sábado, 5 de julho de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 4 [05/05]


A Importância Prática da Doutrina

1. Influência Da Doutrina Na Vida Diária. 2. Uma Fonte De Segurança E Coragem. 3. A Ênfase Do Divino Agir Na Salvação Do Homem. 4. Somente O Calvinismo Resistirá A Todas As Provas. 

5. Estas Doutrinas Não São Irracionais Quando Compreendidas. 6. A Assembléia de Westminster e a Confissão de Fé de Westminster. 7. Estas Doutrinas Deveriam Ser Ensinadas e Pregadas Em Público. 8. Os Votos De Ordenação e a Obrigação Do Ministro. 9. A Igreja Presbiteriana É Verdadeiramente Aberta e Tolerante. 10. Razões Para O Pouco Sucesso Do Calvinismo No Presente.


1. INFLUÊNCIA DA DOUTRINA NA VIDA DIÁRIA.

A Doutrina Reformada da Predestinação não é uma teoria especulativa, fria, vazia, não é um sistema artificial de doutrinas estranhas tal como muitas pessoas são inclinadas a acreditar; mas sim uma mais viva e quente, um relato mais importante e mais vivo das relações de Deus com os homens. É um sistema de grandes verdades práticas, as quais são designadas e adaptadas sob a influência do Espírito Santo, para moldar as afeições do coração e para dar direção certa à conduta. O próprio testemunho de Calvino a esse respeito é: "Eu rogaria, em primeiro lugar, aos meus leitores para que mantivessem cuidadosamente na memória a admoestação que ofereço; que este grande tema não é, como muitos imaginam, uma simples disputa controversa e barulhenta, nem uma especulação que sobrecarrega as mentes dos homens sem qualquer resultado; mas uma discussão sólida eminentemente adaptada ao serviço do divino, porque ela faz com que cresçamos solidamente na fé, treina-nos na humildade, e nos eleva numa admiração da ilimitada bondade de Deus para conosco, enquanto que leva-nos a louvar esta bondade com a nossas notas mais altas. Pois não há maneira mais efetiva de construir a nossa fé do que o ofertar nossos ouvidos abertos à eleição de Deus, a qual o Espírito Santo sela nos nossos corações enquanto ouvimos; mostrando-nos que ela encontra-se na eterna e imutável boa vontade de Deus para conosco; e que, portanto, não pode ser movida ou alterada por quaisquer tempestades do mundo, por quaisquer assaltos de Satanás, por quaisquer mudanças, por quaisquer flutuações ou fraquezas da carne. Pois a nossa salvação é então assegurada a nós, quando encontramos a sua causa, a sua razão, no seio de Deus." 1 Estas, pensamos, são palavras verdadeiras de que precisamos muito, hoje em dia.

O Cristão que tem esta doutrina no seu coração sabe que está seguindo uma rota na direção do céu; que a sua rota foi pré ordenada para ele pessoalmente; e que é uma boa rota. Ele todavia não entende todos os detalhes, mas mesmo nas adversidades ele pode mirar o futuro com confiança, sabendo que o seu destino eterno está fixado e para sempre abençoado; e que nada pode possivelmente roubá-lo este tesouro sem preço. Ele compreende que depois que ele finalizar o seu curso de vida aqui, ele olhará para trás e verá que cada evento em particular foi designado por Deus para um propósito particular; e que ele agradecerá por ter sido guiado através daquelas experiências em particular. Uma vez convencido dessas verdades, ele sabe que o dia certamente está chegando quando a todos aqueles que o magoaram ou perseguiram-no, ele poderá dizer, como disse José aos seus irmãos, "Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; Deus, porém, o intentou para o bem..."[Gênesis, 50:20]. Esta concepção exaltada de Deus como O alto e O elevado, todavia pessoalmente envolvido mesmo com os menores eventos não deixa espaço para o que os homens comumentemente chamam de acaso, ou sorte, ou fortuna. Quando uma pessoa vê a si mesma como um dos escolhidos do Senhor e sabe que cada um dos seus atos tem um significado eterno, ela compreende mais claramente o quão séria é a vida, e é incendiada com nova determinação para fazer com que a sua vida conte para grandes coisas.

2. UMA FONTE DE SEGURANÇA E CORAGEM.

"É a doutrina de uma providência particular", diz Rice, "que dá aos justos um sentimento de segurança no meio de perigo; que dá-lhes a certeza de que o caminho do trabalho é o caminho de segurança e de prosperidade; e que os encoraja à prática da virtude, mesmo quando ela os expõe aos maiores desgraças e perseguições. Quão freqüente, mesmo quando nuvens e trevas parecem juntar-se sobre eles, eles regozijam-se na segurança dada pelo seu Salvador, 'Não te deixarei, nem te desampararei'[Hebreus13:5]" 2 A sensação de segurança que esta doutrina proporciona ao santo que luta é resultado da segurança de que ele não está comprometido com o seu próprio poder, ou melhor fraqueza, mas nas mãos firmes do Pai Todo-Poderoso, -- que sobre ele está a bandeira do amor e que sob ele estão os braços sempiternos. Ele entende que mesmo o Diabo e os homens ímpios, não importa quaisquer tumultos que eles possam provocar, são não somente reprimidos por Deus, mas são compelidos a agir conforme a Sua vontade. Eliseu, sozinho e esquecido, viu serem aqueles que estavam do seu lado mais do que os que estavam contra ele, porque ele viu as carruagens e os cavaleiros do Senhor movendo-se nas nuvens (veja em II Reis 6:16, 17 = "(16) Respondeu ele (Eliseu): Não temas; porque os que estão conosco são mais do que os que estão com eles. (17) E Eliseu orou, e disse: Ó senhor, peço-te que lhe abras os olhos, para que veja. E o Senhor abriu os olhos do moço, e ele viu; e eis que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo em redor de Eliseu."). Os discípulos, sabendo que os seus nomes estavam escritos no céu, estavam preparados para sofrerem perseguições e, numa ocasião lemos que depois de serem açoitados e vituperados, eles "Retiraram-se pois da presença do sinédrio, regozijando-se de terem sido julgados dignos de sofrer afronta pelo nome de Jesus."[Atos 5:41].

"A consideração divina da predestinação e nossa eleição em Cristo", diz o artigo décimo sétimo do credo da Igreja da Inglaterra ('Church of England', N.T.), "é cheia de conforto, agradável e indizível, para com os pios." O mandamento de Paulo foi, "Não andeis ansiosos por coisa alguma..." [Filipenses 4:6]. E é somente quando sabemos que Deus realmente reina desde o trono do universo, e que Ele nos ordenou para amados Seus; que podemos ter esta íntima paz nos nossos corações.

O Dr. Clarence E. Macarney, num sermão sobre a Predestinação, disse: "Os assim chamados infortúnios e adversidades da vida, assumem uma coloração diferente quanto os olhamos através desta lente (N.T. a Predestinação). É triste ouvir as pessoas tentando reviver as suas vidas e dizendo a si mesmas: 'Se eu tivesse escolhido uma profissão diferente', 'Se eu tivesse tomado um rumo diferente na estrada', 'Se eu tivesse casado com outra pessoa'. Tudo isso é fraco e não Cristão. Tecemos a teia do destino, num certo sentido, com as nossas próprias mãos, e todavia Deus teve a Sua parte nela. É a parte de Deus, e não a nossa, que nos dá fé e esperança." E Blaise Pascal, numa carta maravilhosa a um amigo enlutado, ao invés de repetir os lugares comuns de consolação, confortou-o com a doutrina da Predestinação, dizendo: "Se considerarmos este evento, não como um resultado do acaso, não tão fatal como a necessidade da natureza, mas como um resultado inevitável, justo, santo, de um decreto da Providência de Deus, concebido desde toda a eternidade, a ser executado num determinado ano, dia, hora e em determinado local e de determinada forma; adoraremos em silenciosa humildade a grandeza insondável dos Seus secretos; e veneraremos a santidade dos Seus decretos; glorificaremos os atos da sua providência; e unindo nossa vontade com a do Próprio Deus, desejaremos com ele, nEle e por Ele, o que Ele desejou em nós e para nós desde toda a eternidade."

