quarta-feira, 19 de março de 2014

As Escrituras e “As Questões Indiferentes” [04/05]


EXPOSIÇÃO PURITANA DA “ADIAPHORA”

A principal força da causa de Ridley e Cranmer contra o Princípio Regulador reside na alegação de que coisas tais como vestimentas e posturas na comunhão não são nem boas nem más em si mesmas, mas indiferentes, e portanto se a Igreja determinar que vestimentas e o ajoelhar-se são prudentes e úteis, então os indivíduos cristão devem se submeter. Eles arrazoavam que há muitas coisas que não podem ser resolvidas pelas Escrituras, por exemplo, em que lugares os cristãos devem se reunir, a que tempo, qual a freqüência com que a Santa Ceia deve ser observada e assim por diante, e portanto deve ser legal para a Igreja determinar o que não pode ser determinado pelas Escrituras. 

A resposta Puritana a essa posição era a seguinte: Eles nunca afirmaram que a Igreja não podia fazer nada que não estivesse nas Escrituras. Isto era uma caricatura do Puritanismo que afirmava que eles procuravam por cada detalhe no Novo Testamento. O que eles afirmavam era que nada deveria ser feito à parte (distinto de uma circunstância)[26] da adoração e nada de significado espiritual deveria ser adicionado ao governo da Igreja a menos que aquilo que fosse prescrito pelas Escrituras ou autorizado por justa inferência. A área na qual podemos determinar coisas por nós mesmos é a área de circunstâncias naturais. Coisas indiferentes, eles afirmavam, não são em si mesmas coisas morais ou espirituais, mas elas são coisas naturais como físicas ou pertinentes à vida humana ordinária. Por exemplo, não é parte da adoração o lugar onde a adoração ocorre, ou o seu tempo de duração ou de que material é feito o púlpito ou o cálice usado na Santa ceia. Ou no domínio do governo da Igreja, não é uma coisa moral a nacionalidade do ministro da Igreja, mas é uma coisa moral que ele seja um oficial tal como Cristo tem apontado à Sua Igreja. Em uma área nós necessitamos a autorização da Escrituras, na outra não. 

Assim, em 1547 quando John Winram, sub-prior de ST. Andrew, exclamou para John Knox, “vós nos obrigaríeis a tal restrição, que não poderíamos fazer nada sem a expressa Palavra de Deus? O que aconteceria se eu pedisse para beber? Pensais vós que eu estaria pecando? E ainda assim eu não teria a Palavra de Deus para apoiar-me.” 

Ao que o reformador Escocês respondeu: “admiro-me de comparares coisas profanas e sagradas tão indiscriminadamente... Uma carne eu posso comer, outra posso recusar, e isso sem escrúpulo de consciência. Eu posso trocar uma por outra tão frequentemente quanto eu queira. Poderíamos fazer o mesmo em assuntos de religião? Podemos descartar como quisermos e reter como quisermos? Se me lembro bem, Moisés, em nome de Deus, disse ao povo de Israel, “Tudo o que o Senhor teu Deus te ordenar, isto farás ao Senhor teu Deus: não acrescenteis nada; não subtraiais nada”. Por esta regra eu penso que a Igreja de Cristo discernirá a Religião de Deus, e não por aquilo que pareça bom aos seus próprios olhos”.[27] 

Apesar disto os oponentes dos Puritanos estavam continuamente tomando o argumento de Winram – “As Escrituras são muito genéricas para regulamentar tudo, portanto a exigência de autorização das Escrituras é absurda”. – e em 1646 Rutherford estava ainda tendo que repetir que eles tinham sempre reconhecido uma área de coisas comuns, não pertencente à esfera espiritual mas a vida natural ordinária (comida, sono, etc.) que não requer preceito Escriturístico para sua prática: “tempo e lugar, nome, país, forma, figura, hábitos ou paramentos para afastar ... as injúrias dos céus, coisas estas nunca ordenadas, nunca proibidas de Deus, e portanto a mudança dessas circunstâncias não alteram os mandamentos de Deus, nós nunca promovemos circunstâncias, como tais à esfera de moral”.[28] 

Essas são todas as coisas genuinamente indiferentes e que devem ser determinadas por sabedoria e bom senso. Isto nos leva ao núcleo de controvérsia sobre coisas indiferentes. Baseados na distinção feita acima, os Puritanos foram adiante e mostraram que qualquer prática na Igreja que se proponha a ser indiferente (e portanto não requerendo autorização das Escrituras) só deve ser reconhecida como tal se atender a certas condições, George Gillespie diz o seguinte:[29] 

1) “Ela deve ser apenas uma circunstância de adoração divina: não uma parte substancial da mesma: não uma cerimônia sacra, significante e eficaz.”

Em outras palavras se um ministro, como Hooper, pregasse usando uma capa ordinária de mercador, aquilo era uma coisa natural e indiferente, mas se a vestimenta do ministro tivesse o propósito de conduzir a algum significado espiritual (tal como a sobrepeliz branca como símbolo de pureza) então, deixaria de ser indiferente. Isto explica porque a controvérsia sobre vestimentas e outras cerimônias no reinado de Edward esteve tão ligada ao princípio regulador. O Livro de Orações da Igreja Anglicana reivindicava algum valor e significado religioso para certas cerimonias que, embora não contidas nas Escrituras, “eram aptas para estimular a mente embotada do homem à lembrança de seus deveres para com Deus, por algum significado notável e especial pelo qual ele poderia ser edificado”. Aos Puritanos, essa adição de coisas de supostos valores espirituais na Igreja não poderia ser justificada sob a alegação de que eram coisas indiferentes. Do mesmo modo (eles afirmavam que, enquanto a Igreja pode legalmente determinar o tempo e lugar mais convenientes para reuniões, ela não tem autoridade para revestir de importância religiosa certos dias ou estações, nem atribuir qualquer bênção espiritual a prédios ou igrejas). 

