domingo, 15 de junho de 2014

Testemunho dos mártires


Ora, com quão grande segurança se nos impõe que nos engajemos nesta doutrina que vemos ratificada e testemunhada pelo sangue de tantos santos varões? Esses varões, uma vez recebida esta doutrina, não vacilaram em enfrentar a própria morte, animosa e intrepidamente, e até mesmo com exaltado júbilo. Transmitida que nos foi com esse penhor, como não a esposaremos nós com segura e inabalável convicção? Portanto, não é uma comprovação de pouco peso o fato de a Escritura foi selada pelo sangue de tantas testemunhas, mormente quando ponderamos que eles enfrentaram a morte para dar testemunho da fé, não com excesso fanático, como por vezes costuma suceder a espíritos sem norte, mas, ao contrário, por zelo firme e constante, contudo sóbrio, por Deus.

Há outras razões não poucas nem fracas em virtude das quais a dignidade e majestade da Escritura não só se afirma aos corações piedosos, mas ainda egregiamente se vindica ante as sutilezas de seus inimigos. Entretanto, razões que de si mesmas não se revestem de valia suficiente para prover-lhe segura credibilidade, até que o Pai celestial, manifestando nela sua divinal majestade, exime sua reverência de toda controvérsia. Por isso é que a Escritura será realmente satisfatória para o conhecimento salvífico de Deus, então, finalmente, quando a certeza lhe for funda- da na convicção interior pelo Espírito Santo.        
De fato, esses testemunhos humanos, que subsistem para confirmá-la, de fato não serão debalde se acompanharem aquele testemunho primordial e supremo, como subsídio  secundário  de  nossa  limitada  compreensão.  Procedem  incipientemente, porém, aqueles que desejam que se prove aos infiéis que a Escritura é a Palavra de Deus, pois, a não ser pela fé, isso não se pode conhecer. Portanto, com razão sentencia Agostinho³³ quando adverte que a piedade e a paz de espírito devem preceder, para que o homem possa entender alguma coisa acerca de questões de tão grande importância.
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Foto 2: Os Quarenta Mártires de Sebaste
33. De utilitate credenti.
As Institutas, volume 1, capítulo 8. João Calvino.
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