quarta-feira, 25 de junho de 2014

Uma refutação eficaz da exegese hipercalvinista


Mateus 23:37:
Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! (Cf. Lucas 13:34)
Neste verso, Jerusalém evidentemente se refere ao povo daquela cidade. Pode ser que os líderes (denunciados nos versos anteriores) estejam em mente, mas eles não foram os únicos responsáveis pela morte dos profetas, ou mesmo do próprio Cristo; nem o julgamento caiu sobre eles somente, desde que muitas pessoas comuns pereceram na queda de Jerusalém.

A reunião pode somente ser a recepção de pecadores por Cristo, como Redentor Deus-homem, a recepção dos prometidos em Mateus 11:28, `Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei’. John Murray nos afirma:

O que precisa ser apreciado é que a aceitação da qual Jesus fala aqui é aquela que ele exerce naquele único ofício e prerrogativa que lhe pertence como Deus-homem Messias e Salvador. À vista da função divina transcendente que ele afirma que deseja realizar, seria ilegítimo para nós afirmar aqui que temos simplesmente um exemplo de seu desejo ou vontade humana. [44]

A reunião visualizada é de Cristo como uma pessoa em duas naturezas distintas; é esta reunião que prepara em direção à paz com Deus e repouso até as almas dos homens.

Em seguida, o termo ‘vossos filhos’ precisa de interpretação cuidadosa. Oponentes da livre oferta têm se esforçado para tornar os filhos referirem-se aos eleitos de Deus que na realidade foram reunidos por Cristo mediante graça eficaz. Por exemplo,Angus Stewart escreve:

Porém, “quantas vezes” simplesmente nos diz que os líderes religiosos (`Jerusalém’) se opuseram a Jesus reunindo Seus eleitos (`filhos de Jerusalém’) muitas vezes… E mesmo assim Cristo o rei reuniu todos os filhos de Jerusalém mediante sua irresistível graça. [45]

Esta visão é indefensável por diversas razões:

I. Ela é arbitrária, imposta ao texto e não pode ser traçada dele.

II. É contrária ao uso normal. Os `filhos de Edom’ (Sl 137:7) são o povo daquele lugar. As muitas referências aos `filhos de Israel’ se referem simplesmente ao povo de Israel.

Semelhantemente, os filhos de Moabe, Amon, etc. Quando usados metaforicamente, tais expressões indicam, semelhança ao corpo parental – por exemplo, `filhos dos poderosos’ (Sl 29:1 AV.mg), `filhos de Belial’ (Dt 13:13 etc.), `filhos da luz’ (Ef 5:8) – e não um contraste, como Stewart nos faria crer, fazendo portanto os filhos de Jerusalém contrastarem com a própria Jerusalém.

III. Conflita com os temos singulares e plurais do texto. As antigas pronúncias da Versão Autorizada (refletindo as distinções entre singular e plural do grego) serão de ajuda aqui. A palavra thy (tua, singular) claramente se relaciona a Jerusalém(singular). Os filhos (plural), representados pelos pintinhos, estão em vista na fraseye (vós, plural) não fosse onde o inglês reflete o plural do verbo grego. Stewart deseja o verbo plural, ‘vós’ não se referiria ao singular Jerusalém, que é demasiado forçado. São os filhos que não seriam reunidos. Jerusalém é simplesmente uma descrição coletiva da cidade e seu povo, como um corpo. Os filhos de Jerusalém não são nada mais complicados que as mesmas pessoas consideradas como uma coleção de indivíduos.

IV. É inconsistente com o uso do termo em outros lugares. O termo ‘vossos filhos’ é usado com referência a Jerusalém e em um contexto semelhante, imediatamente após a anotação do lamento de Cristo sobre a cidade, em Lucas 19:44, `e te derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo da tua visitação’. É claro que os filhos são aqueles que morreram na destruição de Jerusalém. Estes não podem ser os eleitos. Os crentes deram ouvidos ao alerta de Jesus concernente à queda de Jerusalém em Mt 24:15-20 e fugiram. Foram os descrente e auto justificados judeus, crendo que Jerusalém jamais seria destruída, que permaneceram e pereceram dentro dela.

