segunda-feira, 17 de março de 2014

Separação [03/03]


Qualquer coisa que fortalece nervos, cérebro, digestão, pulmões, músculos, e nos faz mais aptos para a obra de Cristo, com tanto que não seja em si pecaminoso, é uma bênção, e deve ser agradecidamente utilizada. Qualquer coisa que ocasionalmente divergirá nossos pensamentos de seu estado normal de tensão de uma maneira saudável, é um bem e não um mal.

Mas é o excesso destas coisas inocentes que um verdadeiro cristão deve vigiar, se ele quer ser separado do mundo. Ele não deve dedicar todo o seu coração, alma, mente, força, e tempo a elas, como muitos fazem, se ele deseja servir a Cristo. Há centenas de coisas lícitas que são boas com moderação, porém más quando em excesso: um medicamento saudável em pequenas quantidades pode ser um completo veneno quando ingeridos em grandes doses. Da mesma forma isto é verdade também na questão de recreações. O uso delas é uma coisa, e o abuso delas é outra coisa. O cristão que as utiliza deve saber quando parar, e como dizer Pare! Basta! Elas interferem na sua comunhão com Deus? Elas ocupam muito dos seus pensamentos e da sua atenção? Elas têm um efeito secularizador em sua alma? Elas têm uma tendência de puxá-lo para a terra? Então que ele fique firme e tome cuidado. Tudo isto irá requerer coragem, auto negação, e firmeza. É uma linha de conduta que frequentemente trará sobre nós escárnio e desprezo daqueles que não sabem o que é moderação, e passam suas vidas fazendo triviais coisas sérias e sérias coisas triviais. Mas se nós temos intenção de sair do mundo, nós não devemos nos importar com isto. Nós devemos ser “temperados” mesmo em coisas lícitas, o que quer que os outros possam pensar de nós. Isto é separação bíblica genuína.

(f) Por último, mas não menos importante, aquele que deseja “sair do mundo, e ser separado” deve ser cuidadoso em como ele se permite ter amizades, intimidades, e relacionamentos próximos com pessoas seculares.

Nós não podemos evitar encontrar muitas pessoas não convertidas enquanto estivermos vivos. Nós não podemos evitar nos relacionarmos com eles, e fazer negócios com eles, a menos que “saíamos do mundo” (1Co 5:10). Tratá-los com o máximo de cortesia, bondade, e generosidade toda vez que os encontrarmos, é um dever com certeza. Mas conhecer é uma coisa, e amizade íntima é algo bem diferente. Procurar sua sociedade sem uma causa, escolher sua companhia, cultivar intimidade com eles, é muito perigoso para a alma. A natureza humana é não tão solida que nós podemos passar muito tempo com outras pessoas sem afetar nosso próprio caráter. O velho provérbio nunca falha: “Me digas com quem andas, que te direi quem és”.

As escrituras dizem expressamente, “Quem anda com os sábios será sábio; mas o companheiro dos tolos sofre aflição” (Pv 13:20). Se, então, um cristão, que deseja viver consistentemente, escolhe como seus amigos aqueles que não se importam com suas almas, ou com a Bíblia, Deus, Cristo, santidade, ou as consideram como de importância secundária me parece impossível para ele prosperar na sua fé. Ele descobrirá em breve que os caminhos deles não são os dele, nem os pensamentos deles como os seus, nem o gosto deles como o seu; e que, a menos que eles mudem, ele deverá desistir da intimidade com eles. Em resumo, deve haver separação. Claro que tal separação é dolorosa. Mas se nós temos que escolher entre a perda de um amigo e ferir nossas almas, não deve haver dúvida em nossas mentes. Se os amigos não andarão no caminho estreito conosco, nós não devemos andar no caminho largo para agradá-los. Mas entender claramente que tentar manter uma intimidade entre um convertido e um não convertido, se ambos são consistentes em seu modo de ser, é tentar algo impossível.

