domingo, 13 de abril de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 3 [03/08]


Que Faz Deus o Autor do Pecado

1. O Problema do Mal. 2. Situações nas Quais O Pecado Foi Sobrepujado pelo Bem. 3. A Queda de Adão Estava Incluída no Plano Divino. 4. O Resultado da Queda de Adão. 5. As Forças do Mal Estão Sob o Perfeito Controle de Deus. 6. Ações Pecaminosas Somente Ocorrem Pela Permissão Divina. 7. Provas nas Escrituras Sagradas. 8. Comentários de Smith e Hodge. 9. A Graça de Deus É Mais Profundamente Apreciada Após a Pessoa Ter sido Vítima do Pecado. 10. O Calvinismo Oferece Solução Mais Satisfatória Para O Problema Do Mal, Do Que Qualquer Outro Sistema Teológico.

1. O PROBLEMA DO MAL

A objeção pode aparecer, que se Deus pré ordenou inteiramente o curso de eventos neste mundo, Ele deve ser o Autor do Pecado. Para começar, nós prontamente admitimos que a existência de pecado num universo que está sob o controle de um Deus que é infinito na Sua sabedoria, no Seu poder, na Sua santidade e na Sua justiça, é um mistério inescrutável que no nosso estado presente de conhecimento não podemos explicar a contento. Todavia, nós somente vemos através de lentes obscurecidas. O pecado não pode nunca ser explicado no terreno da lógica ou da razão, pois é essencialmente ilógico e irracional. O simples fato de o pecado existir, tem sido freqüentemente levantado por ateístas e cépticos, como um argumento não simplesmente contra o Calvinismo, mas contra o teísmo em geral.

Os padrões de Westminster, no tratamento do aterrador mistério do mal, são muito cuidadosos em guardar o caráter de Deus até mesmo da sugestão do mal. O pecado é referido à liberdade que é dada ao agente, e de todos atos pecaminosos, quaisquer que sejam, eles enfaticamente afirmam que "a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado nem pode aprová-lo."(Capítulo V, seção IV. Referências na Bíblia: Isa. 45:7; Rom. 11:32-34; At. 4:27-28; Sal. 76:10; II Reis 19:28; At.14:16; Gen. 50:20; Isa. 10:12; I João 2:16; Sal. 50:21; Tiago 1:17.).

E enquanto não é para nós o explicar como Deus nos Seus conselhos secretos rege e sobrepuja os atos pecaminosos dos homens, é para nós o saber que o que quer que seja que Deus faça, Ele nunca se desvia da Sua própria e perfeita justiça. Em todas as manifestações do Seu caráter, ele Se mostra preeminentemente O Sagrado. Estas obras profundas de Deus são mistérios que são para serem adorados, e não questionados; e não fosse pelo fato de que algumas pessoas persistem em declarar que a doutrina da Predestinação faz Deus o autor do pecado, poderíamos dar o assunto por encerrado.

Uma explicação parcial do pecado pode ser encontrada no fato de que enquanto o homem é constantemente comandado, exortado pelas Escrituras Sagradas a não cometer, a ele é, não obstante, permitido cometer, caso seja esta a sua escolha. Nenhuma compulsão é impingida ao indivíduo; ele simplesmente é deixado para exercitar livremente a sua natureza, e somente ele é responsável. Isto, contudo, nunca é uma permissão vazia, pois com o completo conhecimento da natureza do indivíduo e da sua tendência para pecar, Deus permite-lhe ou permite que ele encontre-se num certo ambiente, sabendo perfeitamente bem que um pecado específico será cometido. Mas enquanto Deus permite o pecado, a sua conexão com o mesmo é puramente negativa e de fato o pecado é coisa abominável, que Ele odeia com intensa animosidade. O motivo que Deus tem para permiti-lo e o motivo que o homem tem para comete-lo são radicalmente diferentes. Muitas pessoas são iludidas nestes aspectos por falharem em considerar que Deus quer e deseja, de maneira justa e reta, aquelas coisas que os homens fazem de maneira perversa. Ademais, a consciência de cada indivíduo, após ele haver pecado, lhe diz que ele e somente ele é responsável e que ele não precisava haver cometido tal pecado se ele não houvesse voluntariamente decidido, escolhido assim fazer.

Os Reformadores reconheceram o fato de que o pecado, tanto na sua entrada no mundo como em todas subsequentes aparições, estava envolvido no plano divino; que a explicação para a sua existência, tanto quanto qualquer explicação pudesse ser dada, seria encontrada no fato de que o pecado se encontrava completamente sob o controle de Deus; e que seria sobrepujado por uma manifestação mais alta da Sua glória. Podemos descansar certos de que Deus nunca teria permitido que o pecado entrasse no mundo, a menos que, através da Sua providência soberana e secreta, Ele fosse capaz de exercer uma influência direta nas mentes dos ímpios, de modo que o bem seja o resultado do mal que intentaram. Ele opera não somente todas as afeições santas e boas, que são encontradas nos corações do Seu povo, mas Ele também controla perfeitamente todas as afeições ímpias e depravadas dos perversos, e as transforma como Lhe apraz, de modo que eles tenham o desejo de concretizar aquilo que Ele tenha planejado ser concretizado por intermédio deles. Os perversos muitas vezes vangloriam-se com a concretização dos seus propósitos; mas como Calvino disse, "o acontecimento, com o passar do tempo prova que eles somente estavam cumprindo e concretizando o que já havia sido ordenado por Deus, e que também, contra a sua própria vontade, enquanto eles de nada sabiam." Mas enquanto Deus sobrepuja as afeições depravadas de homens para o cumprimento dos Seus próprios propósitos, Ele não obstante os pune pelo seu pecado e faz com que eles sejam condenados pelas suas próprias consciências.

"Um governante pode proibir traição; mas o seu comando não o obriga a fazer tudo o que esteja em seu poder para prevenir que aquela proibição seja desobedecida. Ser traído pode resultar em bem para o seu reino, e o traidor ser punido conforme a lei. Que à vista deste bem resultante ele escolha não prevenir a traição, não implica em nenhuma contradição ou oposição " 1

Com relação ao problema do mal, o Dr. A. H. Strong adianta as seguintes considerações: "(1) Que a liberdade de escolha é necessária à virtude; (2) que Deus sofre com o pecado, mais que o pecador; (3) que, com a permissão do pecado, Deus proveu a redenção; e, (4) que Deus, eventualmente sobrepujará todo o mal com o bem." E então ele acrescenta, "É possível que os anjos eleitos pertençam a um sistema moral no qual o pecado seja evitado por motivos inibidores. Não podemos negar que Deus preveniria o pecado num sistema moral. Mas é muito duvidoso se Deus poderia prevenir o pecado no melhor sistema moral. A mais perfeita liberdade é indispensável para que a mais alta virtude seja alcançada." 2 Fairbairn nos deu alguns bons pensamentos no seguinte parágrafo: "Mas por que Deus criou um ser capaz de pecar? Somente se ele pudesse criar um ser capaz de obedecer. A capacidade de fazer o bem implica na capacidade de fazer o mal. Um motor não é capaz de obedecer ou de desobedecer; e a criatura que estivesse sem esta capacidade dupla poderia ser uma máquina, mas não poderia ser uma criança. Perfeição moral pode ser alcançada, mas não pode ser criada; deus pode fazer um ser capaz de performar ações morais, mas não um ser com todos os frutos de ação moral armazenados dentro de si."

