sexta-feira, 20 de junho de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 4 [04/05]


Uma Comparação com a Doutrina Maometana da Predestinação

1. Elementos Que As Duas Doutrinas Têm Em Comum. 2. Tendência Maometana Para o Fatalismo. 3. A Doutrina Cristã Não É Derivada Do Maometanismo. 4. O Contraste Entre As Duas Doutrinas.

1. ELEMENTOS QUE AS DUAS DOUTRINAS TÊM EM COMUM.

Enquanto o Maometanismo é uma religião falsa e totalmente destituída de poder para salvar a alma do pecado, há certos elementos de verdade no sistema, e temos a obrigação de honrar a verdade, não importando a fonte da qual ela procede. "A força do Maometanismo", diz Froude, "foi que ele ensina a onipotência e a onipresença de um Espírito eterno, o Criador e Governador de todas coisas, através do poder de quem todas as coisas eram, e cuja vontade todas as coisas devem obedecer." 1 A semelhança notável entre as doutrinas da Predestinação segundo a Bíblia e segundo o Alcorão foi notada por muitos escritores. O Dr. Samuel M. Zwemer, a quem num sentido muito real podemos nos referir como "o apóstolo para o mundo Islâmico", chama a atenção para o estranho paralelo entre a Reforma na Europa sob Calvino e aquela na Arábia, sob Maomé. Ele diz: "O Islã é realmente, em muitos aspectos, o Calvinismo do Oriente; também foi uma chamada para o reconhecimento da soberania da vontade de Deus. 'Não á outro senão Deus'. Islão também viu na natureza, e buscou em revelação a majestade da presença e do poder de Deus, e as manifestações da Sua glória, transcendente e onipotente. 'Deus', diz Maomé, 'não há outro deus senão Ele, O que vive, O auto-subsistente, Aquele que não dorme nem dormita -- o Seu trono envolve os céus e a terra e ninguém pode interceder com Ele salvo pela Sua permissão. Somente ele é grande e exaltado' . . . . É este o princípio teísta vital que explica a vitória do Islã sobre a Cristandade idólatra, fraca e dividida, do Oriente no século VI . . . . . A Mensagem de Maomé, quando ele primeiro desfraldou a bandeira, 'Não há outro deus senão Deus; Deus é rei, e você deve e irá obedecer a Sua vontade', foi uma das mais simples considerações da natureza de Deus e do Seu relacionamento com o homem jamais oferecidas . . . . . Isto era o Islã, como foi oferecido ao fio da espada ao povo, que tinha perdido o poder de compreender qualquer outro argumento." 2

Adicionalmente ao Alcorão, há várias traduções ortodoxas que alegam dar os ensinamentos de Maomé acerca do assunto. Algumas destas falam numa linguagem quase idêntica como antes do nascimento de uma pessoa um anjo desce e escreve o seu destino. É dito que o anjo pergunta: "Oh meu Senhor; abençoado ou miserável? e mediante a resposta, um ou outro é escrito; e: Oh meu Senhor; macho ou fêmea? e mediante a resposta, um ou outro é escrito. Ele também escreve a conduta moral do novo ser, sua carreira, o fim da sua vida, e o seu quinhão de bondade. Então (lhe é dito): Feche o rolo, pois nenhuma adição será feita, nem nada será tirado." Em outra tradição, lemos sobre um mensageiro de Deus falando assim: "Não há nenhum de vocês -- não há nenhuma alma nascida cujo lugar, Paraíso ou Inferno, não tenha sido predeterminado por Deus, e que não tenha sido registrado de antemão como miserável ou abençoado." 3

Mas enquanto o Alcorão e as tradições ensinam uma estrita pré ordenação de conduta moral e de destino futuro, eles também apresentam uma doutrina de liberdade humana que faz necessário qualificarmos como em harmonia com as asserções da Predestinação divina. E aqui, também, como nas Escrituras Sagradas, não é feita nenhuma tentativa para explicar como as verdades aparentemente opostas de soberania Divina e liberdade humana podem ser reconciliadas.

