segunda-feira, 24 de março de 2014

O Espírito Santo é Deus

São Basílio Magno numa miniatura do século XV em Monte Atos
“…52. Mas, que vale combater por meio de humilde argumentação, obtendo uma vitória inglória para a doutrina, quando é possível apresentar exemplos mais honrosos para demonstrar a excelência irrefutável da glória do Espírito? Se repetimos o que aprendemos da Escritura, talvez logo os adversários do Espírito comecem a clamar com intensidade e veemência, tampem os ouvidos, apanhem pedras ou o que estiver a seu alcance, e cada qual, fabricando as próprias armas, nos atacará. A segurança, contudo, não é preferível à verdade. Efetivamente, encontramos nos escritos do Apóstolo: “Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus, e na paciência de Cristo” (2Ts 3:5). 
Quem é este “Senhor” que conduz “no amor de Deus e a paciência de Cristo?” Respondam-nos os que rebaixam o Espírito à condição de escravo. Se a locução se referisse ao Pai, ter-se-ia dito, absolutamente: “Que o Senhor vos conduza em seu amor“. Se fosse atinente ao Filho, ter-se-ia acrescentado: “em sua paciência“. Que eles procurem, então, quem será esta outra Pessoa, digna de ser honrada com o título de Senhor. Assemelha-se a esta a seguinte passagem: “E o Senhor vos aumente, e faça crescer em amor uns para com os outros, e para com todos, como também o fazemos para convosco; Para confirmar os vossos corações, para que sejais irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo com todos os seus santos” (1Ts 3:12-13). A qual “Senhor” pede o Apóstolo “queira confirmar o coração” dos fiéis de Tessalônica “numa santidade irrepreensível, aos olhos de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de nosso Senhor?”. Respondam-nos os que põe o Espírito Santo entre os “espíritos ministradores, enviados a serviço” (Hb 1:14). 

Ora, eles nada podem replicar. Por isso, escutem também outro testemunho claro, que dá ao Espírito Santo o nome de “Senhor“: “Pois o Senhor é Espírito” (2Co 3:17). E ainda: “como pelo Espírito do Senhor” (2Co 3:18). Tendo em vista não dar oportunidade alguma de contradição, repito a passagem do Apóstolo: “Sim; até hoje, todas as vezes que lêem o Antigo Testamento, este mesmo véu permanece. Não é retirado, porque é em Cristo que ele desaparece… é somente pela conversão ao Senhor que o véu cai. Pois o Senhor é o Espírito” (2Co 3:14,16-17). Por que razão assim se exprime? Porque aquele que se apega à letra, e se limita às prescrições legais, tem o coração de certo modo velado por uma interpretação literal, à semelhança dos judeus. Assim acontece devido à ignorância de que a observância material da Lei foi abolida por ocasião da vinda de Cristo, e enfim, que os tipos agora se transformaram em realidade. As lâmpadas são desnecessárias quando aparece o sol; e a Lei é obsoleta, as profecias silenciam, ao manifestar-se a realidade. 

Quem, contudo, for capaz de perscrutar o sentido profundo das prescrições legais, de retirar esta espécie de véu, a obscuridade da letra, e puder penetrar nestes mistérios, esse imita Moisés, que tira o véu para falar com Deus, retornando também ele da letra ao espírito. Assim, a obscuridade dos ensinamentos da Lei é análoga ao véu que cobria a face de Moisés, e a ação de voltar-se para o Senhor corresponde à contemplação espiritual. Aquele que, na leitura da Lei contorna a letra, volta-se para o Senhor (aqui é o Espírito que recebe o nome de Senhor), e assemelha-se a Moisés, cuja face resplandecia diante da manifestação de Deus. Os seres postos perto de cores brilhantes ficam também coloridos pelo fulgor que elas emitem; assim igualmente se alguém fica intensamente o olhar no Espírito, a glória deste o transforma em algo de mais resplandescente, porque a verdade provinda do Espírito de certa maneira ilumina de cima o coração. Nisto consiste ser transfigurado pela glória do Espírito em sua própria glória (Ex 34:34), não com parcimônia, nem imperceptivelmente, mas à medida que é capaz aquele que o Espírito ilumina. Não te perturbes, ó homem, com a palavra do Apóstolo: “sois o templo de Deus e o Espírito de Deus habita em vós” (1Co 3:16). Por acaso, a habitação de um escravo foi honrada com o título de templo? Por que razão aquele que declara ter sido a Escritura “inspirada por Deus“, por ter sido escrita sob o sopro do Espírito Santo (2Tm 3:16), não emprega uma linguagem que o ultraje e rebaixe?”…
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Basílio de Cesareia - Tratado sobre o Espírito Santo. Editora Paulus, pgs. 152 – 154
Fonte - e-cristianismo
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