segunda-feira, 7 de abril de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 3 [02/08]


Que É Inconsistente Com a Liberdade e a Responsabilidade Moral do Homem

1. O Problema da Liberdade do Homem. 2. Esta Objeção Opõe-se Igualmente À Pré Ciência. 3. A Certeza é Consistente com A Liberdade. 4. A Vontade Natural do Homem é Escrava do Mal. 5. Deus Controla as Mentes dos Homens e Dá ao Seu Povo o Desejo de vir. 6. A Maneira pela Qual a Vontade é Determinada. 7. Provas na Bíblia.

1. O PROBLEMA DA LIBERDADE DO HOMEM.

O problema com que nos deparamos agora é: Como pode uma pessoa ser um agente livre e responsável se as suas ações foram pré ordenadas desde a eternidade? Por 'um agente livre e responsável' entendemos 'uma pessoa inteligente que age com auto determinação racional'; e por 'pré ordenação' entendemos que desde a eternidade Deus fez certo o curso real dos eventos que têm lugar na vida de cada pessoa e na natureza. É admitido por todos que os atos de uma pessoa devem ser sem compulsão e em conformidade com os seus próprios desejos e inclinações, ou ele não pode ser responsabilizado por eles. Se os atos de um agente livre são - em sua própria natureza - incertos e contingentes, está claro então que a pré-ordenação e a liberdade são inconsistentes.

O filósofo que está convencido da existência de um vasto Poder pelo qual todas as coisas existem e são controladas, é forçado a questionar onde o finito pode encontrar expressão sob o reino do Infinito. A solução verdadeira para esta pergunta difícil relacionada com a soberania de Deus e a liberdade do homem, não pode ser encontrada na negação de nenhuma delas, mas sim numa reconciliação tal que proporcione a cada uma delas importância total, todavia proporcionando uma preeminência à divina soberania, correspondente à exaltação infinita do Criador sobre a criatura pecadora. O mesmo Deus que ordenou todos os eventos também ordenou a liberdade humana em meio a tais eventos, e esta liberdade é tão certamente fixa quanto o é qualquer outra coisa. O homem não é uma mera máquina ou um mero autômato. No plano Divino, que é infinito em variedade e complexidade que abrange do sempiterno ao sempiterno, e que inclui milhões de agentes livres que agem e interagem entre si, Deus ordenou que os seres humanos mantenham a sua liberdade sob a Sua soberania. Ele não tentou dar-nos uma explicação formal destas coisas, e nossa limitada sabedoria humana não é totalmente capaz de solucionar o problema. Uma vez que os escritores Bíblicos não hesitaram em afirmar o controle de Deus sobre os pensamentos e as intenções do coração, eles não ficaram embaraçados ao incluir também os atos de agentes livres no Seu todo envolvente plano. O que aqueles que redigiram a Confissão de Fé de Westminster reconheceram ser plena a liberdade do homem; pois imediatamente após declararem que "Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece..." eles acrescentaram, "...porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas."(Referências na Bíblia: Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34."[Capítulo III, Seção I].

Enquanto o ato permanece sendo do indivíduo, o mesmo é, não obstante, de certa forma devido à pré-disposta instrumentalidade e eficácia de poder divino exercido de maneira legal. Até certo ponto isto pode ser ilustrado no caso do homem que decide construir um prédio. Ele assim o decide nos seus planos. Então ele contrata carpinteiros, pedreiros, encanadores e etc., para fazer o trabalho. Estes homens, estes profissionais não são forçados a fazerem o serviço. Nenhuma compulsão de qualquer espécie é utilizada. O proprietário simplesmente oferece os atrativos necessários, na forma de salário, condições de trabalho e assim por diante, de maneira que os profissionais trabalhem livremente e de bom grado. Estes fazem - em detalhes - simplesmente o que aquele planejou, o que aquele idealizou que fariam. Sua foi a vontade primária, e deles a secundária, na construção do edifício. Nós muitas vezes influenciamos, direcionamos a vontade dos nossos semelhantes sem contudo infringirmos a sua liberdade ou responsabilidade. De maneira similar, e num grau infinitamente maior, Deus pode direcionar as nossas ações. A Sua vontade é a causa primária para o curso de eventos; e a vontade do homem é a causa secundária; e ambas trabalham juntas em perfeita harmonia.

De uma maneira nós podemos dizer que o reino do céu é um reino democrático, tão paradoxal quanto possa soar. O princípio essencial de uma democracia é que ela se baseia "no consentimento dos governados". O céu será verdadeiramente um reino, Deus sendo o Governador Supremo; e todavia se baseará no consentimento dos que são por Ele governados. O Seu governo não é forçado nos crentes contra a sua vontade. Eles são tão influenciados que anseiam, e aceitam o Evangelho, e descobrem ser o prazer de suas vidas cumprir a vontade do seu Soberano.

2. ESTA OBJEÇÃO OPÕE-SE IGUALMENTE À PRÉ-CIÊNCIA.

Deve ser notado que a objeção que a pré-ordenação é inconsistente com a liberdade do homem, igualmente o é contra a doutrina da pré-ciência de Deus. Se Deus conhece com antecedência um evento no futuro, deve ser tão inevitavelmente certo como se fora pré-ordenado; e se a pré-ordenação é inconsistente com a liberdade, também o é a pré-ciência. Isto é freqüente e francamente admitido; e os Unitarianos, enquanto não evangélicos, são neste ponto mais consistentes que os Arminianos. Eles dizem que Deus sabe tudo o quanto há para ser sabido, mas que os atos livres são incertos e que não há desonra para Deus no dizer que Ele não os sabe.