2. A TENDÊNCIA MAOMETANA PARA O FATALISMO.

Contudo, na verdade, o Maometanismo coloca tal ênfase em Deus como a única causa de todos os eventos e que quaisquer segundas causas são praticamente excluídas. A idéia de que o homem é de qualquer maneira a causa dos seus próprios atos quase deixou de existir; e o Fatalismo, a crença normal dos Árabes no seu estado de semi civilização antes de Maomé, é a força controladora nas especulações e práticas do mundo Muçulmano. "De acordo com estas tradições", diz o Dr. Zwemer, "e a interpretação delas por mais de dez séculos na vida dos Muçulmanos, este tipo de Predestinação deveria ser chamada de Fatalismo e nada mais. Pois Fatalismo é a doutrina de uma necessidade inevitável e implica num poder onipotente e arbitrário." 4

O Maometanismo, praticamente se atém a uma predestinação de fins nada tendo a ver com meios. O contraste com o sistema Cristão é visto na seguinte estória. Um navio cheio de Ingleses e Muçulmanos lutava contra as ondas. Acidentalmente, um dos passageiros caiu por sobre a amurada. Os Muçulmanos olharam-no com indiferença, dizendo: "Se estiver escrito no livro do destino que ele deve ser salvo, ele será salvo sem nós; e se estiver escrito que ele perecerá, não podemos fazer nada"; e com isso deixaram-no. Mas os Ingleses disseram: "Talvez esteja escrito que nós devêssemos salvá-lo." Eles então jogaram uma corda e ele foi salvo.

3. A DOUTRINA CRISTÃ NÃO É DERIVADA DO MAOMETANISMO.

Mas o que quer se diga sobre a doutrina da Predestinação, ninguém racionalmente acusará que a doutrina Cristã foi emprestada do Maometanismo. Agostinho, que é admitido tanto por Protestantes como por Católicos ter sido o homem notável da Igreja Cristã do seu tempo, e quem os protestantes reputam como o maior entre Paulo e Lutero, ensinou a doutrina com grande convicção mais de dois séculos antes que o Maometanismo existisse; e ela também foi agressivamente ensinada por Cristo e pelos apóstolos no início da era Cristã, para não dizer do lugar que ela ocupou no Antigo Testamento.

Um estudo da história e dos ensinos do Maometanismo revela ser ele composto por três partes, uma que foi 'emprestada' dos Judeus, outra dos Cristãos e a terceira, dos Árabes ateus. Daí que uma parte do sistema é nada mais nada menos que o Cristianismo numa 'segunda mão'. Mas seria razoável que o Cristão desistisse de certos artigos do seu credo só porque Maomé os adotou no seu? Que grandes falhas uma conduta deste tipo faria no nosso credo, podem ser vislumbradas quando estudamos que Maomé cria em somente um Deus verdadeiro, que ele intimamente abolia toda adoração a ídolos, que ele cria em anjos, em uma ressurreição geral e em um julgamento, em céu e inferno, que ele permitia ambos o Antigo e o Novo Testamentos; e que reconhecia a ambos, Moisés e Cristo como profetas de Deus. É maravilha pouca, então, que elementos da doutrina Cristã da Predestinação fossem incorporados no sistema Maometano e unidos com a doutrina atéia do Fatalismo.

Ademais, um estudo histórico deste assunto mostra-nos que os Maometanos tiveram sua parte de Arminianos tão verdadeiramente como nós; e que as questões da Predestinação e do Livre Arbítrio foram agitadas entre os doutores Maometanos com tanto calor e veemência como também o foram na Cristandade. Os Turcos do séquito de Omar sustentam a doutrina da Predestinação absoluta, enquanto que os Persas do séquito de Ali negam a Predestinação e proclamam o Livre Arbítrio com tanto fervor quanto qualquer Arminiano.