Uma vez que o verdadeiro Calvinista vê a mão e o sábio propósito de Deus em tudo, ele sabe que mesmo os seus sofrimentos, tristezas, perseguições, derrotas, etc., não são resultados de acaso ou de acidente, mas que foram pré vistos e pré apontados, e que são as purificações ou disciplinas designadas para o Seu próprio bem. Ele entende que Deus não afligirá desnecessariamente o Seu povo; que no plano divino estes são todos ordenados em número, peso e tamanho; e que não continuarão nem por um momento a mais do que Deus entenda necessário. Em pesar o seu coração instintivamente agarra-se a esta fé, sentimento que por razões sábias e graciosas, embora desconhecidas, a aflição foi enviada. Mesmo que aflições pontiagudas possam a princípio machucar, um pensamento um pouco mais racional rapidamente o traz de volta a si; e os pesares e as tribulações, em grande parte, tornam-se sem sentido.

E as Escrituras dizem o seguinte, com relação a isto: "E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito."[Romanos 8:28]; "(5) ...Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, nem te desanimes quando por ele és repreendido; (6) pois o Senhor corrige ao que ama, e açoita a todo o que recebe por filho."[Hebreus 12:5, 6]. "...Ele é o Senhor, faça o que bem parecer aos seus olhos."[I Samuel 3:18]. "Pois tenho para mim que as aflições deste tempo presente não se podem comparar com a glória que em nós há de ser revelada."[Romanos 8:18]. "(11) Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguiram e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa. (12) Alegrai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós."[Mateus 5:11, 12]. "se perseveramos, com ele também reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará."[II Timóteo 2:12]. "...O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor."[Jó 1:21]. E quando alguém nos ofender e disser falso testemunho a nosso respeito, no mínimo não nos zangaremos tanto, se lembrarmo-nos o que Davi disse, "...Deixai-o; deixai que amaldiçoe, porque o Senhor lho ordenou."[II Samuel 16:11].

A nossa predestinação é a nossa garantia segura de salvação. Outras coisas podem confortar-nos, mas somente esta pode dar-nos a certeza. Ela faz o Evangelho ser o que a palavra realmente significa, "Boas Novas". Qualquer outro sistema teológico que sustente que o sacrifício de Cristo na realidade não salvou ninguém mas que meramente fez a salvação possível para todos caso eles atendessem a certos termos, reduz o Evangelho a um simples "bom conselho"; e qualquer sistema teológico que traga com o Evangelho somente uma "chance" de salvação, também trará junto, de necessidade lógica, uma "chance" de perdição. E que diferença faz ao homem caído quanto a se o Evangelho é Boas Novas ou bom conselho!! O mundo está repleto de bons conselhos; mesmo os livros de filósofos ateus continham muito disso; mas só o Evangelho contém para o homem a boa nova de que Deus o redimiu.

Este sistema, embora possa ser lógico e severo, não entristece nem silencia ninguém, mas o faz corajoso e ativo. Sabendo-se imortal até que sua obra esteja completa, a coragem é resultado natural. A estimativa de Smith quanto ao Calvinista é expressada nas seguintes palavras: "Seus pés arrancados da cova e plantados na Rocha Eterna, seu coração excitado com gratidão adoradora, sua alma cônscia de um amor Divino que nunca o renuncia e de uma energia Divina que nele e através dele está operando propósitos eternos do bem, ele é dotado de força invencível. Num sentido mais nobre do que Napoleão jamais sonhou, ele sabe-se ser um 'homem do destino.' " E ele diz novamente, "O Calvinismo é de uma vez, dentre os credos, o mais estimulante e o que mais satisfaz.." 3

Todavia, junto com estes motivos para coragem, encontram-se outros, que mantêm o indivíduo apropriadamente humilde e agradecido. Na situação atual do mundo, ele se vê como uma acha tirada da fogueira. Sabendo ter sido salvo não por qualquer mérito ou sabedoria próprios, mas somente pela graça e pela misericórdia de Deus, ele é profundamente cônscio da sua dependência em Deus, e tem o maior incentivo para um viver reto. Em tudo por tudo, não se achará nenhuma maneira mais certa para preencher a mente ao mesmo tempo com reverência, humildade, paciência e gratidão, do que tê-la inteiramente saturada com esta doutrina da Predestinação.

3. A ÊNFASE CALVINISTA DO DIVINO AGIR NA SALVAÇÃO DO HOMEM.

Será somente um Cristão muito imperfeito, aquele que não conhecer estas verdades mais profundas, as quais são trazidas à luz pela doutrina da Predestinação. Ele não pode apreciar adequadamente a glória de eus, nem as riquezas da graça, as quais lhe são dadas através da redenção em Cristo, pois em nenhum outro lugar a glória de Deus brilha tão refulgentemente quanto na predestinação dos eleitos para a vida, não obscurecida nem tampouco manchada por qualquer tipo de obras humanas. Ela mostra-nos que tudo o que somes e tudo quanto temos que seja desejável, devemos à Sua graça. Ela rebaixa o orgulho humano e exalta a misericórdia Divina. Ela faz com que o homem seja nada e com que Deus seja tudo, e assim preserva o relacionamento apropriado entre a criatura e o infinitamente exaltado Criador. Ela exalta um Soberano absoluto, que é o Regente universal, e humilha todos os outros soberanos antes dEle, assim mostrando que todos os homens em si mesmos e separados do favor especial de Deus encontram-se no mesmo nível. A doutrina da Predestinação tem defendido os direitos da humanidade aonde quer que tenha ido, no Estado tanto quanto na Igreja.

A doutrina da Predestinação enfatiza o lado Divino da salvação, enquanto que seu sistema teológico rival, o lado humano. Ela estampa em nós o fato de que a nossa salvação é puramente da graça, e que nós não éramos melhores do que aqueles que são deixados a sofrer pelos seus pecados. Ela nos leva a ser mais caridosos e tolerantes para com os não salvos e a ser eternamente gratos por Deus haver-nos salvo. Mostra-nos que no nosso estado caído a nossa sabedoria é ignorante e que a nossa força é fraca, e de conta nenhuma a nossa justiça. Ensina-nos que a nossa esperança está em Deus, e que dEle deve vir toda a nossa esperança. Ensina-nos aquela lição da qual muitos são fatalmente ignorantes, a lição abençoada do desespero próprio. Lutero nos diz que ele "freqüentemente costumava ofender-se em muito com esta doutrina", porque ela levava-o a desesperar-se; mas que ele depois viu que este tipo de desespero era lucrativo e parente da graça divina. Na verdade não vamos muito longo ao dizer que ela é fundamental às concepções religiosas dos escritores Bíblicos, e que erradicá-la seja do Velho ou do Novo Testamentos seria transformar inteiramente a representação Escritural. O assunto foi muito bem colocado pelo Dr. J. Gresham Machen quando ele disse, "Um Calvinista é levado a considerar a teologia Arminiana como um sério empobrecimento da doutrina Bíblica da graça divina; e séria igualmente é a visão que o Arminiano deve ter quanto às doutrinas das Igrejas Reformadas."4

Deve estar evidente de que há apenas duas teorias que podem ser mantidas pelos Cristãos evangélicos neste importante assunto; que todos homens que o estudaram, e que alcançaram quaisquer conclusões aceitáveis com relação ao mesmo, devem ser ou Calvinistas ou Arminianos. Não há nenhuma outra posição que um "Cristão" possa tomar. Aqueles que negam a natureza sacrificial da morte de Cristo tornam-se para um sistema de auto salvação ou naturalismo, e não podem ser chamados de "Cristãos" no histórico e unicamente apropriado sentido do termo.

Por comparação, podemos dizer que a Igreja Luterana enfatiza o fato de que a salvação acontece somente pela fé; que a Igreja Batista enfatiza a importância dos sacramentos, particularmente o batismo, e o direito de indivíduos e de congregações de exercer julgamento privado em questões religiosas; que a Igreja Metodista enfatiza o amor de Deus para com os homens, e a responsabilidade do homem para com Deus; que a Igreja Congregacional enfatiza o direito de julgamento privado e de congregações locais gerenciarem os seus assuntos próprios; que a Igreja Católica Romana enfatiza a unidade da Igreja, e a importância de uma conexão com a igreja Apostólica. Mas de todas estas, enquanto boas em si mesmas, são empalidecidas pela grande doutrina da soberania e da majestade de Deus, a qual é enfatizada pelas Igrejas Presbiteriana e Reformada. Enquanto os outros são princípios mais ou menos antropológicos, esta doutrina é um princípio teológico, e representa-nos um DEUS GRANDE, que é alto e elevado, que está assentado no trono do domínio universal.

