quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 3 [05/08]



Que Representa a Deus como Discriminador de Pessoas, ou Como Injustamente Parcial

1. Dificuldades Enfrentadas Por Todos Os Sistemas. 2. Deus Não É Discriminador de Pessoas. 3. Deus Claramente Não Trata Todos Os Povos Igualmente; Ele Dá A Alguns O Que Ele Retém De Outros. 4. A Parcialidade De Deus É Em Parte Explicada Pelo Fato De Que Ele É Soberano E Que As Suas Dádivas São Dádivas de Graça.

1. DIFICULDADES ENFRENTADAS POR TODOS OS SISTEMAS.

Se todos os homens estão mortos em pecados; e destituídos do poder para restaurarem-se a si mesmos para a vida espiritual, por que, pergunta-se, Deus exercita o Seu maravilhoso poder para regenerar alguns, enquanto Ele deixa outros a perecer? Justiça, é dito, demanda que todos devessem ter igual oportunidade; que devessem ter, seja por natureza ou pela graça, poder para assegurar a sua própria salvação. Deve ser lembrado, contudo, que objeções como estas não são apresentadas somente contra o sistema Calvinista de teologia. Elas são na verdade levantadas por ateístas contra o Teísmo. É questionado, se Deus é infinito em poder e santidade, por que Ele permite tanto pecado e miséria existirem no mundo? E por que aos perversos é tantas vezes permitido prosperarem durante longos períodos de tempo, enquanto que os retos e justos muitas vezes amargam pobreza e sofrimentos?

É claro o bastante que os sistemas anti-Calvinistas não podem oferecer soluções reais para estas dificuldades. Admitindo-se que a regeneração é ato dos próprios pecadores e que cada homem tem habilidade, capacidade e conhecimento suficientes para garantir a sua própria salvação; continua sendo verdade que no presente estado do mundo somente - comparativamente - alguns são salvos, e que Deus não Se interpõe para evitar que a maioria dos homens adultos pereçam nos seus pecados. Os Calvinistas não negam que estas dificuldades existam, eles somente mantém que tais problemas não são peculiares ao seu sistema, e se contentam com a solução parcial deles, a qual é dada pelas Escrituras. A Bíblia ensina que o homem foi criado santo; que ele deliberadamente desobedeceu a lei divina e caiu em pecado; que como resultado disso a posteridade de Adão veio ao mundo num estado de morte espiritual; que Deus nunca força-os a pecarem mais, mas que ao contrário Ele exerce influências as quais deviam induzir as criaturas racionais a arrependerem-se e a procurar a Sua graça santificadora; que todos os que sinceramente arrependem-se e buscam esta graça são salvos; e que pelo exercício do Seu maravilhoso poder, vastas multidões que do contrário teriam continuado no seu pecado são trazidas à salvação.

2. DEUS NÃO É DISCRIMINADOR DE PESSOAS. 

Um "discriminador de pessoas" é aquele que, agindo como um juiz, não trata aqueles que vêm até si conforme o seu caráter, mas que reprime de alguns o que deles é com justiça e dá a outros o que não é justamente deles -- aquele que é guiado por preconceito e motivos sinistros, ao invés de lei e justiça. As Escrituras negam que Deus seja um discriminador de pessoas neste sentido; e se a doutrina da Predestinação representasse a Deus como fazendo tais coisas, admitimos que ela então O estaria acusando com injustiça.

Nas Escrituras Sagradas, está escrito que Deus não é discriminador de pessoas, pois Ele não escolhe um e rejeita outro por causa de circunstâncias exteriores tais como raça, nacionalidade, riqueza, poder, nobreza e etc. Pedro diz que Deus não discrimina pessoas porque Ele não faz distinção entre Judeus e Gentios. Sua conclusão, após ser divinamente enviado a pregar ao centurião Romano, Cornélius, foi que "...Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo."[Atos 10:34, 35]. Durante toda a sua história passada, os Judeus tinham crido que eram como nação, os objetos exclusivos do favor de Deus. Uma leitura cuidadosa de Atos 10:1 até 11:18 mostrará que ideia revolucionária era a de que o Evangelho devesse ser pregado também aos Gentios.

