos não podem cair do estado de graça e perderem-se, --- que enquanto eles possam cair temporariamente em pecado, eles retornarão eventualmente, e serão salvos.

Esta doutrina não se sustenta sozinha, mas é uma parte necessária do sistema de teologia Calvinista. As doutrinas da Eleição e da Vocação Eficaz ("Graça Eficaz") implicam logicamente na salvação certa daqueles que recebem tais bênçãos. Se Deus escolheu homens incondicional e absolutamente para a vida eterna, e se o Seu Espírito Santo aplica efetivamente àqueles homens os benefícios da redenção, a conclusão inescapável é que tais indivíduos serão salvos. E, historicamente, esta doutrina tem sido sustentada por todos Calvinistas, e negada por praticamente todos Arminianos.

Aqueles que têm corrido até Jesus por refúgio têm uma fundação, um alicerce firme sobre o qual construir. Embora ondas de erros inundem a terra, embora Satã levante todos os poderes da terra e as iniqüidades dos seus próprios corações contra eles, eles nunca falharão; mas, perseverando até o fim, eles herdarão aquelas mansões que foram preparadas para eles desde a fundação do mundo. Os santos no céu são mais felizes, mas não mais seguros do que os verdadeiros crentes aqui neste mundo. Uma vez que a fé e o arrependimento são dádivas de Deus, o conceder destas dádivas é uma revelação do propósito de Deus para salvar aqueles a quem elas são dadas. É uma evidência de que Deus predestinou os receptáculos de tais dádivas para serem conforme à imagem do Seu Filho, i.e. para serem iguais a Ele em caráter, destino, e glória, e que Ele infalivelmente alcançará o Seu propósito. Ninguém pode arrancá-los das Suas mãos. Aqueles que tornam-se Cristãos uma vez, têm dentro de si o princípio da vida eterna, princípio este que é o Espírito Santo; e desde que o Espírito Santo faz morada neles, eles são então potencialmente santos. É verdade que passam por muitas provas, e que não sabem o que será deles, mas eles devem saber que o que foi começado neles será completo, até o fim, e que a própria presença de conflitos dentro deles é o sinal de vida e a promessa de vitória.

Com relação àqueles que tornam-se Cristãos verdadeiros, mas que, como os Arminianos alegam, 'caem', por que Deus não os tira do mundo enquanto eles ainda encontram-se no estado de salvos? Certamente ninguém dirá que é porque Ele não possa, ou que é porque Ele não prevê a sua futura apostasia. Por que, então, Ele deixa estes objetos da Sua afeição aqui, para caírem novamente em pecado e perecer? A Sua dádiva de vida continuada para estes Cristãos eqüivale a uma maldição infinita imposta sobre eles. Mas quem é que pode realmente crer que o Pai Celeste não cuida melhor dos Seus filhos? Esta doutrina errônea dos Arminianos ensina que uma pessoa pode ser um filho de Deus hoje e um filho do Diabo amanhã, que ela pode mudar de um estado para outro tão rapidamente quanto muda de opinião. Ensina que a pessoa pode ser nascida do Espírito, justificada, santificada, tudo menos glorificada, e que mesmo assim ela pode tornar-se rejeitada e perecer eternamente, sendo a sua própria vontade e curso de conduta o fator determinante. Certamente que um Deus soberano e amoroso não permitiria que seus filhos resgatados caíssem dessa forma e perecessem.

Adicionalmente, se Deus sabe que um certo Cristão vai rebelar-se e perecer, será que Ele pode amá-lo com qualquer tipo de afeição profunda mesmo antes da sua apostasia? Se soubéssemos que alguém que é nosso amigo hoje seria levado a tornar-se nosso inimigo e trair-nos amanhã, não seríamos capazes de recebê-lo com a intimidade e confiança que de outra forma seriam naturais. Nosso conhecimento dos seus atos futuros destruiriam em grande monta o nosso presente amor por ele.

Ninguém nega que os redimidos no céu serão preservados em santidade. Todavia se Deus é capaz de preservar os Seus santos no céu sem violar a sua liberdade, não pode Ele também preservar os Seus santos na terra sem violar a sua liberdade?

A natureza da mudança que ocorre na regeneração é uma garantia suficiente de que a vida concedida será permanente. A regeneração é uma mudança radical e sobrenatural da natureza íntima, através da qual a alma é tornada viva espiritualmente, e a nova vida implantada é imortal. Uma vez a regeneração trata de uma mudança da natureza íntima, ela ocorre numa esfera na qual o homem não tem controle. Nenhuma criatura tem a liberdade de mudar os princípios fundamentais da sua natureza, pois que tal é a prerrogativa de Deus, na qualidade de Criador. Daí que nada menos que um outro ato sobrenatural de Deus poderia reverter esta mudança e fazer com que a nova vida se perdesse. O Cristão nascido de novo não pode mais perder sua condição de filho do Pai Celeste, tanto quanto um filho aqui na terra não pode perder sua condição de filho de um pai daqui da terra. A idéia que um Cristão pode 'cair' e perecer provém de uma concepção errada do princípio de vida espiritual que foi concedido à alma na regeneração.

2. NOSSA PERSEVERANÇA NÃO DEPENDE DAS NOSSAS BOAS OBRAS, MAS DA GRAÇA DE DEUS.

Paulo ensina que os crentes não encontram-se sob a lei, mas sob a graça, e que desde que eles não encontram-se sob a lei eles não podem ser condenados por haverem violado a lei. "...não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça."[Romanos 6:14]. Pecado adicional não pode possivelmente resultar a sua queda, pois eles encontram-se sob um sistema de graça e não são tratados de acordo com os seus merecimentos. "Mas se é pela graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça."[Romanos 11:6]. "Porque a lei opera a ira; mas onde não há lei também não há transgressão."[Romanos 4:15]. "...porquanto onde não há lei está morto o pecado" (ou seja, onde a lei é abolida o pecado não pode mais sujeitar o indivíduo ao castigo).[Romanos 7:8]. "Assim também vós, meus irmãos, fostes mortos quanto à lei mediante o corpo de Cristo..."[Romanos 7:4]. Aquele que tenta ganhar mesmo a menor porção da sua salvação através de boas obras torna-se "obrigado a guardar toda a lei."(ou seja, prestar perfeita obediência em sua própria capacidade, e assim ganhar a sua salvação) [Gálatas 5:3]. Aqui nos defrontamos com dois sistemas de salvação radicalmente diferentes, dois sistemas os quais, na realidade, são diametralmente opostos um ao outro.