O Dr. Warfield nos deu uma boa análise dos princípios formativos que sublinham as Igrejas Luterana e Reformada. Após dizer que a distinção não é que os Luteranos neguem a soberania de Deus, nem que os Reformados neguem que a salvação é só pela fé, ele acrescenta: "O Luteranismo, brotando da agonia de uma alma ardendo em culpa, buscando paz com Deus, encontra a paz na fé e ali mesmo permanece . . . . Conhecerá nada além da paz da alma justificada. O Calvinismo faz a mesma pergunta, com a mesma ansiedade como o Luteranismo: 'O que farei para ser salvo?' e a responde precisamente como o Luteranismo o faz. Mas não pode parar por aí. A questão mais profunda o pressiona, 'De onde vem esta fé pela qual eu sou justificado?' . . . . . Zela pela salvação, não há dúvida disso, mas o seu mais alto zelo é pela honra de Deus, e esta é a questão que acelera suas emoções e vitaliza seus esforços. Ela começa, centraliza-se e termina com a visão de Deus na Sua glória; e coloca-se antes de todas as coisas para render a Deus os Seus direitos em cada esfera de atividade da vida." 5 E novamente ele diz: "Numa palavra, é a visão de Deus em Sua majestade, que encontra-se na fundação do pensamento Calvinista", e depois que um homem tenha tido esta visão, ele "é por um lado cheio com um sentido da sua própria incapacidade de permanecer à vista de Deus, como uma criatura, e muito mais como um pecador; e por outro lado com admiração adoradora de que não obstante este Deus é um Deus que recebe os pecadores." Toda dependência de si mesmo se vai, e ele joga-se só na graça de Deus. Na natureza, na história, na graça, em todos lugares, desde a eternidade até a eternidade, ele enxerga a onipresente atividade de Deus.

Se Deus tem um plano definido para a redenção do homem, é muito importante sabermos em que consiste tal plano. A pessoa que olha para uma máquina complicada mas que ignora os resultados os quais ela foi designada alcançar e ignora também a relação entre as suas várias partes, deverá ser incapaz de entende-la ou de utilizá-la corretamente. Da mesma forma, se formos ignorantes quanto ao plano de salvação, o grande objetivo ao qual ele aponta ou a relação entre as suas várias partes, ou se não as compreendermos, nossos pontos de vista serão confusos e errôneos; seremos incapazes de aplicá-lo apropriadamente a nós mesmos, ou de exibi-lo a outros. Uma vez que a doutrina da Predestinação revela tanto com relação à salvação; e uma vez que ela dá ao Cristão conforto e segurança tão grandes, ela é uma grande e abençoada verdade.

Sem hesitação afirmamos que este sistema de crença e de doutrina, dado por inspiração do Espírito Santo, é o sistema de Filosofia verdadeiro e final. Ademais, a Teologia estuda o Próprio Deus, enquanto que as ciências físicas e as artes liberais estudam somente as Suas vestes. Na própria natureza do caso, portanto, a Teologia deve ser a "Rainha das Ciências". Filosofia, como tem sido usualmente estudada pelas diferentes escolas de pensamento, é realmente a base e a senhora das ciências meramente humanas, mas é ela mesma somente uma ciência auxiliar no estudo de Teologia.

A Teologia Calvinista é o maior assunto que jamais exercitou a mente humana. Seu próprio ponto de partida é uma profunda compreensão da exaltação e da perfeição de Deus. Com as suas doutrinas sublimes da soberana graça, do poder e da glória de Deus, ela eleva-se mais alto do que qualquer outro sistema teológico. Na verdade, aquele a quem ela é apresentada é movido a clamar com o salmista, "Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim; elevado é, não o posso atingir."[Salmo 139:6]; ou exclamar com o apóstolo Paulo, "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!"[Romanos 11:33]. É um assunto que tem desafiado os intelectos de todos os grande pensadores em épocas de peso; e não se admira de sermos ditos que estas são as coisas as quais os anjos desejam olhar. Passar de outros sistemas teológicos para este é como passar pela foz de um rio e lançar-se em mar aberto. Deixamos o raso para trás e sentimo-nos navegando na grande e profunda imensidão.

4. SOMENTE O CALVINISMO RESISTIRÁ A TODAS AS PROVAS

A harmonia que existe entre todas as ramificações da doutrina das Escrituras Sagradas é tal que verdade ou erro com relação a qualquer uma delas quase que inevitavelmente produz verdade ou erro, em maior ou menor grau, com relação a todas as demais, -- o que significa que somente os Calvinistas atêm-se a pontos de vistas que são, em todos aspectos, Bíblicos, com relação a qualquer uma das doutrinas líderes, do Cristianismo. Isto não quer dizer que a substância principal das doutrinas mais importantes, tais como a Divindade de Cristo, Sua morte sacrificial, Sua ressurreição, a obra do Espírito Santo, etc., não sejam também sustentadas por outros sistemas; mas que a tendência geral de pontos de vista errôneos com relação a estes tópicos distintivamente Calvinistas é levar a separações maiores de doutrinas sólidas, em outros assuntos. Como uma regra geral os anti-Calvinistas tão seriamente empobrecem doutrinas tais como a da expiação, do agir do Espírito Santo, da culpa e da incapacidade do homem, da regeneração e etc., que freqüentemente tornam-se pouco mais que palavras vazias; e junto com este empobrecimento vai também a tendência a negligenciá-las por completo. Os anti-Calvinistas geralmente fazem pouca distinção entre a obra objetiva por nós e a obra subjetiva em nós; e para todos propósitos práticos a expiação é reduzida a pouco ou nada mais que uma prova e exibição do amor indiscriminado de Deus para com os homens, através do qual é mostrado que Deus está pronto e preparado para perdoar. A tendência de outros sistemas teológicos é para a teoria da "persuasão moral" da expiação, enquanto que o Calvinismo sustenta que o sofrimento de Cristo foi uma satisfação total para com a justiça de Deus, -- que os Seus martírios foram plenamente equivalentes àqueles que eram devidos ao Seu povo, pelos seus pecados.

Vivemos hoje uma época na qual vemos praticamente todas as igrejas Protestantes históricas atacadas por uma falta de crença 'de dentro', pelo ceticismo. Muitas delas já sucumbiram; e a linha descendente tem sido invariavelmente do Calvinismo para o Arminianismo, e do Arminianismo para o Modernismo ou Unitarianismo; e este último estado tem sido provadamente auto-destrutivo. Nós cremos firmemente que as fortunas, as benesses do Cristianismo estão ligadas às fortunas, às benesses do Calvinismo. Certamente que a história do Modernismo e do Unitarianismo neste país (nos EUA, N.T.) tem provado serem eles fracos demais para manterem-se. Onde os princípios do Calvinismo são abandonados, há uma tendência poderosa guiando para baixo, às profundezas do Naturalismo. Alguns têm declarado, -- e corretamente acreditamos -- que não há chão consistente entre o Calvinismo e o Ateísmo.

Estas distinções que temos apresentado, entre o Calvinismo e o Arminianismo, são grandes e importantes; e até que alguém tenha feito um estudo especial destas verdades ele não se dá conta de que uma grande quantidade de heresia tem sido incorporada ao sistema teológico Arminiano. Se um sistema é verdadeiro, o outro é radicalmente falso. Como Calvinistas estritos, nós cremos que estas doutrinas incorporam a verdade final e são eternamente corretas. Nós cremos ser este o único sistema de verdade Cristã que é ensinado na Bíblia e o único que pode ser lógica e respeitavelmente defendido perante o mundo. E certamente é muito mais fácil defender um tipo de Cristianismo que esteja em harmonia com ambas, as Escrituras e a razão, do que defender qualquer outro tipo de Cristianismo. Nós cremos que o Calvinismo e teísmo consistente não têm meramente pontos de contato, mas que são idênticos; e que sair do Calvinismo é separar-se por certo, em muito de uma concepção verdadeiramente teísta do universo. O Dr. Warfield disse que o Calvinismo é o "Teísmo chegado aos seus direitos", que é o "Evangelicalismo na sua única expressão pura e estável," que é a "religião no pico da sua concepção." Nós cremos que o futuro do Cristianismo -- tanto quanto o seu passado o foi -- repousa nas mãos do Calvinismo; e que à medida em que o Cristianismo progride no mundo, este sistema de doutrina gradualmente tomará a frente.

