segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 3 [06/08]


Que É Desfavorável À Boa Moralidade

1. Tanto Os Meios Como Os Fins São Pré Ordenados. 2. Amor E Gratidão A Deus Pelo Que Ele Fez Por Nós É A Mais Forte e Única Base Permanente Para A Moralidade. 3. Os Frutos Práticos Do Calvinismo Na História São A Sua Melhor Vindicação.

1. TANTO OS MEIOS COMO OS FINS SÃO PRÉ ORDENADOS. 

A objeção algumas vezes é feita, de que este sistema encoraja os homens a serem descuidados e indiferentes quanto à sua conduta moral e ao seu crescimento na graça, nas bases de que a sua eternidade já foi assegurada. Esta objeção é primariamente direcionada contra as doutrinas da Eleição, e da Perseverança dos Santos.

Tal objeção, contudo, como a outra no sentido de que este sistema desencoraja todos as razões para a prática, é respondida completamente pelo grande princípio o qual sustentamos e ensinamos, nominalmente, que os meios, tanto quanto os fins, são pré ordenados. O decreto de Deus que a terra devesse ser frutífera não excluiu, mas sim incluiu, a luz do sol, as chuvas, o cultivar da terra, etc. Se Deus pré ordenou um homem para ter uma lavoura de milho, Ele também pré ordenou-o para preparar o solo, plantar, cultivar e fazer todas as demais coisas necessárias para assegurar a colheita. Tanto quanto um propósito de construir inclui o lavrar das pedras, o aplainar das madeiras; e a preparação de todas as demais coisas que farão parte da estrutura; e como uma declaração de guerra implica em armas, munição, navios e todos os demais equipamentos; assim também a eleição de alguns para o gozo eterno do céu inclui a sua eleição para a santidade aqui na terra. Não é o indivíduo como tal, mais o indivíduo como um ser virtuoso e santo, que é predestinado para a vida eterna.

Na mais plena das linguagens, Paulo ensinou que o propósito da eleição é, "...para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele; e em amor"[Efésios 1:4]; que somos predestinados para sermos "...conforme à imagem do Seu Filho,..."[Romanos 8:29]; e que "Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade,"[II Tessalonicenses 2:13]. "E creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna."[Atos 13:48]. Os predestinados, chamados, justificados, ordenados são os mesmos [veja em Romanos 8:29, 30 = "(29) Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. (30) E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou."]. Portanto, o propósito de Deus de acordo com a eleição deve prevalecer [veja em Romanos 9:11 = "E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama)."]

A crença dos Calvinistas com relação a este assunto é bem expressa na Confissão de Fé de Westminster, onde lemos: "Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo eterno e mui livre propósito da sua vontade, preordenou todos os meios conducentes a esse fim; os que, portanto, são eleitos, achando-se caídos em Adão, são remidos por Cristo, são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo seu Espírito, que opera no tempo devido, são justificados, adotados, santificados e guardados pelo seu poder por meio da fé salvadora. Além dos eleitos não há nenhum outro que seja remido por Cristo, eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado e salvo."[Capítulo III seção VI. Referências Bíblicas: I Pedro 1:2; Ef. 1:4 e 2: 10; II Tess. 2:13; I Tess. 5:9-10; Tito 2:14; Rom. 8:30; Ef.1:5; I Pedro 1:5; João 6:64-65 e 17:9; Rom. 8:28; I João 2:19].

"Deus decretou que quinze anos deveriam ser acrescentados à vida de Ezequias; isto não o fez nem descuidado com a sua saúde, nem negligente com a sua alimentação; ele não disse, 'Mesmo que eu ande dentro do fogo, ou dentro da água, ou beba veneno, eu não obstante viverei tanto tempo'; mas a natural providência, no devido emprego de meios cooperou para mantê-lo naquele período de tempo que lhe fora pré-ordenado." 1 Uma vez que todos eventos estão mais ou menos intimamente conectados, e uma vez que Deus opera os meios, se Ele não determinasse os meios tanto quanto os eventos, a certeza quanto aos próprios eventos seria destruída. Na redenção do homem, Ele determinou não somente a obra de Cristo e do Espírito Santo, mas também a fé, o arrependimento e a perseverança de todo o Seu povo.

Quando esta mesma doutrina foi pregada por Paulo em uma outra ocasião e esta mesma objeção foi trazida à tona contra ela -- nominalmente, que ele "tornou a lei de ninguém efetiva através da fé," ou em outras palavras, que uma vez que somos salvos através da fé nós não precisamos de seguir a lei moral -- a sua resposta enfática for: "Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei."[Romanos 3:31]. Há, então, uma conexão invariável, estabelecida entre a salvação eterna como um fim, e a fé e a santidade como um meio que conduz até aquele fim.