O infinito, misterioso e eterno amor de Deus para com o Seu povo é uma garantia de que eles nunca se perderão. Tal amor não é sujeito a variações ou mudanças, mas é tão imutável quanto o Seu próprio Ser. Também é gratuito, e se apega a nós muito mais rapidamente do que nós a Ele. Não está alicerçado na atratividade dos seus objetos. "Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados."[I João 4:10]. "(8) Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós. (9) Logo muito mais, sendo agora justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. (10) Porque se nós, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida."[Romanos 5:8-10]. Enfatizado aqui o ponto em que o nosso estar com Deus não é baseado nos nossos merecimentos. Foi "enquanto éramos inimigos" que fomos trazidos para a vida espiritual através da graça soberana; e se Ele já fez o maior, não fará Ele o menor? O escritor da carta aos Hebreus também ensina que é impossível para alguém escolhido por Deus perder-se, quando ele diz que Cristo é ambos, "o Autor e o Consumador da nossa fé." Somos ensinados que o rumo, a direção completa da nossa salvação é divinamente planejada e divinamente guiada. A graça de Deus ou a sua continuidade não nos são dadas de acordo com os nossos méritos. Portanto se qualquer Cristão 'cair', será porque Deus retirou dele a Sua graça e mudou o Seu método de procedimento --- ou, em outras palavras, porque Ele colocou a pessoa novamente sob um sistema de lei.

Robert L. Dabney expressou esta verdade com muita habilidade, no seguinte parágrafo: "O amor soberano e imerecido é a causa da chamada efetiva do crente (veja em Jeremias 31:3 = "...Pois que com amor eterno te amei, também com benignidade te atraí." Veja também em Romanos 8:30 = "e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou." Agora, se a causa é imutável, também imutável é o efeito. É o efeito é este, a comunicação constante da graça ao crente em quem Deus começou boa obra. Deus não foi induzido a conceder a Sua graça renovadora em primeiro lugar, por qualquer coisa que Ele visse, atrativa ou digna de mérito, no pecador arrependido; e portanto a subsequente ausência de qualquer bem no pecador não seria motivo para que Ele retirasse a Sua graça. Quando Ele primeiramente concedeu tal graça, Ele sabia que o pecador ao qual ele a concedeu estava totalmente depravado, só e inteiramente cheio de ódio para com a santidade divina; e portanto nenhum momento de ingratidão ou de falta de fé, de que o pecador pode vir a ser culpado após a sua conversão, podem vir a transformarem-se em qualquer tipo de provocação a Deus, para que Ele mude de opinião, e retire por completo a Sua graça, que o sustenta. Deus de antemão soube de toda esta ingratidão. Ele a castigará, ao retirar temporariamente o Seu Espírito Santo, ou as Suas misericórdias providenciais; mas se Ele não tivesse a intenção desde o início, de seguir adiante, e de perdoá-la em Cristo, Ele não teria chamado o pecador através da Sua graça, em primeiro lugar. Numa palavra, somente em Deus; e não no pecador, permanecem as causas pelas quais Ele determinou conceder o Seu amor eletivo ao pecador; e assim, nada no coração ou na conduta do crente podem finalmente mudar tal propósito de amor (veja em Isaías 54:10 = "Pois as montanhas se retirarão, e os outeiros serão removidos; porém a minha benignidade não se apartará de ti, nem será removido ao pacto da minha paz, diz o Senhor, que se compadece de ti." Veja também em Romanos 11:29 = "Porque os dons e a vocação de Deus são irretratáveis."). Agora compare cuidadosamente as passagens em [Romanos 5:8 e 8:32] com todo o contexto de [Romanos 8:28 até o final do capítulo]. Esta passagem ilustre nada mais é que um argumento pela nossa proposição; "O que nos separará do amor de Cristo?" 2

"O amor de Deus neste aspecto," diz o Dr. Charles Hodge, "é comparável ao amor materno. Uma mãe não ama seu filho simplesmente porque ele é adorável. O seu amor leva-a a fazer tudo o quanto pode para torná-lo atraente e desta forma mantê-lo. Assim também o amor de Deus, ocorrendo de maneira misteriosa, não sendo culpável por nada nos seus objetos, adorna os Seus filhos com as graças do Seu Santo Espírito, e cerca-os com toda a beleza da santidade. É um erro lastimável supor que Deus nos ama pela nossa bondade, o que pode levar alguém a supor que o Seu amor depende da nossa auto sustentada atratividade." 3

Referindo-se à salvação dos eleitos, Lutero diz, "O decreto Divino da predestinação é firme e certo; e a necessidade resultante dele é, de certa forma, imutável, e não pode deixar de acontecer. Pois em nós mesmos somos tão fracos, que se o assunto fosse deixado em nossas mãos, muito poucos, ou melhor nenhum de nós, seria salvo; mas Satã nos conquistaria a todos."

Quanto mais pensamos sobre tais assuntos, mais gratos nos tornamos, que nossa perseverança em santidade e certeza de salvação não dependa da nossa própria natureza fraca, mas sim do poder sustentador e constante de Deus. Podemos dizer com Isaías, "Se o Senhor dos exércitos não nos deixara alguns sobreviventes, já como Sodoma seríamos, e semelhantes a Gomorra."[Isaías 1:9]. O Arminianismo nega esta doutrina da Perseverança, porque é um sistema teológico não de pura graça e obras; no qual o indivíduo deve provar-se pelo menos parcialmente merecedor.