2. SITUAÇÕES NAS QUAIS O PECADO FOI SOBREPUJADO PELO BEM

Em toda a Bíblia nós encontramos numerosas situações nas quais atos pecaminosos foram permitidos e então sobrepujados pelo bem. Vejamos primeiramente alguns exemplos no Velho Testamento. O fato de Jacó haver enganado ao seu pai, velho e cego, embora sendo um ato pecaminoso em si mesmo, foi permitido e usado como um elo na cadeia de eventos através dos quais o plano de Deus, já anteriormente revelado fosse executado, de que o mais velho serviria ao mais moço. Ao Faraó e aos Egípcios foi permitido escravizar e usar os Israelitas, sendo que pelos seus atos as maravilhas de Deus fossem multiplicadas na terra do Egito (veja em Êxodo 11:9 = "Pois o Senhor dissera a Moisés: Faraó não vos ouvirá, para que as minhas maravilhas se multipliquem na terra do Egito."), que estas coisas pudessem ser contadas às gerações futuras [veja em Êxodo 10:1, 2 = "(1) Depois disse o Senhor a Moisés: vai a Faraó; porque tenho endurecido o seu coração, e o coração de seus servos, para manifestar estes meus sinais no meio deles, (2) e para que contes aos teus filhos, e aos filhos de teus filhos, as coisas que fiz no Egito, e os meus sinais que operei entre eles; para que vós saibais que eu sou o Senhor."], e que a Sua glória pudesse ser declarada em toda a terra (veja em Êxodo 9:16 = "mas, na verdade, para isso te hei mantido com vida, para te mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra."). A maldição que Balaão tentou proferir sobre os Israelitas foi transformada em bênção (veja em Números 24:10 = "Pelo que a ira de Balaque se acendeu contra Balaão, e batendo ele as palmas, disse a Balaão: Para amaldiçoares os meus inimigos é que te chamei; e eis que já três vezes os abençoaste." veja também em Neemias 13:2 = "porquanto não tinham saído ao encontro dos filhos de Israel com pão e água, mas contra eles assalariaram Balaão para os amaldiçoar; contudo o nosso Deus converteu a maldição em benção."). O rei da Assíria, ateu e orgulhoso, inconscientemente tornou-se o servo de Jeová, ao executar vingança sobre o povo apóstata: "(5) Ai da Assíria, a vara da minha ira, porque a minha indignação é como bordão nas suas mãos. (6) Eu a envio contra uma nação ímpia; e contra o povo do meu furor lhe dou ordem, para tomar o despojo, para arrebatar a presa, e para os pisar aos pés, como a lama das ruas. (7) Todavia ela não entende assim, nem o seu coração assim o imagina; antes no seu coração intenta destruir e desarraigar não poucas nações. (8) Pois diz: Não são meus príncipes todos eles reis? (9) Não é Calnó como Carquêmis? não é Hamate como Arpade? e Samária como Damasco? (10) Do mesmo modo que a minha mão alcançou os reinos dos ídolos, ainda que as suas imagens esculpidas eram melhores do que as de Jerusalém e de Samária. (11) como fiz a Samária e aos seus ídolos, não o farei igualmente a Jerusalém e aos seus ídolos? (12) Por isso acontecerá que, havendo o Senhor acabado toda a sua obra no monte Sião e em Jerusalém, então castigará o rei da Assíria pela arrogância do seu coração e a pomba da altivez dos seus olhos. (13) Porquanto diz ele: Com a força da minha mão o fiz, e com a minha sabedoria, porque sou entendido; eu removi os limites dos povos, e roubei os seus tesouros, e como valente abati os que se sentavam sobre tronos. (14) E achou a minha mão as riquezas dos povos como a um ninho; e como se ajuntam os ovos abandonados, assim eu ajuntei toda a terra; e não houve quem movesse a asa, ou abrisse a boca, ou chilreasse. (15) Porventura gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele? ou se engrandecerá a serra contra o que a maneja? como se a vara movesse o que a levanta, ou o bordão levantasse aquele que não é pau!"[Isaías 10:5-15]. As calamidades que vieram sobre Jó, quando vistas do ponto de vista humano, parecem serem apenas falta de sorte, acidentes, acontecimentos ao acaso. Mas com um pouquinho mais de entendimento vemos Deus por trás de tudo, exercendo o controle completo, dando permissão ao Diabo para afligir Jó até determinado ponto, não mais, designando os eventos para o desenvolvimento da paciência e do caráter de Jó; e usando mesmo a destruição aparentemente sem significado provocada pela tempestade para atingir os seus altos propósitos de amor.

No Novo Testamento encontramos o mesmo ensinamento. A morte de Lázaro, quando analisada do ponto de vista de Marta, de Maria e daqueles que vieram pranteá-lo, foi uma infelicidade muito grande; mas quando analisada do ponto de vista divino, não foi "...para a morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela."[João 11:4]. A maneira pela qual Pedro morreu (que aparentemente foi por crucificação), foi para glorificar a Deus (veja em João 21;19 = "Ora, isto ele disse, significando com que morte havia Pedro de glorificar a Deus. E, havendo dito isto, ordenou-lhe: Segue-me."). Quando Jesus cruzou o mar da Galiléia com os Seus discípulos Ele poderia ter evitado a tempestade e providenciado a eles uma travessia agradável, mas se assim acontecesse, não teria sido muito para a Sua glória e para a confirmação da fé dos Seus discípulos, como o foi o seu salvamento. Paulo, nas suas severas reprimendas, fez os Coríntios contristados para o arrependimento, segundo Deus [veja em II Coríntios 7:9, 10 = "(9) agora folgo, não porque fostes contristados, mas porque o fostes para o arrependimento; pois segundo Deus fostes contristados, para que por nós não sofrêsseis dano em coisa alguma. (10) Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, o qual não traz pesar; mas a tristeza do mundo opera a morte."]. O Senhor, muitas vezes, entrega uma pessoa temporariamente a Satã, de modo que seus sofrimentos físicos e mentais possam reagir para a sua salvação, (veja em I Coríntios 5:5 = "seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus."). Paulo, falando das adversidades que ele próprio sofria, disse "E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho."[Filipenses 1:12]. Quando ele viu que o seu "espinho na carne" era algo que lhe havia sido divinamente enviado, "um mensageiro de Satanás para esbofeteá-lo", de modo que ele "não se exaltasse demais", ele aceitou-o com as palavras, "Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco, então é que sou forte."[II Coríntios 12:7-10]. Naquela ocasião, Deus fez do veneno do monstro mais cruel e pecador de todos os tempos, um antídoto para curar o orgulho do apóstolo.

Até certa altura, podemos dizer que a razão para a permissão do pecado é que, "...onde o pecado abundou, superabundou a graça."[Romanos 5:20]. Tal graça profunda e imensurável nunca poderia ter sido mostrada se o pecado tivesse sido excluído.

Na verdade, nós ganhamos mais através da salvação em Cristo do que perdemos pela queda em Adão. Quando Cristo encarnou, foi como se a natureza humana fosse colocada no próprio colo da Deidade, e os redimidos alcançam uma posição muito mais exaltada através da união com Cristo do que Adão poderia ter atingido, não tivesse ele caído e fosse admitido no céu.

Esta verdade geral foi expressada por Calvino nas seguintes palavras: Mas, Deus, quem uma vez comandou que houvesse luz das trevas, pode maravilhosamente trazer, se Lhe aprouver, a salvação do próprio inferno, e assim transformar as próprias trevas em luz. Mas o que Satã operou? Num determinado sentido, operou a obra de Deus! Ou seja, Deus, ao manter Satã contido em obediência à Sua Providência, vira-o para qualquer lugar que seja da Sua vontade, e assim utiliza as tentativas e artimanhas do grande inimigo para o cumprimento dos Seus próprios princípios eternos." 3

Mesmo as perseguições que são permitidas advir sobre os justos são designadas para bons propósitos. Paulo declara que "...a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós cada vez mais abundantemente um eterno peso de glória."[II Coríntios 4:17]. Sofrer com Cristo é estar mais intimamente unido a Ele, e grande recompensa no céu está prometida àqueles que sofrem por causa dEle [veja em Mateus 5:10-12 = "(10) Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. (11) Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. (12) Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós."]. Aos Filipenses foi escrito, "pois vos foi concedido, por amor de Cristo, não somente o crer nele, mas também o padecer por ele,"[Filipenses 1:29]; e lemos que depois de os apóstolos haverem sido publicamente açoitados, eles "Retiraram-se pois da presença do sinédrio, regozijando-se de terem sido julgados dignos de sofrer afronta pelo nome de Jesus."[Atos 5:41]. O escritor do livro de Hebreus declarou esta mesma verdade ao escrever, "Na verdade, nenhuma correção parece no momento ser motivo de gozo, porém de tristeza; mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos que por ele têm sido exercitados."[Hebreus 12:11].