O Cristão ideal, é claro, não cometeria nenhum pecado. Embora certamente salvo, ele é salvo para as boas obras, e é comandado não dar "...nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o ministério não seja censurado."[II Coríntios 6:3]. As Escrituras Sagradas não sabem de nenhuma perseverança a qual não seja perseverança em santidade; e elas não dão nenhum encorajamento a nenhum tipo de segurança que não esteja conectado com uma presente e sempre crescente santidade. A virtude e a piedade, portando, são os efeitos e não a causa da eleição, pois causa alguma é para ser assinalada senão a soberania e o beneplácito de Deus. É verdade que alguns tornam-se muito mais avançados em santidade aqui e continuam em tal estado durante um período de tempo muito mais longo que outros. Todavia é em vão, para qualquer um que não tenham algum degrau de santidade neste mundo, ter esperança de algum gozo e felicidade no próximo. Todos aqueles a quem Cristo designou estarem perfeitamente felizes na eternidade, Ele designou faze-los, em parte, felizes neste mundo; e como a santidade é essencial para a felicidade duma criatura inteligente, então já começou dentro deles, neste mundo, aquela santidade sem a qual ninguém verá ao Senhor.

2. AMOR E GRATIDÃO A DEUS PELO QUE ELE FEZ POR NÓS E A MAIS FORTE E A ÚNICA BASE PERMANENTE PARA A MORALIDADE.

Os que fazem a objeção que estamos agora a considerar, assumem que crentes -- aqueles que através do todo poderoso poder de Deus têm sido trazidos da morte para a vida, do pecado para a santidade; que têm parcialmente experimentado o amor e a glória de Deus como revelados em Cristo -- ainda são incapazes de serem influenciados por quaisquer motivos, exceto aqueles que nascem de uma relação exclusiva e egoísta com a sua própria segurança e felicidade. E, como diz Cunnigham, eles virtualmente confessam, "primeiro, que nenhuma decência exterior que a sua conduta possa no momento exibir, seja devido somente ao medo de serem punidos; e, segundo, que se eles se sentissem seguros somente com relação à punição, eles encontrariam satisfação muito maior em servir ao Diabo do que em servir a Deus; e que eles nunca pensariam em mostrar qualquer gratidão a Ele, que lhes conferiu a segurança na qual eles colocam tanta confiança.

O contraste entre as bases Calvinista e Arminiana para a moralidade é claramente apresentado na seguinte seção de McFetridge: "As duas grandes molas pelas quais os homens são movidos são, de um lado, convicção e ideia, do outro, emoção e sentimento; como elas controlam, assim o caráter moral será formado. O homem que é guiado por convicções e idéias é homem de estabilidade; ele não pode ser mudado até que a sua consciência seja mudada; e o homem que é guiado por emoção e sentimento, é homem de instabilidade. Agora, o apelo do Arminianismo é capitaneado aos sentimentos. Com relação ao homem como tendo o controle moral livre e absoluto de si mesmo, e como capaz de a qualquer momento determinar o seu próprio estado eterno, ele (o Arminianismo) aplica-se ao arroubo das suas emoções. O que quer que seja que possa legalmente despertar os sentimentos é considerado expediente. Concomitantemente, os sentidos, acima de todas coisas, devem ser buscados e afetados. Daí ser o Arminiano, religiosamente, um homem de emoção, de sentimento, e consequentemente à disposição de todas as coisas que interessem ao olho e agradem ao ouvido. A sua moralidade, portanto, como dependendo principalmente das emoções, é, na natureza do caso, sujeita a freqüentes flutuações, subindo ou descendo com a onda da sensação sobre a qual ela surfa. O Calvinismo, por outro lado, é um sistema teológico que apela mais para a ideia do que para o sentimento, mais para a consciência do que para a emoção. À vista dele (do Calvinismo), todas as coisas encontram-se sob um grande e perfeito sistema de leis divinas, as quais operam em desafio dos sentimentos, e as quais devem ser obedecidas com o risco da alma . . . . . Sua linha de pensamento não é de sentimento, mas de convicção . . . . . Ele faz da voz de Deus, falando na alma, um guia para toda conduta. Ele procura antes convencer os homens do que enchê-los com uma sensação passageira. Assim, um profundo senso de dever é a maior coisa na vida moral do Calvinista. A sua primeira e última questão é, 'Isto é certo?' Daquilo ele precisa em primeiro lugar estar convencido. Assim é que a sua consciência tem o primeiro lugar em todas as questões práticas . . . . . Na concepção Calvinista, Deus marcou, delimitou o caminho no qual o homem andará -- um caminho o qual Ele não mudará; e ao homem é requerido andar em tal caminho, triste ou prazerosamente, com tanto ou com tão pouco sentimento como lhe convenha. Daí que o Calvinista não é, religiosamente, uma pessoa de demonstrações, mas antes alguém, de racionalidade e atenção; de forma que a sua moralidade, ou o que quer que possa ser, ao contrário, é caracterizada pela força e pela estabilidade, as quais também podem, algumas vezes, tornarem-se em obstinação e desconforto."