3. EMBORA VERDADEIRAMENTE SALVOS, OS CRISTÃOS PODEM TEMPORARIAMENTE DEGENERAR-SE E VOLTAR A PECAR.

A doutrina da Perseverança não significa que os Cristãos não caiam, temporariamente, vítimas do pecado, o que tristemente é muito comum. Mesmo os melhores homens voltam ao pecado, temporariamente. Mas eles nunca são completamente derrotados; pois Deus, exercitando a Sua graça nos seus corações, infalivelmente previne mesmo o mais fraco dos santos, da apostasia final. Como porém temos este tesouro em vasos de barro, a grandeza, a excelência do poder (ou da glória) pode ser de Deus, e não de nós mesmos. ["Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não da nossa parte"(II Coríntios 4:7)].

Com referência à nossa experiência pessoal, mesmo o grande apóstolo Paulo pode escrever: "[19] Pois não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico. [20] Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. [21] Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo. [22] Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus; [23] mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimento, e me levando cativo à lei do pecado, que está nos meus membros. [24] Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? [25] Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor! De modo que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado."[Romanos 7:19-25]. Nestas linhas, cada Cristão verdadeiro lê a sua própria experiência.

É claro que é inconsistente para o Cristão cometer pecado, e o escritor do livro de Hebreus diz que aqueles que cometem pecado "estão crucificando de novo o Filho de Deus, e o expondo ao vitupério."[Hebreus 6:6]. Depois de haver pecado e arrependido-se, Davi ouviu do profeta Natã que o seu pecado seria perdoado, mas no entanto através dele ele havia "..com este feito deste lugar a que os inimigos do Senhor blasfemem..."[II Samuel 12:14]. Davi e Pedro caíram temporariamente, mas os princípios básicos das suas naturezas os chamaram de volta. Judas caiu permanentemente porque faltava-lhe aqueles princípios básicos.

Tanto quanto o crente permaneça neste mundo ele estará em estado de guerra. Ele sofre reveses temporários e pode, por um tempo, parecer haver perdido toda a sua fé; todavia se ele foi verdadeiramente salvo uma vez, ele não pode 'cair completamente' da graça. Se uma vez ele experimentou a mudança interior que advém através da regeneração, ele mais cedo ou mais tarde retornará ao aprisco e será salvo. Quando ele cair em si ele confessa os seus pecados e implora perdão, nunca duvidando que está salvo. Seu lapso no pecado pode feri-lo seriamente e pode trazer destruição a outros; mas tanto quanto refere-se a ele pessoalmente, é somente temporário. Paulo ensinou que as obras das vidas de muitas pessoas deveriam ser queimadas, uma vez haverem sido construídas com materiais errados, embora elas próprias devam ser salvas como que pelo fogo ["(12) E, se alguém sobre este fundamento levanta um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, (13) a obra de cada um se manifestará; pois aquele dia a demonstrará, porque será revelada no fogo, e o fogo provará qual seja a obra de cada um. (14) Se permanecer a obra que alguém sobre ele edificou, esse receberá galardão. (15) Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo"(I Coríntios 3:12-15)]; e foi este o ensinamento que Jesus trouxe na parábola da ovelha perdida, pela qual o pastor procurou e a qual o pastor trouxe de volta ao aprisco.

Se verdadeiros crentes caem, então os seus corpos, que são chamados de "templos do Espírito Santo", tornar-se-iam a habitação do Diabo, o que é claro faria com que o Diabo se regozijasse e insultasse a Deus (veja em I Coríntios 6:19 = "Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual possuís da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?"). "Os Cristãos são como um homem que sobe uma colina, quem ocasionalmente escorrega e cai, contudo mantém sempre sua face voltada para o cume. O homem não regenerado tem sua face voltada sempre para baixo, e ele continuamente escorrega, durante todo o caminho," - A. H. Strong. "O crente, como um homem numa embarcação, pode cair várias vezes no tombadilho, mas ele nunca cairá por sobre a amurada." - C. H. Spurgeon.

Cada um dos eleitos é como o filho pródigo nisto, que durante algum tempo ele é iludido pelo mundo e desviado do caminho pelo seu próprio apetite carnal. Ele tenta alimentar-se de alfarrobas, mas elas não o satisfazem. E cedo ou tarde ele é obrigado a dizer, Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti." E quando ele tiver a mesma recepção, sinais de amor imutável; e um 'benvindo' caloroso na voz do pai ecoa através da alma, e derrete o coração do pobre coitado que caiu, --- "Este meu filho estava morto, e agora está vivo de novo; e estava perdido, e foi achado." Note-se que esta é uma parábola inteiramente Calvinista, ao transmitir que o pródigo era um filho, e não poderia perder tal condição. Aqueles que não são filhos nunca sentem o desejo de levantar-se e irem de encontro ao Pai.

Nossos julgamentos podem às vezes serem errados, como era o dos Gálatas insensatos (veja em Gálatas 3:1 = "Ó insensatos gálatas! quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi representado Jesus Cristo como crucificado?"); e nossas afeições podem ser frias, como na Igreja em Éfeso (veja em Apocalipse 2:4 = "Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor."). a Igreja pode tornar-se indolente, ainda assim o seu coração vela (veja em Cantares 5:2 = "Eu dormia, mas o meu coração velava..."). A graça pode as vezes parecer perdida para um filho de Deus, quando na verdade não está. O sol é encoberto no eclipse, mas reaparece em todo o seu esplendor. As árvores perdem todas as suas folhas e frutos no inverno, mas brotos novos aparecem na primavera. Israel bate em retirada de ante os seus inimigos uma ou mesmo duas vezes, e ainda assim conquista a terra prometida. O Cristão, também, pode 'cair' muitas vezes, mas ao final ele é salvo. É impensável que os eleitos de Deus perdessem a salvação. "Não há nenhuma possibilidade de escaparem ao poder onipotente de Deus. Assim é que, como Jonas, que fugiu e escondeu-se da vontade de Deus, que era levar a mensagem à cidade de Nínive, e todavia foi persuadido - mesmo dentro do ventre do grande peixe - pelo poder de Deus, até que com prazer ele obedeceu ao comando de Deus, assim também eles retornarão, eventualmente, ao Salvador, e depois de confessarem receberão o perdão pelos seus pecados e serão salvos." 4

