quinta-feira, 8 de maio de 2014

O Movimento Carismático: Uma Crítica Bíblica [01/03]

Introdução


O movimento carismático é uma das mais populares e crescentes forças da cristandade nos nossos dias. As principais características doutrinárias do movimento __ o batismo do Espírito Santo, o dom de línguas, as profecias, o dom de curas e a ênfase na experiência pessoal __ são as maiores causas do seu crescimento e popularidade. Muito embora crescimento e popularidade sejam evidentemente desejáveis, eles não podem ser usados como um teste para aprovar práticas que a si mesmo se consideram como verdadeiras, porque várias seitas (Testemunhas de Jeová, Mórmons) e falsas religiões (Islamismo, misticismo oriental) também têm alcançado grande popularidade e crescimento. O movimento carismático é um fenômeno do século vinte. Visto que suas práticas e ensinos são diferentes do que cristãos ortodoxos têm ensinado por dezenove séculos, nós acreditamos ser sensato examinar esses ensinos à luz das Escrituras. Nós não estamos dizendo que os carismáticos não são cristãos. E não estamos examinando suas práticas porque temos algo pessoal contra eles (o próprio autor foi um carismático por mais de três anos, e muitos dos seus amigos ainda são carismáticos). Deus nos ordena a “julgar todas as coisas” (1Ts 5:21)1. Somos exortados a nos “apegar à palavra fiel” e a “convencer os que contradizem” (Tt 1:9). Assim, oferecemos esta exposição no espírito do amor cristão __ amor por nossos irmãos, e acima de tudo, pela verdade de Deus. Ao examinarmos qualquer assunto, a pergunta mais importante é: “Que diz a Escritura?” (Gl 4:30).

Batismo no Espírito Santo

Uma das marcas do movimento é o chamado batismo do Espírito ou “batismo no Espírito Santo”. O batismo no Espírito Santo é considerado como uma experiência que comumente ocorre após a conversão. A maior parte dos carismáticos diria que o crente recebe o Espírito na conversão, mas que somente no subseqüente batismo no Espírito Santo ele recebe a plenitude do Espírito; a plena capacitação para o serviço cristão. Mas nem todos os carismáticos crêem que o batismo do Espírito é sempre acompanhado do dom de línguas como uma evidência do mesmo. O batismo do Espírito é considerado uma segunda obra da graça; isso quer dizer que alguém pode ser um cristão genuíno ainda que não seja batizado no Espírito Santo. O batismo do Espírito Santo como segunda obra da graça, depois da conversão, é um dos fundamentos da teologia pentecostal. Se essa doutrina é anti-bíblica, nós devemos considerar o movimento carismático como anti-bíblico.

A Bíblia é a única regra infalível de fé e prática. Portanto, nossas experiências, impressões e opiniões devem estar subordinados ao que a Bíblia ensina. Será que a Bíblia ensina que todo crente deve buscar o batismo no Espírito? Ou ela ensina que o derramamento do Espírito foi um evento histórico único relacionado com a entronização de Cristo à direita de Deus o Pai? Se o derramamento foi um aspecto crucial da história da salvação (como a ressurreição e a ascensão), então nós devemos considerá-lo como um acontecimento que não se repete, um evento único, que ocorreu uma vez por todas. O Pentecoste marcou “a transição final da antiga época dos tipos e sombras para a novo período das realizações. O Pentecoste foi o nascimento da igreja cristã, o início da era do Espírito. Nesse sentido, portanto, o Pentecoste jamais pode se repetir, e não precisa ser repetido” 2.

A primeira razão pela qual o Pentecoste deve ser considerado como um acontecimento histórico único na história da salvação é o fato de que o derramamento do Espírito havia sido profetizado. Pedro especificamente diz que o Pentecoste é o cumprimento direto de Joel 2:28-32: “Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel”. João Batista disse a respeito de Cristo: “Esse é o que batiza com o Espírito Santo” (Jo 1:33; cf Mc 1:7-8, Lc 3:16). Jesus mesmo disse que o Espírito seria derramado após a sua ascensão: “Convém-vos que eu vá, porque se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se porém, eu for, eu vo-lo enviarei” (Jo 16:7; cf At 1:5).