Por causa da posição inconsistente do Arminianismo como uma medida 'no meio do caminho' ente uma religião da graça e uma religião de obras, ele tem oferecido pouca resistência às tendências naturalistas dos últimos poucos anos. Praticamente todas igrejas Arminianas professas têm sido engolidas pelo Liberalismo do presente.

"Se não somente defendermos o Cristianismo contra os ataques modernos", diz o Dr. S. G. Craig, "mas também o apresentarmos com qualquer esperança de sucesso ao mundo moderno, devemos empreender a tarefa armados com um ponto de vista do mundo e da vida consistente e cientificamente concebido, que apoie-se em fatos e em princípios Cristãos . . . . . . eu fico com aqueles que crêem que tal ponto de vista Cristão e consistente do mundo e da vida nos é dado somente no Calvinismo, e assim que um renascimento do Calvinismo é uma necessidade gritante dos tempos, se tivermos de defender com sucesso mesmo o que chamamos de Cristianismo comum, no foro do pensamento mundial." O falecido Henry B. Smith estava certo a princípio, quando escreveu: "Uma coisa é certa -- que a ciência infiel destruirá tudo, com exceção da completa ortodoxia Cristã. Todas as teorias flácidas, e as formações tais quais moluscos, e os purgatórios imediatos da especulação sucumbirão. A luta será entre uma ortodoxia severa e completa, e uma infidelidade severa e completa. Será, como por exemplo, Agostinho ou Comte, Atanásio ou Hegel, Lutero ou Schopenhauer, J. S. Mill ou João Calvino." A luta é entre o naturalismo da ciência e o sobrenaturalismo do Cristianismo; todos os esquemas comprometedores estão fadados à ruína. (Entenda-se, neste ponto, que não temos nenhuma disputa, nenhuma altercação com a ciência verdadeira como tal. Reconhecemos o grande valor da Biologia, da Química, da Física, da Astronomia e etc., e entendemos que muito do progresso do nosso século vinte foi possível somente através das contribuições feitas por estas ciências. Acolhemos a verdade seja qual for a sua fonte, e acreditamos que no final será visto que ela substancia o Cristianismo. O salmista declarou, "Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos."[Salmo 19:1]; e novamente, "Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, tu que puseste a tua glória dos céus!"[Salmo 8:1]; e certamente quanto mais soubermos acerca destas coisas melhor compreenderemos Deus. Nossa altercação, nosso argumento é com certos cientistas incrédulos que tentam trazer suas teorias anti-Cristãs ou mesmo ateístas às esferas da religião e da filosofia, e que professam falar com autoridade de assuntos sobre os quais eles são ignorantes.).

É muito interessante notar como, na história da Igreja, outros sistemas de teologia apareceram e caíram, enquanto que este sistema, o Calvinismo, tem resistido estavelmente. O Arminianismo, pelo menos na sua forma presente, é de data comparativamente recente. Desde a época da Reforma até fins do século dezoito, foi consistentemente banido pelos conselhos e credos da Igreja Protestante. Tampouco se deu bem na Igreja Católica. No século catorze, Agostinho conseguiu fazer da sua doutrina da Predestinação a doutrina reconhecida da Cristandade e em nenhum momento a Igreja Católica adotou consistente e oficialmente os tópicos do Arminianismo. Igualmente, o Nestorianismo, o Arianismo, o Pelagianismo, o Semi-Pelagianismo, o Socianismo, etc., apareceram, tiveram o seu momento, e desapareceram; enquanto que este sistema, conhecido em épocas diferentes como Agostinianismo ou Calvinismo, permaneceu fundamentalmente o mesmo nos seus princípios básicos. Não é em si mesmo uma prova contundente de que trata-se do sistema verdadeiro? Com relação ao Calvinismo da Confissão de Fé de Westminster, o Dr. C. W. Hodge disse: "As mais recentes modificações do Calvinismo já passaram, e esta forma pura e consistente de sobrenaturalismo e de evangelicalismo permanece como barreira intransponível contra as enchentes de naturalismo que ameaçam submergir todas as igrejas na Cristandade."

Só no Calvinismo a mente lógica e consistente encontra abrigo. Que trata-se de um sistema lógico, é admitido até por seus oponentes. Alguém que esteja familiarizado com o Calvinismo, poderá ou amá-lo ou odiá-lo, mas mesmo que o odeie, não poderá manifestar-se a seu respeito senão de maneira respeitosa. A crítica é feita algumas vezes, de que este sistema põe demasiada ênfase na lógica e muito pouca na emoção. É verdade que este Calvinismo como carvão mineral não queima como palha; mas também é verdade que uma vez aceso, produz calor firme e intenso. "O Calvinismo", diz o Prof. H. H. Meeter, "tem a distinção entre os grupos religiosos de ser altamente intelectual. O Calvinismo é conhecido por sua dialética. Os Calvinistas são reconhecidos como os lógicos por excelência dentre os teólogos. Oliver Wendel Holmes foi mesmo tão longe quanto satirizar este aspecto do Calvinismo no seu burlesco: 'A Obra de Arte do Diácono'. A antiga 'charrete' de um varal só, tão bem construída que cada parafuso e cada porca e cada barra e cada raio era de igual força e desmontou-se por completo defronte ao local de reunião, era para ele a estória do Calvinismo. Como uma obra de arte de lógica, o Calvinismo havia continuado por séculos, mas considerava-se haver sido desmantelado quando o transcendentalismo ganhou ascendência na Nova Inglaterra." 6

No entanto, a objeção de que ele super enfatiza a lógica, não conta com base adequada, como qualquer um que aproxime-se dele sem preconceitos poderá, de imediato, ver. Todavia, se errarmos, de qualquer lado, será provavelmente melhor errarmos no lado do intelecto, do que no lado das emoções. Mas quem já ouviu falar de um sistema ser descartado por ser lógico demais? Ao contrário, gloriamo-nos em sua glória e consistência.

5. ESTAS DOUTRINAS NÃO SÃO IRRACIONAIS QUANDO COMPREENDIDAS.

Talvez nenhum outro sistema de pensamento tenha sido tergiversado tão grosseira e deploravelmente, e às vezes tão deliberadamente quanto tem sido o Calvinismo. Muitos dos que criticaram o Calvinismo fizeram-no sem fazer qualquer estudo adequado do sistema, e pode verdadeiramente ser dito que os nossos oponentes em geral conhecem pouco das nossas opiniões, exceto o que captaram por ouvir dizer, no que não há conexão nem consistência. A doutrina da Predestinação certamente faz da sabedoria do mundo motivo de riso, e em troca a sabedoria do mundo ridiculariza a Predestinação. Se qualquer doutrina for para os Judeus uma pedra de tropeço e para os Gentios loucura, certamente é esta. Cruamente apresentada, a doutrina da Predestinação parece ser paradoxal; e aqueles que são familiarizados com não mais do que o seu mero enunciado, provavelmente sentir-se-ão surpresos que ela possa ter sido mantida pelas mentes pensativas e piedosas que a têm mantido. Mas neste caso, como em muitos outros, quando examinamos cuidadosamente suas bases e construções, seu caráter paradoxal é no mínimo diminuído, se não desaparecer por completo.

Daí pedirmos que este sistema teológico seja examinado sem paixão e que seja estudado nas suas relações e consistência lógica. Já temos visto que é abundantemente estabelecido, alicerçado na autoridade da Bíblia; e quando acrescentamos a isto a evidência que vem das leis da Natureza e os fatos da vida, torna-se inteiramente possível, provável, justo e reto. Analisado sob este prisma ele deixa de ser a doutrina arbitrária, ilógica e imoral que os seus oponentes deleitam-se em pintar, e torna-se uma doutrina que irradia glória na Majestade divina. É claro que estas não são as doutrinas que o homem natural espera encontrar. A salvação pelas obras é o sistema que apela mais naturalmente à razão não iluminada; e se tivéssemos de desenvolver um sistema, dificilmente haveria uma chance em mil que desenvolvêssemos um no qual um redentor agindo na sua capacidade representativa teria ganhado estas bênçãos e as dado graciosamente ao seu povo. Diz Zanchius, "A mente carnal, ou a mera razão não regenerada, horroriza-se com esta verdade; mas, ao contrário, a mente de um homem espiritual abraça-la-á com afeto", (p. 152). "Se o Arminianismo é o sistema que mais apela aos nossos sentimentos", diz Froude, o Calvinismo está mais próximo dos fatos, em que pese serem aqueles fatos duros e proibitivos, ameaçantes." Está claro que o Calvinismo faz o seu apelo à revelação Divina, ao invés da razão humana; a fatos ao invés de sentimentos, ao conhecimento ao invés da suposição, à consciência ao invés da emoção.