"As ações dos perversos na perseguição da Igreja primitiva," diz o Dr. Charles Hodge, "foram ordenados de Deus como os meios para uma mais ampla e mais rápida proclamação do Evangelho. Os sofrimentos dos mártires foram os meios não somente para a extensão, mas para a purificação da Igreja. A apostasia do homem pecador sendo predita, foi predeterminada. A destruição dos Huguenotes na França, a perseguição dos Puritanos na Inglaterra, estabeleceram a fundação para o plantio na América do Norte com uma raça de homens de Deus enérgicos, os quais viveram para fazer desta terra a terra de refúgio para as nações, o lar da liberdade, civil e religiosa. Se o povo de Deus fosse persuadido de que Deus não pré ordena tudo o que vem a acontecer, isto destruiria a sua confiança nEle. É porque o Senhor reina, e faz o que Lhe apraz no céu e na terra, que eles repousam tranquila e despreocupadamente em perfeita segurança sob a Sua direção e proteção." 4

Muitos dos atributos divinos foram demonstrados através da criação e governo do mundo, mais o atributo de justiça somente poderia ser mostrado a criaturas merecedoras de punição, e o atributo de graça e misericórdia poderia ser mostrado somente a criaturas na miséria. Até a queda do homem no pecado, e sua redenção dali, estes atributos, tanto quanto podemos aprender, não haviam sido mostrados nem exercidos, e consequentemente eram desconhecidos para quem quer que fosse, exceto ao Próprio Deus, desde toda a eternidade. Não tivesse o pecado sido admitido na criação, estes atributos teriam permanecido enterrados numa noite eterna. E o universo, sem o conhecimento desses atributos, seria tal como a terra sem a luz do sol. O pecado então, é permitido de maneira que a misericórdia de Deus possa ser mostrada no seu perdão; e que a Sua justiça possa ser mostrada nos seus castigos. A entrada do pecado é o resultado de um desígnio estabelecido por Deus, o qual Ele formou na eternidade, e através do qual ele objetivou revelar-Se a Si mesmo para as Suas criaturas racionais tão formado e completo, em todas perfeições concebíveis.

3. A QUEDA DE ADÃO ESTAVA INCLUÍDA NO PLANO DIVINO.

Mesmo a queda de Adão, e através dele a queda da raça humana, não ocorreu por acidente ou acaso, mas foi sim ordenada nos secretos conselhos de Deus. A nós é dito que Cristo "...na verdade, foi conhecido (como sacrifício pelo pecado) ainda antes da fundação do mundo, mas manifesto no fim dos tempos por amor de vós."[I Pedro 1:20]. Paulo fala do "o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor,"[Efésios 3:11]. O escritor do livro de Hebreus refere-se ao "sangue do pacto eterno"[13:20]. E uma vez que o plano de redenção é assim rastreado até a eternidade, o plano de permitir que o homem caísse em pecado do qual ele seria então redimido deve também estender-se de volta até a eternidade; caso contrário não haveria ocasião para redenção. Na verdade o plano para o curso completo dos eventos do mundo, incluindo a queda, a redenção, e todos os demais eventos, estava perante Deus na sua totalidade, antes que Ele tivesse ao menos trazido a criação à existência; e Ele deliberadamente ordenou que esta série de eventos, e não outras séries, se tornassem reais.

E a menos que a queda estivesse no plano de Deus, em que se transformaria a nossa redenção através de Cristo? Será que foi somente um 're arranjo' que Deus providenciou de maneira a obscurecer a rebelião do homem? Perguntar tal questão é respondê-la. Em toda a Bíblia a redenção é representada como o propósito livre e gracioso de Deus desde a eternidade. Na mesma hora do primeiro pecado do homem, Deus interveio soberanamente com uma promessa gratuita de resgate. Enquanto a glória de Deus é mostrada em toda a esfera da criação, ela foi especificamente mostrada na obra da redenção. A queda do homem, portanto, foi somente uma parte - e uma parte necessária - do plano; e mesmo Watson, embora um Arminiano decidido, diz, "A redenção do homem por Cristo certamente não foi uma idéia que ocorreu depois da apostasia do homem; foi uma provisão, e quando o homem caiu ele encontrou a justiça, de mãos dadas com a misericórdia." 5 Das ruínas da queda, Deus fez uma nova criação espiritual, muito mais gloriosa do que a primeira.

O Arminianismo consistente, contudo, pinta Deus como se fosse um ídolo, espectador inativo sentado, em dúvida, enquanto Adão caía; e bem surpreendido e frustrado pela criatura das Suas mãos. Em contraste com isto, nós sustentamos que Deus tanto pré planejou como anteviu a queda; que a mesma de forma nenhuma veio-Lhe como uma surpresa; e que depois de haver acontecido Ele não se sentiu como se tivesse cometido um erro ao criar o homem. Tivesse Ele assim desejado, Ele poderia ter evitado a entrada de Satã no jardim e teria preservado Adão num estado de santidade, como Ele fez com os anjos santos. O simples fato de que Deus anteviu a queda é prova suficiente de que Ele não esperava que o homem O glorificasse por continuar num estado de santidade.

Todavia, Deus de forma alguma compeliu o homem a cair. Ele simplesmente reprimiu aquela imerecida graça constrangedora, com a qual Adão infalivelmente não teria caído, graça esta que Ele não tinha nenhuma obrigação de conceder. Com relação a si próprio, Adão poderia ter prevalecido, tivesse ele assim escolhido; mas com relação a Deus, era certo de que ele cairia. Ele agiu tão livremente como se não houvesse nenhum decreto, e mesmo assim tal infalivelmente quanto se não houvesse nenhuma liberdade. Os Judeus, tanto quanto dizia respeito à sua própria liberdade, poderiam ter quebrado os ossos de Cristo; contudo na realidade não era-lhes possível fazê-lo, pois estava escrito que, "Preserva-lhe todos os ossos, nem um deles sequer será quebrado."[Salmo 34:20] e: "E isto aconteceu para se cumprir a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado."[João 19:36]. O decreto de Deus não tira a liberdade do homem; e na queda, Adão exercitou livremente as emoções naturais da sua própria vontade.

A razão para a queda está assinalada em que "...Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos."[Romanos 11:32]; e novamente, "...já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós, e sim no Deus que ressuscita os mortos;"[II Coríntios 1:9]; e seria difícil encontrar uma linguagem que demonstrasse o controle Divino e a iniciativa Divina mais explicitamente que isto. Por sábias razões, Deus satisfez-Se ao permitir que nossos primeiros pais fossem tentados e caíssem; e então em sobrepujar o seu pecado com a Sua própria glória. Todavia aquela permissão e o sobrepujar o pecado não O fazem o autor do pecado. Parece que ele permitiu a queda de modo a mostrar o que o livre arbítrio faria; e então, por sobrepujá-lo, Ele mostrou o que podem fazer as bênçãos da Sua graça e os julgamentos da Sua justiça.

Pode muito bem ser justo, neste ponto, dizer algo mais sobre a natureza da queda. Adão teve a mais favorável oportunidade de assegurar a vida eterna e as bênçãos para si e para a sua posteridade. Ele foi criado santo e foi colocado num mundo livre de pecado. Ele estava cercado por toda a beleza do paraíso e lhe foi graciosamente dada permissão para comer de todas as frutas com exceção de uma, o que certamente não se tratava de uma restrição constrangedora. O Próprio Deus descia até o Jardim e fazia companhia para Adão. Numa linguagem inequivocamente clara, Adão foi alertado, foi avisado que se ele comesse da fruta ele certamente morreria. Ele foi então colocado frente a um puro teste de obediência, uma vez que o fato de comer da fruta não teria sido por si só moralmente certo ou moralmente errado. A obediência é aqui colocada como a virtude a qual, na criatura racional, é como fosse a mãe e a guardiã de todas as demais virtudes.