4. O CONTRASTE ENTRE AS DUAS DOUTRINAS.

Embora os termos utilizados para descrever as doutrinas Reformada e Maometana da Predestinação tenham muita similaridade, os resultados dos raciocínios estão tão longe um do outro como o Leste está do Oeste. Na verdade, quanto mais adiante for a investigação, mais superficial torna-se a semelhança entre elas. Sua grande semelhança parece estar nos ensinamentos que cada uma tem, de que tudo o que acontece só acontece de acordo com a vontade de Deus. Todavia, idéias muito diferentes são representadas pelo termo "vontade de Deus". O Islã reduz Deus a uma categoria da vontade e faz Dele um déspota, um déspota oriental, que se posiciona numa altura abissal sobre a humanidade. Ele não dá a mínima para o caráter e preocupa-se somente com a submissão. O único negócio dos homens é obedecer os Seus decretos, tanto que Zanquius diz que a Predestinação se torna "uma espécie de ímpeto rápido, cego e avassalador, que, certo ou errado, com ou sem significado, atropela violentamente tudo ante si, com pouca ou nenhuma atenção à respectiva e peculiar natureza das segundas causas." E com relação à liberdade humana, o Dr. Zwemer diz que na doutrina do Islã, "A onipotência de Deus é tão absoluta que exclui todas atividades próprias por parte da criatura... Qualquer que seja a liberdade permitida é somente sob termo 'Kasb'; isto é, a apropriação de um ato como seu próprio, o qual, na realidade, ele é compelido a executar como parte da vontade de Deus.

O Alcorão e as tradições ortodoxas têm praticamente nada a dizer quanto aos conceitos de pecado e de responsabilidade moral; e a moralidade do sistema Maometano é notoriamente defectiva. No Islã é difícil evitar a conclusão que Deus é o autor do pecado. A origem do pecado e o seu caráter são conceitos inteiramente diferentes no Islã e no Cristianismo.

No Islã não há nenhuma doutrina da Paternidade de Deus e nenhum propósito de redenção para amenizar a doutrina dos decretos. Deus é representado como tendo arbitrariamente criado um grupo de pessoas para o paraíso e outro grupo para o inferno; e os eventos da vida de cada pessoa são tão ordenados que pouco lugar é deixado para a responsabilidade moral e para a culpa. Eles negam que tenha havido qualquer eleição em Cristo para a graça e para a glória, e que Cristo morreu uma morte sacrificial por seu povo. Eles não têm nada a dizer sobre a eficácia da graça salvadora ou sobre a perseverança, e mesmo com relação à predestinação de eventos temporais as idéias são muitas vezes brutas e confusas. O atributo do amor é ausente em Alá. As idéias de que Deus deve amar-nos ou que nós devemos amar a Deus são idéias estranhas ao Islã; e o Alcorão dificilmente refere-se a este assunto, do qual a Bíblia está tão repleta.

Concluindo, pode ser dito que o credo Arminiano tem pouco apelo para o Maometano. Tanto quanto refere-se ao trabalho de missão, as igrejas Calvinistas entraram no mundo do Islã mais cedo e mais vigorosamente do que qualquer outro grupo de igrejas; e por mais do que cem anos eles e somente eles têm desafiado o Islã na terra do seu nascimento. Eles têm ocupado centros estratégicos e hoje em dia fazem de longe a maior parte do trabalho de missão no mundo Muçulmano. Com a soberania de Deus como base, com a glória de Deus como objetivo; e com a vontade de Deus como motivo, as igrejas Presbiterianas e Reformadas estão peculiarmente equipadas para ganhar corações Muçulmanos para a causa de Cristo; e estão enfrentando, com esperanças brilhantes de sucesso, aquele que é o mais difícil de todos os desafios missionários, a evangelização do mundo Muçulmano.
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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