sexta-feira, 21 de março de 2014

As Escrituras e “As Questões Indiferentes” [05/05]


EVIDÊNCIA PARA O PRINCÍPIO REGULADOR

Embora conhecendo a defesa Puritana contra a acusação de que eles ignoravam o terreno de legítima adiaphora, não podemos deixar o assunto aqui. O espírito da posição Puritana estava longe de ser defensiva e a acusação, de fato, veio como uma contra acusação à sua declaração do Princípio Regulador. É na nossa abordagem desse princípio que o veredito final sobre os Puritanos deve depender, pois embora sejamos admiradores de sua piedade e pregação, o movimento em si mesmo nunca teria varrido esse país e atravessando o Atlântico até a Nova Inglaterra, como o fez, sem essa convicção de que o Princípio Regulador é inseparável do cristianismo do Novo Testamento. Resta-nos, portanto, delinear a evidência que os conduziu a essa conclusão. A sua causa baseia-se nestas considerações: 

1) As Escrituras são um guia completo de fé e prática para a Igreja. 

“As Escrituras estão agora, completas e inalteradamente perfeitas, contendo regras exatas para a Igreja de Deus em todos as circunstâncias e épocas sob ambos, o Velho e o Novo Testamentos, de modo que não apenas o povo de Deus de todas as classes e hierarquias, mas também os homens de Deus, e oficiais da Igreja de todas as classes e hierarquias possam ser perfeitos, e perfeitamente habilitados para toda a boa obra. “Toda Escritura é dada por inspiração de Deus... a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” II Timóteo 3.16,17. E na sua primeira epístola a Timóteo (que é um Diretório da Igreja para a adoração divina, disciplina e governo) ele disse, “Escrevo-te estas coisas – para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo”. (isto é dito em referência a assuntos de governo da Igreja, especialmente, I Timóteo 14.15). 

Assim escreveram alguns dos líderes do Presbitério de Londres em 1646 na obra, O DIREITO DIVINO DO GOVERNO DA IGREJA.[33] 

Semelhantemente, escreve Rutherford, “o que quer que nos faça perfeitos e perfeitamente habilitados para toda a boa obra, e essa é a finalidade para a qual foi escrito este trecho, que qualquer Timóteo, ou pastor fiel pode saber como deve proceder na Casa de Deus... deve constituir uma base perfeita de disciplina*, que não varia, sem fluxo e refluxo e sem alteração conforme o governo civil, as leis, os hábitos e os costumes dos homens. Mas as Escrituras de Deus assim instruem todos os membros da Igreja visível, tanto os governadores como os governados (II Timóteo 3.16,17, I Timóteo 3.14,15). 

Portanto, as Escrituras têm que se constituir na forma perfeita de Disciplina”.[34] Ele prossegue mostrando que as Escrituras não restringem sua autoridade a assuntos de fé, pois Paulo “falou de muitos e especiais preceitos e regras de conduta, para com as viúvas pobres; as esmolas a serem dadas para elas; o não censurar os anciões; o ofício de presbíteros governantes, e daqueles que trabalham na Palavra e na Doutrina; o de não receber uma acusação contra um oficial; mas somente sob duas ou três testemunhas; a repreensão pública daqueles que ofendem publicamente; o não admitir no ministério soldados novos e não experimentados, e muitos outros detalhes da política, a respeito dos quais ele disse com toda seriedade: “Conjuro-te perante Deus e Jesus Cristo e aos anjos eleitos, que guardes esses conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade (I Timóteo 5.21)”. Esses conselhos, nessa carta não eram um mandamento, mas todos eram preceitos da fé e do governo da Igreja”. 

