quarta-feira, 14 de maio de 2014

Deus, em Cristo, reconciliando o mundo


“Pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação.” 2 Coríntios 5: 19
Nestas palavras temos uma epítome, ou curta descrição, do ministério evangélico.

1. Observe a maneira pela qual Deus se aproxima de pecadores no evangelho: “Deus estava em Cristo.” Se Deus tivesse vindo a nós sem um Mediador, teria sido para destruir. Em Sua natureza imutável Ele é santo, repudia o pecado e dissipa o pecado. Esta é a glória de Deus, Sua imagem moral, sem a qual Ele não poderia ser Jehovah. Tão certo quanto o fogo devora a árvore por sua natureza física, Deus deve destruir pecadores por Sua gloriosa natureza moral. No entanto está escrito, “Sobre os ímpios fará chover laços, fogo, enxofre e vento tempestuoso; isto será a porção do seu copo. Porque o Senhor é justo, e ama a justiça” (Salmo 11:6-7)1. E ainda, “Tu és tão puro de olhos que não podes ver o mal, e que não podes contemplar a perversidade” (Habacuque 1:13)2. E, “nós conhecemos aquele que disse, a Vingança pertence a mim, Eu recompensarei, disse o Senhor. E outra vez, o Senhor julgará o seu povo. Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Pois nosso Deus é um fogo consumidor” (Hebreus 10:30-31; 12:29)3. Se Deus tivesse se aproximado de nós sem que Sua justiça tivesse sido satisfeita no sangue e obediência do Senhor Jesus, Sua justiça deveria ter sido despedaçada sobre nós e sua satisfação buscada em nosso castigo eterno. Glória a Deus nas alturas, por Deus não ter vindo a nós sem Cristo, por não ter vindo sobre nossa condição nua, culpada, indefesa, sem um abrigo para nossa alma cansada e sobrecarregada. Ele coloca o Mediador entre Ele e nós: “Porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos” (I Timóteo 2:5-6). “Deus estava em Cristo.” Cristo é o ponto de encontro de um Deus santo, e pecadores merecedores do inferno: “Tendo, pois, ousadia para entrar no santuário pelo sangue de Jesus, aproximemo-nos.”4

Quando o sumo sacerdote entrava no véu, no dia da expiação, carregava consigo uma bacia cheia com o sangue de um novilho, morto como uma expiação por si e sua casa. Ele molhava o dedo no sangue e o aspergia sobre o propiciatório, e perante o propiciatório sete vezes. Ele então levava outra bacia cheia com o sangue de um bode, morto pelos pecados do povo. Molhando seu dedo no sangue, ele o aspergia sobre o propiciatório, e perante o propiciatório5. O propiciatório era de ouro puro, o chão era coberto com ouro, ainda assim não temia sujá-lo. O propiciatório e o pavimento de ouro eram molhados com sangue. Seus pés se postavam sobre o sangue. Aquele sangue representava o sangue de Cristo. E o sumo sacerdote postado sobre o sangue aspergido representava o único caminho pelo qual um pecador poderia vir ao santo Jehovah. Deus nos encontra em Cristo. Oh pecador! Vieste para Deus em Cristo, entraste no santuário pelo sangue de Jesus? Se não, continuas sem perdão, alguém prestes a perecer. Alguns tem noções muito fracas sobre a conversão. Eles parecem pensar que chorar durante um sermão, orar com um sentimento de fervor, emendar um pouco a vida, é a verdadeira conversão – considere que isto é se voltar para Deus em Cristo: “Dos ídolos vos convertestes a Deus” (I Tessalonicenses 1:9). Exceto que tu sejas assim convertido, nunca verás o reino de Deus.

2. Observe a extensão do remédio do evangelho: “Reconciliando consigo o mundo.” Não pode haver dúvida de que nem todo o mundo será salvo: “Estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram.” As terríveis transações do dia do julgamento estão resumidas nestas solenes palavras: “Estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mateus 25:46). Uma surpreendente porção da raça humana partirá muda, com a consciência aterrorizada, auto-condenada, para um inferno tão eterno quanto o céu daqueles que são salvos. Oh auto-enganado universalista! Esta é uma palavra que descreve a eternidade do paraíso e a eternidade do inferno. Não pode haver dúvida de que Deus escolheu um povo particular deste mundo: “Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes, e fazes chegar a ti” (Salmo 65:4). Por seis vezes, no décimo sétimo capítulo de João, Jesus os chama “os homens os quais me deste,” e Ele diz, “Eu oro por eles, Eu não oro pelo mundo.”