Descobrimos, contudo, que as Escrituras contém predições de muitos eventos, grandes e pequenos, os quais foram perfeitamente cumpridos através das ações de agentes livres. Usualmente tais agentes nem tinham a consciência de que estavam cumprindo uma profecia divina. Eles agiram livremente, todavia exatamente como havia sido predito. Alguns exemplos são: a rejeição de Jesus pelos Judeus, o repartir das vestes e a sorte lançada pelos soldados Romanos, as negações de Pedro com relação a Jesus; o cantar do galo, o ferimento a lança, a captura de Jerusalém e os Judeus sendo levados em cativeiro, a destruição de Babilônia, etc. É fato que os escritores da Bíblia criam que os atos dos agentes livres eram totalmente pré-sabidos pela mente divina e portanto absolutamente certos de serem performados. A pré-ciência de Deus não destruiu a liberdade de Judas ou de Pedro -- pelo menos eles próprios não pensaram assim, pois Judas mais tarde voltou e disse "Pequei, traindo o sangue inocente..."[Mateus 27:4] e quando Pedro ouviu o cantar do galo e lembrou-se das palavras de Jesus, saiu e soluçou amargamente.

Com relação aos eventos conectados com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, está escrito: "Os seus discípulos, porém, a princípio não entenderam isto; mas quando Jesus foi glorificado, então eles se lembraram de que estas coisas estavam escritas a respeito dele, e de que assim lhe fizeram"[João 12:16]. Será que alteraria a sua natureza, ou prejudicaria a liberdade dos seus atos, o fato de sabemos de antemão que um juiz recusará uma propina, e que um miserável agarrará fortemente uma pepita de ouro? E se nós, com o nosso conhecimento muito limitado acerca das naturezas de outros homens e das influências que eles sofrerão, somos capazes de predizer as suas ações com razoável precisão, quanto mais Deus, que compreende perfeitamente as suas naturezas e aquelas influências, não saberá exatamente no que consistirão as suas ações?

Assim é que a certeza de uma ação é consistente com a liberdade do agente em executá-la; caso contrário Deus não poderia pré conhecer tais ações como certas. A pré-ciência não faz com que os atos e eventos futuros sejam certos, mas somente assume-os como tal; e é uma contradição de termos dizer que Deus sabe com antecedência, que conhece como certo um evento que em sua própria natureza é incerto. Devemos ou dizer que os eventos futuros são certos e que Deus conhece o futuro, ou que eles são incertos e que Deus não conhece o futuro. As doutrinas da pré-ciência de Deus e da pré-ordenação de Deus ou permanecem ou caem, juntas.

3. CERTEZA É CONSISTENTE COM LIBERDADE.

Nem tampouco pode ser assumido que a certeza absoluta dos atos de uma pessoa significa que ela não poderia agir de outra forma. Ela poderia sim agir diferentemente, se ela assim o escolhesse. Muitas vezes um homem tem o poder e a oportunidade para fazer aquilo que é absolutamente certo que ele não fará, e reprimir-se de fazer o que é absolutamente certo que ele fará. Isto é, nenhuma influência externa determina as suas ações. Nossos atos estão de acordo com os decretos, mas não necessariamente tanto, que podemos agir de outra forma, e muitas vezes deviam. Judas e seus comparsas foram deixados para cumprir os seus propósitos, e eles o fizeram como as suas inclinações perversas os guiaram. Daí Pedro haver imputado-lhes o crime, mas ao mesmo tempo declarando que eles agiram de acordo com o propósito de Deus, -- "a este, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós matastes, crucificando-o pelas mãos de iníquos;"[Atos 2:23].

Em outras situações também pode ser mostrado que certeza é consistente com liberdade. Muitas vezes nós estamos absolutamente certos de como agiremos sob determinadas condições, tanto quanto tenhamos liberdade para agir. Um pai pode ter a certeza de que acudirá um filho em perigo, e que em assim fazendo ele agirá livremente. Deus é um agente livre, contudo é certo de que Ele sempre fará o que é certo. Os santos anjos e os santos redimidos são agentes livres, todavia é certo de que eles nunca pecarão; caso contrário não haveria nenhuma segurança da sua permanência no céu. Por outro lado, é certo que o Diabo, os demônios e os homens caídos cometerão pecado, embora eles também sejam agentes livres. Um pai sempre sabe como o seu filho agirá sob determinadas circunstâncias, e ao controlá-las ele determina de antemão o curso de ação que o filho segue, mesmo assim o filho age livremente. Se ele planejar que o filho será um doutor, ele o encoraja naquela direção, persuade-o a ler certos livros, a frequentar determinadas escolas, e assim apresenta os incentivos externos para que o seu plano dê certo. Na mesma maneira e numa extensão infinitamente maior, Deus controla as nossas ações de forma que elas sejam certas, muito embora nós sejamos livres. O Seu decreto não produz o evento, mas somente assegura que seja certa a sua ocorrência; e o mesmo decreto que determina a certeza da ação, ao mesmo tempo determina a liberdade do agente, no ato.

4. A VONTADE NATURAL DO HOMEM É ESCRAVA DO MAL.

Estritamente falando, podemos dizer que o homem tem livre arbítrio somente no sentido de que ele não se encontra sob nenhuma compulsão externa que interfira com a sua liberdade de escolha ou com a sua justa responsabilidade. No seu estado caído, ele somente tem o que pode ser chamada de "a liberdade da escravidão". Ele está sujeito ao pecado e segue a Satã espontaneamente. Ele não tem a habilidade ou o incentivo para seguir a Deus. Agora, perguntamos, será que vale alguma coisa a expressão "livre"? e a resposta é, Não. Não 'livre arbítrio', mas sim 'auto arbítrio' descreveria mais apropriadamente a condição do homem desde a queda. Deve ser lembrado que o homem não foi criado como cativo do pecado, mas tornou-se assim devido à sua própria falta; e um prejuízo que ele trouxe sobre si mesmo não o isenta da responsabilidade. Após a redenção do homem ser completa, ele espontaneamente seguirá a Deus, como o fazem os santos anjos; mas ele nunca será o seu próprio mestre.