Como dito anteriormente, muitas pessoas não vêm nada neste sistema, a não ser uma estranha espécie de tolice. Mas quando estudadas com um pouquinho de cuidado, estas doutrinas mostram não serem nem tão incertas nem tão difíceis como os homens nos levariam a crer; e a sua incerteza e a sua dificuldade são em grande parte devidas ao nosso orgulho, amor ao pecado, e ignorância do real estado do nosso coração. Aqueles que vieram a aceitar este sistema teológico quase que se sentem vivendo num mundo diferente, tão diferente é a sua visão da vida. "Para onde quer que os filhos de Deus voltem seu olhos", diz Calvino, "podem ver exemplos tais de tremenda cegueira, ignorância e insensibilidade, como que para enche-los de terror; enquanto que eles, no meio de tais trevas, receberam iluminação Divina, e o sabem, e o sentem, ser realmente assim." 7

Se parafrasearmos as palavras do Papa, podemos muito acertadamente dizer deste assunto: "Um pouco de Predestinação é algo perigoso. Então beba bastante, ou não toque no manancial sagrado." Aqui, como em outras circunstâncias, os primeiros goles confundem e perturbam a mente, mas goles maiores vencem os efeitos que intoxicam e nos trazem de volta aos nossos sentidos.

Esta filosofia sublime da soberania de Deus e da liberdade do homem é encontrada em todas as partes da Bíblia. No entanto, nenhuma tentativa é feita para explicar-nos como estes dois fatores se relacionam. A suposição invariável é que Deus é o Soberano Governador que rege mesmo os pensamentos e sentimentos e impulsos mais íntimos dos homens; todavia, por outro lado, o homem nunca é representado como algo que não seja um agente moral livre e inteligente, que é responsável por seus atos. As doutrinas da pré ordenação, da soberania, e do controle providencial efetivo, andam lado a lado com aquelas da liberdade e da responsabilidade das criaturas racionais. Não é reclamado que a doutrina da Predestinação seja livre de todas dificuldades, mas é sim afirmado que o negá-la traz consigo mais e maiores dificuldades. Que um Ser de sabedoria, poder e bondade infinitos criasse um universo e depois o deixasse à deriva como se fosse um grande navio sem piloto, é uma suposição que subverte nossas idéias básicas de Deus, que contradiz o testemunho repetido nas Escrituras, e que é contrário à nossa experiência diária e ao senso comum. Charles Hodge prefaciou sua discussão sobre "Os Decretos de Deus", com a seguinte declaração: "Deve ser lembrado que Teologia não é Filosofia. Ela não assume descobrir a verdade, ou reconciliar o que ensina como verdadeiro com todas as outras verdades. Seu terreno é simplesmente declarar o que Deus revelou na Sua palavra, e vindicar aquelas declarações o mais longe possível de falsas interpretações e de objeções. É especialmente necessário ter em conta este humilde e limitado ofício de Teologia , quando viermos a falar dos atos e propósitos de Deus. '...as coisas de Deus, ninguém as compreendeu, senão o Espírito de Deus.'[I Coríntios 2:11]. Portanto, em se tratando dos decretos de Deus, tudo o que é proposto é simplesmente declarar o que o Espírito houve por bem revelar neste aspecto." 8

6. A ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER E A CONFISSÃO DE WESTMINSTER

Este sistema de Teologia, ao qual usualmente refere-se como Calvinismo ou a Fé Reformada, encontra a sua mais perfeita expressão na Confissão de Westminster. A Assembléia de Westminster foi constituída pelo Parlamento Inglês. Seu trabalho estendeu-se por um período de cinco anos e meio, e terminou em 1648. Tratava-se de um corpo representativo, feito de cento e vinte e hum ministros ou teólogos, onze lordes, vinte comuns, de todos os condados da Inglaterra e das Universidades de Oxford e Cambridge, com sete comissionários da Escócia. E a julgar-se pela extensão e habilidade dos seus trabalhos, ou pela influência exercida sobre as gerações posteriores, ela permanece como o primeiro entre os concílios Protestantes. O produto mais importante da Assembléia foi a Confissão de Fé, um compêndio sem igual de verdade Bíblica que foi o que de mais nobre se alcançou durante o melhor período do Protestantismo Britânico. Foi corretamente chamada de a obra de arte teológica dos últimos quatro séculos. O Dr. Warfield disse com relação à Confissão de Westminster, que foi "A mais completa, a mais totalmente elaborada e cuidadosamente guardada, a mais perfeita, e a de mais vital expressão que jamais foi preparada pela mão do homem, de tudo o que entra naquilo que chamamos religião evangélica, e de tudo o que deve ser salvaguardado se a religião evangélica persistir no mundo."

O Dr. F. W. Loetsche, num discurso ante a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana, E.U.A. em 1929, referiu-se aos Padrões de Westminster como, "estas obras incomparáveis de gênio teológico e religioso"; "aqueles mais nobres produtos do grande re-avivamento religioso que chamamos de Reforma; aqueles formulários sem iguais que pelo menos a Cristandade de língua Inglesa veio a considerar como a incorporação mais compreensível, precisa e adequada do puro Evangelho da graça de Deus." E no mesmo discurso, ele também disse, "Eu entendo que tal caracterização destes veneráveis documentos parecerão a muitos, mesmo entre aqueles a quem tenho a honra de dirigir-me nesta ocasião, como um exagero injustificável, senão um anacronismo desqualificado. Pois a moda do dia minimiza o valor dos credos, e a nossa Confissão, como muitas outras, deve sempre sofrer a experiência dolorosa de ser amaldiçoada, pela falsa exaltação, mesmo nas casas dos que supostamente a ela aderiram.

O Dr. Curry, que por algum tempo foi Editor do "Methodist Advocate" de Nova Iorque, num editorial a respeito de Credos, chamou a Confissão de Westminster de "o mais capaz, mais claro e mais compreensivo sistema de doutrina Cristão jamais formulado -- um monumento maravilhoso à grandeza intelectual dos seus redatores."

Nestes padrões nós temos a maior concepção da verdade teológica que jamais adentrou a mente do homem. Como um sistema ele exibe muito mais profundidade de visão teológica que qualquer outro; e merece a admiração das eras. É um sistema que produz homens de fortes convicções doutrinárias. A pessoa que o abraça tem uma base de crença definida e não é "levado para lá e para cá e carregado por cada vento de doutrina; por estratagemas ardilosos de homens, astúcias da sedução do erro."

Mas enquanto a Confissão de Westminster é tão logicamente trabalhada, tão clara e compreensiva nas suas declarações, quão tristemente ela é negligenciada hoje em dia pelos membros e mesmo pelos ministros das Igrejas Presbiteriana e Reformada ! "A Confissão de Fé", diz o Dr. Frank H. Stevenson, primeiro presidente da Junta de Diretores do Seminário Teológico de Westminster, "permanece na Constituição da Igreja Presbiteriana, negligenciada, quase esquecida, mas sem nenhuma emenda nem correção durante vinte e cinco anos de confusão doutrinária. A Confissão de Fé de Westminster é o credo da igreja, e cada linha sua sustenta plataforma corajosa. Não por ser o que é, mas porque ela dá toda honra a Cristo, ela é estandarte digno, sob o qual continuarmos o que Paulo chamou profeticamente de 'o bom combate para ser combatido'. " 9 Com estas palavras, concordamos plenamente.