4. O RESULTADO DA QUEDA DE ADÃO.

Mas, apesar de todas as suas vantagens, Adão deliberadamente desobedeceu, e a sentença de morte imposta foi executada. Isto plenamente inclui mais que a dissolução do corpo. A palavra "morte" como usada nas Escrituras com referência aos efeitos do pecado inclui toda e qualquer forma de mal que é imposta quando da punição do pecado. Significa primariamente a morte espiritual, ou a separação de Deus, que é ambas, temporal e eterna -- uma perda do Seu favor, de todas as maneiras. Significou o oposto da recompensa prometida, a qual era a vida eterna e abençoada no Céu. Significou, portanto, as misérias eternas do inferno, junto com o gosto de tais misérias, os quais são sentidos nesta vida. A sua natureza pode ser parcialmente vista nos efeitos do pecado, que tem realmente caído sobre a raça humana. E finalmente, a natureza da morte que sobreveio a Adão e seus descendentes, pode ser vista em contraste com a vida a qual os redimidos têm com Cristo. Foi uma morte que resultou no pecado, ao invés de santidade, tornar-se o elemento natural do homem, de modo que agora, em sua natureza não regenerada, o Evangelho e todas as coisas santas lhe são repulsivos. Ele é tão completamente incapaz de compreender a redenção através da fé em Cristo, quanto um homem morto o é de ouvir os sons deste mundo. Que a morte sentenciada não era primariamente uma morte física é mostrado pelo fato de que Adão viveu ainda muitos anos após a queda, enquanto que espiritualmente ele foi imediatamente alienado de Deus e expulso do Paraíso. Neste estado caído, o homem é aterrorizado por qualquer aparição do sobrenatural. E mesmo com relação à morte física, que num sentido também foi imediatamente executada; pois embora nossos primeiros pais vivessem ainda muitos anos, eles imediatamente começaram a envelhecer. Desde a queda, a vida tem se tornado uma marcha incessante em direção ao túmulo. Charles Hodge diz: "No dia em que Adão comeu a fruta proibida ele morreu com efeito. O castigo imposto não foi uma imposição momentânea, mas uma sujeição permanente a todos os males os quais fluem do reto e justo desprazer de Deus." 6

Ademais, todo o mundo Cristão tem crido que na queda, Adão, como a cabeça natural e federal da raça humana, feriu não somente a si mesmo, mas a toda a sua posteridade, de modo que, como diz o Dr. Hodge, "em virtude da união, natural e federal, entre Adão e a sua posteridade, o seu pecado, embora não perpetrado pela sua descendência, é tão imputado a eles que é base judicial para a que a penalidade sentenciada contra ele também venha sobre eles . . . Imputar pecado, numa linguagem teológica e Bíblica, é imputar a culpa pelo pecado. E por culpa entende-se não a criminalidade, ou psicose, ou demérito, muito menos poluição moral, mas a obrigação judicial de satisfazer a justiça," 7 O seu pecado é debitado em sua conta. Mesmo os infantes, que não têm nenhum pecado pessoal próprio, sofrem dores e morte. Agora, as Escrituras uniformemente representam o sofrer e a morte como o salário do pecado. Seria injusto para Deus executar o castigo naqueles que não são culpados. Desde que a penalidade cai também sobre as crianças, eles devem ser culpados; e desde que eles não têm pessoalmente cometido nenhum pecado, eles devem ser culpados pelo pecado de Adão. Todos aqueles que tenham herdado a natureza humana de Adão estavam nele como a fruta no broto, e têm, como fosse, se desenvolvido e crescido uma pessoa com ele. Pela queda Adão foi completamente e absolutamente arruinado. Perdeu-se o estado original de retidão ou santidade no qual ele foi criado; e seu lugar foi tomado por um avassalador estado de pecado, o qual foi trazido à tona tão efetivamente quanto o furar os olhos de uma pessoa a envolve em escuridão perpétua. A maldição e a ira de Deus permaneceram sobre ele e ele foi possuído por um sentimento de culpa, de vergonha, de poluição, de degradação, um terror como castigo; e um desejo de fugir da presença de Deus.

Na verdade, há um paralelo entre a maneira na qual a culpa de Adão nos é imputada e a maneira na qual a retidão de Cristo nos é imputada, de forma que uma ilustra a outra. Nós fomos amaldiçoados através de Adão e fomos redimidos através de Cristo, embora é claro, não éramos mais pessoalmente culpados pelo pecado de Adão do que somos pessoalmente merecedores por causa da retidão de Cristo. É intimamente absurdo agarrarmo-nos à salvação através de Cristo, a menos que também nos agarremos à danação através de Adão, pois o Cristianismo está baseado neste princípio representativo. A menos que a raça humana tenha sido amaldiçoada através de Adão, não teria havido ocasião para Cristo havê-la redimido. A história da queda, gravada de forma tão profunda e ao mesmo tempo tão infantil no terceiro capítulo do livro do Gênesis, tem, portanto, uma significação universal. E somente o Calvinismo faz justiça à ideia de que a unidade orgânica da raça humana, e ao profundo paralelo traçado por Paulo entre o primeiro e o segundo Adão.

5. AS FORÇAS DO MAL ESTÃO SOB O PERFEITO CONTROLE DE DEUS.

Nós cremos que Deus realmente governa sobre os assuntos dos homens, que os Seus decretos são absolutos, e que os mesmos incluem todos eventos. Consequentemente, cremos que todas as nações e todos indivíduos são predestinados para todas e cada espécie de bem e de mal que lhes acontece. Quando obtemos a visão mais ampla, vemos que mesmo os atos pecaminosos dos homens têm o seu lugar no plano divino, e que é somente por causa da nossa natureza imperfeita e finita, a qual não compreende todas as relações e conexões, que estes atos parecem ser contrários àquele plano. Para ilustrar isto; quando vemos a fita perfurada de música sendo passada através da leitora numa pianola, nós prontamente entendemos como ela funciona; mas se encontrássemos o mesmo papel separadamente da pianola e nunca a tivéssemos visto sendo usada, nós poderíamos também prontamente concluir que tratava-se simplesmente de papel de embrulho, e um tipo de papel de embrulho bastante pobre, já que estava cheio de furos. Todavia, quando colocado em seu lugar apropriado, este papel produz a música mais bela. A menos que realmente creiamos que Deus ordenou o curso inteiro de eventos, e que são bons os cursos que ele preparou para as nossa vidas individuais, é certo nos desencorajarmos em tempos de adversidade. Como Jacó, de idade, que à face dos aparentes infortúnios imediatamente antes de encontrar-se com o seu filho favorito, José, concluiu, "Todas estas coisas estão contra mim," nós podemos tornarmo-nos desencorajados quando talvez naquele exato momento o Senhor esteja preparando grandes coisas para nós.

A doutrina das Escrituras, como já anteriormente apresentada, é que Deus restringe o pecado dentro de certos limites, que Ele traz o bem como resultados do mal intencionado, e sobrepuja o mal com a Sua própria glória. Desde que Deus é infinito em poder e sabedoria, o pecado não poderia existir senão com a Sua permissão. Deus era livre para criar, ou não criar; para criar esta forma particular de mundo, ou uma outra inteiramente diferente. Todas as forças do mal estão sob o Seu absoluto controle e poderiam ser eliminadas da existência num instante, se Ele assim o desejasse. O assassino é mantido vivo e está em débito para com Deus, pela força para matar a sua vítima, bem como pela oportunidade. Quando Jesus disse a Satanás, "Cala-te e sai" (veja em Lucas 4:33), Satanás imediatamente se foi; e quando Jesus ordenou aos espíritos maus que se calassem e saíssem das pessoas por eles possuídas, eles obedeceram imediatamente. O salmista expressou a sua confiança no poder de Deus para derrotar os pecadores quando ao contemplar as suas obras ele escreveu, "Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles."[2:4]. Jó disse, "...seu é o que erra e o que faz errar."[12:16]; com o que ele quis dizer que ambos, tanto os homens bons quanto os maus estão sob o controle providencial de Deus.

A menos que o pecado aconteça de acordo com o propósito divino e com a permissão de Deus, ele ocorre ao acaso. O mal então torna-se um princípio independente e incontrolável; e a idéia pagã do dualismo é introduzida na teoria do universo. A doutrina de que há os poderes do pecado, rebelião, e trevas na própria natureza da liberdade, os quais podem provar serem uma derrota para a onipotência divina, põe em perigo até mesmo a segurança e a felicidade eternas dos santos na glória.