4. UMA PROFISSÃO EXTERIOR DE RETIDÃO NÃO É UMA GARANTIA DE QUE O INDIVÍDUO SEJA UM CRISTÃO VERDADEIRO.

Não encontramos grande dificuldade para explicarmos aqueles casos onde aparentemente crentes verdadeiros entram em apostasia final. Tanto a Bíblia como a experiência nos ensinam que freqüentemente erramos ao julgarmos nosso próximo, que algumas vezes é praticamente impossível sabermos com certeza se são Cristãos verdadeiros. Joio nunca foi trigo, e peixe ruim nunca foi bom, apesar de a sua natureza verdadeira não ter sido reconhecida a princípio. Uma vez que Satã pode modificar a sua aparência para ser confundido com um anjo de luz (veja em II Coríntios 11:14 = "...porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz."), não é de se admirar que algumas vezes os seus ministros também se disfarcem em bem feitores, com a mais enganadora aparência de santidade, devoção, piedade e zelo. Certamente uma profissão externa não é sempre uma garantia de que a alma está salva. Como os Fariseus no passado, eles podem desejar somente "fazer grandes sinais e prodígios", e enganar a muitos. Jesus alertou os Seus discípulos, que "...hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, se possível fora, enganariam até os escolhidos."[Mateus 24:24] e Ele lembrou o profeta Isaías neste sentido, que "...este povo se aproxima de mim, e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas tem afastado para longe de mim o seu coração, e o seu temor para comigo consiste em mandamentos de homens..."[Isaías 29:13] [veja em Marcos 7:6 - 7 = "(6) Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim; (7) mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens"]. Paulo alertou contra os que eram "Pois os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçando-se em apóstolos de Cristo."[II Coríntios 11:13]. E aos Romanos ele escreveu, "(6) Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; (7) nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência"[Romanos 9:6 - 7]. João menciona aqueles que "...se dizem apóstolos e não o são, e os achaste mentirosos"[Apocalipse 2:2]; e um pouco mais tarde ele acrescenta, "Ao anjo da igreja em Sardes escreve: Isto diz aquele que tem os sete espíritos de Deus, e as estrelas: Conheço as tuas obras; tens nome de que vives, e estás morto."[Apocalipse 3:1].

Mas embora estes possam efetivamente enganar os homens, Deus sempre conhece "...a blasfêmia dos que dizem ser judeus, e não o são, porém são sinagoga de Satanás."[Apocalipse 2:9]. Vivemos dias em que multidões clamam o nome de "Cristãos" e são destituídas de conhecimento, de experiência e de caráter Cristãos; dias em que em muitos lugares, a distinção entre a Igreja e o mundo tem sido eliminada. Como Samuel, somos freqüentemente iludidos pela aparência externa, e dizemos, "Certamente eis aqui o ungido do Senhor", quando se realmente soubéssemos os motivos por trás das suas obras, concluiríamos o contrário. Freqüentemente erramos em nosso julgamento dos outros, apesar das melhores precauções que podemos tomar. João nos deu a verdadeira solução para tais casos ao escrever: "Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco; mas todos eles saíram para que se manifestasse que não são dos nossos."[I João 2:19]. Todos quantos caem permanentemente pertencem a esta categoria.

Algumas pessoas professam grandemente a religião, embora sem saber coisa alguma do Senhor Jesus com sinceridade e em verdade. Tais pessoas podem arrebanhar muitos seguidores humildes em conhecimento, e por algum tempo podem até enganar os próprios eleitos; todavia durante todo o tempo os seus corações nunca foram tocados. No dia do julgamento, muitos daqueles que em algum momento de suas vidas foram externamente associados à Igreja dirão, "...Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres?" e então Ele lhes responderá, "...Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade."[Mateus 7:22, 23]; o que, é claro, não seria verdade se em algum momento Ele os houvesse conhecido como Cristãos reais. Quando cada homem aparecer em suas próprias cores, quando os segredos de todos os corações se fizerem manifestos, muitos que em alguma época pareceram ser Cristãos verdadeiros serão vistos como nunca tendo sido parte do povo de Deus. Alguns abandonam uma profissão de fé, mas ninguém cai da graça salvadora de Deus. Aqueles que caem é porque nunca a conheceram, nunca a experimentaram. São os ouvintes tipo solo pedregoso, que não dispõem de raízes em si mesmos, mas que abraçam a Palavra por algum tempo; e quando a tribulação e a perseguição aparecem, eles imediatamente escorregam e caem. São então referidos como haverem abandonado ou haverem destroçado aquela fé que nunca possuíram, a não ser em aparência. Alguns destes tornam-se suficientemente instruídos no sistema de doutrinas do Evangelho que são capazes de pregar ou de ensiná-la a outros, e todavia são eles próprios completamente destituídos da real graça salvadora. Quando estes tais caem, não se constituem provas ou exemplos da apostasia final dos realmente santos.

Serem simplesmente membros de igreja não é, claro, garantia alguma de que indivíduos sejam Cristãos reais. Não é todo membro da Igreja militante que se tornará membro da Igreja triunfante. Para certos propósitos, eles fazem uma pública profissão do Evangelho, que os obriga por um tempo a serem externamente morais e se associarem com o povo de Deus. Ele parecem ter fé verdadeira e assim permanecem por um tempo. Então ou as suas peles de cordeiro rasgam-se, ou eles mesmos as jogam fora, e voltam novamente para o mundo. Se pudéssemos ver os motivos reais dos seus corações, descobriríamos que em nenhum momento sequer eles agiram por verdadeiro amor a Deus. Durante todo o tempo eles eram bodes, e não ovelhas; lobos vorazes, e não mansos cordeiros. Daí Pedro haver dito de tais pessoas, "Deste modo sobreveio-lhes o que diz este provérbio verdadeiro; Volta o cão ao seu vômito, e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal"[II Pedro 2:22]. Desta forma eles mostram que nunca pertenceram ao número dos eleitos.