7. ESTAS DOUTRINAS DEVERIAM SER ENSINADAS E PREGADAS EM PÚBLICO.

A doutrina da Predestinação soberana, tanto quanto as outras doutrinas distintivas do sistema teológico Calvinista, deveriam ser ensinadas publicamente e pregadas, de maneira que os verdadeiros crentes pudessem conscientizar-se como objetos especiais do amor e da misericórdia de Deus; e que fossem confirmados e fortalecidos na segurança da sua salvação. Que infortúnio é para a verdade que reflete tanta glória no seu Autor e que é a própria fundação da felicidade do homem, ser inibida ou confinada somente àqueles que se especializam em Teologia ! Para o Cristão, esta deveria ser uma das mais confortadoras doutrinas em todas as Sagradas Escrituras. Ademais, existe dificilmente uma doutrina Cristã que possa ser pregada em sua pureza e plenitude sem uma referência à Predestinação. Estas doutrinas são tão reciprocamente relacionadas e mescladas que qualquer uma delas é parte das outras; e a doutrina da Predestinação é a que une e organiza todas as demais. Fora dela as outras não podem ser vistas na sua proporção verdadeira, nem a sua importância relativa ser apropriadamente estimada. Com relação ao lugar da doutrina da Predestinação no sistema teológico Cristão, Zanchius escreve o seguinte: "Todas as artes têm uma espécie de vínculo e conexão mútuos, e por uma espécie de relacionamento recíproco são unidas e entrelaçadas umas com as outras. O mesmo pode ser dito a respeito desta importante doutrina; ela é o vínculo que une e que mantém unido todo o sistema Cristão, que sem ela, seria tal como um sistema edificado na areia, pronto a desmoronar-se. Ela é o cimento que mantém o edifício de pé; e mais ainda, é a própria alma que anima o corpo inteiro. A doutrina da Predestinação e todo o esquema da doutrina do Evangelho são tão unidos e entremeados que quando a primeira é excluída, o segundo sangra até a morte." 10

Somos mandados a ir e "pregar o Evangelho"; mas tanto quanto qualquer parte dele for mutilada ou silenciarmo-nos a seu respeito, somos infiéis àquele mandamento. Certamente que nenhum ministro Cristão tem a liberdade de pegar a tesoura e cortar da sua Bíblia todas aquelas passagens que não são do seu agrado. Ainda assim, para todos aspectos práticos, não é isto que acontece quando doutrinas importantes são deixadas de lado, em silêncio? Paulo poderia dizer aos seus convertidos Cristãos, "(20) ...não me esquivei de vos anunciar coisa alguma que útil seja..."; e de novo, "(26) Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos. (27) Porque não me esquivei de vos anunciar todo o conselho de Deus."[Atos 20]. Se o ministro Cristão de hoje for capaz de dizer o mesmo, que ele cuide de não omitir esta tão importante verdade. Paulo referia-se a estas doutrinas repetidamente. Suas cartas aos Romanos (capítulos 08 até 11) e aos Efésios (capítulos 01 e 02) são as mais proeminentes nesse aspecto. Ao escrever aos Romanos ele estava, com efeito, trazendo estas coisas para o mundo todo, e 'carimbando-as' com uma sanção, uma aprovação universal; e se ele as considerava tão importantes que devessem ser escritas aos Cristãos primitivos na sua jovem igreja em Roma, a qual ele não havia visitado, podemos estar seguros de que elas são importantes para os Cristãos da atualidade. Cristo e os apóstolos pregaram estas coisas, e não o fizeram simplesmente para algumas pessoas, mas para as multidões. Não há quase que nenhum capítulo no Evangelho segundo João que não mencione ou implique em eleição ou rejeição. Quando alguém de bom senso, direto e justo perguntar: "A doutrina da Predestinação é ensinada na Bíblia?", a resposta deveria ser na afirmativa, -- que ela é constantemente ensinada em ambos, tanto no Antigo como no Novo Testamentos. Mais ainda, a Confissão de Fé de Westminster a apresenta de forma muito explícita. Assim é que devemos ensiná-la e explicá-la tanto quanto nos for possível. Paulo conclama-nos a "vestirmos toda a armadura de Deus"; todavia quão grande parte daquela armadura uma pessoa deixa de vestir, se for ignorante quanto a esta grande doutrina da Predestinação!

Agostinho admoestou aqueles que, na sua época, silenciavam-se acerca da doutrina da Predestinação, e quando ele foi algumas vezes acusado de prega-la muito abertamente ele refutou a acusação dizendo que aonde as Escrituras guiarem-nos, devemos seguir. Lutero, e especialmente Calvino, enfatizaram de maneira muito forte estas verdades; e Calvino desenvolveu-as de maneira tão forte e clara que o sistema desde então tem sido chamado de "Calvinismo". Não somente nos países onde a Reforma apresentava seu melhor resultado, mas posteriormente na Holanda, Escócia, Inglaterra à época da Assembléia de Westminster; e na América durante os primórdios da sua história, estas doutrinas eram pregadas rotineiramente e constituíam-se nos meios de desenvolver convicções religiosas mais fortes em todas as classes de pessoas.

Calvino estava convicto de que a doutrina da Eleição devia ser o próprio centro da confissão da igreja, e que se não fosse assim enfatizada, a Igreja deveria preparar-se para presenciar o esquecimento e o enterro desta tão maravilhosa doutrina. Tão corretos eram os seus pontos de vista, que aqueles grupos que não enfatizaram a doutrina da Eleição o bastante, fosse na Inglaterra, Escócia, Holanda, Estados Unidos ou Canadá, perderam-na por completo, para todos propósitos práticos.

Aquele a quem é confiada a mensagem do Rei deve dá-la como a recebeu; e certamente que a maior das mensagens, aquela da predestinação para a vida, não deveria ser deixada em silêncio. "Um embaixador", diz Zanchius, "tem de entregar a mensagem com a qual foi confiado por completo. Não deve omitir nenhuma parte dela, mas deve sim declarar o pensamento do soberano que ele representa, completamente e sem reservas. Ele não deve dizer nem mais nem menos do que exigem as instruções da sua corte, de outra forma ele será desprezado, talvez até perca sua cabeça. Que o ministro de Cristo pese bem isto." 11 Estas são doutrinas que tem sido expressamente dadas através de divina revelação. Elas inteiram a glória divina, trazendo conforto e coragem aos eleitos, e deixando os pecadores sem desculpas. É verdade que o homem não gosta que lhe digam que é um pecador e incapaz de ajudar-se a si mesmo. Tal doutrina é muito humilhante. Mas se ele está perdido sem Cristo, quanto antes ele o souber, melhor. Para nós, recusarmos pregar esta doutrina é sermos falsos para com o nosso Senhor e negligentes em nosso dever para com os nossos próximos. Ignorá-la seria agir como um médico que recusa-se a operar e salvar a vida de um paciente por saber que a operação lhe causará dor. Se estas verdades fossem pregadas corajosa e destemidamente, o Modernismo e a descrença não cresceriam em nossas igrejas tanto quanto crescem. O grupo de Cristãos professos talvez fosse menor, mas certamente mais leal e efetivo nas obras Cristãs.

A pregação destas doutrinas fomentará, é claro, alguma controvérsia. Mas controvérsia não deve ser encarada como pura maldade. Tanto quanto exista erro, deve haver controvérsia. Os ataques que foram feitos às doutrinas da Igreja pelos pagãos e hereges durante os primeiros séculos da Era Cristã e na Idade Média, forçaram a Igreja a uma re-análise das suas doutrinas, a desenvolve-las, explicá-las, purificá-las e fortificá-las. Elas, as doutrinas, compeliram a um estudo mais aprofundado da Bíblia. Um número de homens brilhantes apareceu; e escreveram livros e artigos sobre a Fé Cristã, e como resultado, a Igreja foi grandemente enriquecida pelos frutos intelectuais e espirituais assim produzidos.

É um erro dizer que as pessoas não mais ouvem à pregação doutrinária. Que o ministro creia em suas doutrinas; que ele as apresente com convicção e como verdades vivas; e ele encontrará audiências receptivas. Vemos hoje milhares de pessoas que voltam as costas às discussões de púlpito que versam sobre eventos cotidianos, tópicos sociais, temas políticos e mesmo meras questões éticas; e tentam encher-se com as palhas do ocultismo e com filosofias pueris. De muitas formas, somos muito mais pobres espiritualmente do que deveríamos, porque na nossa desorientação e confusão teológica, falhamos em fazer justiça àqueles grandes princípios doutrinários. Se pregadas corretamente, estas doutrinas são do maior interesse e de melhores resultados. A experiência do autor como professor da Bíblia tem lhe mostrado que nenhum outro assunto é tão eletrizante e prende mais a atenção dos alunos do que estes. Ademais, podemos questionar, Que desculpas tem a Igreja Presbiteriana para a sua existência continuada como uma denominação separada, se o Calvinismo dever ser descartado como não essencial? Muito da nossa fraqueza atual é devido ao fato de que a nossa gente tem tido quase que nenhuma instrução com referência a estas doutrinas distintivas do sistema teológico Presbiteriano, e esta falta de instrução tem levado diretamente ao movimento ecumênico, pelo qual tentativas estão sendo feitas para unificar igrejas de tipos muito diferentes, com somente um mínimo de doutrina.