Igualmente, Paulo diz: "(10) glória, porém, e honra e paz a todo aquele que pratica o bem, primeiramente ao judeu, e também ao grego; (11) 11 - pois para com Deus não há acepção de pessoas."[Romanos 2:10, 11]. E novamente, "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus."[Gálatas 3:28]. E então ele acrescenta que não são aqueles que são Judeus exteriormente, mas aqueles que são de Cristo é que são - no mais alto sentido - "a semente de Abraão", e "herdeiros conforme a promessa"[vv 29]. Noutra carta, tanto aos escravos como os mestres é comandado tratarem uns aos outros justamente; pois Deus, que é o Mestre de ambos, não discrimina ninguém [veja em Efésios 6:5-9 = "(5) Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo, (6) não servindo somente à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus, (7) servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. (8) Sabendo que cada um, seja escravo, seja livre, receberá do Senhor todo bem que fizer. (9) E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor tanto deles como vosso está no céu, e que para com ele não há acepção de pessoas."]; e igualmente na carta aos Colossenses 3:18-25 as relações entre pais e filhos e entre esposas e maridos são incluídas (vv 25 = "...e não há acepção de pessoas."). Tiago escreveu que Deus não é discriminador porque Ele não faz distinção entre o rico e o pobre, nem entre aqueles que vestem roupas finas e aqueles que vestem-se sordidamente [veja em Tiago 2:1-9 = "(1) Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. (2) Porque, se entrar na vossa reunião algum homem com anel de ouro no dedo e com traje esplêndido, e entrar também algum pobre com traje sórdido. (3) e atentardes para o que vem com traje esplêndido e lhe disserdes: Senta-te aqui num lugar de honra; e disserdes ao pobre: Fica em pé, ou senta-te abaixo do escabelo dos meus pés, (4) não fazeis, porventura, distinção entre vós mesmos e não vos tornais juízes movidos de maus pensamentos? (5) Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que são pobres quanto ao mundo para fazê-los ricos na fé e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? (6) Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não são os ricos os que vos oprimem e os que vos arrastam aos tribunais? (7) Não blasfemam eles o bom nome pelo qual sois chamados? (8) Todavia, se estais cumprindo a lei real segundo a escritura: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem. (9) Mas se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo por isso condenados pela lei como transgressores"]. O termo "pessoa" nestes versos significa, não o homem interior, ou a alma, mas a aparência externa, a qual muitas vezes carrega tantas influências conosco. Assim é que quanto as Escrituras dizem que Deus não é discriminador de pessoas (i.e. que Ele não faz acepção de pessoas), não significa que Ele trata a todos igualmente, mas que a razão para que Ele salve um enquanto rejeita outro não é por um ser Judeu e o outro um Gentio, ou que porque um é rico e o outro pobre, etc.

