segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Espírito e a Pregação

Nas listas que o Novo Testamento apresenta, é dado um lugar central aos dons para o ensino e a pregação da palavra de Deus. Isso já era verdadeiro nos dias apostólicos, como deixa transparecer claramente o ministério dos apóstolos.

O ministério de Paulo em Éfeso exibe este enfoque com grande clareza. Ele chegou a ser caracterizado pelos sinais confirmativos do ministério apostólico até mesmo além do normal: “Deus fazia milagres extraordinários ...” (At 19.11). Todavia, a peça central da obra de Paulo foi a preleção na escola de Tirano, onde por dois anos ele ensinou diariamente aos discípulos. O seu comentário pessoal sobre aquele período de sua vida é iluminador: ensinou aos efésios; pregou o reino e proclamou todo o conselho de Deus (At 20.20; 25; 27). De fato, uma tradição textual sugere que ele fez isso até durante o período da sesta (= descanso) diária, por várias horas, talvez por cinco horas a fio, a cada dia.

À luz disto, as instruções de Paulo a Timóteo, que ultimamente estava ministrando em Éfeso, adquire uma significação especial. O foco de sua atenção é posto no papel central do ensino e pregação bíblicos no período pós-apostólico. Timóteo devia dar atenção não só à leitura (1 Tm 4.13), mas devotar-se ao manejo da palavra de Deus com eficácia (2 Tm 2.15). Deveria pregar de tal maneira que ficasse bem claro como a Escritura é “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”. Enquanto assim pregasse a palavra, ele deveria “corrigir, repreender e encorajar – com grande paciência e criteriosa instrução” (3.16–4.2; a divisão normal de capítulo não é muito feliz aqui).

Nesta conexão, Paulo considera a palavra de Deus como “a espada do Espírito” (Ef 6.17), pela qual ele tem em mente não só que ela foi forjada pelo Espírito (inspiração), mas também que ela é empregada pelo Espírito com poderoso efeito (cf. Hb 4.12-13). Através dela o Espírito honra a Cristo e produz convicção de pecado (Jo 16.8/11), como ele fez através da pregação de Pedro no Dia de Pentecostes. Embora a proclamação feita pelas línguas tenha impressionado alguns dos que a ouviram, foi a pregação que Pedro fez com base nas Escrituras que efetuou a conversão de três mil pessoas.

Em outra parte Paulo indica o que está no coração de comunhão tão eficaz. Ela não provém de nenhuma retórica, sabedoria ou oratória humanas, mas do poder – a marca registrada do Espírito (cf. At 1.8). Sua pregação aos coríntios foi “não com sabedoria e palavras persuasivas, mas com a demonstração do poder do Espírito” (1Co 2.4). Sua pregação aos tessalonicenses foi de um caráter semelhante: “nosso evangelho veio a vós não simplesmente com palavras, mas também com poder, com o Espírito Santo e com profunda convicção... recebestes a mensagem com alegria produzida pelo Espírito Santo” (1Ts 1.5-6).

Várias coisas caracterizavam tal pregação. A primeira era o evidente enfoque de Paulo centrado na pessoa e obra de Cristo (1Co 1.23; 2.2) e, particularmente, no Cristo crucificado como o poder e sabedoria de Deus. A segunda era a maneira como ela se adequava na grade da função das Escrituras dadas pelo Espírito (ensino, repreensão, correção e cura, e treinamento na justiça, cf. 2 Tm 3.16–4.2). A terceira era o contexto no qual ela era posta na vida do pregador. Aqui se torna relevante nossa discussão anterior sobre a união com Cristo, pois a poderosa pregação de Paulo parece ter sido com freqüência um correlato de sua experiência de provações e angústias. Ele vivia em Corinto “em fraqueza e temor, e... muito tremor” (1Co 2.3). Foi na incitação do sofrimento e insulto em Filipos que ele pregou em Tessalônica de forma muito frutífera (1 Ts 2.2). Em Cristo ele era fraco, ainda que vivesse com Cristo para servir em seu ministério (2 Co 13.5).

A marca registrada da pregação que o Espírito efetua é a “ousadia” (parrhesia = pan + rhesis, At 4.13, 29, 31; Fp 1.20; cf. 2 Co 7.2). Como no Antigo Testamento, quando o Espírito enche o servo de Deus, ele “se veste” com essa pessoa, e os aspectos da autoridade do Espírito são ilustrados na corajosa declaração da palavra de Deus. Essa ousadia parece envolver exatamente o que ela denota: há liberdade de expressão. Obtemos vislumbres ocasionais disto em Atos dos Apóstolos. O que foi dito do antigo pregador da Nova Inglaterra, Thomas Hooker, se torna uma visível realidade: quando ele pregava, os que o ouviam sentiam como se ele tivesse pegado um rei e posto em seu bolso! Há um senso de harmonia entre a mensagem que está sendo proclamada e o modo como o Espírito se veste com o mensageiro. Aqui as cortantes palavras de Gordon Fee certamente acertam o alvo:

A oratória polida às vezes ouvida dos púlpitos, onde o próprio sermão parece ser o alvo do que se diz, causa admiração se o texto for ouvido. O próprio ponto de Paulo requer uma nova audição. O perigo está sempre em deixar a forma e o conteúdo substituir aquilo que deve ser a única preocupação: o evangelho proclamado através da fragilidade humana, mas acompanhado pela poderosa obra do Espírito, de tal sorte que as vidas são transformadas pelo encontro do divino-humano. Isso é difícil de se ensinar num curso de homilética, mas ainda permanece como a verdadeira necessidade na pregação genuinamente cristã.([1])

A pregação da palavra de Deus é o dom central do Espírito, dado por Cristo à igreja. Por meio dela a igreja é edificada em Cristo (Ef 4.7-16). Provar-se-á ser um dos enigmas da vida eclesiástica contemporânea, quando visualizada à luz de alguma era futura, que a abdicação da qualidade e da confiança na exposição da Escritura e a fascinação com a imediação das línguas, interpretações, profecia e milagres eram coincidências?

A vida eclesiástica contemporânea, quando visualizada à luz de alguma era futura, não nos provará que um dos seus enigmas, qual seja a abdicação da qualidade e da confiança na exposição da Escritura e a fascinação com a imediação das línguas, interpretações, profecia e milagres, eram coincidência?
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Por Dr. Sinclair Ferguson
Fonte: “Dons Para o Ministério” – Dr. Sinclair Ferguson – Editora os Puritanos, pp. 54-58
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