Lutero expressou sua crença com relação a esta questão nas seguintes palavras: "O que eu digo e pelo que eu luto é isto: -- que Deus, onde Ele opera sem a graça do Seu Espírito, opera tudo em tudo, mesmo nos que não têm Deus; e que Ele sozinho se move, age e concretiza pela moção da Sua onipotência, todas aquelas coisas 'que Ele sozinho criou, cuja movimentação daquelas coisas não pode ser mudada ou evitada, senão seguem e obedecem, cada uma de acordo com a medida de poder dada por Deus: -- assim todas as coisas, mesmo as que não têm Deus cooperam com Deus." 8 E Zanchius escreveu, "Nós deveríamos, portanto, termos cuidado para não desistir da onipotência de Deus sob uma pretensa exaltação da Sua santidade; pois Ele é infinito em ambas, de forma que nenhuma delas deveria ser posta de lado ou obscurecida. Dizer que Deus absolutamente anula o ser e a comissão do pecado, enquanto que a experiência nos convence de que o pecado acontece a cada dia, é representar a Deidade como um ser impotente, fraco, que gostaria que as coisas acontecessem de maneira diversa da que ocorrem, mas é incapaz de atingir o Seu intento." 9

Um dos melhores e mais recentes comentários é o de E. W. Smith no seu admirável livreto, 'O Credo dos Presbiterianos' : "Crêssemos nós, que algo tão forte e temível como o pecado, tivesse invadido a ordem santa e original do universo, desafiando o propósito de Deus; e que esteja agora em guerrilha desafiando o Seu poder, poderíamos muito bem rendermo-nos ao terror e ao desespero. É conforto e alento indescritíveis a segurança das Escrituras, quanto aos nossos Padrões (V:4), de que debaixo de toda essa movimentação e agitação selvagens dos propósitos e dos agentes do mal, encontra-se um propósito Divino, poderoso controlador de tudo e de todos. Sobre o pecado e sobre tudo o mais, Deus reina supremo. A sua soberana Providência 'estende-se até a primeira queda e a todos os outros pecados de anjos e de homens'; que eles tanto são verdadeiramente partes e resultados da Sua Providência, quanto o são os movimentos dos astros ou as atividades dos espíritos e anjos não caídos, no próprio céu. Havendo escolhido, pelas mais sábias e santas razões, embora não reveladas a nós, admitir o pecado, Ele juntou a esta simples permissão um fator 'limitador mais poderoso e sábio' de todo o pecado, de forma que nunca é possível ultrapassar as linhas que Ele prescreveu para a sua prisão, e tal ato de 'ordem e de governo' assegurará alcançar 'Seus próprios santos objetivos', e manifestar na consumação final não somente o Seu 'absoluto Poder', mas também a Sua 'inescrutável Sabedoria' e a Sua 'infinita Bondade'." (p. 177)

E Floyd E. Hamilton escreveu: "Deus criou o ser humano com a possibilidade de pecar; e Ele tem o poder para interferir a qualquer momento, para prevenir as más ações. Embora não seja Seu propósito atuar na permissão do ato, a própria permissão do ato quanto Ele tem o poder para interferir, coloca a responsabilidade em última instância pelo ato diretamente sobre Deus. Ademais, se Ele não tem o propósito de atuar, então Ele é certamente repreensível por não prevenir o ato! Tenta-se evitar esta conclusão ao dizer-se que Deus não interfere porque fazê-lo seria tirar a liberdade do homem. Neste caso, a liberdade do homem é considerada como mais valiosa que a sua salvação eterna! Mas, mesmo isto, não tira de Deus a responsabilidade final pela permissão da má ação; Deus tem o poder para preveni-la, não tem o propósito de atuar na permissão dela, mas não obstante, de forma a proteger a liberdade do homem, permite que ele traga sobre si o castigo eterno! Seguramente, aquele seria um tipo bem pobre de deus!" 10

Assim é que o Próprio Deus é, em última instância responsável pelo pecado, no que Ele tem poder para evitá-lo mas não o faz, embora a responsabilidade imediata recaia somente sobre o homem. Deus, é claro, não é nunca a causa eficiente na produção do pecado. Agostinho, Lutero e Calvino várias vezes enfatizaram esta verdade, do controle soberano e total de Deus, ao provar que o mundo hoje seque o curso que desde a eternidade Deus planejou que devesse ser seguido.

6. AÇÕES PECAMINOSAS SOMENTE OCORREM PELA PERMISSÃO DIVINA

As boas ações dos homens são feitas certas pelo decreto positivo de Deus; e as ações pecaminosas ocorrem somente com a Sua permissão. É, todavia, mais que uma simples permissão pela qual os atos de pecado acontecem, pois isto deixaria incerto se eles seriam ou não praticados. Com relação ao tema, David S. Clark diz: "A explicação mais razoável é que a natureza pecadora irá até o limite, até a fronteira estabelecida pela permissão de Deus, pelo que esta fronteira importa por Deus ao pecado torna certo o que e quanto acontecerá. Satã não faria com Jó mais do que Deus permitiu; mas é certo que ele iria tão longe quanto Deus permitisse." 11 E também de acordo está o testemunho de W. D. Smith: "Quando é sabido, com certeza, que será feito a menos que seja evitado, e existe uma determinação para não ser evitado, é tido como certo tanto quanto tivesse sido assim decretado, de forma positiva. Num caso, o evento é tornado certo por meios ativos (ativamente, positivamente); e, no outro caso, é igualmente feito certo por meios reprimidos (passivamente, permissivamente). Trata-se, em ambos casos, de um decreto imutável. Os pecados de Judas, e a crucificação do Salvador, foram imutavelmente decretados, permissivamente, assim como a vinda do Salvador ao mundo foi decretada positivamente. A partir daí pode-se perceber a consistência da Confissão de Fé com o senso comum, quando ela diz, que 'Deus desde toda a eternidade pré ordenou, livre e imutavelmente, através do mais sábio e santo conselho da Sua própria vontade, o que quer que seja que venha a acontecer,' etc. Percebe-se, também, estar claramente conciliável com o sentimento, 'Ele não é o autor do pecado,' etc. 12

Agostinho expressou um pensamento similar ao dizer: "Portanto os poderosos feitos de Deus, excelentemente perfeitos, de acordo com cada disposição da Sua vontade, são tais que, numa maneira maravilhosa e inefável, que inexiste sem a vontade de Deus, a qual é até mesmo feita contrária à Sua vontade, porque não poderia de qualquer forma ser feita, a menos que Ele assim o permitisse; e todavia, Ele não o permite relutantemente, mas prontamente. Tampouco, como o Deus da bondade, permitiria Ele algo ser feito maldosamente, a menos que, como o Deus da onipotência, Ele pudesse operar o bem mesmo a partir do mal praticado." 13

Mesmo as obras de Satã são tão controladas e limitadas que elas servem aos propósitos de Deus. Enquanto Satã ansiosamente deseja a destruição dos perversos e diligentemente age para torná-la realidade; todavia a destruição procede de Deus. Em primeiro lugar, é Deus quem decreta que os ímpios devam sofrer, e a Satã é meramente permitido aplicar o castigo sobre eles. Os motivos, as razões que sustentam os propósitos de Deus e aqueles que sustentam os de Satã são, é claro, infinitamente diferentes. Deus desejou a destruição de Jerusalém; Satã também desejou o mesmo, porém por diferentes motivos. Como Agostinho nos diz, Deus deseja com uma boa vontade o que Satã deseja com uma vontade maléfica, -- como foi o caso na crucificação de Cristo, o qual foi derrotado para a redenção do mundo. Algumas vezes Deus usa as vontades perversos e as paixões dos homens, ao invés da boa vontade dos Seus próprios servos, para concretizar os Seus propósitos. Esta verdade foi muito claramente expressada pelas palavras do Dr. Warfield: "Todas as coisas encontram a sua unidade no Seu plano eterno; e não a sua unidade meramente, mas a sua justificação também; mesmo o mal, embora retendo sua característica como mal e odiável para o santo Deus, e certamente para ser lidado como odiável, todavia não acontece sem que seja através da Sua provisão ou contra a Sua vontade, mas aparece no mundo que Ele criou somente como o instrumento através do qual Ele opera o bem mais alto." 14