3. DEUS CLARAMENTE NÃO TRATA TODOS OS POVOS IGUALMENTE; ELE DÁ A ALGUNS O QUE ELE RETÉM DE OUTROS. 

É fato que no Seu providencial governo do mundo Deus não confere os mesmos ou iguais favores a todas as pessoas. A desigualdade é muito brilhante para ser negada. As Escrituras nos dizem, e a experiência no dia a dia da vida nos confirma, que existe a grande variação na distribuição daqueles favores, -- e tão justamente, pois todos eles são de graça, e não de débito. Aqui o Calvinista retrocede, recua ante a realidade experimentada dos fatos. É verdade, e nenhum argumento pode provar o contrário, que os homens neste mundo descobrem serem desigualmente favorecidos, tanto numa disposição interior como em circunstâncias exteriores. Uma criança nasce com saúde, para honra, em riqueza, com pais eminentemente bons e sábios que criam-na e a educam desde a infância na sustentação e na admoestação do Senhor, e que lhe proporcionam toda oportunidade de receber o ensino da verdade como apresentada nas Escrituras Sagradas. Outra criança, no entanto, nasce para a doença, para a desonra, na pobreza, com pais depravados e dispersos que rejeitam e ridicularizam e desprezam o Cristianismo, e que cuidam de evitar que seus filhos venham a estar sob a influência do Evangelho. Alguns nascem com consciência e com corações suscetíveis, os quais fazem com que vidas de inocência e de pureza sejam-lhes naturais; outras nascem com paixões violentas, ou mesmo com tendências distintas para o mal, as quais são aparentemente herdades e inconquistáveis. Alguns são felizes, outros são miseráveis. Alguns nascem em países, em nações, em terras Cristãs onde são cuidadosamente cuidados e educados; outros nascem em trevas de completo ateísmo. Como regra geral, a criança que é cercada pelas influências Cristãs apropriadas torna-se Cristão devoto e vive uma vida de grandes serviços, enquanto que a outra cujo caráter é formado sob a influência de ensinamentos e de exemplos corruptos, vive na perversidade, na impiedade, e morre impenitente. Uma é salva e a outra é perdida. E alguém negará que as influências favoráveis para a salvação, as quais são trazidas a trabalhar sobre alguns indivíduos são muito mais favoráveis que aquelas trazidas a trabalhar sobre outros? Não será admitido por toda pessoa honesta, imparcial e sem preconceitos que, se uma pessoa trocasse de lugar com outra, elas provavelmente também trocariam os seus caracteres? -- que se o filho de pais reverentes a Deus fosse o filho de infiéis, e tivesse vivido sob as mesmas influências corruptoras ele teria - com todas probabilidades - morrido nos seus pecados? Em Sua misteriosa providência, Deus colocou pessoas sob influências extremamente diferentes, e os resultados são também extremamente diferentes. É claro que Ele previu estes resultados diferentes antes que as pessoas nascessem. Tais são fatos os quais ninguém pode negar ou explicar. E se crermos que o mundo é governado por um Ser pessoal e inteligente, devemos crer também que estas desigualdades não apareceram por acaso ou por acidente, mas através de um propósito e de um desígnio, e que a porção de cada indivíduo foi determinada pelo beneplácito soberano de Deus. "Mesmo os Arminianos", diz N. L. Rice, "são obrigados a reconhecer que Deus não faz grandes diferenças no tratamento da família humana, não somente na distribuição de bênçãos temporais, mas de dádivas espirituais também, -- uma diferença que os compele, se eles fossem consistentes, a sustentar a doutrina da eleição . . . . . Se o enviar do Evangelho a um povo, com a influência divina o acompanhando, não equivaler a uma eleição pessoal, então muito seguramente o reprimi-lo de um povo geralmente equivale à reprovação." 1

Os Calvinistas meramente assumem que na dispensação da Sua graça Deus age precisamente como Ele faz ao conceder outros favores. Se em princípio fosse injusto para Deus ser parcial na distribuição de bens espirituais, seria não menos injusto para Ele ser parcial na Sua distribuição de bens temporais. Mas a bem da verdade, vemos que no exercício da Sua absoluta soberania, Ele faz as distinções maiores possíveis entre homens no nascimento, e que Ele assim o faz sem vínculo com quaisquer méritos pessoais na distribuição de bens temporais e dos meios essenciais para salvação. Assim é que a declaração que o Espírito Santo agiu "...distribuindo particularmente a cada um como quer."[I Coríntios 12:11]; e em nenhum lugar das Escrituras é dito que Deus é imparcial na comunicação da sua graça. Com relação ao Seu tratamento para com as nações, vemos que Deus favoreceu alguns muito mais grandemente que outros, -- nominalmente, Israel nos tempos antigos e Europa e América nos tempos hodiernos; enquanto que a África e o Oriente permaneceram em trevas e sob a maldição de religiões falsas, -- e tal é um fato que todos devem admitir.