A doutrina da Predestinação é uma doutrina de Cristãos genuínos. Considerável cautela deve ser exercida ao pregá-la aos não convertidos. É quase que impossível convencer um não Cristão da sua veracidade; e na verdade o coração do homem não regenerado usualmente se revolta contra ela. Se enfatizada antes que as verdades mais simples do sistema Cristão sejam dominadas, muito provavelmente será incompreendida e nesse caso pode somente levar a pessoa a um desespero mais profundo. Ao pregar aos não convertidos ou àqueles que são iniciantes na vida Cristã, nossa tarefa consiste principalmente em apresentar e enfatizar a contribuição do homem na obra da salvação, -- fé, arrependimento, mudança moral, etc. Estes são os passos elementares, tanto quanto desdobrar-se a consciência humana. Naquele estágio inicial, pouco precisa ser dito a respeito das verdades mais profundas, que referem-se à atuação de Deus. Como no estudo da matemática, não começamos com álgebra e cálculos, mas sim com os mais simples problemas e exercícios de aritmética, também aqui a melhor forma é apresentar as verdades elementares. Então, depois que a Pessoa é salva e tiver trilhado já algum trecho do caminho Cristão, ela passa a enxergar que na sua salvação o operar de Deus foi primário e o seu foi somente secundário, que ela foi salva através da graça, e não por suas próprias obras. Como o próprio Calvino colocou, a doutrina da Predestinação "não é assunto para crianças refletirem muito"; e Strong diz que, "Esta doutrina é um dos ensinamentos avançados das Escrituras, o qual requer para o seu entendimento uma mente madura e uma experiência profunda. O neófito na vida Cristã pode não enxergar o seu valor ou mesmo a sua verdade, mas com o decorrer dos anos ela se tornará esteio onde se apoiar." 12 Mas, enquanto seja verdade que esta doutrina não pode ser adequadamente apreciada pelo não convertido nem por aqueles que estão apenas iniciando-se na vida Cristã, ela deveria ser propriedade comum de todos aqueles que já percorreram alguma distância naquele caminho.

É digno de nota que ao desenvolver as suas "Institutas", Calvino não tratou da doutrina da Predestinação nos primeiros capítulos. Ele primeiro desenvolveu as outras doutrinas do sistema teológico Cristão e deliberadamente esquivou-se dela em diversas casos, onde naturalmente esperaríamos encontrá-la. Então, na última parte da sua discussão teológica, ela é desenvolvida por completo e feita a coroa e a glória do sistema inteiro.

Pode ser adicionalmente dito que ao pregar esta doutrina deve-se zelar para que não haja exagero de quaisquer declarações, e também mostrar que não encontra-se fundamentada numa vontade arbitrária, mas na sabedoria e no amor infinitos.

8. OS VOTOS DE ORDENAÇÃO E A OBRIGAÇÃO DO MINISTRO.

Cada ministro e cada ancião que é ordenado nas igrejas Presbiteriana e Reformada, toma solenemente os votos perante Deus e os homens, que ele sinceramente recebe e adota a Confissão de Fé da sua igreja como contendo os sistema de doutrina ensinado pelas Sagradas Escrituras (Igreja Presbiteriana EUA, veja 'Formas de Governo', XIII :IV; XV :XII). 13 Desde que estas confissões são totalmente Calvinistas, isto quer dizer que ninguém senão os Calvinistas podem honesta e inteligentemente aceitar esta ordenação. Um Arminiano não tem o menor direito de ser ministro numa igreja Calvinista, e a qualquer Arminiano que venha a tornar-se ministro numa igreja Calvinista, falta-lhe boa moralidade, tanto quanto boa teologia. Declarar uma coisa e crer no contrário dificilmente é consistente com o caráter de um homem honesto. E todavia, enquanto os nossos votos de ordenação são Calvinistas por completo, quão poucos ministros existem que proclamam estas doutrinas! Dificilmente alguém poderia dizer, a partir do que se ouve nos púlpitos das igrejas nominalmente Calvinistas de hoje em dia, o que realmente são as verdades essenciais da Fé Reformada. Nossos púlpitos, tanto quanto as publicações da nossa igreja, nossas escolas e seminários, enchem-se com as doutrinas Arminianas do mérito e do livre arbítrio. Nos dias de hoje as Igrejas Presbiteriana e Reformada não parecem ter uma concepção adequada da importância fundamental da sua grande herança doutrinária. Os escritos de Calvino e de Lutero, dos grandes clérigos Puritanos e dos grandes teólogos desde aquela época deveriam ser melhor conhecidos dos nossos jovens teólogos, muitos mais que simplesmente por seus títulos. A forma escolástica e o estilo rebuscado dessas obras talvez tenham desencorajado muitos de estudá-los a fundo, mas deveríamos lembrarmo-nos que o estudo da Teologia não é gratificante simplesmente pelo prazer que proporciona. Não esperamos encontrar romances ao abrirmos as grandes obras dos velhos mestres em Teologia.

Muitos jovens adentram ao ministério sem uma familiaridade com a doutrina da Igreja na qual eles intentam servir, e quando eles ouvem de alguém que pregue em conformidade com os Padrões de Westminster, eles consideram-no como "apresentadores de estranhas doutrinas". A grande necessidade da Igreja hoje em dia é de homens de firmes convicções e mentes estáveis, ao invés dos do tipo tolerantes [o autor utilizou a expressão em Inglês "latitudinarian", utilizada para designar "Um membro de um grupo de Cristãos Anglicanos ativo desde o século XVII até o século XIX, que se opunham às posições dogmáticas da Igreja da Inglaterra e permitiam o raciocínio para julgamentos e interpretações teológicos informais." ('The American Heritage® Dictionary of the English Language', Quarta Edição. Copyright © 2000 Houghton Mifflin Company) N.T.] Modernistas ou Liberais que vagueiam para lá e para cá vangloriando-se de não terem opiniões dogmáticas e nenhuma preferência teológica. Parece que a maioria dos nossos ministros não mais crêem nessas doutrinas Calvinistas; e que muitos deles, contrariamente aos seus votos solenes da ordenação, estão fazendo, através de métodos desonestos e artificiosos, todo o possível para destruir a fé que eles juraram solenemente haverem sido movidos pelo Espírito Santo para defender. Se estas doutrinas são verdadeiras elas deveriam ser claramente e agressivamente ensinadas e defendidas nas nossas igrejas, nos nossos seminários e nos nossos colégios. Se não forem verdadeiras, deveriam então serem eliminadas da Confissão de Fé. A honestidade é tão importante na teologia quanto o é no comércio e nos negócios, tão importante numa denominação religiosa quanto o é num partido político. Um ministro Presbiteriano não é um autônomo, mas é um presbítero que se comprometeu com este sistema de doutrina. Aqueles que negam estas doutrinas num púlpito Presbiteriano estão sendo falsos para com os seus votos de ordenação; e portanto deveriam retirar-se para denominações que apoiem os seus pontos de vista. Certamente que nenhum oficial de igreja tem o direito de aceitar as honras e remunerações que advém da aceitação exterior de um credo no qual ele não creia ou o qual ele não ensine.