2) “Aquilo que a Igreja pode prescrever através de suas leis e ordenanças, como algo deixado à sua própria determinação, e que seja não determinado pelas Escrituras”. Qualquer coisa ordenada ou proibida nas Escrituras, seja por preceito ou exemplo, ou que possa ser justamente inferida delas, não pode ser indiferente”. 

3) “Se a Igreja prescrever qualquer coisa legalmente... suas ordenanças deverão ser acompanhadas de boa razão e justificação, dadas para a satisfação de consciências sensíveis.” 

Por ser uma coisa que é em si mesma indiferente isto não significa que a Igreja pode ordená-la à parte de qualquer consideração das Escrituras. 

“Assim como não podemos usar qualquer, coisa indiferente ao nosso bel prazer”, diz Gillespie referindo-se ao cristão individual”, também não pode a Igreja, a sua própria vontade ou prazer, ordenar o uso da mesma; mas como nossa prática, as injunções da Igreja devem ser determinadas e enquadradas de acordo com as regras dadas na Palavra de Deus; “porque aquelas coisas que em sua natureza são indiferentes, nunca são indiferentes quanto ao uso, isto porque o uso das mesmas, ou será de acordo com a Palavra de Deus, e portanto apropriado, ou não, e portanto será ilícito”.[30] 

Essas regras gerais governando ações e coisas não tão especificamente prescritas nas Escrituras, são estabelecidas assim pelo mesmo escritor como segue: 

a) Todas as ações particulares devem referir-se à glória de Deus (I Coríntios 10.31, Romanos 14.7,8) 

b) Nenhuma ação, embora legítima em si mesma, deve ser praticada se puder vir a ser uma pedra de tropeço ou trazer possível ocasião de dano espiritual à outros (Romanos 14.21; I Coríntios 10.23); especificamente, “como no inteiro curso de nossa vida, especialmente no governo da Igreja nós não devemos fazer nada (por mais indiferente que seja em si mesmo) que não seja proveitoso para a edificação, I Coríntios 14.26, ‘Seja tudo feito para edificação’. De cujo preceito Pareus inferiu que nada deveria ser feito na igreja que não fosse claramente para a utilidade de todos e de cada um”. 

c) Não devemos nunca agir contrariamente à paz e pureza de nossa consciência, pois embora uma coisa possa ser indiferente, ainda assim se nossa consciência julgá-la ilícita, nós não podemos licitamente praticá-la (Romanos 14.14). 

Os Puritanos escreveram muito sobre a definição de coisas indiferentes.[31] As regras Escriturísticas que governam seu uso e o volume de material que eles deixaram sobre esse assunto sugere que eles não subestimaram a questão ou evitaram suas dificuldades. Adiaphora tornou-se um tumultuado centro de controvérsia porque toda a força do caso contra a posição Puritana residia no argumento de que, enquanto a Igreja não ordenasse o que fosse proibido pelas Escrituras, ela poderia regular sua adoração e governo por regras gerais tais como em I Coríntios 14.40. “Que tudo seja feito decentemente e em ordem”. Assim, era dito que vestimentas e episcopado eram coisas indiferentes (não sendo expressamente proibidas pela Palavra) e portanto autorizadas se eles o fizessem pela regra geral de promoção da “ordem”. Os Puritanos eram, conseqüentemente, forçados a mostrar em detalhes pelas Escrituras que os escritores do Novo Testamento nunca classificaram qualquer coisa de significância espiritual como adiaphora e que as “regras gerais” contidas nos textos acima referidos não implicavam que no âmbito total de sua vida a Igreja teria apenas princípios gerais a seguir. Não concordariam com o “espírito” de que ela seria livre para implementar por adições e alterações tais assuntos espirituais conforme julgasse apropriado. Ridley e Whitgift supunham que este seria o significado das Escrituras porque de outro modo a vida da Igreja seria uma impossibilidade – várias coisas sendo necessárias para sua continuidade as quais as Escrituras não especificam, como por exemplo, a provisão de prédios adequados. A resposta Puritana, como vimos, era de que as regras gerais nas Escrituras dão ampla instrução sobre assuntos circunstanciais e coisas indiferentes as quais somos livres para ordenar, mas isto é bem diferente de prover uma sanção geral para a preservação de tais coisas como Whitgift estava argumentando: 
“Nós não negamos, mas certas coisas são deixadas para a ordem da Igreja” diz Cartwright, “porque elas são da natureza daquelas que variam com o tempo, lugar, pessoas, e outras circunstâncias, e assim não poderiam ser estabelecidas uma vez e para sempre. Assim, são deixadas para a ordem de Igreja, pois isto não vai contra as regras ditas anteriormente.* Mas a partir daí, para se dizer que certas coisas são deixadas por conta da Igreja, como a criação de um novo ministério, na pessoa de um arcebispo; alterando um ministério que é ordenado, fazendo um bispo ou pastor sem uma igreja ou rebanho; fazer um diácono sem indicar-lhe a igreja de onde seria diácono e onde poderia exercer sua função de suprir as necessidades dos pobres; abolir o nome e ofício de presbítero; e mais isso e aquilo...; faça isto siga aquilo, porque a Igreja tem poder para ordenar certas coisas, portanto tem poder para fazer o que quer com o que Deus tem ordenado e estabelecido?[32]”
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Por Ian Murray 
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