domingo, 13 de abril de 2014

As Piores Coisas (1/8)

Um trecho do sermão “A Divine Cordial” (Um Tônico Divino)- 1663
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito”. (Romanos 8:28)

1. O mal da AFLIÇÃO coopera para o bem do homem piedoso.

Algo que nos aquieta o coração é considerar que em todas as aflições, Deus está operando de forma especial: “o Todo-Poderoso me tem feito mal” (Rute 1:21). Instrumentos não podem mais se mexer até que Deus ordene, da mesma forma que um machado não pode cortar sem uma mão.  Jó viu Deus em sua aflição, mas com Agostinho observa, ele não diz: “O Senhor deu e o diabo tirou”, mas “O Senhor tirou”.  Seja quem for que nos traz aflição, é Deus quem a envia.
Outra consideração que nos aquieta o coração é que as aflições cooperam para o bem.  “Eu os enviei para o cativeiro para o seu próprio bem.” (Jeremias. 24:6) [1]. O cativeiro de Judá na Babilônia foi para seu bem. “Foi-me bom ter sido afligido” (Salmo 119:71). Que esse texto, como a vara de Moisés lançada nas águas amargas da aflição, possa fazê-las doce e salutar para que você as beba.  Aflições são medicinais para o homem piedoso. Da droga mais venenosa Deus extrai nossa salvação.  Aflições são tão necessárias quanto as ordenanças (1 Pedro 1:6). Nenhum vaso pode ser feito de ouro sem fogo; assim é impossível que sejamos vasos de honra, a não ser que sejamos derretidos e refinados na fornalha da aflição. “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade” (Salmo 25:10). Assim como o pintor mistura cores claras com sombras escuras; então o sábio Deus mistura misericórdia com julgamento. Aquelas providências aflitivas que parecem ser prejudiciais, são benéficas. Vamos ver alguns exemplos das Escrituras:
Os irmãos de José o jogaram em um poço; posteriormente eles o venderam; depois ele é jogado numa prisão; apesar disso, tudo isso cooperou para seu bem.  A sua humilhação foi que causou sua progressão, ele se tornou o segundo homem no reino. “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem” (Gênesis 50:20).
Jacó lutou com o anjo, e a junta da sua coxa foi deslocada. Isto foi triste, mas Deus o tornou em bem, pois lá ele viu a face de Deus e lá o Senhor o abençoou. “Aquele lugar chamou Jacó Peniel, pois disse: “Tenho visto a Deus face a face” (Gênesis 32:30). Quem não estaria disposto a ter um osso deslocado para que pudesse ter uma visão de Deus?
O rei Manassés foi amarrado em cadeias. Foi algo triste de se ver – uma coroa de ouro se transformou em grilhões. Mas isso cooperou para seu bem. “Assim o SENHOR trouxe sobre eles os capitães do exército do rei da Assíria, os quais prenderam a Manassés com ganchos e, amarrando-o com cadeias, o levaram para babilônia. E ele, angustiado, orou deveras ao SENHOR seu Deus, e humilhou-se muito perante o Deus de seus pais; e fez-lhe oração, e Deus se aplacou para com ele, e ouviu a sua súplica, e tornou a trazê-lo a Jerusalém, ao seu reino. Então conheceu Manassés que o SENHOR era Deus” (2 Crônicas 33:11-13). Ele era mais devedor a sua cadeia de ferro do que a sua coroa de ouro. Uma o fez orgulhoso, a outra o fez humilde.
Jó foi um espetáculo de miséria; ele perdeu tudo que sempre teve; ele abundou somente em feridas e úlceras. Foi algo triste; mas isso cooperou para seu bem, sua virtude foi provada e melhorada. Do céu Deus deu testemunho de sua integridade, e o compensou sua perda dando o dobro de tudo o que antes possuíra (Jó 42:10).
Paulo foi atingido por uma cegueira. Foi algo desconfortável; mas isso se tornou em bem para ele. Deus, pela sua cegueira, fez com que a luz da graça brilhasse em sua alma; isso foi o começo de uma feliz conversão (Atos 9).