Essa reivindicação por integridade da instrução que é suprida à Igreja pelas Escrituras era também apoiada, como afirmavam os Puritanos, por aqueles textos que expressamente excluíam os acréscimos ou diminuições humanas à Divina Palavra (Deuteronômio 4.2)**. John Owen aplica o que ele acredita ser de relevância desse e outros versículos à questão da liturgia imposta por autoridade humana em adoração, quando escreve: 
“Visto que o próprio Deus instituiu sua própria adoração e as questões relacionadas, também afirmou sua própria autoridade e vontade como sendo a única regra para toda a adoração por Ele aceitável; nenhuma circunstância está registrada de qualquer um que tenha feito acréscimo ou diminuição ao que Ele instituiu, sob qualquer pretensão, ou por qualquer autoridade, que tenha sido por Ele aceito; e visto que os mais iminentes dentre aqueles que tomaram para si tal poder, bem como o julgamento das razões necessárias para exercê-lo, seja por substância ou estilo, a eles foi dado, pelo justo julgamento de Deus, fazer coisas não convenientes, sim, abomináveis a Deus (como na igreja papal) – não é pois impensável aos homens exercerem sabedoria e serem muito cuidadosos para que não venham a se intrometerem nesse ingrato ofício”.[35] 
2) A CRISTO FOI DADA AUTORIDADE EXCLUSIVA PARA ESTABELECER AS LEIS E GOVERNO DE SUA IGREJA E ELE FEZ A SUA VONTADE CONHECIDA SOMENTE PELAS ESCRITURAS. 

Diz Rutherford:
“Se a igreja for um reino político visível, e ela é (Mateus 13,45-48; 16.19; 8.12); e se a Palavra for a Palavra, cetro e lei do Reino, como o é (Mateus 6.10; 13.10,14; Lucas 8.10); sim, a espada e o real poder do Rei (Apocalipse 1.16; 19.15), por cujo meio Ele governa e reina em Sua Igreja (Isaías 11.4, Salmos 110.2; Hebreus 1.8,9; Salmos 45.3-7; Isaías 61.1,2; II Coríntios 10.4-6; I Pedro 2.4-7), e se por essa Palavra o Rei reina, liga, desliga, e conquista almas e subjuga Seus inimigos (Mateus 18.18-20; Mateus 16.19; Apocalipse 6.2); então, certamente, Cristo reina politicamente, de forma externa e visível em Sua Igreja, e anda no meio dos sete candelabros (Apocalipse 2.1). E se Cristo, subindo ao céu como um rei vitorioso levando cativo o cativeiro, deu dons aos homens e determinou uma programação visível para o ajuntamento dos santos pelo ministério de certos oficiais de seu reino, como fez (Salmo 63.18, “Para que o Senhor habite no meio deles,” e, Efésios 4.11-16); então Ele deve reinar na programação visível dos pastores, mestres, mestres, pela Palavra, sacramentos e disciplina. Agora pois o próprio Rei, o Senhor que reina em Sua programação exterior visível deve ser o único legislador e Juiz (Tiago 4.12; Isaías 33.22). Não há “rabinos” ou “doutores” na terra que, como reis menores, possam fazer leis sob Ele (Mateus 23.8-10); sim, nem apóstolos que possam ensinar como o culto de adoração pode ser ordenado em sua forma visível, mas o que eles receberam do Rei da Igreja (I Coríntios 11.23, Atos 15.13-18), como a casa deve ser governada (Hebreus 3.1-5); sim, nada mais razoável, do que o que quer que seja ordenado pelo Deus dos céus, seja feito em e para a caso do Deus dos céus, sob pena de incorrermos em Sua ira (Esdras 7.23)”.[36] 
O texto crucial é provavelmente Mateus 28.20, “Ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado...” Comentando sobre este e outros textos semelhantes onde o Senhor requer obediência precisa às Suas ordenanças, Owen pergunta se o sentido de tais versos é “apenas prevenir a adição do que é contrário ao que Deus ordena”, deixando-nos livres para adicionar coisas tais como “aquelas que tendem a fomentar o melhor cumprimento de suas ordenanças” (como os oponentes dos Puritanos estimulavam) ou se a interpretação Puritana não seria a que tem mais justa evidência de expressão da intenção de Escritura. Ele escreve: 
“Nosso Senhor Jesus Cristo direciona Seus apóstolos a ensinar a Seus discípulos “a fazer e observar tudo o que Ele os havia ordenado”. Aqueles que se contentam com a última interpretação (isto é, os Puritanos) desses outros preceitos semelhantes, afirmam que há nessas palavras a restrição do escopo de sua comissão à expressa ordenança de Cristo. O que Ele ordena, dizem, é que eles deveriam ensinar os homens a observar e nada mais; nem Ele requererá de nossas mãos a observância de qualquer outra coisa. Os outros teriam a sua suposta intenção, o que quer que Ele tenha ordenado, e o que eles julgassem em ordenar, desde que não fosse contrário ao que Ele ordenara; como se Ele houvesse dito, “Ensinem os homens a observar tudo o que lhes tenho ordenado; e ordene-os a observar o que vocês acharem procedente, desde que não contrarie as minhas ordenanças”. Certamente esta interpretação à primeira vista parece desfigurar a intenção principal de Cristo, naquela limitação expressa de sua comissão à sua própria ordenança. Assim também sob o Velho Testamento: dando ordem sobre sua adoração, o Senhor diz a Moisés que ele deve fazer todas as coisas de acordo com o que lhe será mostrado e revelado pelo Senhor. Na conclusão da obra que lhe foi comissionada, para mostrar que o que ele havia feito era aceitável a Deus, é repetido oito ou dez vezes que ele havia feito tudo de acordo com o que o Senhor havia lhe ordenado; nada foi omitido, nada adicionado por ele. Que a mesma conduta seja observada na seguinte prática que foi adotada na primeira instituição (isto é, a Igreja do Novo Testamento) o Senhor ordena que nada seja acrescentado ao que foi por Ele estabelecido, nada seja subtraído.”[37] 
De acordo com os Puritanos, o Novo Testamento faz toda obediência espiritual e tarefas espirituais derivarem suas obrigações a partir do fato de que são sancionadas pela autoridade de Cristo. 