7. PROVAS NAS ESCRITURAS.

Que esta é a doutrina das Escrituras, é abundantemente pleno. A venda de José ao Egito, pelos seus irmãos, foi um ato muito perverso; todavia podemos ver que tal foi sobrepujado não somente para o bem de José, mas também para o bem dos seus próprios irmãos. Quando o fato é rastreado de volta ao seu início, vemos que Deus foi o autor. O acontecimento tinha o seu exato lugar no plano divino. José mais tarde disse aos seus irmãos, "Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos aborreçais por me haverdes vendido para cá; porque para preservar vida é que Deus me enviou adiante de vós."[Gênesis 45:5] . . . "Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus..."[Gênesis 45:8] . . . "Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; Deus, porém, o intentou para o bem, para fazer o que se vê neste dia, isto é, conservar muita gente com vida"[Gênesis 50:20]. Assim foi escrito, que Deus endureceu o coração de Faraó (veja em Êxodo 4:21 = "Disse ainda o Senhor a Moisés: Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todas as maravilhas que tenho posto na tua mão; mas eu endurecerei o seu coração, e ele não deixará ir o povo." Veja também Êxodo 9:12 = "Mas o Senhor endureceu o coração de Faraó, e este não os ouviu, como o Senhor tinha dito a Moisés."); e as próprias palavras que Deus endereçou a Faraó foram, "mas, na verdade, para isso te hei mantido com vida, para te mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra."[Êxodo 9:16]. E a Moisés, Deus disse, "Eis que eu endurecerei o coração dos egípcios, e estes entrarão (no Mar Vermelho) atrás deles; e glorificar-me-ei em Faraó e em todo o seu exército, nos seus carros e nos seus cavaleiros."[Êxodo 14:17].

Simei amaldiçoou Davi, porque Jeová tinha dito, "Amaldiçoa a Davi"; e quando Davi soube disso, ele disse, "Deixai-o; deixai que amaldiçoe, porque o Senhor lho ordenou."[conforme em II Samuel 16:10, 11]. E depois que Davi tinha sofrido a violência injusta dos seus inimigos ele reconheceu que "Deus fez tudo isto." Dos Canaanitas foi dito "Porquanto do Senhor veio o endurecimento dos seus corações para saírem à guerra contra Israel, a fim de que fossem destruídos totalmente, e não achassem piedade alguma, mas fossem exterminados, como o Senhor tinha ordenado a Moisés."[Josué 11:20]. Quanto a Hofni e Finéias, os dois filhos maus de Eli, "Todavia eles não ouviram a voz de seu pai, porque o Senhor os queria destruir."[I Samuel 2:25].

Mesmo Satã e os espíritos maus são feitos para levar a efeito o propósito divino. Como um instrumento da divina vingança na punição dos perversos, a um espírito mau foi abertamente dado o comando para ir e enganar os profetas do rei Acabe: "(20) Perguntou o Senhor: Quem enganará a Acabe, para que suba e caia em Ramote-Gileade? Um dizia desta maneira, e outro, de outra. (21) Então, saiu um espírito, e se apresentou diante do Senhor, e disse: Eu o enganarei. Perguntou-lhe o Senhor: Com que? (22 ) Respondeu ele: Sairei e serei espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Disse o Senhor: Tu o enganarás e ainda prevalecerás; sai e faze-o assim. (23) Eis que o Senhor pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e o Senhor falou o que é mau contra ti."[I Reis 22:20-23]. Com relação a Saul, está escrito, "...e o atormentava um espírito maligno da parte do Senhor."[I Samuel 16:14]. "Deus suscitou um espírito mau entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém; e estes procederam aleivosamente para com Abimeleque;"[Juízes 9:23]. Assim, é de Jeová que procedem os espíritos maus para atormentar os pecadores. E é a partir dele que os maus impulsos que surgem nos corações dos pecadores tomam esta ou aquela forma específica (veja em II Samuel 24:1 = "A ira do Senhor tornou a acender-se contra Israel, e o Senhor incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá.").

Numa passagem nos é dito que Deus, de forma a punir um povo rebelde, moveu o coração de Davi para numerá-los (vide referência Bíblica no parágrafo anterior = II Samuel 24:1); mas noutra passagem que refere-se ao mesmo ato, lemos que foi Satã quem instigou o orgulho de Davi e fez com que ele os numerasse (veja em I Crônicas 21:1 = "Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar Israel."). Nisto vemos que Satã foi feito a vara da ira de Deus, e que Deus impele até os corações dos homens pecadores e os demônios, quem quer que seja que Ele assim queira. Enquanto todos os intercursos incestuosos e de adultério são abomináveis para Deus, Ele algumas vezes usa pecados tais como estes para punir outros pecados, como foi o caso quando Ele usou tais atos em Absalão, para punir o adultério de Davi. Antes que Absalão tivesse cometido o seu pecado já havia sido anunciado a Davi que esta era a forma que o seu castigo tomaria: "Assim diz o Senhor: Eis que suscitarei da tua própria casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres à luz deste sol."[II Samuel 12:11]. Destarte, estes atos não foram de forma alguma contrários à vontade de Deus.

Em I Crônicas 10:4, lemos que "...então tomou Saul a sua espada, e se lançou sobre ela." Este foi um ato de pecado seu, deliberado. Ainda assim, tal ato executou a justiça Divina e concretizou um propósito divino que havia sido revelado anos antes, com relação a Davi; pois um pouco mais adiante lemos, "(13) Assim morreu Saul por causa da sua infidelidade para com o Senhor, porque não havia guardado a palavra do Senhor... (14) e não buscou ao Senhor; pelo que ele o matou, e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé."[Crônicas 10:13, 14]. Há uma linha de pensamento na qual é dito que Deus faz o que Ele permite ou impele as Suas criaturas a fazerem.

O mal sentenciado contra Jerusalém devido à sua apostasia é descrito como enviado diretamente de Deus (II Reis 22:20 = "Pelo que eu te recolherei a teus pais, e tu serás recolhido em paz à tua sepultura, e os teus olhos não verão todo o mal que hei de trazer sobre este lugar..."). O salmista reconheceu que mesmo o ódio pelos inimigos, era despertado por Jeová, para punir um povo rebelde (Salmos 105:25 = "Mudou o coração destes para que odiassem o seu povo, e tratassem astutamente aos seus servos."). Isaías viu que mesmo a apostasia e a desobediência de Israel estavam no plano divino (Isaías 63:17 = "Por que, ó Senhor, nos fazes errar dos teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para te não temermos?..."). Em I Crônicas 5:22, lemos: "pois muitos caíram mortos, porque de Deus era a peleja;...". As palavras tolas de Roboão, que causaram a dissensão do reino foi "...porque esta mudança vinha do Senhor, para confirmar a palavra que o Senhor dissera..."[I Reis 12:15]. Todas estas coisas estão, enfim, encontram-se resumidas na passagem escrita por Isaías: "Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu sou o Senhor, que faço todas estas coisas."[Isaías 45:7]; e também por Amós: "Tocar-se-á a trombeta na cidade, e o povo não estremecerá? Sucederá qualquer mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?"[Amós 3:6].

Quando chegamos ao Novo Testamento, vemos que a mesma doutrina é ali apresentada. Já mostramos que a crucificação de Cristo era parte do plano divino. Embora torturado pelas mãos de homens sem lei, que não compreendiam a importância do evento do qual participavam, o qual levavam a efeito, "Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os seus profetas havia anunciado que o seu Cristo havia de padecer."[Atos 3:18]. A crucificação foi o cálice que o Pai havia dado para que Ele bebesse (João 18:11 = "...não hei de beber o cálice que o Pai me deu?"). Assim foi escrito: "...Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão."[Mateus 26:31]. Quando Moisés e Elias apareceram para Jesus no Monte da Transfiguração, eles falavam "...da sua partida que estava para cumprir-se em Jerusalém."[Lucas 9:31]. Referindo-Se à Sua própria morte, Jesus disse, "Porque, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído."[Lucas 22;22]; e novamente "...Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta como pedra angular; pelo Senhor foi feito isso, e é maravilhoso aos nossos olhos?"[Mateus 21:42; e nunca Ele ensinou tão plenamente que a cruz era parte do plano divino do que quando estavam no jardim do Getsêmane, Ele disse: "...não seja como eu quero, mas como tu queres."[Mateus 26:39]. Jesus rendeu-se, deliberadamente, para ser crucificado, quando poderia ter chamado para a sua defesa "mais que doze legiões de anjos", tivesse Ele assim escolhido (veja em Mateus 26:53 = "Ou pensas tu que eu não poderia rogar a meu Pai, e que ele não me mandaria agora mesmo mais de doze legiões de anjos?"). Pilatos, embora tivesse todo o poder crucificar ou para libertar a Jesus como lhe aprouvesse; mas Jesus lhe disse que ele não teria poder algum sobre Si, exceto o que lhe fora dado de cima [veja em João 19:10, 11 = "(10) Disse-lhe, então, Pilatos: Não me respondes? não sabes que tenho autoridade para te soltar, e autoridade para te crucificar? (11) Respondeu-lhe Jesus: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fora dado..."]