Assim como as duras geadas no inverno trazem as flores na primavera; assim como a noite precede a estrela da manhã. Assim os males da aflição produzem muito bem para aqueles que amam a Deus. Mas estamos prontos a questionar a veracidade disso, e dizer, como Maria disse ao anjo, “Como pode ser isso?” Portanto lhe mostrarei muitas maneiras de como as aflições cooperam para o bem.
(1). Aflição coopera para o bem como nosso pregador e mestre: “Ouvi a vara” (Miquéias 6:9). Lutero disse que ele não pôde entender corretamente alguns dos Salmos até que ele esteve em aflição.
Aflição ensina o que é o pecado.  Na palavra pregada, nós ouvimos como o pecado é uma coisa horrível, ele tanto mancha quanto condena – mas nós o tememos tanto quanto um leão numa pintura; portanto Deus permite a aflição e então sentimos o amargo do pecado em seu próprio fruto.  Um leito enfermo geralmente ensina mais que um sermão.  Nós podemos ver melhor o feio semblante do pecado quando olhamos pelas lentes da aflição!
Aflição nos ensina a conhecermos a nós mesmos. Na prosperidade nós somos na maioria das vezes estranhos a nós mesmos. Deus nos aflige para que possamos nos conhecer melhor. É em tempo de aflições que vemos aquela corrupção em nossos corações que não acreditaríamos que estava lá.  A água parece limpa num copo, mas ponha ela no fogo e a sua impureza vai fervilhar. Na prosperidade, um homem parece ser humilde e grato, a água parece limpa; mas ponha esse homem um pouco no fogo da aflição, e suas impurezas começam a fervilhar; muita impaciência e incredulidade começam a aparecer. “Oh”, diz um Cristão, “eu nunca pensei que tinha um coração tão mau, agora eu vejo que tenho! Eu nunca pensei que minhas corrupções fossem tão fortes e minhas virtudes tão fracas.”
(2). Aflições cooperam para o bem, pois elas são meios de fazer com que o coração seja mais voltado para o alto. Na prosperidade o coração está apto para ser dividido (Oséias 10:2). O coração se divide em uma parte para Deus e outra para o mundo. É como uma agulha entre dois imãs: Deus puxa de um lado e o mundo do outro. Agora Deus afasta o mundo para que o coração possa se inclinar mais a Ele em sinceridade. A correção põe o coração numa posição reta e correta. Assim como às vezes nós seguramos uma barra de ferro torta sobre o fogo para endireitá-la; Deus nos segura sobre o fogo da aflição para nos fazer mais retos e mais voltados para o alto. Oh, como é bom, quando o pecado nos entortou a alma para longe de Deus, aquela aflição pode nos endireitar de novo! 
(3). Aflições cooperam para o bem, pois elas nos moldam à imagem de Cristo. A vara de Deus é como um pincel que pinta a imagem de Cristo de forma cada vez mais vívida em nós. É bom que haja uma simetria e uma proporção entre o Cabeça e os membros.  Seríamos parte do corpo místico de Cristo sem sermos parecidos com Ele? Sua vida, como diz Calvino, foi uma série de sofrimentos, “homem de dores, e experimentado nos sofrimentos” (Isaías 53:3). Ele chorou e sangrou. Sua cabeça foi coroada com espinhos, e nós achamos que seremos coroados com rosas? É bom ser parecido com Cristo mesmo que seja através das aflições. Jesus Cristo bebeu um amargo cálice, e só de pensar nisso O fez suar gotas de sangue; e, embora Ele tenha bebido o veneno que havia no cálice (a ira de Deus), ainda há algum absinto no cálice que os santos devem beber;  apenas aqui está a diferença entre o sofrimento de Cristo e o nosso: o dEle foi expiatório e o nosso é apenas purificador.

[1] n.t.: traduzido livremente da versão New Living Translation. As versões em português trazem “Porei os meus olhos sobre eles, para o seu bem”.
Por Thomas Watson. Original: A Divine Cordial By Thomas Watson
Fonte: Voltemos Ao Evangelho
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...