O princípio aqui estabelecido deve ser lembrado cuidadosamente por todos os solteiros na escolha de um marido ou esposa. Eu receio que isso é com frequência inteiramente esquecido. Muitos parecem pensar em tudo exceto na religião na escolha de parceiro para a vida, ou supor que isso virá de alguma forma em uma questão de tempo. Mesmo quando um cristão que ora, lê a Bíblia, teme a Deus, ama a Cristo, guarda o domingo, e casa com alguém que não tem qualquer interesse em uma religião séria, no que pode resultar senão feridas no cristão, ou uma imensa infelicidade? A saúde não é contagiosa, mas a doença é. Como uma regra geral nesses casos, o bom desce ao nível do mau, e não o mau sobe ao nível do bom. O assunto é delicado, e eu não me importo de me prolongar nele. Mas isto eu digo com confiança para cada solteiro cristão homem ou mulher – se você ama sua alma, se você não quer se cair e voltar para erro, se você não quer destruir sua própria paz e conforto pelo resto da vida, decida nunca se casar com qualquer pessoa que não seja um cristão minucioso, apesar de tudo o que essa decisão possa te custar. É melhor você morrer do que casar com um descrente. Permaneça nesta decisão, e não deixe ninguém te persuadir do contrário. Aparte-se desta decisão, e você verá que é quase impossível “sair e ser separado”. Você se verá com uma pedra de moinho redonda amarrada ao seu pescoço enquanto corre a corrida em direção ao céu, e se for salvo afinal será “como que pelo fogo” (1Co 3:15).

Eu ofereço esses seis conselhos genéricos para todos que desejam seguir o conselho de Paulo de sair do mundo e ser separado. Dando-os, eu não coloco ter a intenção de infalibilidade, mas acredito que eles merecem consideração e atenção. Eu não esqueço que o assunto é cheio de dificuldades, e que pontos de casos duvidosos estão continuamente se levantando na caminhada cristã, nos quais é muito difícil dizer qual é o caminho do dever, e como se comportar. Talvez os pequenos conselhos a seguir possam ser úteis. Em todos os casos duvidosos nós devemos primeiro orar por sabedoria e discernimento. Se a oração tem algum valor, deve ser especialmente valiosa quando desejamos fazer o certo, mas não vemos como. Em todos os casos duvidosos vamos frequentemente nos provar lembrando do olhar de Deus. Eu devo ir a tal lugar, ou fazer tal coisa, se eu realmente acredito que Deus está me vendo? Em todo os casos duvidosos não vamos jamais esquecer da segunda vinda de Cristo e do dia do julgamento. Eu gostaria de ser encontrado em tal lugar e com tal companhia, ou empregado em tal lugar e de tal maneira? Finalmente, em todos os casos duvidosos, devemos conhecer qual foi a conduta dos melhores e mais santos cristãos sob circunstâncias similares. Se nós não vemos claramente nosso próprio caminho, nós não precisamos ter vergonha de seguir bons exemplos. Eu lanço todas estas sugestões para o uso de todos que estão em dificuldades sobre ponto discutíveis na questão de separação do mundo. Eu não posso evitar pensar que eles podem ajudar a desatar muitos nós, e resolver muitos problemas.

IV Eu concluirei agora todo o assunto tentando mostrar os segredos de uma real vitória sobre o mundo.

Sair do mundo é claro que não é uma coisa fácil. Não pode ser fácil porquanto a natureza humana é o que é, e um demônio ocupado está sempre perto de nós. Isso requer uma constante luta e esforço; implica em um conflito incessante e auto negação; frequentemente nos coloca exatamente em uma posição contrária aos membros de nossas próprias famílias, relacionamentos e vizinhos; às vezes nos obriga a fazer coisas que são uma grande ofensa para eles, e traz sobre nós escárnio e perseguição mesquinha. É precisamente isto que faz com que muitos se encolham e mantenham uma distância da religião escolhida. Eles sabem que não estão certos, eles sabem que não são tão “cuidadosos” no serviço a Cristo como eles deveriam ser, e eles ficam desconfortáveis e preocupados. Mas o medo do homem os seguram. Eles passam boa parte da vida com dores, corações desgostosos – com religião demais para ser feliz no mundo, e com muito do mundo para ser feliz em sua religião. Eu temo que este é um caso muito comum, se a verdade fosse revelada.

Ainda assim há alguns em cada idade da vida que parecem conseguir a vitória sobre o mundo. Eles saem decididamente de seus caminhos, e são inconfundivelmente separados. Eles são independentes em suas opiniões, e inabaláveis por sua oposição. Eles seguem em frente como planetas em uma órbita própria, e parecem se elevar igualmente acima dos sorrisos ou das carrancas do mundo. E quais são os segredos da vitória deles? Eu os registrarei abaixo.

