sábado, 10 de maio de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 3 [07/08]


Que Impede Uma Oferta Sincera do Evangelho Aos Não Eleitos

1. A Mesma Objeção Aplica-se Contra a Presciência de Deus. 2. A Oferta É Feita Sinceramente.


1. A MESMA OBJEÇÃO APLICA-SE CONTRA A PRESCIÊNCIA DE DEUS.

Embora o Evangelho seja oferecido a muitos que não aceitarão, e que por razões subjetivas não podem aceitá-lo, ele é, não obstante, sinceramente oferecido a todos. A objeção tão energicamente levantada em algumas ocasiões pelos Arminianos, no sentido de que se a doutrina da Predestinação for verdadeira o Evangelho não pode ser oferecido sinceramente aos não eleitos, deveria ser suficientemente respondida pelo fato de que a mesma apresenta-se com força igual contra a doutrina da Presciência de Deus. Nós podemos perguntar, Como a oferta da salvação pode ser feita sinceramente àqueles que Deus já sabe que a desprezarão e a rejeitarão, especialmente quando a sua culpa e condenação somente aumentarão como resultado da sua recusa? Os Arminianos admitem que Deus sabe de antemão quem aceitará e quem rejeitará a mensagem; todavia eles sabem que eles próprios estão sob o comando divino de pregar o Evangelho a todos os homens, e eles não se sentem insinceros ao faze-lo.

A dificuldade em ambos casos é, contudo, puramente subjetiva, e é devida ao nosso entendimento limitado e à nossa incapacidade de compreender os métodos de Deus, os quais são 'past finding out'. Nós sabemos que o Juiz de toda a terra fará o que é certo, e confiamos nEle mesmo embora o nosso fraco raciocínio não possa sempre seguir os Seus meios. Sabemos, definitivamente, que provisão abundante foi feita para todos os que virão, e que cada um que aceite sinceramente será salvo. Dos próprios lábios de Cristo temos uma parábola que ilustra o amor de Deus para com os seus filhos. O Pai viu o filho pródigo voltando quando ele ainda encontrava-se muito longe, e correu ao seu encontro, e abraçou-o, e beijou-o. E as boas vindas dadas àquele filho pródigo, Deus está desejoso de dar a qualquer filho pródigo.

2. A OFERTA É FEITA SINCERAMENTE.

Deus comandou a Moisés para juntar os anciãos de Israel, para irem até o Faraó e demandar que permitissem irem numa jornada de três dias no deserto, para oferecerem sacrifícios a Deus. Todavia, justamente no versículo seguinte, o Próprio Deus lhe diz, "Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir, a não ser por uma forte mão."[veja em Êxodo 3;18, 19]. Se não for inconsistente com a sinceridade de Deus comandar todos os homens para amá-Lo, ou para serem perfeitos (veja em Lucas 10:27 = "...Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento..." Veja também em Mateus 5:48 = "Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial."), também não é inconsistente com a Sua sinceridade que Ele comande os homens para arrependerem-se e crerem no Evangelho. Um homem pode ser bem sincero ao fazer um convite que ele sabe que será recusado. Um pai que sabe que seus filhos vão agir erradamente, sente-se incomodado a dizer-lhes o que é certo. Seus pedidos e seus alertas são sinceros, o problema é com os garotos.

Irá alguém argumentar que Deus não pode sinceramente oferecer salvação a um agente moral livre, a menos que adicionalmente ao convite Ele exerça uma influência especial a qual induzirá a pessoa a aceitá-lo? Depois de uma guerra civil num país, sempre acontece de o general vitorioso oferecer livre perdão a todos aqueles que faziam parte do exército oponente, desde que eles deixem suas armas, vão para suas casas e vivam pacificamente, embora ele saiba que pelo orgulho próprio ou pela malícia, muitos deles recusarão. Ele faz a oferta de boa fé, mesmo que por razões sábias ele determine não forçar a aceitação dela, supondo que ele possua tal poder.