Embora os Judeus fossem uma nação pequena e desobediente, Deus conferiu sobre eles favores os quais Ele não deu às outras nações do mundo. "De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido..."[Amós 3:2]. "Não fez assim a nenhuma das outras nações; e, quanto às suas ordenanças, elas não as conhecem..."[Salmo 147:20]. E de novo, "(1) Que vantagem, pois, tem o judeu? ou qual a utilidade da circuncisão? (2) Muita, em todo sentido; primeiramente, porque lhe foram confiados os oráculos de Deus."[Romanos 3:1,2]. Estes favores não foram concedidos por causa de quaisquer méritos dos Judeus neles mesmos, pois eles foram repetidamente repreendidos por serem "Mas este povo é de coração obstinado e rebelde;..."[Jeremias, 5:23]. Em Mateus 11:25-26 lemos de uma oração na qual Jesus disse, "...Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado." Com aquelas palavras Ele agradeceu ao Pai por fazer exatamente os que os Arminianos exclamam contra como sendo algo injusto; e censuram como sendo algo parcial.

Se for perguntado, Por que Deus não concede as mesmas bênçãos ou bênçãos equivalentes sobre todos os povos? Podemos responder somente, que tal não foi completamente revelado. Vemos na nossa vida real, que Ele não trata a todos igualmente. Por sábias razões somente a Ele mesmo conhecidas, Ele tem dado a alguns bênçãos às quais eles não tinham direito -- assim fazendo-os grandes devedores para com a Sua graça -- e Ele tem retido de outros dádivas as quais Ele não tinha nenhuma obrigação de conceder.

Não há, na verdade, nenhum membro desta raça caída que não seja tratado pelo seu Criador de melhor forma do que ele mereça. E desde que a graça é favor concedido ao que não merece, Deus tem o poder soberano de conceder mais graça sobre um objeto do que sobre outro. "O conceder da graça comum sobre os não eleitos," diz W. G. T. Shedd, "mostra que a não eleição não exclui do reino do céu por eficiência Divina, porque a graça comum não é um convite para crer e arrepender-se, mas uma ajuda real para tanto; e uma ajuda que é anulada somente por uma ação preventiva de Deus. A falta ou a falha da graça comum em salvar o pecador, é imputável somente no próprio pecador; e ele não tem nenhum direito de pleitear que uma falta sua própria seja a razão pela qual ele é qualificado a uma graça especial." 2

Se for objetado que Deus deve dar a cada homem uma oportunidade para ser salvo, respondemos que a chamada geral dá, efetivamente, a quem quer que a ouça, uma oportunidade para ser salvo. A mensagem é: "...Crê no Senhor Jesus e serás salvo,..."[ Atos 16:31]. Esta é uma oportunidade para ser salvo; e nada fora da própria natureza do homem evitará a sua crença. Shedd expressou esta ideia muito bem nas seguintes palavras: "Um mendigo que veementemente rejeita $5 oferecidos por um homem benevolente, não pode acusá-lo de não lhe dar $10, após ele haver rejeitado os $5. Qualquer pecador que reclama de Deus não haver-lhe concedido a graça da regeneração após ele haver abusado da graça comum, está virtualmente dizendo ao Alto e Santo que habita na eternidade, 'Tu tentaste uma vez converter-me do meu pecado; agora tenta novamente, e tenta com mais afinco.'"3 

Um argumento forte contra a objeção Arminiana de que esta doutrina faz Deus injustamente parcial, é encontrado no fato de que enquanto Deus estendeu a Sua graça salvadora aos homens caídos, Ele não fez provisões para a redenção do Diabo e dos anjos caídos. Se foi consistente com a justiça e com a bondade infinitas de Deus não redimir todo o conjunto de anjos caídos e deixá-los sofrer as conseqüências dos seus pecados, então é certamente consistente com a Sua justiça e com a Sua bondade não faze-lo também, para com alguns da raça de homens caídos e deixá-los no seu pecado. Quando o Arminiano admite que Cristo não morreu pelos anjos caídos ou pelos demônios, mas somente pelos homens caídos, ele admite uma expiação limitada e, em princípio, faz o mesmo tipo de distinção que o Calvinista faz quando diz que Cristo morreu somente pelos eleitos.