(a) O primeiro segredo da vitória sobre o mundo é um coração correto. Por isto eu quero dizer um coração renovado, mudado, e santificado pelo Espírito Santo – a um coração em que Cristo habita, um coração em que as velhas coisas se passaram, e eis que tudo se fez novo. A grande marca de tal coração é o viés de seus gostos e suas afeições. O proprietário de tal coração não gosta mais do mundo, e das coisas do mundo, e portanto não vê nisso dificuldade ou sacrifício para desistir delas. Ele não tem mais apetite pela companhia, conversação, entretenimentos, ocupações e livros que uma vez ele amou, e “sair” deles parece natural para ele. Definitivamente é o poder expulsivo do novo princípio! Assim como na nova primavera botões em uma cerca viva de faias empurram as folhas velhas, e fazem elas caírem suavemente até o chão, assim o novo coração de um crente invariavelmente afeta seus gostos e preferências, e faz com que ele pare com muitas coisas que uma vez amou e nelas viveu, porque ele agora não gosta mais delas. Deixe aquele que que “sair do mundo, e ser separado” ter a certeza que primeira e principalmente ele tem um novo coração. Se o coração é realmente correto, tudo mais ficará bem na hora certa. “Se os teus olhos forem bons, todo teu corpo terá luz” (Mt 5:22). Se as afeições não são direitas, nunca haverá ação direitas.

(b) O segundo segredo da vitória sobre o mundo é uma fé vívida e prática naquilo que não se vê. Diz as Escrituras: “e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5:4). Para alcançar e manter o hábito de olhar firmemente para as coisas invisíveis como se elas fosse visíveis; colocar ante nossas mentes a cada dia, como grandes realidades, nossas almas, Deus, Cristo, céu, inferno, julgamento, eternidade; para acalentar um convicção permanente de que o que nós não vemos é tão real quanto aquilo que vemos, e dez mil vezes mais importantes, este segredo é o único caminho para sermos conquistadores sobre o mundo. Esta foi a fé que fez com que o exército nobre de santos descritos no capítulo onze de Hebreus obtivesse tal glorioso testemunho do Espírito Santo. Todos eles agiram sob a firme convicção que eles tinham um Deus real, um Salvador real, e um lar real no céu, embora não vistos por olhos mortais. Armado com esta fé um homem considera este mundo como uma sombra do mundo por vir, e importa-se pouco com seu elogio ou censura, sua hostilidade ou suas recompensas. Deixe que aquele que quer sair do mundo e ser separado, mas se encolhe e não avança por medo das coisas visíveis, ore e lute para ter esta fé. “Tudo é possível ao que crê” (Mc 9:23). Como Moisés, ele verá que é possível abandonar o Egito, vendo Aquele que é invisível. Como Moisés, ele não se importará com o que perde e com quem está descontente, porque ele vê mais adiante, como alguém olhando através de um telescópio para uma recompensa (Hebreus 1:26).

(c) O terceiro e último segredo da vitória sobre o mundo é alcançar e cultivar o hábito deaudaciosamente confessar Cristo em todas as situações apropriadas. Dizendo isto eu não estaria equivocado. Eu não quero que ninguém toque trombeta diante dele, e empurre sua fé sobre os outros o tempo inteiro. Mas eu desejo encorajar a todos que lutem para sair do mundo e mostrar suas cores, agir e opinar abertamente como homens que não tem vergonha de servir a Cristo. Uma firme e tranquila afirmação de nossos próprios princípios como cristãos – uma habitual prontidão para deixar as crianças do mundo verem que nós somos guiados por regras diferentes das que eles são, e isto não quer dizer desviar deles – uma calma, firme e cortês manutenção de nosso padrão das coisas em cada companhia – tudo isto imperceptivelmente formará um hábito dentro de nós, e tornará relativamente fácil ser um homem separado. Será difícil a princípio, sem dúvida, e nos custará muitas lutas; mas quanto mais continuamos, mais fácil será. Atos repetidos de confessar a Cristo produzirão hábitos. Hábitos uma vez formados produzirão um caráter firme. Nossos caráteres uma vez conhecidos, nos salvarão de muitos problemas. Os homens saberão o que esperar de nós, e não acharão algo estranho se eles nos virem vivendo a vida de um povo separado e singular. Aquele que agarra a urtiga mais firmemente sempre ficará menos machucado do que o homem que a toca com uma mão trêmula. É algo fabuloso ser capaz de dizer “Não” decididamente, mas de uma forma cortez, quando solicitado para fazer algo que a consciência diz que é errado. Aquele que mostra suas cores audaciosamente desde o princípio, e nunca se envergonha de deixar os homens verem “de quem ele é e a quem ele serve”, em breve verá que tem vencido o mundo, e será deixado sozinho. Uma confissão audaciosa é um grande passo em direção a vitória.

Apenas me resta concluir todo o assunto com algumas poucas palavras de aplicação. O perigo do mundo destruir a alma, a natureza da verdadeira separação do mundo, os segredos da sobre o mundo, estão todos diante do leitor deste tratado. Eu peço agora para me dar sua atenção pela última vez, enquanto eu tento dizer algo diretamente para seu benefício pessoal.