E é inegável o fato de ser esta uma doutrina de Lutero. No seu livro, "A Sujeição da Vontade", cujo propósito principal era provar que a vontade do homem é naturalmente escrava somente do pecado, e que por apreciar tal condição de escravidão é que tal vontade é dita ser "livre"; ele declarou: "O que quer que o homem faça, ele o faz por necessidade, embora sem qualquer compulsão sensível, e ele somente pode fazer o que foi da vontade e da presciência de Deus desde a eternidade, vontade de Deus esta que deve ser efetiva e Sua presciência que deve ser certa . ...Nem a vontade Divina nem a humana farão qualquer coisa por constrangimento, e o que quer que o homem faça, seja bom ou mau, ele assim o faz com tanto apetite e vontade como se a sua vontade fosse realmente livre. Mas, ao final, a vontade de Deus é certa e inalterável, e é o nosso governo." 1 Em outra passagem ele diz, "Quando é concedido e estabelecido, que o 'Livre arbítrio', uma vez havendo perdido a sua liberdade, é compulsivamente ligado ao serviço do pecado, e não pode fazer nada que seja bom; destas palavras eu posso entender nada além de que o termo "Livre arbítrio" é vazio, cuja realidade está perdida. E uma liberdade perdida, de acordo com a minha gramática, não é liberdade." 2 Ele (Lutero, em seu livro), refere-se ao livre arbítrio como "uma simples mentira", 3 e mais tarde acrescenta, "Portanto, é também essencialmente necessário e importante para os Cristãos saberem que Deus não tem presciência de nada por contingência, mas que Ele vê, planeja e faz todas as coisas de acordo com a Sua vontade imutável, eterna e infalível. E por isto, como se fora por um raio, o 'livre arbítrio' é prostrado, completamente despedaçado .... Segue-se inalteravelmente, que todas coisas que fazemos, embora possam parecer serem feitas mutável e contingentemente, e mesmo que possam ser feitas assim contingentemente por nós, são todavia, na realidade, feitas necessária e imutavelmente, com respeito à vontade de Deus. Pois a vontade de Deus é efetiva e não pode ser obstruída; porque o poder de Deus é natural a Ele, e a Sua sabedoria é tal que Ele não pode ser enganado." 4

Algumas vezes é colocado que a menos que a vontade do homem seja completamente livre, Deus o comanda para fazer o que Ele não pode fazer. Em vários lugares nas Escrituras, contudo, aos homens é comandado fazer coisas as quais de acordo com a sua própria força e capacidade eles são completamente incapazes. Ao homem com a mão seca foi dito para abri-la. Ao paralítico foi ordenado levantar-se e andar; o homem doente recebeu ordem para levantar, pegar sua cama e caminhar. A Lázaro morto foi ordenado que viesse para fora do túmulo. Homens são comandados para crer, todavia a fé é dita ser a "dádiva de Deus". "...Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará."[Efésios 5:14]. "Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial."[Mateus 5:48]. A incapacidade auto imposta ao homem na esfera moral não o exime da obrigação.

5. DEUS CONTROLA AS MENTES DOS HOMENS E DÁ AO SEU POVO O DESEJO DE VIR

Deus tanto governa os sentimentos interiores, o meio ambiente externo, os hábitos, os desejos, os motivos e etc., dos homens, que eles livremente fazem o que é o Seu propósito. Tal operação é inescrutável, mas não obstante real; e o simples fato de que no nosso estado presente de conhecimento não somos totalmente capazes de explicar como esta influência é exercida sem destruir a liberdade do homem, certamente não prova que ela não possa ser exercida.

No entanto, nós temos conhecimento o bastante para saber que a soberania de Deus e a liberdade do homem são realidades, e que elas trabalham juntas em perfeita harmonia. Paulo semeia, e Apolo rega, mas é Deus quem dá o crescimento. Paulo escreveu aos Filipenses, "porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade"[Filipenses 2:13]. E o salmista declarou, "O teu povo apresentar-se-á voluntariamente no dia do teu poder..."[Salmo 110:3].

As ações de uma criatura são em grande monta predeterminados quando Deus lhe concede uma "natureza" particular quando da sua criação. Se lhe é dada natureza humana, as suas ações serão aquelas comuns aos homens; se lhe é dada natureza de cavalo, então aquelas ações comuns a cavalos; ou se natureza vegetal, aquelas ações comuns ao mundo vegetal. É fato que àqueles a quem é dada natureza humana foram pré ordenados não andar sobre quatro pés, nem relinchar como um cavalo. Um ato não é livre se determinado de fora; mas é livre se racionalmente determinado de dentro, e é isto precisamente o que faz a pré ordenação de Deus. O decreto compreensivo provê que cada homem seja um agente livre, possuidor de um certo caráter, cercado por um determinado meio ambiente, sujeito a certas influências externas, internamente movido por certas afeições, desejos, hábitos, etc., e que em vista de todos estes ele seja livre e escolha, racionalmente. Que a escolha será uma coisa e não outra, é certo; e Deus, que sabe, que conhece e que controla as causas exatas de cada influência, sabe o que aquela escolha será, e em um senso real, a determina. Zanchius expressou esta idéia muito claramente quando ele declarou que o homem era um agente livre, e então acrescentou, "todavia ele age, desde o primeiro até o último momento da sua vida, em absoluta subserviência (embora, talvez ele não o saiba nem a designe) para os propósitos e decretos de Deus com relação a ele; apesar do que, ele é sensível a nenhuma compulsão, mas age livre e voluntariamente, como se ele não estivesse sujeito a nenhum controle, e senhor absoluto de si mesmo." E Lutero diz, "Os homens, ambos, bons e maus, embora com suas ações eles completem os decretos e apontamentos de Deus, todavia não são forçosamente constrangidos a fazer qualquer coisa, mas agem voluntariamente."

De acordo com isto nós então cremos que, sem destruir ou incapacitar a liberdade dos homens, Deus pode exercer sobre eles uma providência particular e operar neles através do Seu Santo Espírito de forma que eles venham a Cristo e perseverem no Seu serviço. Cremos ainda que ninguém tem esta vontade e desejo exceto aqueles a quem Deus tenha previamente feito querer e desejar; e que Ele dá esta vontade e este desejo a ninguém senão aos Seus eleitos. Mas enquanto assim induzidos, os eleitos permanecem tão livres quanto o homem a quem você pode persuadir a caminhar ou a investir em papéis do governo.