Muitos dos não convertidos ouvem a pregação do Evangelho como Herodes ouviu a João Batista. A Bíblia nos diz que "...Herodes temia a João, sabendo que era varão justo e santo, e o guardava em segurança; e, ao ouvi-lo, ficava muito perplexo, contudo de boa mente o escutava."[Marcos 6:20]. Todavia, ninguém que tenha conhecimento do decreto de Herodes que resultou na morte de João Batista, ou que conheça a vida de Herodes, dirá que ele alguma vez foi Cristão.

Adicionalmente ao que já foi dito, deve ser admitido que muitas vezes as operações comuns do Espírito Santo na consciência 'instruída' conduz à reforma e a uma vida religiosa visível. Aqueles assim influenciados são comumente muito rígidos na sua conduta e diligentes nas suas tarefas religiosas. Ao pecador desperto as promessas do Evangelho e a exibição do plano de salvação contido na Bíblia parecem não somente como verdadeiros, mas também como adequados à sua situação. Ele os recebe com alegria, e crê com uma fé fundamentada na força moral da verdade. Esta fé perdura tanto quanto dura o estado de consciência através do qual ela é produzida. Quando tal estado modifica-se, ele retorna à sua condição usual de insensibilidade, e a sua fé desaparece. E é a esta classe de pessoas que Cristo referiu-se quando Ele falou daqueles que recebem a Palavra em lugares pedregosos ou entre espinhos. Vários exemplos desta fé temporária são encontrados nas Escrituras Sagradas e são freqüentemente vistos na vida cotidiana. Estas experiências sempre precedem ou acompanham uma conversão genuína; mas em muitos casos não são seguidas por uma mudança real do coração. Elas podem ocorrer repetidamente, e ainda assim aqueles que as vivem retornam ao seu estado normal de mundanismo e indiferença. Muitas vezes é impossível para um observador ou mesmo para a própria pessoa distinguir estas experiências daquelas experiências vividas pelos que são verdadeiramente regenerados. "Pelos seus frutos os conhecereis..."[Mateus, 7:16], é o último teste dado por nosso Senhor. Somente quando estas experiências resultam numa vida consistentemente santa, é que seu caráter distintivo pode ser conhecido.

5. O SENSO DE INSEGURANÇA ARMINIANO

Um Arminiano consistente com as suas doutrinas do livre arbítrio e da queda da graça, não pode nunca nesta vida estar certo da sua salvação eterna. Ele pode, é verdade, ter a segurança da sua salvação presente, mas pode ter somente uma esperança da salvação final. Ele pode considerar a salvação final como altamente provável, mas não pode sabê-la com certeza. Ele tem presenciado muitos dos seus companheiros Cristãos caírem e perecerem, depois de haverem tido um bom começo. Por que ele não poderia fazer o mesmo? Tanto quanto os homens permaneçam neste mundo, eles têm os vestígios da antiga natureza pecadora agarrados a eles; eles estão cercados pelos mais atrativos e enganosos prazeres do mundo e pelas mais súbitas tentações do Diabo. Em muitas das igrejas supostamente Cristãos eles ouvem os falsos ensinamentos de ministros 'modernos' - e portanto não Cristãos. Se o Arminianismo fosse verdadeiro, os Cristãos estariam em posições muito perigosas, com o seu destino eterno suspenso sobre a probabilidade de que as suas vontades, de criaturas fracas, continuassem a fazer a escolha certa. Ademais, o Arminianismo sustentaria - logicamente - que nenhuma confirmação em santidade é possível, nem mesmo no céu; pois mesmo lá o indivíduo ainda teria o seu livre arbítrio e poderia cometer pecado a qualquer ocasião em que assim ele escolhesse.

Por comparação o Arminiano é como aquela pessoa que herdou uma fortuna, vamos dizer que sejam R$ 100.000. Ele sabe que muitas outras pessoas que herdarão quantias similares perderam-nas, seja como resultado de um julgamento errôneo, fraude, calamidade, etc., mas ele tem suficiente confiança na sua própria habilidade para lidar com dinheiro de modo sábio, que ele não tem dúvida que manterá o dinheiro. Sua segurança é grandemente baseada na auto-confiança. Outros falharam, mas ele está confiante de que não falhará. Mas em que desilusão esta mesma situação se revela, quando aplicada ao cenário espiritual ! Que pena, que qualquer um que seja ciente da sua própria tendência para o pecado, baseie a sua segurança de salvação nestes mesmos parâmetros ! Este sistema teológico coloca a causa da sua perseverança, não nas mãos do Deus Todo-Poderoso e Imutável; mas nas mãos do homem fraco e pecador.

E a lógica do sistema teológico Arminiano não nos diz que o melhor para o Cristão é morrer o mais cedo possível e assim confirmar a herança que para ele é de valor infinito? À vista do fato de que tantos têm caído, compensa para o Cristão permanecer aqui e arriscar a sua salvação eterna simplesmente por um pouco mais de vida neste mundo? O que pensariam de um empresário que, para ganhar um pouquinho mais de dinheiro arriscaria toda a sua fortuna em algum empreendimento reconhecidamente questionável? Na verdade, será que aquele sistema teológico não sugere, no mínimo, que o Senhor cometeu muitos erros em não remover aquele povo enquanto eles eram verdadeiros Cristãos? Pelo menos o escritor está convencido de que se ele sustentasse o ponto de vista Arminiano e soubesse ele próprio ser um Cristão salvo, ele quereria morrer o mais rápido possível, e assim assegurar que a sua salvação estivesse além de qualquer dúvida possível.