O nosso amor para com Deus seria, no máximo, somente 'morno', se crêssemos que o Seu amor e o Seu favor para conosco dependesse somente do nosso bom comportamento. O Seu amor para conosco é como um sol imenso, que brilhou sem um começo e que brilhará sem um final, enquanto que o nosso amor para com Ele é, no máximo, somente como uma pequenina chama. Assim é que a segurança que aos objetos do amor de Deus nunca será permitido cair. Amor que é alicerçado em interesse próprio é comumente reconhecido como não sendo moral, no sentido mais alto; todavia o Calvinismo é o único sistema de fé que apresenta um motivo puramente não egoísta, que é a consciência de que é a graça gratuita e o amor imerecido de Deus, à exclusão de todo o mérito humano, que salvam os homens. Quando o Cristão lembra-se de que ele foi salvo somente através do sofrimento e da morte de Cristo seu substituto, amor e gratidão transbordam seu coração; e, como Paulo, ele sente que o mínimo que ele pode oferecer a Cristo em retorno é a sua vida inteira em serviço amoroso. Vendo a si mesmo salvo somente pela graça, ele aprende a amar a Deus somente por Ele mesmo, e encontra a felicidade da sua vida ao servi-Lo com todo o seu coração. A obediência torna-se então não somente o bem obrigatório, mas o bem preferível.

O motivo que atua nos santos na terra é o mesmo em princípio, embora não tão intenso, como o que atua nos santos na glória, cujo deleite constante é conduzir as mais nobres ações e serviços, nominalmente, de louvar a Deus, e de pontualmente efetuar a Sua vontade sem quaisquer interrupções ou falhas. "Como eles têm sempre um sentimento arrebatador da Sua bondade para consigo, então eles exercitam suas mentes perfeitamente puras em manifestações de glória e de louvor a Ele por havê-los resgatado da merecida ruína, e colocado-os nas mansões celestiais onde eles se encontram possuídos por êxtase, gozo, complacência e glória totalmente imerecidos." 4

Amor e gratidão a Deus puros, e não medo egoísta, são exatamente o combustível de uma obediência aceitável, e são os elementos a partir dos quais somente, qualquer coisa como a alta e pura moralidade poderá proceder. Jesus não temia que um sentido de segurança eterna levasse os Seus discípulos à licenciosidade, pois Ele disse a eles, "Não obstante, alegrai-vos, . . .porque o vosso nome está arrolado nos céus."[Lucas 10:20]. Os eleitos, portanto, têm maior a razão para louvar e para glorificar a Deus, que quaisquer outros seres podem ter, e é uma calúnia inqualificável representar a doutrina da Predestinação como tendendo para a licenciosidade e como não favorável à boa moralidade.

3. OS FRUTOS PRÁTICOS DO CALVINISMO NA HISTÓRIA SÃO A SUA MELHOR VINDICAÇÃO. 

O Calvinismo responde à acusação de não ser favorável à boa moralidade, não simplesmente por opor razão contra razão, mas por apresentar fatos de reputação mundial contra estas reclamações fictícias. O Calvinismo simplesmente pergunta, Que oposição os outros sistemas podem apresentar, se apontarmos para os feitos dos líderes Protestantes do período da Reforma; e para a alta sinceridade moral dos Puritanos? Lutero, Calvino, Zuínglio, e os seus colaboradores imediatos, foram todos "Calvinistas roxos", e o grande re-avivamento espiritual de todos os tempos aconteceu sob a sua influência. Aqueles na Inglaterra que sustentaram este sistema de fé foram tão rígidos com relação à pureza da doutrina, pureza de louvor, e pureza de vida diária, que pelos seus próprios inimigos, que destarte eram as suas melhores testemunhas, eles foram chamados de "Puritanos". Os 'Puritanos' (Puritans) na Inglaterra, os 'Pactuantes' (Covenanters) na Escócia e os 'Huguenotes' (Huguenots) na França, foram homens com a mesma fé religiosa e também qualidades morais. Que o sistema teológico de Calvino devesse ter desenvolvido precisamente o mesmo tipo de homens em cada um desses países diferentes, é uma prova do seu poder na formação do caráter.