Uma ilustração que bem demonstra a relação de Deus com ambos os salvos e os perdidos é dada por H. Johnson, -- "Aqui temos duzentos homens na prisão, por haverem violado a lei. Eu faço provisão para eles do perdão, de forma que a justiça seja satisfeita e a lei seja cumprida, enquanto ainda assim os prisioneiros possam ser livres. As portões da prisão são abertos, as trancas arrancadas, e a promessa de perdão absoluto é feita e a segurança é dada para cada prisioneiro, de que ele pode agora caminhar como homem livre. Mas ninguém se move. Suponha agora que eu determine que a minha provisão para o perdão deles não seja em vão. Então eu pessoalmente vou até cento e cinqüenta desses homens culpados e condenados, e através de uma violência amorosa eu os persuado a saírem. Isto é eleição. Mas eu mantive os outro cinqüenta dentro? A provisão para perdão é ainda suficiente, os portões da prisão continuam abertos, as portas das celas ainda estão destrancadas e abertas, e a liberdade é prometida a cada um que saia para fora e dela se aposse; e cada homem naquela prisão sabe que ele pode ser um homem livre, se ele quiser. Será que eu mantive os outros cinqüenta presos?" 5

O velho princípio Pelagiano, algumas vezes adotada pelos Arminianos, de que tanto a honorabilidade da virtude como a execrabilidade do vício derivam do poder do indivíduo de escolher com antecipação uma ou outro, logicamente leva a negar a bondade dos anjos no céu, ou dos santos na glória, ou mesmo ao próprio Deus, já que é impossível para os anjos, para os santos, ou para Deus pecar. A virtude, então, no estado celeste deixaria de ser meritória, uma vez que seria necessário o esforço da escolha. A ideia de que o poder de escolha entre o bem e o mal é o que enobrece e dignifica a vontade é uma concepção errada. Tal pensamento verdadeiramente eleva o homem acima da criação bruta; mas não é a perfeição da sua vontade. Mozley disse: "O perfeito e o mais alto estado da vontade é um estado de necessidade; e o poder de escolha, bem longe de ser essencial a uma vontade genuína e verdadeira, é na realidade o seu defeito e a sua fraqueza. Isto pode ser uma característica ainda maior de uma vontade imperfeita e imatura, com o bem e o mal perante ela, ficaria indecisa, ficaria em suspense quanto a o que fazer?" 6 Nesta vida, em que a graça da qual as boas ações necessariamente procedem não é dada com uniformidade, e consequentemente mesmo os regenerados pecam ocasionalmente; mas na vida por vir, a graça será ou constantemente dada ou retirada de vez e totalmente, e então a determinação da vontade será constante, seja para o bem ou para o mal.

Talvez alguma idéia sobre a maneira na qual o Divino e o humano harmonizam-se para produzir uma obra possa ser adquirida da consideração sobre a maneira na qual as Bíblia foi escrita. Pois a Bíblia é, no mais alto sentido, e ao mesmo tempo, as palavras de Deus e também as palavras de homens. Não são somente algumas partes ou elementos que são atribuídos a Deus ou a homens; mas antes toda a Escritura em todas as suas partes, na forma de expressão tanto quanto na substância do ensino, é de Deus, e também de homens. "Por inspiração", diz Hamilton, "não queremos dizer que Deus usou os escritores como autômatos, ou que Ele ditou a eles o que eles deveriam escrever, mas queremos dizer que o Seu Espírito Santo guiou e controlou os escritores de tal forma que o eles escreveram foi verdadeiro, e foi a verdade particular que Deus quis que fosse transmitida por escrito ao Seu povo. Deus permitiu que os escritores utilizassem os seus próprios intelectos, suas próprias linguagens e os seus próprios estilos, mas quando eles escreveram, o Espírito Santo de Deus sobrenaturalmente fez com que as escritas fossem livres de quaisquer erros, e apresentassem a exata verdade que Deus quis que fosse apresentada ao Seu povo através dos tempos. A Bíblia torna-se desta forma uma unidade, partes da qual não podem ser cortadas fora, não podem ser retiradas sem que se faça injúria irreparável ao seu todo." 7

Há, indubitavelmente, uma contradição em supor-se que "o acaso acontece", ou que eventos produzidos por agentes livres podem ser objetos de presciência limitada, ou objetos de algum tipo de prévio arranjo. Na própria natureza do caso eles devem ser ambos, radicalmente e eventualmente incertos, "de modo que", como diz Toplady, "quem quer que defenda a auto-determinação, tendo intenção ou não, é na verdade um cultuador da personalidade ateísta chamada Sorte, e um depositor ideal da providência, do seu trono.

A menos que Deus pudesse governar as mentes dos homens, Ele estaria constantemente engajado em planejar novos expedientes para compensar os resultados das influências introduzidas pelos milhões de criaturas Suas. Se os homens tivessem realmente livre arbítrio, então na tentativa de governar ou de converter um indivíduo, Deus teria de abordá-lo da mesma forma como um homem aborda a um semelhante seu, com vários planos em mente, de modo que se o primeiro falhar ele possa usar o segundo, e se aquele não funcionar, então o terceiro, e assim por diante. Se os atos de agentes livres são incertos, Deus é ignorante do futuro, exceto em uma maneira mais generalizada. Ele então é surpreendido vezes sem conta, e o Seu conhecimento aumenta diariamente, em grande monta. Mas este ponto de vista é desonroso para com Deus, e é tanto irracional como não Bíblico. A menos que a onisciência de Deus seja negada, devemos sustentar que Ele conhece toda a verdade, o passado, o presente e o futuro; e enquanto eventos possam parecer incertos do ponto de vista humano, do ponto de vista de Deus eles são fixos e certos. Este argumento é tão conclusivo que a força do mesmo é geralmente admitida. A fraca objeção algumas vezes evocada, de que Deus voluntariamente decide não saber alguns dos atos futuros dos homens, de maneira a deixá-los livres, não tem nenhum suporte, seja nas escrituras ou na razão. Ademais, representa Deus como agindo no papel de pai de um bando de garotos malvados, que vai e se esconde porque teme vê-los fazendo algo que ele não aprovaria. Se o nosso Deus fosse limitado, seja por forças externas ou pelos Seus próprios atos, somente teríamos um deus finito.

