domingo, 9 de março de 2014

Separação [01/03]

“Por isso saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor” (2 Coríntios 6:17)

1964181_506861112756688_89675501_nAs palavras que encabeçam esta página tocam um assunto de vasta importância no cristianismo. Este assunto é o grande dever de separação do mundo. Este era o ponto que Paulo tinha em mente quando escreveu aos coríntios, “Saiam – sejam separados”.

O assunto é um daqueles que demandam a maior atenção por parte dos que professam e se chamam cristãos. Em cada época da Igreja, a separação do mundo sempre tem sido uma das grandes evidências da obra da graça nos corações. Aquele que realmente nasceu do Espírito e foi feito nova criatura em Cristo Jesus, está sempre tentando “sair do mundo” e viver uma vida separada. Aqueles que apenas se chamam de cristãos, mas sem autenticidade, estão sempre se recusando a “sair e ser separados” do mundo.

O assunto talvez nunca foi tão importante quanto é nos dias atuais. Há um desejo largamente difundido para fazer as coisas agradáveis no cristianismo – cortar fora os cantos e extremidades da cruz, e evitar, tanto quanto for possível, negar a si mesmo. Em cada parte ouvimos auto-intitulados cristãos declarando em alta voz que nós não devemos ser “fechados e exclusivos”, e que não há mal em muitas coisas que os santos da antiguidade pensaram ser más para suas almas. Que nós podemos ir a qualquer lugar, e fazer qualquer coisa, gastar nosso tempo em qualquer coisa, ler qualquer coisa, mantermos amizade com qualquer um, e se lançar em qualquer coisa, e tudo isso enquanto ainda somos bons cristãos – este, este é o discurso de milhares. Em um dia como este, eu penso nisso atentamente para erguer uma voz de alerta, e fazer um convite para atentar ao ensino da Palavra do Senhor. Está escrito na Palavra, “saí e apartai-vos”.

Há quatros pontos que tentarei mostrar aos meus leitores examinando este poderoso assunto.
  • Primeiro, eu tentarei mostrar que o mundo é uma fonte de grande perigo para a alma.
  • Segundo, eu tentarei mostrar o que não é o sentido de separação do mundo.
  • Terceiro, eu tentarei mostrar em que a real separação do mundo consiste.
  • Quarto, eu tentarei mostrar o segredo da vitória sobre o mundo.
E agora, antes de prosseguir, deixe-me avisar a cada leitor deste tratado que ele nunca entenderá este assunto a menos que ele entenda primeiro o que é um cristão verdadeiro. Se você é daquelas infelizes pessoas que acreditam que um cristão é aquele que vai a um lugar de adoração, não importando como ele vive, ou no que acredita, eu temo que você pouco se importará com separação do mundo. Mas se você lê a sua Bíblia, e é zeloso com a sua alma, você saberá que há duas classes de cristãos – os convertidos e os não convertidos. Você saberá que aquilo que os judeus eram entre as nações no Velho Testamento, o verdadeiro cristão é para ser no Novo. Você entenderá o que eu quero dizer quando eu digo que o sentido de “verdadeiros cristãos”, de certa maneira, é para ser um “povo peculiar” no Evangelho, e que deve haver uma diferença entre crentes e descrentes. Portanto, para você eu faço um apelo especial neste dia. Enquanto muitos evitam o assunto da separação do mundo, e muitos certamente o odeiam, e muitos ficam confusos sobre isto, me dê sua atenção enquanto eu tento mostrar a vocês a coisa como essa separação realmente é.

I. Primeiro, eu tentarei mostrar que o mundo é uma fonte de grande perigo para a alma.

Lembrando que por mundo, eu não quero dizer o mundo material onde nós vivemos e nos movemos. Aquele que aparenta dizer que nada do que Deus criou nos céus acima, ou abaixo da terra, é em si prejudicial à alma do homem, diz algo irracional e absurdo. Pelo contrário, o sol, a lua, as estrelas, as montanhas, os vales, e as planícies, os mares, lagos e rios – a criação animal e vegetal – todos em si são muito bons. Tudo está cheio de lições sobre a sabedoria e o poder de Deus, e todos proclamam diariamente, “A mão que nos fez é divina”. A ideia que a “matéria” é em si pecaminosa e corrupta, é uma tola heresia.

Quando eu falo de “o mundo” neste sermão, eu quero dizer aqueles que pensam apenas ou principalmente nas coisas deste mundo, e negligenciam as do por vir – as pessoas que estão sempre pensando mais na terra do que no céu, mais no tempo que na eternidade, mais no corpo do que na alma, mais em agradar o homem do que a Deus. É deles e de seus caminhos, hábitos, costumes, opiniões, práticas, gostos, alvos, espírito e tom que eu estou falando quando falo do “mundo”. Este é o mundo do qual Paulo nos fala para “Sair e ser separado”.