Com relação a assuntos espirituais, dúvida é equivalente a miséria. A segurança de que os Cristãos nunca serão separados do amor de Deus é um dos grandes confortos da vida Cristã. Negar esta doutrina é destruir as bases de qualquer júbilo entre os santos na terra; pois que tipo de júbilo podem ter aqueles que crêem poder, a qualquer momento, serem iludidos, enganados e levados a desviar-se? Se o nosso senso de segurança estiver baseado nas nossas naturezas mutáveis e oscilantes, nunca poderemos experimentar a calma e paz interiores, que deveriam caracterizar o Cristão. Diz McFetridge, em seu pequeno livro, muito esclarecedor, 'Calvinismo na História' ("Calvinism in History", n.t.): "Posso muito bem entender o terror para uma alma sensível, da negra incerteza quanto à salvação, e daquela sempre presente consciência da horrível possibilidade de cair da graça após uma vida Cristã longa e sofrida, como é ensinado pelo Arminianismo. Para mim, uma doutrina como esta apresenta horrores que fariam com que eu me distanciasse dela para sempre, e que me encheriam com constantes e indizíveis perplexidades. Sentir-me como que cruzando o perigoso e tempestuoso mar da vida, com a minha segurança final dependendo dos atos da minha própria natureza pérfida seria o suficiente para que me alarme perpetuamente. Se for possível, quero saber que o barco no qual eu confio a minha vida é navegável, e que, havendo uma vez a bordo, chegarei seguro ao meu destino." (página 112).

Até compreendermos devidamente esta maravilhosa verdade, que a nossa salvação não está suspensa no nosso fraco e oscilante amor a Deus, mas antes no Seu amor eterno e imutável para conosco, não poderemos ter paz e certeza na vida Cristã. E somente aquele Calvinista, que sabe estar absolutamente seguro nas mãos de Deus, é que pode ter tal sentimento interno de paz e segurança, sabendo que nos esternos conselhos de Deus ele foi escolhido para ser lavado e glorificado e que nada pode deturpar tal propósito. Ele sabe-se conectado à retidão por um poder espiritual, que é tão incansável e invariável como a força da gravidade, e tão necessário para o desenvolvimento do espírito quanto a luz do sol e as vitaminas o são para o corpo.

6. PROPÓSITO DOS ALERTAS DAS ESCRITURAS CONTRA A APOSTASIA.

Os Arminianos algumas vezes trazem das Escrituras os alertas contra a apostasia e a queda, alertas estes que são endereçados aos crentes, e quais, é discutido, implicam na possibilidade de virem a cair. É claro que, há um sentido de acordo com o qual é possível para os crentes caírem, --- quando são vistos simplesmente como eles mesmos, com relação aos seus próprios poderes e capacidades, e separados dos propósitos ou desígnios de Deus para as suas vidas. É também admitido por todos que os crentes podem cair em pecado, temporariamente. O propósito primário de tais passagens, no entanto, é induzir os homens a sinceramente cooperarem com Deus, visando o cumprimento dos Seus propósitos. Trata-se de chamadas, induções, alertas que produzem humildade constante, cuidado e diligência. Da mesma forma, um pai ou uma mãe, para obter cooperação sincera de uma criança, dizem-lhe para ter cuidado e ficar fora do caminho de um carro que se aproxima, enquanto em todos os momentos tal pai ou tal mãe não têm intenção nenhuma de permitir que a criança chegue a estar numa posição tal que carro possa feri-la. O fato de Deus moldar uma alma em deixando-a ser atacada pelos medos da queda, não prova de maneira nenhuma que Ele nos Seu propósito secreto tenha a intenção de permitir que ela caia. Estes medos podem muito bem ser os próprio métodos que Deus designou para evitar que ela caia. Em segundo lugar, as exortações de Deus para as tarefas, para o trabalho são perfeitamente consistentes com o Seu propósito de dar graça suficiente para o cumprimento destas mesmas tarefas, deste mesmo trabalho. Num momento somos comandados a amar o Senhor nosso Deus de todo o nosso coração; em outro, Deus diz, "...porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos."[ Ezequiel, 36:27]. Agora, ou estes devem ser consistentes, ou então o Espírito Santo está em contradição. Certamente que não é esta última hipótese. Em terceiro lugar, estes alertas são, mesmo para os crentes, incitações para a oração e para uma fé maior. Em quarto lugar, os alertas servem para mostrar ao homem o seu dever, e não a sua habilidade; e a sua fraqueza ao invés da sua força. Em quinto lugar, os alertas convencem os homens da sua vontade de serem santos e da sua dependência de Deus. E em sexto lugar, os alertas servem para restringir os incrédulos e para deixá-los sem desculpas.

Nem é mais provado pelas passagens Bíblicas, "...Não faças perecer por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu"[Romanos 14:15]; e, "Pela tua ciência, pois, perece aquele que é fraco, o teu irmão por quem Cristo morreu."[I Coríntios 8:11]. Da mesma maneira, pode ser dito que a influência de uma pessoa em particular, quando observada individualmente e em separado, destrói a civilização Americana; todavia a América continua, segue em frente e prospera, porque outras influências mais que obscurecem a daquela pessoa em particular. Nestas passagens o princípio levantado é simplesmente este: qualquer que seja a segurança divina, a responsabilidade daquele que atira uma pedra no caminho do seu irmão não é diminuída; e que qualquer um que atire uma pedra no caminho do seu irmão está na verdade a cooperar para a destruição do seu irmão.

7. PROVA NA BÍBLIA.

As Sagradas Escrituras provam esta doutrina de forma clara e abundante.

"(35) quem nos separará do amor de Cristo? a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? (36) Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte o dia todo; fomos considerados como ovelhas para o matadouro. (37) Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou. (38) Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem coisas presentes, nem futuras, nem potestades, (39) nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor." [Romanos 8:35-39]

"Pois o pecado não terá domínio sobre vós, porquanto não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça." [Romanos 6:14]; "...Aquele que crê tem a vida eterna." [João 6:47]; "...quem ouve a minha palavra, e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo, mas já passou da morte para a vida." [João 5:24]. A partir do momento que alguém crê, a vida eterna torna-se realidade, uma possessão presente e não meramente uma dádiva condicional do futuro. "Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne." [João 6:51]. Ele não diz que temos de comer muitas vezes, mas que se comermos, viveremos para sempre. "mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna" [João 4:14].

"Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus." [Filipenses 1:6] ; "O Senhor aperfeiçoará o que me diz respeito..." [Salmo 138:8] ; "...os dons e a vocação de Deus são irretratáveis." [Romanos 11:29] ; "E o testemunho é este: Que Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu Filho." [I João 5:11] ; "Estas coisas vos escrevo, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna." [I João 5:13] ; "Pois com uma só oferta tem aperfeiçoado para sempre os que estão sendo santificados." [Hebreus 10:14]. "o Senhor me livrará de toda má obra, e me levará salvo para o seu reino celestial..." [II Timóteo 4:18]. "(29) Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; (30) e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou." [Romanos 8:29 - 30]. "e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade," [Efésios 1:5].

Jesus declarou, "[28] Eu lhes dou (às Soas 'ovelhas', quer dizer, aos verdadeiros seguidores) a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha mão. [29] Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai." [João 10:28 - 29]. Vemos aqui que a nossa segurança e a onipotência de Deus são iguais; pois a primeira está fundamentada na segunda. Deus é mais poderoso que o mundo inteiro, e nem os homens nem o Diabo podem roubar dEle uma das Suas jóias preciosas. Seria tão fácil como arrancar uma estrela do fundamento, tirar um santo da mão do Pai. A salvação dos santos está no Seu poder invencível e eles encontram-se além do perigo da destruição. Temos a promessa de Cristo de que os portões do inferno não prevalecerão contra a Sua Igreja; todavia se o Diabo pudesse arrebatar um aqui e outro acolá e grandes números em algumas congregações, os portões do inferno prevaleceriam em grande extensão contra a Igreja de Cristo. Em princípio, se um somente pudesse se perder, todos poderiam perder-se, e assim a segurança de Cristo estaria reduzida a palavras vãs.

Quando ouvimos que "...hão de surgir falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, SE POSSÍVEL FORA, enganariam até os escolhidos." [Mateus 24:24], o crente livre de preconceitos prontamente compreende que é IMPOSSÍVEL enganar os escolhidos.

A união mística que existe entre Cristo e os crentes é uma garantia de que eles continuarão fiéis. "...porque eu vivo, e vós vivereis." [João 14:19]. O resultado dessa união é que os crentes participam da Sua vida. Cristo está em nós (veja em Romanos 8:10 = "Ora, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça."). Não somos que vivemos, mas é Cristo que vive em nós (veja em Gálatas 2:20 = "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim."). Cristo e os crentes têm uma vida comum tal como a que existe na parreira e nas uvas. O Espírito Santo habita de tal forma nos redimidos que cada Cristão é dotado de uma reserva de força inesgotável.

Paulo alertou aos Efésios, "E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção." [Efésios 4:30]. Ele não temia apostasia, pois podia também declarar com confiança, "Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo, e por meio de nós difunde em todo lugar o cheiro do seu conhecimento." [II Coríntios 2:14]. O Senhor, falando através do profeta Jeremias, disse, "...com amor eterno te amei." [Jeremias 31:3]. Uma das melhores provas de que o amor de Deus não terá fim é que ele não tem começo, mas é eterno. Na parábola das duas casas, o ponto enfatizado era que a casa cujo alicerce estava na Rocha (Cristo) não caiu quando vieram as tempestades e tormentas da vida. O Arminianismo estabelece um outro sistema teológico no qual alguns daqueles que estão alicerçados na Rocha efetivamente caem. No Salmo XXIII nós lemos, "E habitarei na casa do Senhor para todo o sempre." O Cristão verdadeiro não é um visitante temporário, mas um morador permanente na casa do Senhor. Como alguns roubam deste salmo o seu ensinamento mais rico e profundo, ao ensinar que a graça de Deus é algo temporário !

Cristo intercede pelo Seu povo (veja em Romanos 8:34 = "Quem os condenará? Cristo Jesus é quem morreu, ou antes quem ressurgiu dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós." Veja também em Hebreus 7:25 = "Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, porquanto vive sempre para interceder por eles."); e somos ensinados que o Pai sempre O ouve (veja em João 11:42 = "Eu sabia que sempre me ouves; mas por causa da multidão que está em redor é que assim falei, para que eles creiam que tu me enviaste."). Assim é que os Arminianos, ao sustentarem que os Cristãos podem cair, devem negar as passagens Bíblicas que declaram que Cristo intercede pelo Seu povo, ou então eles devem negar que as Suas preces (de Cristo) sempre são ouvidas pelo Pai. Consideremos aqui quão bem protegidos nós estamos: Cristo está à direita de Deus rogando por nós, e adicionalmente, o Espírito Santo intercede por nós com gemidos inexprimíveis (veja em Romanos 8:26 = "...mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inexprimíveis.).

Na promessa maravilhosa de Jeremias 32:40, Deus prometeu preservar os crentes dos seus próprios desvios: "farei com eles um pacto eterno de não me desviar de fazer-lhes o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim." E em Ezequiel 11:19, 20, Ele promete tirar deles o "coração de pedra", e dar-lhes um "coração de carne", para que eles possam caminhar nos Seus estatutos e manter as Suas ordenanças, e para que eles possam ser o Seu povo e Ele o seu Deus. Pedro nos diz que Cristãos nunca caem, pois "que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que está preparada para se revelar no último tempo."[I Pedro 1:5]. Paulo diz que "...Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra." [II Coríntios 9:8]. Ele também declara que o servo do Senhor "...estará firme, porque poderoso é o Senhor para o firmar." [Romanos 14:4]