A teoria Arminiana de que Deus tenta ansiosamente converter os pecadores mas é capaz de somente exercer poder persuasivo sem violentar as suas naturezas, na realidade é o mesmo que o antigo ponto de vista Persa, de que haviam dois princípios eternos, o bem e o mal, combatendo entre si, sendo que nenhum deles era capaz de vencer o outro. O livre arbítrio arranca as rédeas do governo das mãos de Deus, e rouba-Lhe o Seu poder. O livre arbítrio coloca as criaturas além do Seu controle absoluto e em alguns aspectos dá-lhe o poder de veto sobre a Sua vontade e propósito eternos. Torna - ainda - possível que anjos e santos no céu possam pecar, que possa ainda existir uma rebelião geral no céu igual à que supõe-se ter ocorrido quando Satã e os anjos caídos foram expulsos, e que o mal pode tornar-se dominante ou universal.

6. A MANEIRA PELA QUAL A VONTADE É DETERMINADA

Sendo o homem um agente racional, deve haver sempre motivo suficiente para o seu agir de maneira específica. Pois a vontade de decidir a favor do motivo mais fraco e contra o mais forte, ou sem quaisquer motivos, é o mesmo que ter um efeito sem uma causa suficiente. A consciência nos ensina que nós sempre temos razões para as coisas que fazemos, e que depois de agir nós somos conscientes de que podemos ter agido diferentemente, houvessem outros pontos de vista ou sentimentos sido apresentados. A razão, o motivo para um ato em particular pode não ser forte e pode até mesmo haver sido baseada em um falso julgamento, mas em cada caso em particular, é forte o bastante para controlar. A balança penderá na direção contrária somente quanto houver uma causa para o efeito. Alguém pode escolher aquilo que em alguns aspectos é desagradável; mas em cada situação, algum outro motivo está presente, que influencia a pessoa a uma escolha a uma decisão que caso contrário não teria sido feita. Por exemplo, uma pessoa pode concordar com a extração de um dente; mas ela não o fará a menos que algum tipo de indução estiver presente, o qual, pelo menos no momento faz com que seja esta a inclinação mais forte. Como já foi dito, "um homem não pode preferir contra a sua preferência e não pode escolher contra a sua escolha." Uma pessoa que prefira viver em Barretos não pode, por um mero ato de vontade, preferir viver em São Paulo.

As escolhas do homem são, na verdade, governadas por sua própria natureza, e estão de acordo com os desejos, disposições, inclinações, conhecimento e caráter da pessoa. O homem não é independente de Deus, nem de leis mentais ou físicas, e todos estes exercem suas influências particulares nas escolhas, nas decisões que o homem toma. Ele sempre age da maneira a qual as inclinações e os motivos mais fortes o guiam; e a consciência nos diz que as coisas que apelam a nós de maneira mais poderosa na ocasião são as coisas que determinam nossas escolhas. Diz o Dr. Hodge, "A escolha não é determinada por nenhuma lei de necessidade, não é independente, indiferente ou auto determinada, mas é sempre determinada pelo estado da mente que a precede; de forma que um homem é livre desde que as suas escolhas sejam a expressão consciente da sua mente; ou desde que a sua atividade seja determinada e controlada por sua razão e por seus sentimentos." 8

A menos que as escolhas de um indivíduo estivessem baseadas no seu caráter e fossem por ele determinadas, elas não seriam realmente suas, e ele não poderia ser responsabilizado por elas. Nos nossos relacionamentos com os nossos semelhantes, nós instintivamente assumimos que as suas escolhas, sejam boas ou más, são determinadas por um caráter bom ou mau, e julgamo-los conforme. "(16) Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? (17) Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. (18) Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons. (19) Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. (20) Portanto, pelos seus frutos os conhecereis."[Mateus 7:16-20]. E novamente, "...pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca."[ Mateus, 12:34]. A árvore não é livre para produzir frutos bons ou ruins ao acaso, mas é governada por sua natureza. Não é o fato de o fruto ser bom que causa a bondade da árvore, mas o contrário. E de acordo com a parábola de Jesus, a mesma verdade aplica-se ao homem. E a menos que a conduta realmente revele o caráter, como podemos saber que o homem que faz o bem é realmente um bom homem, ou que o homem que pratica maldades é realmente um homem mau? Enquanto alguns, em nome do argumento, possam insisti que a vontade, que o arbítrio é livre; na vida diária todos homens assumem que a vontade é ao mesmo tempo um produto e uma revelação da natureza da pessoa. Quando um homem exerce uma vontade, uma escolha que resulta em roubo ou em assassinato, nós instintivamente concluímos que é um indicativo verdadeiro do seu caráter, e lidamos com tal homem de acordo com tal conclusão.

A própria essência da racionalidade é que as escolhas devem estar baseadas na compreensão, nos princípios, sentimentos, etc., e a pessoa cujas escolhas não estão aí baseadas são consideradas como tolas. Se após cada decisão tomada, a vontade, o arbítrio retornar a um estado de indecisão e oscilação, equilibrando-se entre o bem e o mal, a base para confiança nos nossos semelhantes estaria acabada. Na realidade, alguém cuja vontade, cujo arbítrio fosse realmente "livre", seria alguém muito perigoso; os seus atos seriam irracionais e não haveria meio de saber o que ele poderia fazer, sob quaisquer condições.

É este fato (que decisões são uma expressão verdadeira da natureza da pessoa), que garante a permanência dos estados dos salvos e dos perdidos no próximo mundo. Se a mera liberdade necessariamente expusesse a pessoa ao pecado, não haveria a certeza de que mesmo os redimidos no céu não cometeriam pecado e seriam atirados ao inferno, como o foram os anjos caídos. Os santos, no entanto, possuem uma necessidade ao lado da bondade, e são portanto livres no sentido mais elevado. Existe uma falta de competição, e a sua vontade, confirmada em santidade, segue adiante produzindo atos e impulsos bons, com a facilidade e com a uniformidade da lei física. Por outro lado, o estado dos perversos também é permanente. Depois que as influências limitadoras do Espírito Santo são retiradas, eles tornam-se corajosos, desafiadores, blasfemadores, e pecam com obstinação irremediável. Eles passaram a uma disposição permanente de malícia e de perversidade e de ódio. Já não são mais "convidados" e "estranhos", mas sim cidadãos e residentes, na terra do pecado. Ademais, se a teoria do livre arbítrio fosse verdadeira, ela tornaria possível o arrependimento após a morte; pois não seria razoável crer que pelo menos alguns dos perdidos, depois de começarem a sofrer os tormentos do inferno, veriam o seu erro e retornariam para Deus? Se neste mundo, onde castigos 'medianos' são efetivos em fazer com que homens arrependam-se e deixem o pecado; por que não seriam as punições e os castigos 'mais severos' no próximo mundo, mais efetivos? Somente o princípio Calvinista de que a vontade, o arbítrio é determinado pela natureza da pessoa e os incentivos apresentados; é que alcança uma conclusão harmoniosa com o que as Sagradas Escrituras afirmam, que "há um grande abismo", que ninguém pode atravessar, -- que o estado dos salvos e o estado dos perdidos são ambos permanentes.