A Igreja pode apenas ser o despenseiro ou administrador de Suas Leis; seu papel é cumprir Seus desígnios. Portanto, revestir as suas exigências com importância religiosa ou atribuir autoridade às suas próprias instituições, é ir contra a autoridade de Cristo em Sua Palavra e estar debaixo da mesma reprovação com que Ele condenou os fariseus por suas auto-designações de cerimônias religiosas de lavagem, seus largos filactérios, longas franjas (Mateus 23.5) e o resto: “Em vão eles me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mateus 15.9). O Senhor Jesus Cristo é a única fonte de autoridade na Igreja, e Ele não delegou autoridade ao homem a assuntos de Fé, governo de Igreja ou adoração. “O simples fato de que a regra de autoridade da Igreja na adoração a Deus é a regra da Escritura, é decisiva na inteira controvérsia em relação a ritos e cerimônias, e liga a Igreja ao ofício ministerial de administrar uma diretriz feita para ela, ao invés de presunçosamente tentar estabelecer um novo direcionamento para si mesma”[38]. 

Uma vez que vemos a relação do Princípio Regulador com o Senhorio de Cristo, não é mais um mistério ver como um homem cristocêntrico como Samuel Rutherford pode engajar-se tão seriamente em polêmicas da Igreja. 

3) Se adições humanas são permitidas na Igreja elas subverterão o que as Escrituras ensinam. Uma vez que o Princípio Regulador é abandonado há uma tendência inevitável de que adições alterarão e se afastarão das Escrituras. Isto pode ser negado por aqueles que rejeitam o Princípio. Eles podem alegar que suas adições não são contrárias às Escrituras, somente “paralelas” a elas, mas para os Puritanos o testemunho da história da Igreja, tanto na Bíblia quanto depois, é inequívoco. Eles viram a tendência funcionando com os primeiros Pais da Igreja, eles a viram florescer com o papado e eles se agarraram corpo a corpo na luta contra os campeões católicos na batalha da Reforma. Em 1519, Eck, o defensor do Papa, declarou que é “suficiente que a Igreja diga que uma certa coisa é verdade devendo ser cumprida e a Escritura não a contradiga.” 
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NOTAS:
[1] William Tyndale, Expositions (Parker Society), pp. 77-8. 
[2] Conversations between The Church of England and The Methodist Church, 1963, p. 16 
[3] John Owen, Works (Goold edit.), vol. 13, pp. 479-480. 
[4] Henry Barrow, Writings (Elizabethan Nonconformist Texts, 1962). P. 320. 
[5] John Whitghft, Works (Parker Society), vol. I, p.38, p.41. 
[6] Richard Hooker, Works (5th edit., 1865), vol. I, p. 334. 
[7] Whitgift, vol. I, p. 188. Cartwght's Firs Reply To Whitgift is printed with Whitgift's response. The Puritan leader's voluminous Second Reply has never been reprinted since the sixteenth century; some brief extracts from it are given in the Parker Soc. edition of Whitift's works 
[8] Samuel Rutherford, The Divine Right of Church-Government and Excommunication: or, a peaceable Dispute for the perfection of the holy Scripture in point of Ceremonies and Church-Government, 1646, pp. 19-20. 
[9] Op. Cit., p. 187 
[10] John Robinson, Works, 1851, vol. 2, pp. 476-478. 