E os Cristãos têm ainda mais a promessa de que "Não vos sobreveio nenhuma tentação, senão humana; mas fiel é Deus, o qual não deixará que sejais tentados acima do que podeis resistir, antes com a tentação dará também o meio de saída, para que a possais suportar." [I Coríntios 10:13]. O fato de os Cristãos serem livrados de certas tentações, que estariam além da sua capacidade de resistir, é uma dádiva absoluta e graciosa de Deus, desde que trata-se inteiramente de um arranjo da Sua providência que tentações eles encontrarão no curso de sua vida, e de quais eles serão livrados. "Mas fiel é o Senhor, o qual vos confirmará e guardará do maligno." [II Tessalonicenses 3:3]. E ainda, "O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra." [Salmo 34:7]. No meio de todas as suas provações e dificuldades extremas, Paulo ainda podia dizer, "(8) Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados; (9) - perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; . . . . (14) - sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus, nos ressuscitará a nós com Jesus, e nos apresentará convosco." [II Coríntios 4:8, 9, 14].

Os santos, mesmo neste mundo, são comparados a uma árvore cuja folha não cai (veja Salmo 1:3 = "Pois será como a árvore plantada junto às correntes de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cuja folha não cai..."); aos cedros que florescem no Monte Líbano (veja Salmo 92:12 = "Os justos florescerão como a palmeira, crescerão como o cedro no Líbano."); ao Monte Sião, inabalável (veja Salmo 125:1 = "Aqueles que confiam no Senhor são como o monte Sião, que não pode ser abalado, mas permanece para sempre."); e a uma casa construída na rocha (veja Mateus 7:24 = "Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem prudente, que edificou a casa sobre a rocha."). O Senhor está com eles na sua velhice (veja Isaías 46:4 = "Até a vossa velhice eu sou o mesmo, e ainda até as cãs eu vos carregarei; eu vos criei, e vos levarei; sim, eu vos carregarei e vos livrarei."), e será o seu guia até a morte (veja Salmo 48:14 = "Porque este Deus é o nosso Deus para todo o sempre; ele será nosso guia até a morte."), de modo que eles não se perderão, total ou finalmente.

Outro forte argumento, deve ser notado com relação ao livro da vida do Cordeiro. Os discípulos foram instruídos para terem júbilo, não tanto pelo fato de os demônios estarem sujeitos a eles, mas por estarem os seus nomes inscritos no livro da vida do Cordeiro. Este livro é um catálogo, uma relação dos eleitos, determinados pelo conselho inalterável de Deus, e não podem nem ser aumentados nem ser diminuídos. Os nomes dos retos são encontrados ali; mas os nomes daqueles que perecem nunca foram lá escritos, desde a fundação do mundo. Deus não comete o erro de escrever no livro da vida um nome o qual Ele mais tarde virá a excluir. Daí é que nenhum dos que são do Senhor jamais perecerão. Jesus disse aos Seus discípulos para alegrarem-se sim, porque os seus nomes estavam escritos no céu (veja Lucas 10:20 = "...alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus."); todavia eles teriam menos razão para alegrarem-se quanto a isso, se os seus nomes - escritos no céu naquele dia - pudessem vir a ser deletados no próximo. Paulo escreveu aos Filipenses, "...a nossa pátria está nos céus..."[Filipenses 3:20]; e a Timóteo ele postou, "...O Senhor conhece os seus..."[II Timóteo 2:19]. Quanto ao ensino Bíblico relativo ao livro da vida, veja Lucas 10:20 ("Contudo, não vos alegreis porque se vos submetem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus"); Filipenses 4:3 ("E peço também a ti, meu verdadeiro companheiro, que as ajudes, porque trabalharam comigo no evangelho, e com Clemente, e com os outros meus cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida"); Apocalipse 3:5 ("O que vencer será assim vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; antes confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos."), 13:8 ("E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo."), 17:8 ("A besta que viste era e já não é; todavia está para subir do abismo, e vai-se para a perdição; e os que habitam sobre a terra e cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo se admirarão, quando virem a besta que era e já não é"), 20:12 ("E vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono; e abriram-se uns livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras."), 20:15 ("E todo aquele que não foi achado inscrito no livro da vida, foi lançado no lago de fogo.") , 21:27 ("E não entrará nela coisa alguma impura, nem o que pratica abominação ou mentira; mas somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro.").

Aqui, então, são bastante claros e simples as declarações de que o Cristão permanecerá na graça, o motivo sendo que o Senhor toma sobre Si o encargo de preservá-lo em tal estado. Nestas promessas os eleitos são assegurados em ambos lados. Não somente Deus não Se afastará deles, mas Ele também inculcará nos seus corações o Seu temor, para que eles não se afastem dEle. É certo que nenhum Cristão educado pelo Espírito pode duvidar que esta doutrina é ensinada na Bíblia. Parece que o homem, pobre, miserável e impotente como ele é, aceitaria de bom grado uma doutrina que assegura para ele as possessões da felicidade eterna, apesar de todos ataques externos e todas as tendências maléficas internas. Mas não é assim. Ele, o homem, recusa a doutrina, e argumenta contra ela. El as causas, as razões não são difíceis de serem notadas. Em primeiro lugar ele tem mais confiança em si mesmo do que tem qualquer direito de ter. Em segundo, o esquema é tão contrário ao que ele está acostumado no mundo natural que ele a si mesmo persuade que não pode ser verdadeiro. Em terceiro lugar, ele percebe que se esta doutrina for admitida, as outras doutrinas da graça eficaz logicamente se seguirão. Assim, ele torce o significado das passagens nas Escrituras que a ensinam, e agarra-se a uma que pareça, na superfície, favorecer os seus pontos de vista pré concebidos. Na verdade, um sistema de salvação pela graça é tão completamente diferente da sua experiência cotidiana, diária, na qual ele vê cada coisa e cada pessoa tratados conforme obras e méritos, que ele tem grande dificuldade em acreditar que possa ser verdade. Ele deseja ganhar a sua própria salvação, embora ele certamente espere salários bem altos por obras tão pobres.
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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