Aquele indivíduo que não presta qualquer atenção especial ao assunto, assume ter uma grande liberdade. Mas quando ele passa a examinar esta tal liberdade um pouquinho mais atentamente, ele descobre que ser muito mais limitado do que pareceu à primeira vista. Pois ele tem a limitação das leis do mundo físico, a limitação do meio ambiente em que se encontra, dos seus hábitos, do seu treinamento passado, dos seus costumes sociais, do seu medo de castigo ou de desaprovação, dos seus desejos, das suas ambições, etc., de forma que ele está na realidade longe de ser o mestre absoluto das suas ações. A qualquer momento, em qualquer circunstância, ele é muito mais o que o seu próprio passado fez dele. Mas tanto quanto ele tenha os seus atos sob o controle da sua própria natureza e determine suas ações a partir do seu íntimo, ele tem toda a liberdade que uma criatura é capaz de ter. qualquer outro tipo de liberdade é anarquia.

Um homem leva um aquário com peixinhos dourados para qualquer lugar que queira; todavia, os peixinhos dourados sentem-se livres dentro do seu mundo, dentro do aquário. A ciência da Física nos ensina acerca do movimento molecular cercado pela imobilidade do corpo, -- quando olhamos para um pedaço de pedra, ou madeira, ou metal, parecem-nos a olho nu estarem completamente imóveis; todavia se dispuséssemos de lentes de aumento possantes o suficiente para poder ver as moléculas e os átomos e os elétrons, veríamos que estão circulando em suas órbitas, em velocidades incríveis.

A Predestinação e a liberdade são as colunas gêmeas de um grande templo, que sobem e encontram-se acima das nuvens, onde o olho humano não consegue alcançar. Ou ainda, podemos dizer que a Predestinação e a liberdade são linhas paralelas; e enquanto Calvinistas podem não ser capazes de fazer delas uma só reta, os Arminianos não conseguem faze-las encontrarem-se. Ademais, se admitirmos o livre arbítrio no sentido de que a determinação absoluta dos eventos é colocada nas mãos do homem, podemos também escrever o termo com "L" e com "A" maiúsculos; pois então o homem terá se tornado como Deus, -- um primeiro motivo, uma ação original, -- e teremos tantos "semi-deuses" como teremos "livres-arbítrios". A menos que a soberania de Deus se acabe, não podemos permitir tal independência do homem. É bastante notável -- e em um sentido é até reconfortante observar o fato -- que filósofos materialistas e metafísicos negam tão completamente como o fazem os Calvinistas, esta coisa que é chamada de livre arbítrio. Eles raciocinam que cada efeito deve ter uma causa suficiente; e para cada ação da vontade, buscam encontrar um motivo o qual o momento seja ao menos forte o bastante para controlar.

7. PROVAS NA BÍBLIA

As Escrituras Sagradas ensinam que a soberania Divina e a liberdade humana co-operam em perfeita harmonia; que enquanto Deus é o Governador soberano e a causa primária, o homem é livre dentro dos limites da sua natureza e é a causa secundária; e que Deus tanto controla os pensamentos e as vontades dos homens que eles livremente e voluntariamente fazem o que Ele planejou para eles fazerem.

Um exemplo clássico da cooperação da soberania Divina e da liberdade humana é encontrado na história de José. José foi vendido ao Egito, onde ele cresceu em autoridade e prestou um grande serviço, ao prover alimentos em tempos de escassez e fome. Foi, é claro, um ato muito pecaminoso dos filhos de Jacó, o fato de haverem vendido o seu irmão caçula como escravo para um povo ateu, de um país ateu. Eles tinham consciência de estarem agindo livremente, e anos mais tarde eles admitiram a sua inteira culpa. (veja em Gênesis 42:21 = "Então disseram uns aos outros: Nós, na verdade, somos culpados no tocante a nosso irmão, porquanto vimos a angústia da sua alma, quando nos rogava, e não o quisemos atender; é por isso que vem sobre nós esta angústia." e também em Gênesis 45:3 = "Disse, então, José a seus irmãos: Eu sou José; vive ainda meu pai? E seus irmãos não lhe puderam responder, pois estavam pasmados diante dele."). José, todavia, pôde dizer-lhes, "Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos aborreçais por me haverdes vendido para cá; porque para preservar vida é que Deus me enviou adiante de vós .... Assim não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus..." e ainda, "Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; Deus, porém, o intentou para o bem, para fazer o que se vê neste dia, isto é, conservar muita gente com vida."[Gênesis 45:5, 8 e 50:20]. Os irmãos de José simplesmente seguiram as tendências más das suas naturezas; todavia o seu ato foi um elo na cadeia de eventos através da qual Deus atingiu o Seu propósito; e a sua culpa não foi diminuída ou considerada menor por haver sido, o mal que intentaram, anulado pelo bem.