Podemos imaginar o caso de um navio com muitos passageiros a bordo, naufragando a alguma distância da costa. Um homem aluga um barco num porto ali por perto e vai em resgate da sua família. Indicentalmente, acontece que o barco que ele usa é grande o suficiente para acomodar todos os passageiros, então ele convida todos aqueles que estão no navio a naufragar para virem a bordo do seu barco, embora ele saiba que muitos deles, seja por falta de consciência do perigo, ou por causa de algo pessoal contra ele, ou por outras razões, não aceitarão. Ainda assim, será que tais razões fariam a sua oferta menos sincera? "Se a família de um homem estivesse sendo mantida em cativeiro, juntamente com outras pessoas, e por amor deles e com o propósito da sua redenção, um resgate fosse oferecido, suficiente para a liberdade de todos os cativos, é pleno e certo que a oferta pela liberdade poderia ser estendido a todos nas bases daquele resgate, embora especialmente entendido para somente uma parte deles. Ou, um homem pode organizar um banquete para os seus amigos e as provisões serem tão abundantes que ele pode vir a abrir as portas da sua casa para todos aqueles que desejarem vir e banquetear-se. É precisamente isto o que Deu, de acordo com a doutrina Calvinista, na realidade fez. Do Seu amor especial para com o Seu povo, e com o desígnio de assegurar a sua salvação, Ele enviou o Seu Filho para fazer o que justifica a oferta pela salvação de todos quantos escolhem aceitá-la. 1

Quando o Evangelho é apresentado à humanidade em geral, nada mais que uma falta de vontade pecadora da parte de alguns evita que eles o aceitem e desfrutem dele. Nenhuma pedra de tropeço é colocada no seu caminho. Tudo o que a chamada contém é verdadeiro; é adaptado às condições de todos os homens e gratuitamente oferecido se eles arrependerem-se e crerem. Nenhuma influência exterior os constrange a rejeitá-lo. Os eleitos aceitam, os não eleitos podem aceitar se o desejarem, e nada a não ser a sua própria natureza determina que façam o contrário. "De acordo com o esquema Calvinista", diz o Dr. Hodge, "os não eleitos têm todas as vantagens o oportunidades de assegurar a sua salvação que, de acordo com qualquer outro esquema, é garantida à humanidade indiscriminadamente. O Calvinismo ensina que um plano de salvação adaptado a todos os homens e adequado para a salvação de todos, é livremente, gratuitamente oferecido para a aceitação de todos, embora no propósito secreto de Deus, Ele tinha em mente que tivesse precisamente o resultado que é visto ter na prática, na experiência. Ele designou salvar o Seu próprio povo, na adoção daquele plano, mas consistentemente oferece os benefícios para todos quantos estiverem dispostos a recebe-los. Mais do que isto, nenhum anti Calvinista pode demandar." 2

Os Arminianos objetam que Deus não poderia oferecer o Evangelho àqueles que no Seu conselho secreto não estavam designados a aceitá-lo; todavia vemos as Escrituras declararem que é exatamente o que Ele faz. Seus comandos ao Faraó já referiam-se a isto. Isaías foi comissionado a pregar aos Judeus, e nos versículos 18 e 19 do capítulo 1, encontramos que ele estendeu oferta graciosa de perdão e de limpeza ["(18) Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados são como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que são vermelhos como o carmesim, tornar-se-ão como a lã. (19) Se quiserdes, e me ouvirdes, comereis o bem desta terra."]. Mas em Isaías 6:9-13, imediatamente após a sua visão gloriosa e ao seu chamado, Isaías é informado que a sua pregação é destinada ao endurecimento dos seus conterrâneos e à sua quase que destruição universal ["(9) Disse, pois, ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis, e vedes, em verdade, mas não percebeis. (10) Engorda o coração deste povo, e endurece-lhe os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os olhos, e ouça com os ouvidos, e entenda com o coração, e se converta, e seja sarado. (11) Então disse eu: Até quando, Senhor? E respondeu: Até que sejam assoladas as cidades, e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada, (12) e o Senhor tenha removido para longe dela os homens, e sejam muitos os lugares abandonados no meio da terra. (13) Mas se ainda ficar nela a décima parte, tornará a ser consumida, como o terebinto, e como o carvalho, dos quais, depois de derrubados, ainda fica o toco. A santa semente é o seu toco."]. Ezequiel foi enviado para falar à casa de Israel, mas foi de antemão avisado de que eles não ouviriam [veja em Ezequiel 3:4-7 = "(4) Disse-me ainda: Filho do homem, vai, entra na casa de Israel, e dize-lhe as minhas palavras. (5) Pois tu não és enviado a um povo de estranha fala, nem de língua difícil, mas à casa de Israel; (6) nem a muitos povos de estranha fala, e de língua difícil, cujas palavras não possas entender; se eu aos tais te enviara, certamente te dariam ouvidos. (7) Mas a casa de Israel não te quererá ouvir; pois eles não me querem escutar a mim; porque toda a casa de Israel é de fronte obstinada e dura de coração."]. Em Mateus 23:33-37 nos é apresentado o mesmo ensinamento ["(33) Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do inferno? (34) Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas: e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros os perseguireis de cidade em cidade; (35) para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que mataste entre o santuário e o altar. (36) Em verdade vos digo que todas essas coisas hão de vir sobre esta geração. (37) Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!"]. Nestas passagens, Deus declara que Ele faz exatamente o que os Arminianos dizem que Ele não deve. Daí que, a objeção ora em consideração surgiu não por causa de nenhuma falsa declaração Calvinista quanto ao plano divino, mas através de presunções erradas feitas pelos próprios Arminianos.