Agora que o mundo, neste sentido, é um inimigo para a alma, o bem conhecido Catecismo da Igreja da Inglaterra nos ensina isso bem em seu começo. Ele nos diz que há três coisas que um cristão batizado é obrigado a renunciar e deixar, e três inimigos que ele deve combater e resistir. Estes três são a carne, o diabo e o mundo[1]. Os três são inimigos terríveis, e os três devem ser derrotados, se queremos ser salvos.

Mas, seja o que for que agrade aos homens pensar sobre o Catecismo, nós devemos nos voltar para o testemunho da Sagrada Escritura. Se os textos que eu estou para citar não provam que o mundo é uma fonte de perigo para a alma, não há sentido nestes palavras.

(a) Vamos ouvir o que Paulo diz:

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12:2).

“Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o espírito que vem de Deus” (1Co 2:12).

Cristo “entregou a si mesmo pelo nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso” (Gl 1:4).

“Nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo” (Ef 2:2).

“Porque Demas tendo amado o presente século” (2Tm 4:10).

(b) Vamos ver o que Tiago diz:

“A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas atribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.” (Tg 1:27)

“Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” (Tg 4:4)

(c) Vamos ver o que João diz:

“Não ameis o mundo e as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.” (1Jo 2:15-17)

“Por isso o mundo não nos conhece; porque não conheceu a ele.” (1Jo 3:1)

“Eles são do mundo, por isso falam como quem é do mundo, e o mundo os ouve” (1Jo 4:5)

“Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo” (1Jo 5:4).

“Sabemos que somos de Deus, e que o mundo inteiro jaz no Maligno.” (1Jo 5:19)

(d) Por último vamos ver o que o Senhor Jesus diz:

“Mas os cuidados deste mundo… sufocam a palavra, e ela fica infrutífera” (Mt 13:22).

“Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo.” (Jo 8:23)

“O Espírito da verdade, o qual o mundo não pode receber; porque não o vê nem o conhece” (Jo 14:17)

“Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim.” (Jo 15:18)

“Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas, porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (Jo 15:19)

“No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (Jo 16:33)

“Eles não são do mundo, assim como eu não sou do mundo.” (Jo 17:16)

Eu não vou comentar estes vinte e dois textos. Eles falam por si mesmos. Se alguém puder lê-los atentamente, e não ver que o mundo é inimigo do cristão, e que há uma grande oposição entre a amizade do mundo e a amizade de Cristo, ele está além do alcance da razão, e é uma perda de tempo argumentar com ele. Aos meus olhos eles contém um lição tão clara como o sol do meio dia.

Eu me volto a fatos e experiências a partir das Escrituras. Eu apelo para que qualquer antigo cristão que mantenha os seus olhos abertos e saiba o que está acontecendo nas igrejas. Eu pergunto a ele se é ou não verdade que nada causa mais dano à fé tanto quanto “o mundo”! Não é o pecado descoberto ou uma incredulidade exposta, que rouba Cristo de Seus chamados servos, quanto o amor ao mundo, o medo do mundo, as preocupações do mundo, os afazeres do mundo, o dinheiro do mundo, os prazeres do mundo, e o desejo de manter um bom relacionamento com o mundo pelos seus benefícios. Esta é a grande rocha que continuamente tem feito muitos jovens naufragarem. Eles não contestam qualquer artigo da fé cristã. Eles não escolhem o mal deliberadamente, nem se rebelam abertamente contra Deus. Eles esperam de alguma forma ir para o céu no fim; ele pensam nisso como ter uma fé adequada. Mas eles não podem desistir de seu ídolo: eles precisam ter o mundo. E então depois de fazer o bem e ofertar o suficiente para o céu enquanto garotos e garotas, eles se desviam quando eles se tornam homens e mulheres, eles descem ao largo caminho que leva a destruição. Eles começam como Abraão e Moisés, e terminam como Demas e a esposa de Ló.

Somente o ultimo dia provará quantas almas o mundo destruiu. Centenas serão encontrados formados em famílias religiosas, e terão conhecido o evangelho na sua infância, e ainda assim não chegaram ao céu. Eles deixaram o ancoradouro do lar com com perspectivas brilhantes, e se lançaram no oceano da vida com a bênção do pai e as orações da mãe, e então saíram do curso correto através das seduções do mundo, e terminaram sua viagem em um banco de areia e em miséria. É uma triste história para contar; mas infelizmente, também é comum! Eu não posso ter dúvidas que Paulo disse: “Saiam e sejam separados”.

Por J. C. Ryle
Fonte: Projeto Ryle
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