terça-feira, 29 de abril de 2014

As Piores Coisas (6/8)

Um trecho do sermão “A Divine Cordial” (Um Tônico Divino)- 1663
Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito. (Romanos 8:28)

3. O mal do ABANDONO coopera para o bem do piedoso.

(4). COMO esses abandonos cooperam para o bem do piedoso.
1. O abandono cura a alma da preguiça. Encontramos a esposa caída na cama da preguiça: “Eu dormia” (Ct. 5:2). E logo Cristo havia ido embora. “Meu amado tinha se retirado” (Ct. 5:6). Quem conversará com alguém que está sonolento?
2. O abandono cura a afeição desordenada do mundo. “Não ameis o mundo” (1João 2:15). Podemos segurar o mundo como um ramo de flores em nossa mão; mas ele não deve estar muito perto do nosso coração! Podemos usá-lo como uma pousada onde comemos a refeição; mas ele não pode ser nosso lar. Talvez, essas coisas seculares roubem demais o coração. Homens piedosos são muitas vezes vergados pela superabundância de coisas temporais, e embriagados com os saborosos deleites da prosperidade. E tendo manchado suas asas prateadas de graça, e muito desfigurado a imagem de Deus esfregando-a contra a terra; o Senhor, para recuperá-los disso, esconde Sua face em uma nuvem. Esse eclipse tem bons efeitos; ele escurece toda a glória do mundo, e faz com que ela desapareça.
3. O abandono coopera para o bem — enquanto faz com que os santos valorizem o semblante de Deus mais do que nunca. “Tua graça é melhor que a vida” (Salmo 63:3). Ainda assim, a frequência dessa misericórdia a reduz em nossa estima. Quando pérolas se tornaram comuns em Roma, elas começaram a ser desconsideradas. Deus não tem maneira melhor de nos fazer valorizar Seu amor, do que removê-lo por um tempo. Se o sol brilhasse não mais que uma vez por ano, como ele seria valorizado! Quando a alma tem sido ignorada por muito tempo com o abandono, ah, quão bem vindo é agora o retorno do Sol da justiça!
4. O abandono coopera para o bem — enquanto é o meio de tornar o pecado amargo para nós. Pode haver maior tristeza do que ter a desaprovação de Deus? O que faz o inferno, senão a ocultação do rosto de Deus? E o que faz Deus esconder Seu rosto, senão o pecado? “Levaram meu Senhor, e eu não sei onde o puseram” (João 20:13). Exatamente assim, nossos pecados levaram o Senhor, e nós não sabemos onde ele O pôs. O favor de Deus é a melhor joia; pode adoçar uma prisão e desenvenenar a morte. Ah, quão odioso então é o pecado, que nos rouba a nossa melhor joia! O pecado fez Deus abandonar seu templo (Ezequiel 8:6). O pecado faz com que Ele apareça como um inimigo, e Se vista com armadura. Isso faz a alma buscar o pecado com um santo rancor, e se vingar por isso! A alma abandonada dá ao pecado fel e vinagre para beber, e, com a lança da mortificação, deixa correr o sangue de seu coração!
5. O abandono coopera para o bem — quando faz com que a alma chore pela perda de Deus. Quando o sol se vai, o orvalho cai; e quando Deus se vai, lágrimas caem dos olhos. Como Mica ficou perturbado quando perdeu seus deuses! “Me tomastes os deuses que fiz (…) que mais me resta agora?” (Juízes 18:24). Então, quando Deus se vai, o que mais nos resta? A harpa ou o violino não podem confortar quando Deus se vai. Ainda que seja triste carecer da presença de Deus, é bom lamentar Sua falta.
6. O abandono faz com que a alma busque a Deus. Quando Cristo se foi, a esposa O busca. “O buscarei por todas as ruas e por todas as praças” (Cantares 3:2). E não O tendo encontrado, ela chora atrás dele: “Vistes aquele a quem ama minha alma?” (Cantares 3:3). A alma abandonada atira para o alto saraivadas de suspiros e gemidos. Ela bate nos portões celestiais através da oração; ela não consegue descansar até que os raios dourados da face de Deus brilhem!
7. O abandono coloca o cristão sob questionamento. Ele questiona a causa do afastamento de Deus. Qual foi a maldita coisa que fez Deus se irar? Talvez o orgulho, talvez a preguiça, talvez o mundanismo. “Me indignei e puni esse povo avarento. Escondi-me dele.” (Isaías 57:17). Talvez haja algum pecado escondido. Uma pedra no cano impede a corrente de águas. Exatamente assim, viver em pecado impede a doce corrente do amor de Deus. Portanto, a consciência, como um cão de caça, tendo achado o pecado e o surpreendido—este Acã é apedrejado até a morte!
8. O abandono coopera para o bem — enquanto nos dá uma visão do que Jesus Cristo sofreu por nós. Se o gole do cálice é tão amargo, quão amargo era o cálice cheio que Cristo bebeu até a última gota sobre a cruz? Ele bebeu um cálice de veneno mortal, que O fez clamar: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 22:46). Ninguém consegue estimar tanto os sofrimentos de Cristo, e ninguém consegue ser tão abrasado pelo amor de Cristo, quanto aqueles que foram humilhados no abandono, e foram suspensos sobre as chamas do inferno por um tempo.
9. O abandono coopera para o bem — enquanto prepara os santos para o consolo futuro. As fortes geadas preparam para as flores da primavera. Esse é o jeito de Deus: primeiro abater, depois consolar (2Coríntios 7:6). Quando nosso Salvador estava jejuando, depois vieram os anjos e O serviram. Quando o Senhor já manteve Seu povo jejuando por muito tempo, depois ele envia o Consolador, e os alimenta com o maná escondido. “A luz é semeada para o justo” (Salmo 97:11). O consolo dos santos pode estar escondido como a semente sob a terra; mas a semente está se rompendo, e irá crescer, e florescer e se tornar colheita!
10. Esses abandonos cooperam para o bem — enquanto tornarão o céu mais doce para nós. Aqui na terra, nossos consolos são como a lua: às vezes são plenos, às vezes diminuem. Deus mostra a Si mesmo a nós por um momento, e então se retira de nós. Como isso realçará mais o céu, e o tornará mais encantador e arrebatador, quando tivermos um constante semblante de amor vindo de Deus! (1Tessalonicenses 4:17).
Assim nós vemos os afastamentos trabalharem para Deus. O Senhor nos traz às profundezas do abandono, para que ele não nos traga às profundezas da condenação! Ele nos coloca num aparente inferno, para que ele nos livre do verdadeiro inferno. Deus está nos ajustando para o tempo em que iremos desfrutar de Seus sorrisos para sempre, quando não haverá nuvens em seu rosto ou pôr do sol; quando Cristo vier para estar com Sua esposa, e a esposa nunca mais dirá: “Meu amado se afastou!”
Por Thomas Watson. Original: A Divine Cordial By Thomas Watson
 Fonte: Voltemos Ao Evangelho
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