A segunda razão pela qual o dia de Pentecoste deve ser considerado como um evento único na história é a forma com que as Escrituras relacionam o Pentecoste com a glorificação e entronização de Cristo à direita de Deus. Jesus Cristo, como o Mediador divino-humano, humilhou-se a Si mesmo, obedeceu à lei em todos os seus pormenores, sofreu e morreu como um sacrifício vicário pelo Seu povo. Após sua ressurreição, Deus O exaltou e O glorificou como o Mediador divino-humano (em Sua natureza divina, Cristo não podia receber mais nenhuma glória ou exaltação, porque Ele é Deus). Um aspecto da glorificação de Cristo é que Ele batiza a Sua igreja com o Espírito Santo. “Isto Ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nEle cressem; pois o Espírito até esse momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado” (Jo 7:39). No seu sermão no dia de Pentecoste, Pedro explica o que ocorreu: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (At 2:33). Os particípios “exaltado” e “tendo recebido” estão ambos no aoristo3 ; o verbo “derramou” também está no aoristo. Portanto, é evidente que Pedro estava falando de um fato histórico isolado, não de um processo contínuo. A morte de Cristo, sua ressurreição, ascensão e derramamento do Espírito Santo na igreja, todos são tratados nas Escrituras como eventos históricos da história da salvação, que não mais se repetem.

A terceira razão pela qual o que ocorreu no dia de Pentecostes deve ser considerado como um evento histórico único é o fato de que após o Pentecostes (com a exceção de Atos 8:14-17, que será discutido mais adiante) o crer em Cristo e o receber o Espírito Santo são simultâneos. O relato da pregação de Pedro em Atos 10:34-48 revela que os gentios receberam o Espírito Santo no momento em que creram. No clímax do sermão de Pedro, os gentios receberam o Espírito Santo. Que Pedro entendeu o batismo no Espírito como sendo simultâneo à salvação deles é evidente pelo fato de que imediatamente “ordenou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo” (At 10:48). A regra é salvação e o Espírito ao mesmo tempo. O apóstolo Pedro estava presente e portanto ele poderia relatar ao concílio da igreja (formado de judeus) que os gentios eram verdadeiros crentes. Ao mesmo tempo, os gentios reconheceriam a autoridade apostólica, porquanto Pedro havia estado com eles e de fato foi quem os conduziu a Cristo. Ambos os grupos sabiam que tinham o mesmo Espírito Santo4. Notem que o enfoque de Atos 10 e 11 não é em como receber o Espírito Santo ou em como receber uma segunda benção, pois os gentios não pediram, nem buscaram o batismo do Espírito. O ponto principal dos dois capítulos é mostrar que “também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida” (At 11:18).

Uma passagem que tem sido muito usada como prova textual para o recebimento do Espírito Santo subseqüente ao crer é Atos 19:1-7 (Paulo em Éfeso). O uso dessa passagem pelos pentecostais é baseado em um erro de tradução da versão em inglês (Versão Autorizada do Rei Tiago), onde se lê: “Recebestes o Espírito Santo desde que crestes?” (v. 2). A passagem literalmente diz, no grego: “Recebestes o Espírito Santo, tendo crido?”. A versão Revista e Atualizada traduz a passagem corretamente: “Recebestes, porventura o Espírito Santo quando crestes?”. Na verdade, essa passagem é uma excelente prova contra a doutrina carismática do recebimento do Espírito Santo como uma segunda obra da graça, depois da salvação. Por quê? Porque a pergunta de Paulo presume que no curso normal dos acontecimentos, salvação e batismo do Espírito ocorrem ao mesmo tempo. O fato de que os discípulos de João Batista não tinham nem ouvido falar do Espírito Santo indicava que não haviam recebido o batismo cristão e permaneciam crentes da Antiga Aliança e ainda não eram cristãos. O problema desses seguidores de João Batista não era que eles necessitavam de uma segunda obra da graça, mas que eles precisavam crer em Jesus Cristo. Depois de crer e serem batizados eles foram batizados com o Espírito Santo. Por que foi necessário para o apóstolo Paulo impor as mãos sobre esses homens? A imposição das mãos em Atos 19:6 (como em At 8:17) está relacionada com a autoridade única dos apóstolos. Do contrário não haveria necessidade dos samaritanos esperarem pelos apóstolos (At 8). “Significa que ele fez isso para mostrar-lhes que, como judeus que eram, não deviam mais seguir os ensinamentos de João Batista, mas os ensinos dos apóstolos”5.