Os homens, com o seu conhecimento limitado e muitas vezes errôneo, não têm o direito de censurar a distribuição que Deus faz da Sua graça. Tão irracional quanto acusá-Lo injustamente de não haver feito anjos de todas as Suas criaturas e por não haver preservado-as todas em Santidade, como Ele fez com os anjos no céu (e Ele tinha o poder para faze-lo); seria acusá-Lo também injustamente de não haver redimido toda a humanidade. É tão difícil para nós compreender por que Ele permite que alguns pereçam eternamente, quanto o é difícil entender por que Ele salva alguns e não outros. Ele plenamente não evita, não previne a perdição daqueles que, além de qualquer dúvida, Ele tem o poder de salvar. E se aqueles que admitem a providência de Deus disserem que Ele tem razões sábias para permitir que tantos da nossa raça pereçam, aqueles que advogam a Sua soberania podem dizer que Ele tem sábias razões para salvar alguns e não outros. Também pode ser razoavelmente argumentado que uma vez que Deus pune alguns, Ele deveria punir a todos; mas ninguém vai tão longe.

Pode ser admitido que, do nosso ponto de vista humano, seria mais plausível e mais consistente com o caráter de Deus que ao pecado e à miséria nunca deveriam ter sido permitido entrarem no universo; ou se, quando eles entraram, provisões deveriam ter sido feitas para a sua eliminação do sistema, de modo que assim, todas as criaturas racionais seriam perfeitamente santas e felizes por toda a eternidade. Não haveria fim para tais planos, se cada pessoa tivesse a liberdade de construir, de estabelecer um plano de operações divinas de acordo com os seus próprios pontos de vista quanto ao que seria melhor e mais sábio. Fechamo-nos, contudo, para os fatos como são encontrados na Bíblia, nas obras providenciais a nosso respeito e nas nossas próprias experiências religiosas; e descobrimos que somente o sistema Calvinista de teologia é satisfeito pelos mesmos.

4. A PARCIALIDADE DE DEUS É EM PARTE EXPLICADA PELO FATO DE QUE ELE É SOBERANO E QUE AS SUAS DÁDIVAS SÃO DÁDIVAS DE GRAÇA. 

Não pode ser dito que Deus age injustamente para com aqueles que não estão incluídos neste plano de salvação. As pessoas que fazem esta objeção negligenciam-se a levar em consideração o fato de que Deus está lidando não simplesmente com criaturas, mas com criaturas pecadoras e condenadas que não têm quaisquer direitos ante a Sua misericórdia. Agostinho bem disse: "Danação é destinada aos perversos a título de débito, de justiça e de merecimento, enquanto que a graça dada àqueles aos quais entregue é livre e imerecida, de modo que pecador condenado não possa alegar que não merece o castigo, nem o santo gabar ou vangloriar como se fosse merecedor da recompensa. Assim, em todo o desenrolar deste procedimento, não há discriminação de pessoas. Aqueles que são condenados e os que são libertos constituíram ambos originalmente e somente um bando, igualmente infetado pelo pecado e condenáveis à vingança. Daí o homem justificado aprender que a condenação do resto é a que teria sido o seu próprio castigo, não tivesse ele sido resgatado pela graça de Deus." E no mesmo sentido Calvino diz: "O Senhor, portanto, pode dar a Sua graça a quem Ele queira, porque Ele é misericordioso, e todavia não a dá a todos porque Ele é um Juiz justo; Ele pode manifestar a sua graça livre ao dar a alguns o que eles não merecem nunca, enquanto que não dando a todos Ele declara o demérito de todos."

O termo "parcialmente", no sentido comumente utilizado por aqueles que apresentam objeções, é impossível de existir na esfera da graça. Tal palavra pode existir somente na esfera da justiça, onde as pessoas envolvidas têm certas demandas e certos direitos. Podemos dar uma esmola a um mendigo e não a outro, pois não devemos nada a nenhum deles. A parábola dos talentos foi contada pelo nosso Senhor para ilustrar a doutrina da Divina soberania no conceder dádivas imerecidas; e a regeneração é uma das maiores dentre estas dádivas.