O decreto da eleição é um decreto secreto. E uma vez que nenhuma revelação foi dada ao pregador quanto a quais entre os seus ouvintes são eleitos e quais não o são, não lhe é possível portanto apresentar o Evangelho somente àqueles que são eleitos. É sua tarefa olhar com esperança a todos aqueles a quem ele está pregando o Evangelho, e orar por eles, que eles possam estar entre os eleitos. De maneira a oferecer a mensagem aos eleitos, ele deve oferece-la a todos; e o mandamento nas Escrituras Sagradas é pleno, no sentido de que a Palavra deve ser oferecida a todos. Mesmo os eleitos devem ouvi-la, antes que creiam e aceitem [veja em Romanos 10:13-17 = "(13) Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. (14) Como pois invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram falar? e como ouvirão, se não há quem pregue? (15) E como pregarão, se não forem enviados? assim como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam coisas boas! (16) Mas nem todos deram ouvidos ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem deu crédito à nossa mensagem? (17) Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo."]. O leitor atento, contudo, perceberá que os convites não são, no sentido estrito da palavra, gerais; mas que eles são endereçados aos "cansados", aos "que têm sede", aos "que têm fome", àqueles "que labutam e cujo fardo é pesado"; e não àqueles que estão inconscientes de qualquer necessidade e inconscientes do desejo de serem reformados. Enquanto as mensagens são pregadas a todos, é Deus quem escolhe entre os ouvintes aqueles a quem Ele fala, e ele faz esta seleção ser conhecida a eles através do testemunho íntimo do Espírito Santo. Os eleitos, então, recebem as mensagens como a promessa de salvação, mas aos não eleitos ela parece ser somente tolice, ou se a sua consciência estiver desperta, como um julgamento para condenação. Como regra, os não eleitos não se preocupam quanto à salvação, não invejam a esperança de salvação dos eleitos, mas antes riem e zombam deles. E uma vez que o segredo quanto a quais na audiência pertencem aos eleitos é oculto ao pregador, usualmente ele não sabe quem recebeu a mensagem para a salvação e quem recebeu-a para julgamento. Entre os próprios eleitos há tantas fraquezas, e por outro lado o inimigo é tão hábil em parecer-se como anjo de luz e fazer uma demonstração, um show exterior de boas ações e palavras, que o pregador normalmente não pode assegurar-se do resultado. O efeito da pregação não está nas mãos do pregador, mas sim nas mãos de Deus; e muitas vezes acontece de aquele sermões que pareciam ser fracos e inócuos serem fortalecidos e tornados efetivos pelo Espírito Santo.

Todavia, enquanto é certo de que os não eleitos não se voltarão para Deus, não se arrependerão dos seus pecados e não viverão vidas moralmente boas, é, contudo, sua tarefa faze-lo. Embora membros de uma raça caída, eles ainda são agentes morais livres, responsáveis pelo seu caráter e pela sua conduta. Deus e, portanto, perfeitamente consistente no comandá-los a arrependerem-se. Pois não faze-lo, seria como se Ele desistisse dos mandamentos da Sua própria lei. É muito comum ouvirmos a idéia expressa de que o homem não encontra-se sob a obrigação de fazer coisa alguma para a qual ele não tenha total e perfeita capacidade em si próprio. O raciocínio, no entanto, é falacioso; pois o homem labuta sob uma incapacidade auto adquirida. Ele foi criado ereto; e voluntariamente afogou-se no pecado. Ele é, portanto, tão responsável como é aquele jovem que, de maneira a escapar do serviço militar deliberadamente mutila uma mão ou um olho. Se a incapacidade cancelasse a obrigação, então Satã com a sua depravação herdade estaria sob nenhuma obrigação de agir correto, e sua extremamente perversa, sua diabólica inimizade para com Deus e os homens não seria pecado. Os pecadores em geral seriam então elevados acima da lei moral.

Para concluir, pode ser ainda dito que mesmo com relação aos não eleitos a pregação não é de todo em vão; pois eles são destarte feitos os objetos de um constrangimento, de um incômodo geral e de influências direcionadoras, os quais previnem que pequem, tanto quanto o fariam de outra forma.
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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