Faraó agiu muito injustamente para com o povo que governava, os Filhos de Israel; todavia ele foi simplesmente instrumento para o cumprimento do propósito de Deus, como Paulo escreveu, "Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra."[Romanos 9:17 (veja também Êxodo 9:16 = "mas, na verdade, para isso te hei mantido com vida, para te mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra."; e Êxodo 10:1, 2 = "Depois disse o Senhor a Moisés: vai a Faraó; porque tenho endurecido o seu coração, e o coração de seus servos, para manifestar estes meus sinais no meio deles, e para que contes aos teus filhos, e aos filhos de teus filhos, as coisas que fiz no Egito, e os meus sinais que operei entre eles; para que vós saibais que eu sou o Senhor.")]. Alguns dos planos de Deus são executados em se reprimindo os atos pecaminosos dos homens. Quando os Israelitas iam até Jerusalém três vezes ao ano, para as festas, Deus reprimiu a cobiça das tribos vizinhas, para que a terra dos Israelitas não fosse molestada (veja em Êxodo 34;24 = "porque eu lançarei fora as nações de diante de ti, e alargarei as tuas fronteiras; ninguém cobiçará a tua terra, quando subires para aparecer três vezes no ano diante do Senhor teu Deus."). Ele pôs no coração de Ciro, o rei ateu da Pérsia, o reconstruir do templo em Jerusalém (veja em Esdras 1:1-3 = "No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor proferida pela boca de Jeremias, despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, de modo que ele fez proclamar por todo o seu reino, de viva voz e também por escrito, Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus do céu me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que é em Judá. Quem há entre vós de todo o seu povo (seja seu Deus com ele) suba para Jerusalém, que é em Judá, e edifique a casa do Senhor, Deus de Israel; ele é o Deus que habita em Jerusalém."). A Bíblia nos diz, "Como corrente de águas é o coração do rei na mão do Senhor; ele o inclina para onde quer."[Provérbios 21:1]. E se Ele inclina o coração do rei com tal facilidade, certamente Ele também pode inclinar o coração de homens comuns.

Em Isaías 10:5-15 nós encontramos uma ilustração notável, da maneira pela qual a soberania Divina e a liberdade humana agem juntas em perfeita harmonia: "(5) Ai da Assíria, a vara da minha ira, porque a minha indignação é como bordão nas suas mãos. (6) Eu a envio contra uma nação ímpia; e contra o povo do meu furor lhe dou ordem, para tomar o despojo, para arrebatar a presa, e para os pisar aos pés, como a lama das ruas. (7) Todavia ela não entende assim, nem o seu coração assim o imagina; antes no seu coração intenta destruir e desarraigar não poucas nações. (8) Pois diz: Não são meus príncipes todos eles reis? (9) Não é Calnó como Carquêmis? não é Hamate como Arpade? e Samaria como Damasco? (10) Do mesmo modo que a minha mão alcançou os reinos dos ídolos, ainda que as suas imagens esculpidas eram melhores do que as de Jerusalém e de Samaria. (11) como fiz a Samaria e aos seus ídolos, não o farei igualmente a Jerusalém e aos seus ídolos? (12) Por isso acontecerá que, havendo o Senhor acabado toda a sua obra no monte Sião e em Jerusalém, então castigará o rei da Assíria pela arrogância do seu coração e a pomba da altivez dos seus olhos. (13) Porquanto diz ele: Com a força da minha mão o fiz, e com a minha sabedoria, porque sou entendido; eu removi os limites dos povos, e roubei os seus tesouros, e como valente abati os que se sentavam sobre tronos. (14) E achou a minha mão as riquezas dos povos como a um ninho; e como se ajuntam os ovos abandonados, assim eu ajuntei toda a terra; e não houve quem movesse a asa, ou abrisse a boca, ou chilreasse. (15) Porventura gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele? ou se engrandecerá a serra contra o que a maneja? como se a vara movesse o que a levanta, ou o bordão levantasse aquele que não é pau!" Com relação a esta passagem, Rice diz: "Qual é o significado óbvio desta passagem? Ela ensina, em primeiro lugar, e da forma mais direta e sem qualquer equívoco, que o rei da Assíria, embora um homem ímpio e orgulhoso, nada mais era que um instrumento nas mãos de Deus, como o machado, ou a serra, ou um caniço nas mãos de um pescador, para executar os propósitos de Deus sobre os Judeus; e que Deus tinha controle perfeito dele. Esta passagem também ensina, em segundo lugar, que a liberdade de ação do rei não foi destruída ou amputada por aquele controle, mas que ele era perfeitamente livre para fazer os seus próprios planos e para ser governado pelos seus próprios desejos. Pois está declarado que ele não tinha intenção de executar os propósitos de Deus, mas sim de promover os seus próprios projetos ambiciosos. 'Seja como for, ele não intentou, nem o seu coração desejou; mas no seu coração estava sim o propósito de destruir e dizimar nações, não só uns poucos.' Consequentemente, tal fato ensina, em terceiro lugar, que o rei foi justamente responsabilizado pelo seu orgulho, e perversidade, embora Deus tenha prevalecido sobre ele de tal forma que ele cumpriu os Seus sábios propósitos. Deus decretou punir e purificar os Judeus pelos seus pecados. Ele escolheu usar o rei da Assíria para executar tal propósito, e portanto fez com que marchasse contra eles. Ele mais tarde puniria o rei pelos seus planos perversos. Não é evidente, então, além de toda contestação, que as Escrituras Sagradas ensinam que Deus pode e verdadeiramente controla os homens, mesmo homens perversos, de forma a fazer com que os Seus propósitos se concretizem, sem contudo interferir com a sua liberdade?" 9

Para qualquer um que aceite a Bíblia como a Palavra de Deus, é absolutamente certo que a crucificação de Cristo -- o evento mais pecaminoso de toda a história -- foi pré ordenado: "(27) Porque verdadeiramente se ajuntaram, nesta cidade, contra o Teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os povos de Israel; (28) para fazerem tudo o que a Tua mão e o Teu conselho predeterminaram que se fizesse."[Atos 4:27, 28]; "a Este, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós matastes, crucificando-O pelas mãos de iníquos"[Atos 2:23]; e "Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os Seus profetas havia anunciado que o Seu Cristo havia de padecer."[Atos 3:18]. "(27) Pois, os que habitam em Jerusalém e as suas autoridades, porquanto não conheceram a este Jesus, condenando-O, cumpriram as mesmas palavras dos profetas que se ouvem ler todos os sábados. (28) E, se bem que não achassem nEle nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que Ele fosse morto. (29) Quando haviam cumprido todas as coisas que dEle estavam escritas, tirando-O do madeiro, O puseram na sepultura."[Atos 13:27-29].