O ensinamento central na parábola dos trabalhadores na vinha é que Deus é soberano na dispensação das Suas dádivas. Tanto aos salvos como aos não salvos igualmente Ele pode dizer, "...Amigo, não te faço injustiça; . . . . Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?"[Mateus 20:13, 15]. Foi dito a Moisés: "...terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer."[Êxodo 33:19]; e Paulo acrescenta: "Pois Ele disse a Moisés: terei misericórdia . . . . . . Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz."[Romanos 9:15, 18]. Ele estenderá a Sua misericórdia a alguns e infligirá justiça em outros, e será glorificado por todos. Justamente como um homem pode dar esmola a alguns e não a outros, assim Deus pode dar a Sua graça, que é esmola celeste, a quem Lhe aprouver. A graça, desde a sua própria natureza, deve ser livre; e exatamente a desigualdade na sua distribuição demonstra que ela é gratuita. Se alguém pudesse demandá-la justamente, ela cessaria de ser graça e passaria a ser dívida. Se Deus for roubado na Sua soberania, nesse respeito, a salvação então passa a ser obrigatória, passa a ser devida a cada pessoa.

Se dez homens devem a certo credor hum mil reais e ele, por razões próprias, perdoa o débido de sete mas cobra dos outros três, aqueles últimos não têm razão alguma para reclamar. Se três criminosos são sentenciados à forca por haverem cometido assassinato e se dois deles forem mais tarde perdoados da pena de morte -- talvez seja descoberto haverem eles prestado serviços notáveis para o seu país em tempos de guerra -- isto faria com que a execução do terceiro fosse injusta? Francamente, Não; pois no seu caso não há nenhuma causa interveniente quanto a por que ele não devesse sofrer pelo seu crime. E se um governo na terra pode com justiça assim proceder, não poderá o Senhor soberano de todo o universo agir da mesma forma para com os Seus objetos rebeldes? Quando toda a humanidade pode ter sido punida, como poderá Deus ser acusado de injustiça se Ele castigar somente uma parte dela? -- e sem dúvida, uma parte comparativamente pequena dela.

Warburtons dá uma ilustração muito apropriada, neste ponto. Ele supõe um caso no qual uma senhora vai até um orfanato e das centenas de crianças ali alojadas, ela escolhe uma, adota-a como seu próprio filho e deixa os outros. "Ela poderia ter escolhido outros; tivesse ela como manter outros; mas ela escolheu somente um. Você dirá que aquela mulher é injusta? Você dirá que ela não é bondosa, ou que não agiu com retidão, porque no exercício do seu direito e privilégio inquestionáveis ela escolheu aquela uma criança para desfrutar dos confortos da sua casa, e tornar-se herdeira das suas posses, e deixou as demais, possivelmente para perecer na vontade, ou afundar na condição miserável de crianças abandonadas? . . . . . Você já ouviu falar de qualquer acusação de injustiça, ou de falta de retidão, contra qualquer pessoa que tenha agido desta forma? Será que os homens, muito pelo contrário, não considerariam tal ação (a de ir até um orfanato e escolher uma criança para adoção) como uma ação digna de aplauso? Eles não falam nos mais altos termos acerca do amor, da piedade e da compaixão de tal pessoa? Agora, por que fazem isso? Por que eles não condenam o escolher de uma criança somente, e o deixar as restantes? Por que eles não reclamam ser tal ato injusto por haver sido aquela uma em particular escolhida, e não outra, ou todas? . . . . A razão é esta -- porque os homens sabem -- como nós também o sabemos -- que todas as crianças encontravam-se exatamente na mesma condição e que nem uma delas tinha qualquer reclamação, ou o mínimo vestígio de reclamação, quanto à pessoa cuja vontade e prazer era de adotar uma somente, para ser sua . . . . Você vê, ou você pode ver, alguma diferença entre o ato de Deus e o daquela senhora? As crianças naquele orfanato não tinham nenhum motivo para reclamar daquela senhora. Tampouco tiveram os homens caídos nenhuma razão para reclamar de Deus, e da escolha livre de Deus, portanto, pois tanto como foi gratuita e imerecida, também foi reta e justa. E esta pré escolha de Deus, livre e imerecida, à vista da ruína do homem procurada e buscada por ele mesmo, é tudo o que significa a doutrina Calvinista da Predestinação."