[11] Op. Cit., I, p. 187. 
[12] Cartwright in Whitgift, op. Cit., 2, p. 89. 
[13] Op. Cit., p.257. 
[14] Op. Cit., p. 641 
[15] Text of the Uniformity Act, 1662, is printed by H. Gee and W. J. Hardy, in Documents Illustrative of English Church history, 1914, pp. 600-619. 
[16] Jasper Ridley, Thomas Cranmer, 1962, p. 181. 
[17] Given in Stillingfleet’s Irenicum, quoted by A. H. Drysdale, History of The Presbyterians in England, 1889, pp. 32,33. 
[18] John Foxe, acts and Monunments (Pratt’s edit.), vol. 5, p. 591. 
[19] Op. Cit., p. 576. 
[20] Tyndale, Doctrinal Treatises, p. 273. 
[21] Hooper’s manuscript will be publish for firt teime im English in The Reformation of the Church, 1964, by The Banner of Truth Trust. 
[22] This Reply to Hooper Will be found as na appendix in John Bradford, Letters ant Treatises, pp. 375-395. 
[23] Printed by Peter Lorimer in John Knox and the Church of England, 1875, p. 104. 
[24] Op. Cit., I, p. 27 
[25] Op. Cit., II, p. 108. 
[26] See Owen, 13, pp. 463-4, 469, 481. 
[27] John Knox, History of The Reformation in Scotland (Edited by William Croft Dickinson, 1949), vol. I, p. 89 
[28] Rutherford, op. Cit., p. 63. 
[29] George Gillespie, A Dispute Against the English Popish Ceremonies, printed in Gillespie’s Works, vol. I, 1846, cf. pp. 130-31. A helpful commentary on Gillespie’s conditions will be found in James Bannerman, The Church of Christ, vol. I, pp. 355-57. 
[30] Op. Cit., 7. 
[31] Besides major works like Gillespie’s, a number of shorter pieces on the subject appeared such as the anonymous Treatise of the Nature and Use of Things Indifferent (Dr. Williams Libary 12.55.3) and Daniel Cawdry’s consideration of The XXIV Cases Concerning Things Indifferent in Religious Worship, 1663. 
* Cartwright havia pouco antes listado as regras gerais governando o uso de adiaphora, substancialmente as mesmas que Gillespie’s citou acima. Elas devem: a) não ofender nada, especialmente à Igreja de Deus; b) ser feitas em ordem e decência; c) ser feita para edificação; d) para a glória de Deus. 
[32] Op. Cit., I, 196. 
[33] Jus Divinum Reiminis Ecclesiastici, or The Divine Right of Church Government, Bby sundry minister of Christ within the City of London, pp. 48-49. 
* Os Puritanos usaram essa palavra num sentido mais extenso do que o nosso uso moderno, de modo que ela cobria governo e ordem. 
[34] Op. Cit., 7. 
** Rutherford dedica quatro páginas somente à esse verso, Deuteronômio 32; Apocalipse 22.18,19. 
[35] Works, 15, pp. 39-40. 
[36] Op. Cit., pp. 16-17.
[37] Vol. 15, pp. 41-42 
[38] Bannerman, 1, p. 367 
[39] Quoted in Rutherford, op. Cit., p. 77. 
[40] Foxe, vol. 6, p.615. 
[41] Op. Cit., 3, 180 
[42] Op. Cit., 3, pp. 205-6, 212-13 
[43] William Cunningham, Historical Theology, vol. 1, p. 72. 
[44] Lorimer, op. Cit., p. 30. 
[45] Rutherford, op. Cit., p. 30. 
[46] Daniel Gerdes, Antiquity Chest, vol. 1, part 1, pp. 656-670. This is Latin work and this import letter has not yet been printed in English. 
[47] Vol. 13, p. 463.

Por Ian Murray
Fonte: Projeto Os Putiranos
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