E o que dizer de Atos 8:14-17? (Pedro e João em Samaria). Não registra essa passagem que os samaritanos receberam o Espírito Santo depois de crerem em Cristo? Sim. Mas ela não sustenta a doutrina carismática da subseqüência como sendo a ordem natural das coisas. Essa passagem é uma excelente prova textual contra o movimento carismático. Pois, se o que os carismáticos dizem é verdade, Filipe, o evangelista, teria encorajado esses novos convertidos a orar e buscar essa segunda benção. Filipe, que operava grandes milagres (diferentemente dos carismáticos modernos), não ensinou ninguém a buscar, ou suplicar, ou esvaziar a si mesmo para receber o batismo do Espírito. O fato de Deus não haver batizado os samaritanos com o Espírito Santo até a imposição de mãos dos apóstolos é claramente devido à situação histórica única daquele momento. Por causa do ódio racial entre judeus e samaritanos, foi necessário tanto para os apóstolos judeus como para os samaritanos que a imposição de mãos acontecesse. Os apóstolos reconheceram os samaritanos como aceitos por Deus em Cristo e plenamente participantes do reino. Os samaritanos reconheceram que os apóstolos judeus eram os líderes autoritativos da igreja. Se essa passagem fosse normativa para a igreja dos nossos dias, então deveríamos ensinar que todo o crente deve esperar pela imposição das mãos de um apóstolo antes de receber o batismo do Espírito. Portanto, a única passagem que poderia ser usada para sustentar a doutrina do batismo do Espírito como a segunda obra da graça após a salvação é inconsistente e não prova nada. Se os carismáticos fossem coerentes eles não buscariam o batismo do Espírito Santo, mas simplesmente esperariam por um apóstolo. O último apóstolo genuíno morreu há quase mil e novecentos anos.

As Epístolas negam a doutrina da subsequência

Não é somente o livro de Atos que não sustenta a doutrina carismática da subseqüência, as epístolas negam abertamente tal ensino. “Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1 Co 12:13). Paulo diz que todos os cristãos foram batizados no Espírito. “Você não precisa buscar um batismo do Espírito como se esse fosse uma experiência pós-conversão; Paulo está dizendo aos coríntios e a nós: Se você está em Cristo, você já foi batizado no Espírito!”6 Alguns autores carismáticos têm tentado distorcer o ensino claro dessa passagem apelando para o uso da palavra “por”, utilizada na Versão Autorizada (King James) em inglês. Eles argumentam que “por um só Espírito” é diferente de “em um só Espírito”. O único problema com esse argumento é que a palavra grega en traduzida por “por” no versículo 13 pode também ser traduzida por “em” ou “com”. Portanto, o batismo no Espírito em 1 Coríntios 12:13 é idêntico a todos os acontecimentos do livro de Atos7. Outros autores carismáticos sustentam que a primeira parte da passagem se refere à conversão e a segunda parte ao batismo do Espírito. Essa interpretação se torna impossível pela utilização, por parte de Paulo, da palavra “todos”. Paulo diz que todos os membros pertencem a um só corpo. Se Paulo estava se referindo a dois grupos distintos, ele não poderia ter usado a palavra “todos”. “O versículo 13, portanto, claramente ensina, primeiro, que todos os crentes compartilham do dom do Espírito e, segundo, isso desde o momento em que passam a fazer parte do corpo de Cristo. Esse versículo é a rocha que despedaça toda e qualquer construção do batismo do Espírito Santo como uma experiência adicional, pós-conversão e da segunda benção”8.

O ensino de que todos os cristãos são batizados no Espírito Santo na conversão é sustentado por outros textos bíblicos. Paulo passa parte do capítulo 8 de Romanos discorrendo sobre o Espírito Santo. Alguma vez Paulo sugeriu que receber o Espírito Santo é um processo de dois estágios? Não. Paulo claramente diz que se você é um cristão, você tem o Espírito Santo. Se você não é um cristão, você não O tem. “E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle” (Rm 8:9). “Sugerir, como fazem nossos amigos neopentecostais, que o Espírito vem habitar em alguém somente como uma pequena gota quando essa pessoa se converte, e que não habita na sua totalidade até algum tempo depois contradiz o ensino evidente desse versículo. Se você é um cristão, Paulo diz a todos nós: o Espírito habita em você. O que pode Ele fazer mais do que habitar em nós? Pode Ele habitar dupla ou triplamente?”9Paulo diz: “... o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós”(1 Co 6:19). Ele também diz, “Porque nós somos santuário do Deus vivente, como Ele próprio disse: Habitarei e andarei entre eles...” (2 Co 6:16). Nós devemos basear a nossa doutrina do batismo do Espírito no pleno ensino das epístolas. Uma doutrina deve ser baseada em passagens claras, didáticas, ao invés de em um único evento histórico.

