segunda-feira, 2 de junho de 2014

Ao Espírito Santo é abominável toda e qualquer religião de procedência humana.

Ora, é preciso advertir também que todos quantos se afastam do Deus único adulteram a religião pura, como necessariamente sucede a quantos se entregam à sua própria opinião. É verdade que se jactarão dizendo ter em mente coisa muito diversa; mas pouco importa o que têm em mira, ou do que se persuadem, uma vez que o Espírito Santo pronuncia serem apóstatas todos quantos, em virtude da cegueira da própria mente, colocam os demônios no lugar de Deus [1Co 10.20].

Por esta razão, Paulo sentencia [Ef 2.12] que os efésios estiveram sem Deus até que aprendessem do evangelho o que seria adorar ao Deus verdadeiro. Nem se deve restringir isso a uma só nação, visto que, em outro lugar [Rm 1.21], ele afirma em termos generalizados que, depois que a majestade do Criador lhes fora manifesta na própria estrutura do universo, todos os mortais se fizeram fúteis em suas cogitações.

E, por isso, para dar lugar ao Deus verdadeiro e único, a Escritura [Hc 2.18-20] condena como sendo falsidade e mentira tudo quanto à Divindade foi outrora celebrado entre os povos, nem deixa qualquer outra deidade senão no Monte Sião, onde florescia o conhecimento peculiar de Deus. Sem dúvida, dentre os gentios do tempo de Cristo, os samaritanos pareceram achegar-se bem próximo à verdadeira piedade. Entretanto, ouvimos da boca de Cristo [Jo 4.22] que eles não sabiam o que adoravam. Donde se segue que haviam eles sido enganados por erro fútil.

Afinal, mesmo que nem todos hajam laborado em vícios crassos, ou resvalado a idolatrias francas, nem ainda assim houve alguma religião pura e aprovada que se fundamentasse apenas no senso comum. Pois ainda que uns poucos não tenham cedido à insânia do vulgo, no entanto permanece firme o ensino de Paulo [1Co 2.8], a saber, que a sabedoria de Deus não foi apreendida pelos príncipes deste mundo. Ora, se até os mais excelentes viveram todos em trevas, que se haverá de dizer da própria escória?

Portanto, não surpreende se o Espírito Santo repudie como degenerescências a todos os cultos inventados pelo arbítrio dos homens, porque, em se tratando dos mistérios celestes, a opinião humanamente concebida, ainda que nem sempre engendre farto amontoado de erros, não obstante é a mãe do erro. E quando nada pior acontece, contudo isto não é falta leve: adorar, ao acaso, a um Deus desconhecido [At 17.23]. Entretanto, nessa culpa incidem, segundo o sentencia o próprio Cristo [Jo 4.22], todos quantos não foram ensinados pela lei que é a Deus que importa cultuar. E na verdade aqueles que têm sido os mais sublimados legisladores, não têm avançado além disto: que a religião teria se fundamentado no consenso público.

Assim é que, em Xenofonte, Sócrates louva a resposta de Apolo pela qual preceituou que cada um adorasse aos deuses à maneira dos antepassados e conforme o costume da própria cidade. Mas, que direito têm os mortais de definir com base em sua própria autoridade o que ultrapassa ao mundo em grande medida? Ou, quem poderia a tal grau aquiescer às determinações dos ancestrais ou às ordenanças do povo, que, sem hesitação, receba a um deus que lhes é impingido em bases puramente humanas? Antes de sujeitar-se à opinião alheia, cada um deve persistir em seu próprio parecer.

Portanto, uma vez que, para seguir-se a adoração de Deus, nimiamente fraco e frágil vínculo da piedade é a praxe da cidade, ou o consenso da antigüidade, resta que o próprio Deus forneça do céu testemunho de si mesmo. 
__________________
Por João Calvino
As Institutas, volume 1, capítulo 5.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...