(1) Minha primeira palavra será uma pergunta. Leitor, você está vencendo o mundo, ou você está sendo vencido por ele? Você sabe o que é sair do mundo e ser separado, ou você ainda está embaraçado por ele, e se conforma com ele? Se você tem qualquer desejo de ser salvo, eu rogo que você responda esta pergunta.

Se você não sabe nada sobre essa “separação” eu quero avisá-lo afetuosamente que sua alma está em grande perigo. O mundo passa, e aqueles que se apegam ao mundo, e pensam apenas no mundo, passarão com ele para uma ruína eterna. Desperte para saber que o perigo que você corre antes que seja tarde demais. Desperte e fuja da ira por vir. O tempo é curto. O fim de todas as coisas está às portas. As sombras estão se alongando. O sol está se pondo. A noite vem quando nenhum homem pode trabalhar. O grande trono branco breve será estabelecido. O julgamento começará. Os livros serão abertos. Desperte e saia do mundo enquanto é dia.

Ainda um pouco, e não haverá mais ocupações seculares e entretenimentos seculares – sem mais ganhar dinheiro ou gastar dinheiro – sem mais comer, beber, festejar, vestir, bolas rolando, teatros, corridas, cartas, apostas. Leitor, o que você fará quando estas coisas tiverem passado para sempre? Como você poderá ser feliz em um céu eterno, onde santidade é tudo em tudo, e a secularidade não tem lugar? Oh, considere estas coisas, e seja sábio! Desperte, e quebre as correntes que o mundo lançou ao seu redor. Desperte e fuja da ira por vir.

(2) Minha segunda palavra será um conselho. Leitor, se você quer sair do mundo, mas não sabe o que fazer, aceite este conselho que eu lhe dou neste dia. Comece pedindo isso diretamente, como um pecador arrependido, para o nosso Senhor Jesus Cristo, e coloque o seu caso em suas mão. Derrame seu coração diante Dele. Conte a Ele toda sua história, e não esconda nada. Conte a Ele que você é um pecador querendo ser salvo do mundo, da carne, do diabo, e rogue a Ele para lhe salvar.

Este abençoado Salvador “deu a si mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau” (Gl 1:4). Ele sabe o que o mundo é, porque ele viveu nele por trinta e três anos. Ele conhece quais são as dificuldades de um homem, porque Ele foi feito homem por nossa causa, e habitou entre homens. Exaltado no céu, à destra de Deus, Ele é capaz de salvar a absolutamente todos aqueles que vem a Deus por Ele – capaz de nos guardar do mal do mundo enquanto ainda nós estamos vivendo nele – capaz de nos fazer mais que vencedores. Leitor, mais uma vez eu digo, vá direto para Cristo com a oração da fé, e coloque-se inteiramente e sem reservas em Suas mãos. Por mais difícil que possa parecer a você agora sair do mundo e ser separado, você verá que com Jesus nada é impossível. E você, até mesmo você, vencerá o mundo.

(3) Minha terceira e última palavra será de encorajamento. Leitor, se você aprendeu por experiência o que é sair do mundo, eu posso apenas dizer a você que conforte-se e persevere. Você está no caminho certo, você não tem razão para temer. As colinas eternas estão à vista. Sua salvação está mais próxima do que quando você creu. Conforte-se e continue.

Sem dúvida você tem tido muitas batalhas, e dado muitos passos em falso. Você algumas vezes se sentiu pronto a desmaiar, e com isto disposto a voltar para o Egito. Mas seu Mestre nunca deixou você inteiramente, e Ele nunca deixará você ser tentado acima daquilo que você é capaz de lidar. Então persevere firmemente em sua separação do mundo, e nunca se envergonhe de se opor sozinho. Estabeleça isso firmemente em sua mente, que os cristãos mais decididos são os mais felizes, e lembre-se que ninguém jamais disse no fim da sua caminhada que foi santo demais, e que viveu perto demais de Deus.

Ouça, por último de tudo o que está escritos nas Escrituras da verdade:

“E digo-vos que todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus” (Lc 12:8).

“Ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho, que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no mundo vindouro a vida eterna.” (Mc 10:29-30).

“Não lanceis fora, pois, a vossa confiança, que tem uma grande recompensa. Porque necessitais de perseverança, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa. Pois ainda em bem pouco tempo aquele que há de vir virá, e não tardará.” (Hb 10:35-37)

Leitor cristão, estas palavras foram escritas e faladas para o seu bem. Lance mão delas, e nunca as esqueça. Persevere até o fim, e nunca se envergonhe de sair do mundo, e ser separado. Esteja certo que isto trará sua própria recompensa.
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Por J. C. Ryle
Fonte: Projeto Ryle
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