quinta-feira, 6 de março de 2014

História do Movimento Reformado [25/25]

Igreja Luterana em Cieszyn.

POLÔNIA: RELIGIÃO E POLÍTICA NA ENCRUZILHADA DA EUROPA

Introdução

Em décadas recentes, vários fatores chamaram a atenção da opinião pública internacional para a Polônia. O evento mais significativo foi a eleição do arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyla, como papa João Paulo II, no dia 16 de outubro de 1978. Wojtyla, nascido em 1920, tornou-se o primeiro papa eslavo da história e o primeiro não-italiano desde o holandês Adriano VI, no início do século 16. Por mais de vinte e seis anos no leme da Igreja Católica Romana (até abril de 2005), ele foi o papa com o terceiro pontificado mais longo da história. Outro acontecimento marcante da trajetória recente da Polônia foi o movimento pela democratização do país encabeçado pelo sindicato Solidariedade, fundado em 1980, que em 1989 formou o primeiro governo não-comunista da Europa oriental. Uma das expressões desse interesse pela nação polonesa foi a publicação, em 1983, de uma novela histórica do escritor norte-americano James A. Michener, intitulada Polônia, que imediatamente se tornou um grande best-seller.

Um dos elementos que mais tem afetado a história da Polônia é a sua localização geográfica entre a Europa ocidental anglo-saxônica e a Europa oriental de etnia eslava. Essa peculiaridade, aliada à ausência de fronteiras claramente definidas, tem feito desse país, ao longo dos séculos, uma vítima de seus vizinhos poderosos, principalmente a Alemanha e a Rússia. Em 1939, a invasão da Polônia por Hitler deflagrou a II Guerra Mundial, que devastou o país e causou o genocídio de quase toda a sua numerosa comunidade judaica. Nessa história atribulada, um dos principais elementos definidores da identidade nacional polonesa tem sido, há mais de um milênio, o forte apego à fé católica, exemplificado na devoção à Madona Negra de Czestochowa, à qual se atribui uma intervenção miraculosa que teria permitido a derrota de invasores suecos em 1655. Todavia, embora aos olhos dos observadores externos poucos países pareçam mais católicos do que a Polônia, existe o fato pouco conhecido de que, no século 16, boa parte dessa nação esteve em vias de tornar-se protestante.

1. Antecedentes político-religiosos

O cristianismo foi introduzido na Polônia no século décimo, na época em que a região passou a sofrer a forte influência do Sacro Império Romano Germânico e do seu primeiro monarca, Oto I. No entanto, Oto não foi o responsável pela implantação da fé cristã entre os poloneses. Esse privilégio pertenceu à rainha Dobrava, originária da Boêmia, que contribuiu para a conversão do seu marido, o rei Mieszko, batizado em 966. Dois anos depois, foi criado o primeiro bispado em Poznan, cujos dois primeiros ocupantes foram alemães. Nos séculos seguintes, a fé católica se implantou de maneira profunda, mas as relações entre a igreja e o estado foram com freqüência tensas e conflitivas. No século 15, a Polônia era um reino altivo que muitas vezes revelava indiferença para com os desejos dos papas. O jurista e humanista Jan Ostrorog interpretou a atitude predominante dos seus compatriotas quando escreveu em um tratado acadêmico em 1473: “O rei polonês não reconhece a supremacia de ninguém, exceto a de Deus”.

Por volta de 1500, a igreja possuía 10% das terras aráveis da Grande Polônia, 15% da Pequena Polônia e 25% de Mazóvia. Privilégios como esse, bem como a vida desordenada do clero, produziram um sentimento generalizado de anticlericalismo. Aqui e acolá, grupos de valdenses, wyclifitas e hussitas realizavam o seu trabalho de propaganda religiosa. As primeiras obras de Lutero tiveram grande aceitação. Em 1520, um legado papal foi expulso de junto da fogueira em que queimava livros e uma efígie do reformador alemão. Todavia, o sentimento antigermânico de muitos poloneses fez com que o luteranismo tivesse pouca aceitação fora das cidades germanizadas do oeste. O rei Sigismundo I (1506-1548) fez o que pôde para suprimir o protestantismo, cujas idéias se infiltravam constantemente a partir das vizinhas Boêmia e Prússia Oriental, mas os nobres e as cidades muitas vezes ignoraram os decretos reais. No início do reinado de Sigismundo II (1548-1572), muitos Irmãos Boêmios foram para a Polônia fugindo das perseguições do imperador Fernando I.