Estava no plano de Deus, que Cristo viesse ao mundo, que Ele sofresse, que ele morresse uma morte violenta, para assim fazer expiação pelo Seu povo. Assim foi que Deus simplesmente permitiu que homens pecadores, pecaminosamente, impusessem aquele sofrimento nEle; e então sobrepujou e derrotou os seus atos com a própria glória dEle, na redenção do mundo. Aqueles que crucificaram a Cristo, agiram em perfeita harmonia com a liberdade das suas próprias naturezas pecadoras, e sozinhos foram responsáveis pelos seus pecados. Nesta ocasião, como em muitas outras, Deus fez com que a ira do homem O louvasse. Seria difícil encontrar palavras, que pudessem mais explicitamente demonstrar a idéia de que o plano de Deus se estende a tudo quanto existe, do que as que foram utilizadas pelos escritores da Bíblia. Portanto, a crucificação no Calvário não foi uma derrota, mas sim uma vitória; e o brado "Está consumado!", anunciou a concretização com sucesso, da obra da redenção, a qual havia sido comissionada ao Filho. Aquilo que "está escrito acerca de Jesus no Antigo Testamento, tem a sua concretização certa nEle; e que o bastante foi escrito acerca dEle, de modo a assegurar aos Seus seguidores que no curso da Sua vida, e no - para eles - estranho e inesperado final da mesma, Ele não era a presa do acaso, nem era Ele a vítima de homens hostis, para a descaracterização da Sua obra, ou talvez mesmo para a derrota completa da Sua missão; mas Ele estava seguindo, passo a passo, diretamente para o objetivo, o caminho dantes predestinado e estabelecido para Ele nos conselhos da eternidade, e suficientemente revelado desde a antiguidade, de modo a capacitar todos os que não fossem 'tolos e de coração duro, para crerem em tudo o que os profetas haviam falado,' para perceberem que Cristo precisava ter vivido justamente esta vida; e concretizado justamente este destino." 15

Outros acontecimentos registrados no Novo Testamento também ensinam-nos a mesma lição. Quando Deus dispersou os Judeus, não foi uma destruição sem propósito, nem meramente "de modo que caíssem"; mas "antes pelo seu tropeço veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação.", de forma que eles também pudessem abraçar o Cristianismo (Romanos 11:11). Quanto à cegueira de um homem, foi questionado se era por causa do pecado dos seus pais, mas de forma que Jesus tivesse uma chance de demonstrar o Seus poder e glória restaurando a visão, ou, como o escritor coloca, "...para que nele se manifestem as obras de Deus."[João 9:3]. O testemunho do Antigo Testamento, de que o propósito que Deus tinha ao levantar Faraó era mostrar o Seu poder e proclamar o Seu nome em toda a terra, é repetido em [Romanos 9:17]. Tal ensinamento geral atinge seu clímax com a declaração de Paulo de que "...sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito."[Romanos 8:28].

Ninguém pode racionalmente negar que Deus pré ordenou o pecado se, conforme as Escrituras assim apresentam, Ele pré ordenou a crucificação de Cristo, e os demais eventos aos quais nos referimos. Que os atos de pecado têm o seu lugar no plano divino, é repetidamente ensinado. E se quaisquer pessoas estiverem inclinadas a se ofenderem com isto, que considerem elas então quantas vezes as Escrituras declaram serem os julgamentos de Deus uma "grande profundeza". Assim é que aqueles que hostilmente acusam que a nossa doutrina faz Deus o autor do pecado, trazem tal acusação não somente sobre nós, mas sobre o Próprio Deus; pois a nossa doutrina é a doutrina claramente revelada nas Sagradas Escrituras.

8. COMENTÁRIOS POR SMITH E HODGE.

A relação de Deus com o pecado é admiravelmente ilustrada no seguinte parágrafo, registrado no livro "O Que É Calvinismo?", escrito por W. D. Smith, o qual tomaremos a liberdade de parafrasear: "Suponha você que um vizinho, dono de uma destilaria ou uma loja de bebidas, a qual é uma perturbação para todos ao redor -- pessoas se ajuntando, bebendo, brigando até mesmo no Dia do Senhor, consequentemente com miséria e desentendimento nas famílias, etc. Suponha, ainda, que eu possua a capacidade de conhecer os acontecimentos futuros; e possa ver, com absoluta certeza, uma cadeia de eventos que serão decorrentes de um plano de operações que eu tenha em mente, plano este que será para o bem daquela vizinhança. Eu vejo que, por pregar a Palavra de Deus ali, eu serei o instrumento da conversão, e da conseqüente reforma, do dono da destilaria; e portanto eu tomo a decisão de ir em frente. E, em assim fazendo, eu positivamente decreto a reforma daquele homem; isto é, eu determino fazer aquilo que resultará na sua transformação certa e cumpro o meu decreto de maneira positiva. Mas, ao olhar um pouquinho mais na cadeia de eventos futuros, eu descubro, com a mesma absoluta certeza, que os seus clientes alcoólatras se encherão de ira, e muitos pecados serão cometidos, ao despejarem a sua malícia sobre ele e eu. Eles não somente proferirão impropérios e blasfêmias contra Deus e contra a religião, mas eles até queimarão a sua casa, e tentarão queimar a minha também. Agora, é possível perceber que este mal, que penetra no meu plano, não pode ser imputado a mim, embora eu seja o autor do plano que, no seu desenrolar, eu sei que o produzirá. Assim, fica claro que, qualquer ser inteligente pode estabelecer e por em prática um plano de ação, plano no qual que ele saiba, com absoluta certeza, que o mal penetrará, e todavia ele não é o autor do pecado, ou de qualquer forma responsável por isso . . . . Ao observar um pouco mais adiante na cadeia de eventos, eu vejo que, se lhes for permitido, aqueles homens perversos tirarão a vida do dono da destilaria; e vejo, ademais, que se a sua vida for poupada, ele então será tão notório para o bem, como ele era para o mal, e provará ser fonte de ricas bênçãos para a vizinhança e para a sociedade . . . . Portanto, frente ao plano inteiro, eu determino agir; e em fazendo-o, eu - de maneira positiva - decreto a transformação daquele homem e o bem conseqüente; ao mesmo tempo em que eu - permisivamente - decreto os atos perversos dos outros; porém, é bem claro que eu não sou, de forma alguma, responsável pelos pecados deles. Agora, numa ou noutra dessas formas, Deus 'pré ordenou o que quer que seja que venha a acontecer'. " (P. 33-35).

E neste sentido, Charles Hodge diz: "Um juiz reto, ao pronunciar a sentença para um criminoso, pode estar seguro de que causará sentimentos amargos e odiosos na mente daquele criminoso, ou nos corações dos seus amigos, todavia o juiz não tem culpa nenhuma. Um pai, ao excluir da família um filho depravado, pode ver que as conseqüência inevitável de tal exclusão será o aumento da perversidade dele, e ainda assim tal pai estará correto. É a conseqüência certa de Deus deixar os anjos caídos e os finalmente impenitentes por sua própria conta, que eles continuarão em pecado; e todavia a santidade de Deus permanece imaculada. A Bíblia ensina claramente que Deus judicialmente abandona homens aos seus pecados, deixando-os com suas mentes depravadas, e ali Ele é o mais Santo e Justo. Não é verdade, portanto, que um agente seja responsável por todas as conseqüências certas dos seus atos. Pode ser, e indubitavelmente o é, infinitamente sábio e justo a Deus permitir a ocorrência de pecado, e adotar um plano do qual o pecado seja uma conseqüência ou elemento certo; todavia, nem Ele causa o pecado nem Ele tenta os homens para que o cometam; Ele não aprova nem Ele é o autor do pecado." 16

9. A GRAÇA DE DEUS É MAIS PROFUNDAMENTE APRECIADA APÓS A PESSOA TER SIDO VÍTIMA DO PECADO.

Muitas vezes nos é permitido cair em pecado, que, após termos sido livrados dele, apreciaremos muito mais a nossa salvação. Na parábola dos dois devedores, um devia quinhentos dinheiros e o outro, cinqüenta. Quando eles não dispunham de nada com que pagar, o credor perdoou a ambos. Qual deles, portanto, o amaria mais? Naturalmente aquele a quem ele perdoou mais. Quando Jesus contou esta parábola, eles estavam à mesa, e a aplicação foi dada a Simão o Fariseu e à mulher penitente que havia aplicado perfume nos Seus pés. A ela muito lhe foi perdoado e ficou profundamente grata, mas ele não recebeu tal favor e não sentiu gratidão. "...aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama."[leia a parábola em Lucas 7:41:50].