E não somente a crucificação em si mesma foi pré ordenada, mas também muitos dos fatos que ocorreram durante o evento, tais como: o repartir das vestes e o lançar da sorte por sua túnica (veja em Salmo 22:18 = "Repartem entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançam sortes"; e João 19:23, 24 = "Tendo, pois, os soldados crucificado a Jesus, tomaram as suas vestes, e fizeram delas quatro partes, para cada soldado uma parte. Tomaram também a túnica; ora a túnica não tinha costura, sendo toda tecida de alto a baixo. Pelo que disseram uns aos outros: Não a rasguemos, mas lancemos sortes sobre ela, para ver de quem será [para que se cumprisse a escritura que diz: Repartiram entre si as minhas vestes, e lançaram sortes]. E, de fato, os soldados assim fizeram."); o haverem Lhe oferecido fel e vinagre para beber (veja em Salmo 69:21 = "Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre."; e Mateus 27:34 = "deram-lhe a beber vinho misturado com fel; mas ele, provando-o, não quis beber.", e João 19:29 = "Estava ali um vaso cheio de vinagre. Puseram, pois, numa cana de hissopo uma esponja ensopada de vinagre, e lha chegaram à boca."); a pilhéria por parte do povo (veja em Salmo 22:6-8 = "...opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me vêem zombam de mim, arreganham os beiços e meneiam..."; e Mateus 27:39 = "E os que iam passando blasfemavam dele, meneando a cabeça"); o fato de O haverem associado a ladrões (veja em Isaías 53:12 = "Pelo que lhe darei o seu quinhão com os grandes, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu."; e Mateus 27:38 = "Então foram crucificados com ele dois salteadores, um à direita, e outro à esquerda."); que nenhum dos Seus ossos seria quebrado (veja em Salmo 34;20 = "Ele lhe preserva todos os ossos; nem sequer um deles se quebra."; e João 19:33, 36 = "mas vindo a Jesus, e vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas" ... "Porque isto aconteceu para que se cumprisse a escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado."); o traspassar com a lança (veja em Zacarias 12:10 = "...e olharão para aquele a quem traspassaram, e o prantearão como quem pranteia por seu filho único...", e João 19:34-37 = "contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água" ... "Também há outra escritura que diz: Olharão para aquele que traspassaram."); assim como vários outros eventos que foram descritos e gravados. Ouça à babel do inferno ao redor da cruz, e diga se aqueles homens não eram livres! Todavia leia todas as previsões e profecias e recorde novamente a tragédia e diga se cada um daqueles incidentes não havia sido pré ordenado por Deus! Ademais, estes mesmos eventos não poderiam haver sido preditos pelos profetas do Antigo Testamento, séculos antes eles viessem a acontecer, a menos que eles fossem absolutamente certos no plano pré ordenado de Deus. Todavia, enquanto pré ordenados, aqueles eventos foram executados, foram levados a efeito por agentes que eram ignorantes acerca de quem Cristo realmente era, e que eram igualmente ignorantes do fato de que eles estavam cumprindo, estavam realizando os decretos divinos (veja em Atos 13:27; 13:29; 3:17,18= "Pois, os que habitam em Jerusalém e as suas autoridades, porquanto não conheceram a Este Jesus, condenando-O, cumpriram as mesmas palavras dos profetas que se ouvem ler todos os sábados." ... "Quando haviam cumprido todas as coisas que Dele estavam escritas, tirando-O do madeiro, O puseram na sepultura" ... "Agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades. Mas Deus assim cumpriu o que já dantes pela boca de todos os Seus profetas havia anunciado que o Seu Cristo havia de padecer."). Assim é que se engolimos o camelo ao acreditar que o mais pecaminoso evento em toda a história estava no plano pré ordenado de Deus, e que tal fato foi sobrepujado pela redenção do mundo, engasgaremos com o mosquito em recusarmo-nos a acreditar que também os menores eventos nas nossas vidas diárias fazem parte daquele plano, e que são todos designados para bons propósitos?

MAIS PROVAS NAS ESCRITURAS

Provérbios 16:9 = "O coração do homem propõe o seu caminho; mas o Senhor lhe dirige os passos."

Jeremias 10:23 = "Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho; nem é do homem que caminha o dirigir os seus passos."

Êxodo 12:36 = "E o Senhor deu ao povo graça aos olhos dos egípcios, de modo que estes lhe davam o que pedia; e despojaram aos egípcios."

Esdras 6:22 = "e celebraram a festa dos pães ázimos por sete dias com alegria; porque o Senhor os tinha alegrado, tendo mudado o coração do rei da Assíria a favor deles, para lhes fortalecer as mãos na obra da casa de Deus, o Deus de Israel."

Esdras 7:6 = "este Esdras subiu de Babilônia. E ele era escriba hábil na lei de Moisés, que o Senhor Deus de Israel tinha dado; e segundo a mão de Senhor seu Deus, que estava sobre ele, o rei lhe deu tudo quanto lhe pedira."

Isaías 44:28 = "que digo de Ciro: Ele é meu pastor, e cumprira tudo o que me apraz; de modo que ele também diga de Jerusalém: Ela será edificada, e o fundamento do templo será lançado."

Apocalipse 17:17 = "Porque Deus lhes pôs nos corações o executarem o intento dele, chegarem a um acordo, e entregarem à besta o seu reino, até que se cumpram as palavras de Deus."

I Samuel 2:25 = "Se um homem pecar contra outro, Deus o julgará; mas se um homem pecar contra o Senhor, quem intercederá por ele? Todavia eles não ouviram a voz de seu pai, porque o Senhor os queria destruir."

I Reis 12:11, 15 = "Assim que, se meu pai vos carregou dum jugo pesado, eu ainda aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites; eu, porém, vos castigarei com escorpiões.", "O rei, pois, não deu ouvidos ao povo; porque esta mudança vinha do Senhor, para confirmar a palavra que o Senhor dissera por intermédio de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate."

II Samuel 17:14 = "Então Absalão e todos os homens e Israel disseram: Melhor é o conselho de Husai, o arquita, do que o conselho de Aitofel: Porque assim o Senhor o ordenara, para aniquilar o bom conselho de Aitofel, a fim de trazer o mal sobre Absalão.
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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