É ainda igualmente verdade que “[Deus] deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (I Timóteo 2:4). Ele é “longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se” (II Pedro 3:9). “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.” O evangelho é verdadeira e sinceramente dirigido a “toda criatura debaixo do céu.” Os chamados e convites de Deus aos ímpios não são meras palavras, é claro, muito menos palavras enganosas e mentirosas; elas são verdadeiras, como Deus é verdadeiro. Não há sequer sombra de falsidade nelas. Escute as palavras de um mestre em Israel: “Tudo o que há em Deus é bom, e perfeito, e excelente, em nossos desejos e anseios pela conversão e salvação dos ímpios. Por exemplo, há um amor a santidade absolutamente considerada, ou uma concordância entre a santidade e Sua natureza e vontade; ou em outras palavras, a Sua inclinação natural. A santidade e felicidade da criatura, absolutamente consideradas, são coisas que Ele ama. Estas coisas são infinitamente mais agradáveis a Sua natureza do que a nossa. Tudo isso está presente em Deus, concernente aos nossos desejos por santidade e felicidade para os descrentes e réprobos, excetuando o que implica em imperfeição. Tudo isso é consistente com o conhecimento infinito, sabedoria poderosa, auto-suficiência, felicidade infinita e imutabilidade. Portanto, não há razão para que Sua presciência absoluta, ou Sua sábia determinação e ordenação do que é futuro, deva impedir Sua expressão desta disposição de Sua natureza, do modo como estamos acostumados a expressar tal disposição em nós mesmo, a saber, por chamados, e convites, e assim por diante.” [Jonathan Edwards, The Works, Ed. E. Hickman, 2:528.]

Oh pecador! É verdade que Deus não tem prazer em sua morte, mas sim, em que você se volte dos seus maus caminhos e viva. Deus honestamente, sinceramente, e com todo o Seu coração, suplica-lhe que se reconcilie através do sangue de Jesus. Ele está disposto neste dia a cobri-lo com o sangue e obediência do Senhor Jesus, para que Ele possa, de forma consistente com Sua justa e santa natureza, não imputar vossas ofensas a ti. Por que tem Ele te poupado do inferno até este dia? Somente porque “ele não está querendo que você pereça.” Porque tem Ele acompanhado você com pessoal e familiar misericórdia, conforto e livramento? “A benignidade de Deus te conduz ao arrependimento” (Romanos 2:4). Por que tem Ele enviado sobre você pobreza, doença, luto, desilusões, como onda sobre onda? Não seria esta a resposta: “Eu repreendo e castigo a todos quanto amo: sê pois zeloso, e arrepende-te” (Apocalipse 3:19). Por que o Espírito tem lutado com você na Bíblia, através de ministros, e na oração em secreto? Não seria porque o Santo Espírito de amor deseja que você se volte para Cristo, e por isso é “aborrecido,” e “entristecido”, pelo que vós “sempre resistis”? (Atos 7:51). Por que, acima de tudo, Cristo Se oferece gratuitamente a toda criatura, por que Ele tem batido em sua porta, e estendido Suas mãos a você ao longo de todo o dia? Ah! Leia aqui a resposta, a qual você recordará por toda a sua agonia eterna no inferno, se você não atender, “Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste!” (Mateus 23:37). Oh pecador! O Senhor Jesus Cristo é como o maná. Ele caía ao redor das tendas de Israel toda manhã, de modo que nenhum israelita poderia sair de sua tenda sem colher algo dele, ou pisoteá-lo sob seus pés. Então, o Senhor Jesus é deixado a teus pés. Tu deves tomá-lO como teu Fiador, teu Salvador, teu Senhor, ou pisoteá-lO sob teus pés.
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Por Robert Murray M'Cheyne

1 A versão utilizada pelo autor é a King James Version (KJV). A Almeira, Corrigida e Revisada, Fiel (ACRF) foi adotada aqui por ser uma tradução muito próxima da versão do autor nesta passagem (grifo do autor) [Nota do Tradutor].
2 Neste caso a versão Almeida, Revista e Atualizada (ARA) se aproxima mais da versão utilizada pelo autor, mas a palavra aqui traduzida por “perversidade” aparece no original (inglês – KJV) como “iniquity” que seria melhor traduzida por “iniqüidade”. Na tradução das demais passagens será utilizada a versão ARA, a menos que outra versão se enquadre melhor [N. T.].
3 Tradução livre (grifo do autor) [N. T.].
4 Hebreus 10: 19, 22 [N. T.].
5 Levítico 16: 11, 14, 15 [N. T.].

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