Algumas vezes a pessoa, tal como o filho pródigo, não aprecia a casa do Pai, nem respeita a Sua autoridade, até que tenha experimentado os efeitos devastadores do pecado e a dor lancinante da fome, da culpa e da desgraça. Parece que o homem, com a sua liberdade, deve, até certo ponto, aprender por experiência antes que seja totalmente capaz de apreciar, de sentir-se bem com relação aos caminhos de retidão e render inquestionável obediência e honra a Deus. Já mencionamos a declaração de Paulo, no sentido de que "...Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos."[Romanos 11:32], e que "...já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos."[II Coríntios 1:9]. A criatura não pode apreciar adequadamente a misericórdia de Deus até que tenha sido resgatada de um estado de miséria. Depois de o mendigo coxo de nascença haver sido curado por Pedro e João à porta do templo, ele apreciou a sua saúde como nunca antes; e "...Começou a andar e entrou com eles no templo, andando, saltando e louvando a Deus."[Atos 3:8]. E depois de sermos resgatados do poder e da culpa do pecado, apreciamos a Graça de Deus como nunca antes poderíamos havê-lo feito. Lemos que mesmo o Nosso Senhor Jesus Cristo, na Sua natureza humana, foi "aperfeiçoado através de sofrimentos" (veja em Hebreus 2:10 = "Hebreus, 2:10 "Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e por meio de quem tudo existe, em trazendo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse pelos sofrimentos o autor da salvação deles."); embora Ele estivesse, é claro, completa e totalmente separado de todo e qualquer pecado.

10. O CALVINISMO OFERECE SOLUÇÃO MAIS SATISFATÓRIA PARA O PROBLEMA DO MAL, DO QUE QUALQUER OUTRO SISTEMA TEOLÓGICO.

A dificuldade real com que aqui nos deparamos, é explicar por que um Deus de infinita santidade, poder e sabedoria, teria trazido à existência uma criação em que o mal moral pudesse prevalecer tão extensivamente; e especialmente para explicar por que teria sido permitido a este mal promover a infindável miséria de tantas de Suas criaturas. Esta dificuldade, contudo, existe não somente contra o Calvinismo, mas contra o Teísmo em geral; e enquanto outros sistemas teológicos provam ter explicações para o pecado inteiramente inadequadas, o Calvinismo é capaz de fornecer uma explicação bem adequada, no que reconhece que Deus é em última instância responsável, desde que Ele poderia haver evitado o pecado; e o Calvinismo adicionalmente declara que Deus tem um propósito definido, na permissão de cada pecado individual, havendo ordenado o mesmo "para a Sua própria glória". Como diz Hamilton, "Se devemos aceitar o teísmo, o único tipo respeitável de teísmo é o Calvinismo." "O Calvinismo ensina que Deus não somente sabia o que Ele estava fazendo quando Ele criou o homem, mas Ele tinha um propósito, mesmo ao permitir o pecado." E que explicação melhor que esta pode ser proposta por quem quer que seja que creia que Deus é o Criador e o Governador deste universo?

Com relação à primeira queda do homem, declaramos que a causa mais aproximada foi a instigação do Diabo e o impulso do próprio coração do homem; e quando estabelecemos isto, removemos toda a culpa de Deus. Paulo nos diz que Deus "habita na luz da qual nenhum homem pode aproximar-se". Nossa visão moral não pode compreender mais os Seus profundos mistérios do que os nossos olhos físicos sem ajuda de qualquer proteção podem agüentar a luz do sol. Quando o apóstolo contemplou estas coisas ele clamou, ""Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!" [Romanos, 11:33]. E desde que os nossos intelectos humanos não podem elevar-se a alturas tão estupendas, é de nós adorar com reverência, temor e tremor, mas não explicar aquele mistério que é alto demais e profundo demais mesmo para os próprios anjos penetrarem. Lembremo-nos também, de que juntamente com este pecado, Deus providenciou a redenção, graciosamente operada por Ele mesmo, e não há dúvida de que é devido às nossas limitações que não enxergamos ser esta a total e suficiente explicação. O decreto da redenção é tão antigo quanto o decreto da apostasia; e Ele, que ordenou o pecado, também ordenou uma maneira de escaparmos dele.

Uma vez que as Escrituras nos dizem que Deus é perfeitamente reto e justo; e desde que em todos os Seus atos pelos quais nós somos capazes de passar pelo julgamento, nós vemos que Ele é perfeitamente reto e justo, confiamos nEle naqueles aspectos que ainda não nos foram revelados, crendo que Ele tem as soluções para os problemas os quais nós não somos capazes de resolver. Podemos ficar seguros de que o Juiz de toda a terra fará o que é correto, e como o Seu plano é mais completamente revelado a nós, aprendemos a agradecê-Lo por aquilo que é passado e confiar nEle por aquilo que é futuro.

Não avaliza em nada, é claro, dizer que Deus previu o mal mas não o incluiu no Seu plano, -- pois se Ele previu o mal e apesar de tê-lo feito ainda assim trouxe o mundo à existência, as más ações foram certamente uma parte do plano, embora uma parte indesejável. Negar esta previsão faz Deus ser cego; e dEle seria então imaginado que trabalha em alguma coisa mais ou menos como aquele aluno que mistura produtos químicos no laboratório, desconhecendo o que pode acontecer. Na verdade, não poderíamos nem mesmo respeitar um Deus que trabalhasse daquela forma. E ademais, aquele ponto de vista ainda deixa a responsabilidade pelo pecado, em última instância, sobre Deus, pois pelo menos ele poderia ter-Se restringido de criá-lo.

Que os atos pecaminosos dos homens têm o seu lugar e um lugar necessário no plano divino é plenamente visto no curso da história. Por exemplo, o assassinato do Presidente McKinley foi um ato de pecado, -- todavia daquele ato dependeu o papel que o Sr Theodore Roosevelt desempenharia como Presidente dos EUA; e se um só elo na cadeia de eventos tivesse sido diferente, todo o curso da história desde aquele momento até o fim do mundo teria sido radicalmente diferente. O mesmo é verdadeiro no caso do Presidente Lincoln. Se fosse intenção de Deus que o mundo atingisse este estado no qual nos encontramos hoje em dia, aqueles eventos eram indispensáveis. Uma rápida consideração nos convencerá de que todos, até mesmo os aparentemente mais insignificantes eventos têm o seu exato lugar, que eles rapidamente começam a desenvolver influências, as quais cedo se estendem até os confins da terra; e que se somente um deles fosse omitido, digamos há cinqüenta anos atrás, o mundo hoje seria muito diferente.

Uma outra prova importante que Paulo ensinou a doutrina que os Calvinistas entendem haver sido ensinada por ele, pode ser encontrada nas objeções que ele colocou nas bocas daquele que eram os seus oponentes, -- que ela representava Deus como injusto: "Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum."[Romanos 9:14]; e ela destruía a responsabilidade do homem: "Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade?"[Romanos 9:19]. Estas são as mesmas objeções que hoje em dia, numa primeira instância, brotam nas mentes dos homens, em oposição à doutrina Calvinista da Predestinação; mas elas não têm nem mesmo a menor plausibilidade, quando direcionadas contra a doutrina Arminiana. Uma doutrina que nem mesmo oferece as mínimas bases para estas objeções não pode ser aquela que o Apóstolo ensinou.
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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