Está agora claro que o lamento de Cristo está dirigido para aqueles que foram fadados. É verdade que João Calvino interpreta este verso como uma expressão de indignação em vez de compaixão, mas ele vê a causa de tal indignação como compaixão abusada! Ele afirma:

Isto é expressivo de indignação em vez de compaixão. A própria cidade, de fato, sobre a quem ele depois lamentaria (Lc 19:41) é ainda objeto de compaixão; mas em direção aos escribas, que foram os autores de sua destruição, ele usa dureza e severidade, como eles merecem. E ainda assim ele não poupou o resto, que eram todos culpados de aprovar e coparticipar do mesmo crime … Se em Jerusalém a graça de Deus fora meramente rejeitada, ali teria sido uma ingratidão inexcusável; mas desde que Deus tentou trazer os judeus para si por compassivos e gentis métodos, e não recebeu nada por tal gentileza, a criminalidade de tal altivo desdém foi muito mais agravada. Foi semelhantemente acrescentada obstinação insuperável; porque não apenas uma vez e novamente Deus desejou juntá-los, mas por constantes ininterruptos avanços, ele lhes enviou profetas, um após outro, quase todos os quais foram rejeitados pelo grande corpo da população… Percebemos agora a razão por que Cristo, falando na pessoa de Deus, se compara a uma galinha. Isto é para infligir mais profunda desgraça a esta ímpia nação, que tratou com desdém convites tão gentis, e procedimentos da mais maternal compaixão. É uma impressionante e ímpar instância de amor, que ele não desdenha a se inclinar a tais lisonjas, pelas quais ele poderia domar rebeldes em sujeição… Por isto ele quer dizer que, se a palavra de Deus é exibida em nós, ele abre seu coração para nós com maternal atenção, e, não satisfeito com isto, condescende à humilde afeição da galinha cuidando de seus pintinhos. Portanto segue, que nossa obstinação é verdadeiramente monstruosa, se não o permitirmos que nos reúna. E de fato, se considerarmos, por um lado, a terrível majestade de Deus, e, por outro lado, nossa média e baixa condição, não podemos nada além de estar envergonhados e assombrados por tal impressionante bondade. Pois que objeto pode Deus ter em vista ao humilhar a si mesmo em nossa conta? Quando ele se compara a uma mulher, ele descende muito bem abaixo de sua glória; quanto tão mais quando ele toma a forma de uma galinha, e se digna a nos tratar como seus pintinhos? [46]

Algumas das expressões de Calvino podem assustar até mesmo aqueles que adotam a oferta sincera, mas elas demonstram sua determinação, não obstante seu comprometimento com a verdade da absoluta predestinação por Deus daqueles que serão salvos, para defender a graça de Deus manifesta na oferta indiscriminada de misericórdia a pecadores. É certo que qualquer um esposando a teologia de Hoeksema não meramente tergiversaria sobre certas formas da expressão no acima, mas não poderia chegar remotamente próximo de endossar a doutrina da graciosa oferta sincera tão claramente exibida aqui. A alegação de que as Igrejas Protestantes Reformadas da América seguirem os passos de Calvino, em sua oposição à livre oferta do Evangelho, simplesmente não acorda com o fato. Como temos visto, porém, a visão de Calvino da livre oferta, em vez da rejeição dela por Hoeksema, acorda com a Palavra de Deus.
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David Silversides, The Free Offer: Biblical and Reformed ([Scotland?]: Marpet Press, 2005), 50-54. [Algumas pronúncias modernizadas; itálicos do original; valores e conteúdo original: sublinhado meu.]
[44] The Free Offer of the Gospel’ in Collected Writings of John Murray, vol. 4, (The Banner of Truth Trust Edinburgh, 1982), p. 120.
[45] Covenant Reformed News, Sept. 2004, vol. X, Issue 5, (Covenant Protestant Reformed Fellowship, Bellymena, Northern Ireland), p. 4.
[46] op. cit. vol. 17 (iii), p. 106f.
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