2. A introdução da fé reformada

A tradição reformada ou calvinista lançou raízes mais profundas na Polônia. A ênfase de João Calvino na autoridade dos presbíteros leigos atraiu a nobreza e as origens francesas do movimento o tornaram mais aceitável junto àqueles que eram hostis aos elementos germânicos. O próprio rei Sigismundo II correspondeu-se com Calvino e leu as Institutas da Religião Cristã com admiração. No final de 1554, Calvino lhe enviou um projeto de reforma da igreja polonesa, que o rei, todavia, não chegou a implementar. Nicholas Raziwill, príncipe lituano e chanceler de Sigismundo, adotou abertamente o calvinismo. Na região conhecida como Pequena Polônia, surgiram muitas igrejas reformadas na década de 1550. Essas igrejas tinham um estreito relacionamento com os Irmãos Boêmios, com os quais realizaram um sínodo conjunto em 1555 em Kozminek, no qual foi adotada uma confissão de fé comum.

Em 1554, o primeiro sínodo calvinista da Polônia reuniu-se em Slomniki, na Pequena Polônia.  No ano seguinte a influência protestante se tornou forte no próprio parlamento nacional, que em 1556 adotou uma resolução de nove pontos visando a reforma da igreja polonesa. Todavia, as simpatias religiosas do rei Sigismundo mostraram-se ambíguas: ele se interessava por questões teológicas, acompanhou o movimento protestante com simpatia e, ao ser indagado por alguns súditos sobre que posição deviam tomar em questões religiosas, replicou: “Eu não sou o rei de suas consciências”. Ao mesmo tempo, era profundamente fiel à igreja romana, na qual fora criado. No final do seu reinado, quase a metade da Dieta (parlamento) era constituída de protestantes e cerca de um sexto das paróquias do país era controlada por protestantes. Essa situação resultou na legalização da tolerância e igualdade religiosa logo após a morte do rei, em 1572. Tal evento marcou o ponto culminante da Reforma na Polônia, pois nas décadas seguintes a causa católica teria uma reação vitoriosa.

3. O reformador Jan Laski

O maior reformador polonês foi Jan Laski (1499-1560), sobrinho do arcebispo de Gniezno, seu homônimo. Laski estudou na Itália, tornou-se um humanista e esteve em contato com vários reformadores destacados (Zuínglio, Ecolampádio, Melanchton, Bullinger e Bucer). Foi amigo íntimo de Erasmo de Roterdã, cuja biblioteca adquiriu e levou para a Polônia. Depois de exercer várias funções eclesiásticas, inclusive como bispo, foi para a Holanda em 1539 e no ano seguinte abraçou o protestantismo. Pastoreou a igreja de refugiados de Emden, na Frísia Oriental, à qual deu uma orientação calvinista. Depois residiu em Londres (1548-1553), onde o rei Eduardo VI o nomeou pastor da igreja de exilados estrangeiros. Com a ascensão de Maria I, deixou a Inglaterra e voltou para a Frísia e para Frankfurt. Convidado por um sínodo reformado polonês, retornou à pátria em dezembro de 1556. No ano seguinte, tentou induzir o rei Sigismundo a criar uma igreja nacional. Quando esse esforço fracassou, ele começou a organizar a igreja calvinista entre a nobreza protestante da Pequena Polônia.

Embora tenha enfrentado dificuldades com os luteranos na Dinamarca e na Alemanha, Laski envidou esforços para unir os reformados não somente com os Irmãos, mas também com os luteranos poloneses. Ao lado de dezessete estudiosos, participou da tradução da Bíblia para o polonês, publicada em 1563. Faleceu em 8 de janeiro de 1560 e foi sepultado em Pinczów, o centro do protestantismo na Pequena Polônia. Foi o único polonês cuja obra veio a ser amplamente reconhecida na história do protestantismo europeu. Escreveu numerosas declarações doutrinárias, entre as quais o Catecismo de Emden (1554), a Confissão da Comunidade de Estrangeiros de Frankfurt (1554) e a Forma e Método Integral do Culto na Igreja dos Estrangeiros (1550 e 1555), esta última usada na congregação de refugiados continentais que pastoreou em Londres. O conhecido teólogo holandês Abraham Kuyper publicou as suas obras em dois volumes em 1866.