Embora a Bíblia ensine que todo aquele que se torna um cristão é batizado no Espírito Santo, ela também ensina que cristãos precisam ser continuamente cheios do Espírito. Nós não podemos confundir estes dois conceitos. O batismo do Espírito se refere ao que acontece quando nos tornamos parte do corpo de Cristo (o Espírito Santo passa a habitar em nós). O encher-se ou a plenitude do Espírito refere-se à atividade contínua do Espírito na vida do crente após sua conversão. Crentes dependem do poder transformador do Espírito Santo para o seu crescimento na piedade e na santificação. A única passagem no Novo Testamento onde os cristãos são exortados a serem cheios do Espírito Santo é Efésios 5:18 : “... mas enchei-vos do Espírito...”. O verbo “enchei-vos” na língua original é uma ordem (imperativo) no presente. Isso significa que os cristãos são exortados a continuamente, dia a dia, a encherem-se do Espírito. Como nos enchemos do Espírito Santo? É isso alguma experiência mística somente para crentes “superespirituais”? A Bíblia ensina que nos enchemos do Espírito Santo por crer e obedecer à Palavra de Deus.

“Isto, portanto, digo, e no Senhor testifico, que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza dos seus corações ... Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que de fato o tendes ouvido, e nEle fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4:17, 20-24).

Não é por acidente que a passagem paralela a Efésios 5:18, que diz: “mais enchei-vos do Espírito”, é Colossenses 3:16, que diz: “... habite ricamente em vós a palavra de Cristo ”.

Diante do paralelismo que envolve as duas cartas nós somos levados a concluir que encher-se do Espírito e ter a Palavra de Cristo habitando em si são equivalentes. Essa Palavra que habita ricamente não é alguma verdade especial ou particular concedida somente a alguns, mas “todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28:20), fielmente cridas e obedecidas ... A realidade do encher-se do Espírito é a realidade, em toda a sua dimensão e riqueza, da obra contínua de Cristo, o Espírito que dá a vida, com a Sua Palavra. Procurar alguma outra palavra que não a Sua Palavra, reunida nas Escrituras para a igreja, é buscar a outro espírito que não o Espírito Santo10.

Jesus salienta a importância das Escrituras: “Santifica-os na verdade; a Tua palavra é a verdade” (Jo 17:17).

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Por Brian Schwertley

Referências
1 - As referências bíblicas são da Versão Revista e Atualizada de João Ferreira de Almeida.
2 - Anthony A. Hoekema, Línguas e Batismo do Espírito: Uma Avaliação Bíblica e Teológica (Tongues and Spirit Baptism: A Biblical and Theological Evaluation).
3 - O sentido fundamental do aoristo é denotar uma ação simplesmente quando ela ocorre, sem fazer referência ao seu progresso. Ele apresenta a ação ou evento como um “ponto”, por isso é chamado “pontiliar” (H. E. Dana and Julius R. Mantey, Manual de Gramática do Grego Neotestamentário __ A Manual Grammar of the Greek New Testament __ (Macmillan, 1969 [1927], p. 193.
4 - John f. MacArthur, Jr. , Os Carismáticos: Uma Perspectiva Doutrinária __ The Charismatics: A Doctrinal Perspective __ (Grand Rapids: Zondervan, 1978), p. 99.
5 - MacArthur, p. 101.
6 - Hoekema, p.21.
7 - Todas as ocorrências usam o mesmo termo grego, en.
8 - Richard B. Gaffin, Jr., Perspectivas sobre o Pentecoste: Ensino do Novo Testamento sobre os Dons do Dom (Perspectives on Pentecost: New Testament Teaching on the Gifts of the on the Gift __ Philipsburg, N.J.: Presbiterian and Reformed, 1979), p. 31.
9 - Hoekema, p. 26 (cf. Efésios 1:13).
10 - Gaffin, p. 33-34. Cf  “... Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra ...” (Ef 5:25,26)

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