Com relação aos Puritanos nos EUA, McFtridge diz: "Dentre todos os povos nas colônias Americanas, eles (os Puritanos, Calvinistas de New England), eram moralmente sem iguais. Eles eram os homens e as mulheres de consciência, de convicções da mais alta qualidade. Eles não eram, de fato, muito dados ao sentimentalismo. Não tinham nenhuma simpatia com cerimônias espetaculares de religião. A vida para eles era uma experiência por demais nobre, e séria, e solene para ser aos poucos feita em pedaços em exclamações e manifestações pias e rapsódias emocionais. Eles criam com toda a sua alma num Deus justo, num céu e num inferno. Eles sentiam, no mais profundo dos seus corações, que a vida era curta e grandes as responsabilidade. Assim é que a sua religião era a sua vida. Todos os seus pensamentos e relações eram nela imbuídos. Não somente os homens, mas os animais também, estavam sob as influências favoráveis da sua religião. A crueldade com animais era uma ofensa civil. Nesse aspecto eles estavam dois séculos adiante do resto da humanidade. Eles eram trabalhadores diligentes, frugais e empreendedores; e consequentemente encontraram a abundância nos seus caminhos, e também a sua descendência, até os seus filhos e os filhos dos seus filhos. Bebedeira, vulgaridade e mendicância eram coisas pouco conhecidas por eles. Eles não precisavam de cadeados ou de grades para segurar suas posses honestamente conseguidas. Uma simples taramela era suficiente para protege-los e à sua riqueza, onde a honestidade era a regra de vida. Como o resultado de uma vida assim, eles eram saudáveis e vigorosos. Felizes, eles alcançavam longevidade, criavam famílias grandes e devotas, e desciam à cova como seca o milharal após haver frutificado, em paz com Deus e com os seus semelhantes, regozijando-se na esperança de uma ressurreição abençoada." 5

Deve ainda ser lembrado como um diadema na testa da moralidade Calvinista, que em toda a história dos Puritanos, não há registro de um caso de divórcio sequer. Que necessidade gritante existe hoje em dia, de influência tal como aquela! Criminalidade de maneira geral era quase que desconhecida, se conhecida fosse, entre os Puritanos. Então, se o Calvinismo era realmente não favorável à moralidade, como acusado, seria realmente uma estranha coincidência que onde houve o mais de Calvinismo, houve o menos de crime. "Este é o problema", diz Froude, "Uvas não crescem em espinheiros. Naturezas ilustres não se formam a partir de teorias cruéis. A vida espiritual está cheia de aparentes paradoxos . . . . O efeito prático de uma crença é o teste real da sua solidez. Onde vemos vida heroica aparecendo como o fruto uniforme de uma opinião particular, é criancice argumentar à face do fato de que o resultado devesse ter sido diferente." 6

"Não há nenhum sistema", diz Henry Ward Beecher, "que se equipare ao Calvinismo ao intensificar, ao máximo, idéias de excelência moral e de pureza de caráter. Nunca houve um sistema teológico desde que o mundo existe, que coloque sobre o homem tais razões para santidade, ou que desole o terreno do pecado com artilharia tão pesada. Eles nos dizem que o Calvinismo molda os homens com martelo e cinzel. E o faz; e o resultado é um mármore monumental. Outros sistemas deixam os homens macios e sujos; enquanto o Calvinismo, faz deles mármore branco, que dura para sempre." 7

Ao invés de ser um sistema teológico que leve à imoralidade e ao desespero, o Calvinismo tem resultado exatamente o oposto, na vida diária. Nenhum outro sistema tem incendiado as pessoas com ideais de liberdade civil e religiosa, nem levado a tão altos ideais de moralidade e propósito em todas fases da vida humana. Onde quer que seja que a Fé Reformada tenha chegado, ela tem feito a nação desabrochar como a rosa, muito embora pudesse ter sido um país pobre como a Holanda, ou como a Escócia, ou a Nova Inglaterra. Isto foi admitido por Macaulay e muitos outros, e é um pensamento muito confortante.
______________________________
Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...