4. A supressão do movimento

O término do Concílio de Trento em 1563 e a força crescente da Contra-Reforma sob a liderança dos jesuítas detiveram o crescimento do protestantismo polonês e criaram as condições para o seu colapso. Defrontando-se com o novo perigo, os luteranos uniram-se aos calvinistas e aos Irmãos na adoção de um compromisso de respeito mútuo, o Consenso de Sendomir, em abril de 1570. Quando Henrique de Anjou (mais tarde Henrique III da França) se tornou rei da Polônia em 1573, foi forçado pelos nobres a aceitar um acordo de mútua tolerância religiosa conhecido como Pax Dissidentium (Paz dos Dissidentes). O documento afirmava que “nem católicos nem quaisquer outros dissidentes derramarão sangue por causa de diversidade de culto... eles não irão punir, ferir, aprisionar ou exilar uns aos outros por causa da religião”. Essa política tolerante seria abandonada gradualmente.

O grande líder da Contra-Reforma polonesa foi o cardeal Stanislaw Hosius, um dos cinco presidentes da última assembléia do Concílio de Trento, que convenceu Sigismundo II a aceitar os decretos daquele conclave. Seu trabalho foi complementado pelos jesuítas, que chegaram à Polônia em 1565. Sob a sua influência, o rei Estevão Báthory (1575-1586) abandonou o protestantismo para assegurar a posse do trono. No final do seu reinado, os representantes da Sociedade de Jesus eram mais de 350 e tinham doze colégios no país. O longo reinado de Sigismundo III (1587-1632), apelidado o “rei dos jesuítas”, marcou a virtual extinção da igreja reformada como organização, apesar da provisão constitucional de liberdade para os protestantes. Uma insurreição liderada por nobres insatisfeitos e protestantes foi facilmente suprimida em 1608. Depois disso, os protestantes se reduziram a uma pequena minoria e os jesuítas ficaram com o pleno controle da situação. A tolerância somente retornou no século 18, com a partilha da Polônia entre seus poderosos vizinhos.

Perguntas para reflexão:

1. A união entre religião e nacionalismo é uma coisa saudável? Por quê?
2. O fator político afetou de maneira intensa a história do protestantismo na Polônia, no início positivamente e depois negativamente. Qual deve ser a relação entre religião e política?
3. A Igreja Católica sempre foi partidária da união entre a igreja e o estado e ao longo da história fez uso do poder político para defender os seus interesses. Isso é correto do ponto de vista bíblico e cristão?
4. O protestantismo polonês foi suprimido através do uso da força, da guerra e da intolerância religiosa. Que lições podemos tirar disso?
5. A pequena comunidade protestante polonesa sobrevive com dificuldade entre dois grandes grupos, a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa. Os protestantes poloneses devem manter a sua identidade a todo custo ou seria melhor se associarem à religião majoritária? Justificar.

Por Alderi Souza de Matos
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Sugestões bibliográficas:

DANIEL-ROPS, Henri. A igreja dos tempos clássicos. I. O grande século das almas. São Paulo: Quadrante, 2000.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo. 2 vols. Trad. Heber Carlos de Campos.
MUIRHEAD, H. H. O cristianismo através dos séculos. 3 vols. 3ª ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1951.
TÜCHLE, Germano. Nova história da igreja. Vol. III: Reforma e Contra-Reforma. Petrópolis: Vozes, 1971.
HILLERBRAND, Hans J. (Ed.). The Oxford encyclopedia of the Reformation. 4 vols. New York e Oxford: Oxford University Press, 1996. Verbetes: Paul W. Knoll, “Poland” (Vol. 3, p. 283-288); Waclaw Urban, “Laski, Jan” (Vol. II, p. 396s).

Fontes Mackenzie
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