Desde que os méritos do sacrifício de Cristo foram de valor infinito, o plano que usualmente primeiro se sugere aos nossos corações é o de que Deus deveria ter salvo a todos. Mas Ele escolhe fazer uma exibição eterna da Sua justiça tanto quanto da Sua misericórdia. Se cada pessoa tivesse sido salvo, não teria sido visto o que o pecado merecia; se nenhuma pessoa tivesse sido salva, não teria sido visto o que a graça podia conceder. Ademais, o fato de que a salvação foi provida, não a todos, mas somente para alguns, faz com que seja muito mais apreciada por aqueles a quem é concedida. De tudo por tudo, foi de longe o melhor para o universo que a alguns fosse permitido terem os seu próprio caminho e assim mostrar que coisa horrível é a oposição a Deus.

Mas alguém pode perguntar: "E quanto ao homem não regenerado, este dos não eleitos que é deixado em pecado, sujeito ao castigo eterno, incapaz de sequer ver o reino de Deus?" Nós respondemos, volte até a doutrina do pecado original, -- em Adão, que foi apontado como o cabeça e o representante federal de todos os seus descendentes, a raça teve a mais justa e favorável oportunidade de ganhar a salvação, mas perdeu-a. A justificação para a eleição de alguns e não de outros é que "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus". Sem dúvida que existem os melhores motivos para a escolha de uns e não de outros, mas estas não foram feitas conhecidas a nós. Sabemos, no entanto, que nenhum dos perdidos sofre qualquer castigo imerecido. Neste mundo eles desfrutam das coisas boas da providência em comum com os filhos de Deus, e muito freqüentemente numa escala bem mais elevada. A consciência e a experiência testificam que somos membros de uma raça apóstata, e que cada homem que fica sem a vida eterna sabe que a responsabilidade está primariamente sobre si mesmo. Ademais, se todos os homens estão em sua presente condição perdida e arruinada pela operação de princípios justos da parte de Deus (e quem dirá que não estão?), eles podem - com justiça - serem deixados para merecer punição. É absurdo dizer que eles são justamente deixados expostos à miséria eterna, e ainda assim que seria injusto para eles sofrer, pois é o mesmo que dizer que a execução de uma penalidade justa é injusta. Também pode ser acrescentado que o homem no seu estado caído não tem desejo de salvação, e que desta massa corrupta Deus "tem misericórdia de quem Ele quer e também endurece a quem lhe apraz." Este é o ensinamento uniforme das Escrituras. Aquele que nega isto, nega o Cristianismo e questiona o governo do mundo, por Deus.

Na verdade, todos nós somos parciais. Nós tratamos os membros da nossa própria família, ou os nossos amigos, com grande parcialidade, embora no momento saibamos que eles não são mais merecedores, ou talvez menos merecedores do que muitos outros com quem nos relacionamos. Não segue que, se dispensamos favores a alguns, devemos dispensar os mesmos favores, ou favores equivalentes, a todos. Todavia o Arminiano prescreve tal como regra absoluta ao Todo-Poderoso, que Ele deva estender Sua riqueza a todos igualmente, como se um tesouro público. "Devesse um amigo terreno", diz Toplady, "dar-me de presente dez mil libras, não seria irracionalidade, ingratidão e presunção da minha parte recusar o presente e revidar ao meu amigo, somente porque pode não ser seu prazer conferir o mesmo favor ao meu vizinho?"

Assim é que, então, à objeção de que a doutrina da Predestinação representa Deus como "parcial", nós respondemos, certamente que faz. Mas insistimos que ela não O representa como injustamente parcial.

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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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