"O credo de uma Igreja", diz Schedd, "é um contrato solene entre os membros da igreja: ainda muito mais que a plataforma de um partido o é entre políticos. Algumas pessoas parecem não perceber imoralidade da violação do contrato quando refere-se a uma denominação religiosa; mas quando um partido político é a organização afetada pela quebra de compromisso, aquelas mesmas pessoas são as primeiras a perceber e a denunciar, com grande veemência, a violação. Se uma facção aparecesse dentro do partido Republicano, por exemplo, e se dispusesse a modificar a plataforma do mesmo enquanto ainda utilizando-se das instalações e desfrutando dos salários os quais lhes foram assegurados por professarem lealdade ao partido e prometerem adotar os princípios fundamentais sobre os quais ele foi fundado e através dos quais ele distingue-se do Partido Democrata e de outros partidos políticos, a acusação de desonestidade política repercutiria através de todo o Republicanismo. E se, quando do exercício de disciplina do partido tais faccionistas são exonerados das suas funções e talvez expulsos da organização política, porventura levantar-se protesto contra as medidas disciplinares tentando-se impugná-las como sendo perseguição política, certamente que a imprensa republicana ignoraria tal protesto por completo. Quando a desonestidade política reclama tolerância sob o pretexto de políticas "mais liberais" do que as adotadas pelo partido, e ainda assim os políticos desonestos aterem-se às verbas alocadas pelo partido enquanto advogando sentimentos diferentes daqueles da massa do partido, é de imediato dito que ninguém é obrigado a filiar-se ao partido Republicano ou a permanecer nele, mas que se uma pessoa se afiliar a ele ou nele permanecer, deve adotar estritamente o credo do partido e não tentar, seja abertamente ou em secreto, alterá-lo. Que um credo Republicano é para os Republicanos e não para outros, é algo com o que todos parecem estar de acordo; mas que um credo Calvinista é para os Calvinistas e não para outros, parece ser colocado em dúvida por alguns . . .

"Se, no seio do partido Democrata, aparecesse uma facção que reclamasse o direito - ainda que permanecendo no partido - de adotar os princípios e medidas Republicanos, dir-se-ia que o melhor lugar para ela seria fora da Democracia, não dentro. O direito da facção às suas opiniões próprias não seria discutido, mas o direito de mante-las e propagá-las com a utilização dos fundos e das influências do partido Democrata lhes seriam negados . . . . . . Eles diriam aos descontentes 'Não desejamos e nem podemos evitar que vocês tenham os seus próprios e peculiares pontos de vista, mas vocês não têm o direito de ventilá-los dentro da nossa organização'." 14

As igrejas Calvinistas são algumas vezes acusadas de intolerância e de perseguição, quando com base em desvios do credo da igreja ocorrem investigações judiciais. Sustentamos, contudo, que tal acusação é injusta e que a igreja encontra-se completamente dentro dos seus direitos ao exigir que as pregações dos seus ministros e os ensinamentos dos seus professores estejam em conformidade com os padrões denominacionais.

Dessas considerações, ficará claro por que muitos de nós têm tão pouco entusiasmo pelos movimentos de união da igreja, os quais uniriam grupos que sustentam sistemas de doutrina diferentes. Acreditamos que o sistema Calvinista seja o único ensinado nas Escrituras e vindicado pela razão; e portanto o mais estável e de influência maior no estabelecimento da justiça. Todavia, para todos que discordam de nós, cordialmente permitimos o direito de um julgamento privado, e regozijamos sinceramente no bem que serão capazes de alcançar. Regozijamo-nos que outros sistemas de teologia se aproximem do nosso; ainda assim não podemos consentir no empobrecimento da nossa mensagem, ao proclamar menos do que vemos ensinado pelas Escrituras. Se uma união pudesse ser consumada, na qual o Calvinismo fosse aceito como o sistema da verdade ensinado na Bíblia, ficaríamos felizes em participar dela; mas cremos que para nós contentarmo-nos com qualquer coisa menos que isso seria desistir da verdade vital; e que qualquer coisa vaga o bastante para abraçar tanto o Calvinismo como outros sistemas de doutrina, não valeria a pena propagar. Nós cremos que a vantagem superficial em números, resultante de uma união como esta, seria muito pouco quando comparada com a discórdia espiritual que inevitavelmente seguiria. Assim é que, desejamos permanecer Presbiterianos até que as Doutrinas da Fé Reformada, as quais são simplesmente as doutrinas da Palavra de Deus, venham a tornar-se as doutrinas da igreja Universal.

Estas doutrinas, agora desrespeitadas ou desconhecidas, se não com oposição aberta, foram universalmente cridas e mantidas pelos reformadores, e após a Reforma foram incorporadas aos credos, aos catecismos, ou artigos de cada uma das igrejas Protestantes. Qualquer um que comparar os sermões pregados nos púlpitos hoje em dia com aqueles dos Reformadores, não terá dificuldade nenhuma em perceber o quão contraditórios e irreconciliavelmente hostis eles são entre si.

9. A IGREJA PRESBITERIANA É VERDADEIRAMENTE ABERTA E TOLERANTE.

Enquanto a Igreja Presbiteriana é uma Igreja preeminentemente doutrinal, ela nunca demanda a aceitação completa dos seus padrões por qualquer que aplique à admissão no seu quadro de membresia. Uma acreditável profissão de fé em Cristo é a única condição imposta por ela, para tornar-se membro. Ela demanda que os seus ministros e anciãos (presbíteros; N.T.) sejam Calvinistas; ainda assim ela nunca o demanda dos membros arrolados. Como Calvinistas nós alegremente reconhecemos como nossos irmãos Cristãos quaisquer que confiem em Cristo para a sua salvação, independentemente do quão consistente suas demais crenças possam ser. Nós acreditamos, contudo, que o Calvinismo é o único sistema o qual é inteiramente verdadeiro. E enquanto alguém possa ser um Cristão sem no entanto crer em toda a Bíblia, o seu Cristianismo será imperfeito na proporção em que ele parte do sistema Bíblico de doutrina. Com relação a isto o Prof. F. E. Hamilton disse muito bem: "Um homem cego, surdo e mudo pode, é verdade, saber algo a respeito do mundo ao seu redor através dos sentidos remanescentes, mas o seu conhecimento será muito imperfeito e provavelmente inacurado. Num sentido similar, um Cristão que nunca conhece ou que nunca aceita os ensinamentos mais profundos da Bíblia os quais o Calvinismo incorpora, pode ser um Cristão, mas ele será um Cristão imperfeito; e deveria ser tarefa daqueles que conhecem toda a verdade tentar guiá-lo até o único depósito que contem as riquezas completas do verdadeiro Cristianismo." "O Calvinista", diz o Dr. Craig, não difere dos outros Cristãos em espécie, mas somente em grau, como espécimes mais ou menos bons de algo diferem de espécimes mais ou menos ruins de algo." Nós não somos todos Calvinistas enquanto trilhamos o caminho para o céu, mas seremos todos Calvinistas quando chegarmos lá. É a nossa firme convicção que cada alma redimida no céu será uma alma Calvinista em todos os sentidos. Os Cristãos em geral devem admitir que quando todos nós "...chegarmos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus..."[Efésios 4:13], e conhecermos a verdade em toda a sua plenitude, seremos ou todos Calvinistas, ou todos Arminianos.

Deve ser sempre tido em mente que o Calvinismo inclui muito mais que aquelas características peculiares as quais o distinguem do Arminianismo. O Calvinismo sustenta firmemente as grandes doutrinas da Trindade, da Divindade de Cristo, dos Milagres, da Expiação, da Ressurreição, da Inspiração das Sagradas Escrituras, etc., as quais formam a fé comum da Cristandade evangélica.

Com relação à natureza 'aberta' e 'tolerante' da Igreja Presbiteriana, tomaremos agora o privilégio de parafrasear, um tanto quanto extensivamente, o admirável livro do Dr. E. W. Smith, "O Credo dos Presbiterianos", -- mais de sessenta e cinco mil cópias do qual já foram distribuídas.

"A catolicidade do Presbiterianismo, a sua liberalidade de pensamento e de sentimento, a sua liberdade da estreiteza e intolerância sectárias, é uma das suas características que o coroam . . . . A catolicidade do Presbiterianismo não é um mero sentimento. Não é algo de profissão individual ou plataforma de declamação. Está enraizado no nosso credo. Está proclamado nos nossos padrões. Está incorporado na nossa doutrina da Igreja. 'A Igreja visível', diz a nossa Confissão, 'que também é católica ou universal sob o Evangelho (não sendo restrita a uma nação, como antes sob a Lei) consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos.' (C.F.W. Capítulo XXV, Seção II. Referências Bíblicas: I Cor. 1:2, e 12:12-13,; Sal .2:8; I Cor. 7 :14; At. 2:39; Gen. 17:7; Rom. 9:16; Mat. 13:3 Col. 1:13; Ef. 2:19, e 3:15; Mat. 10:32-33; At. 2:47). Assim, formalmente e publicamente, nós repudiamos o nome de "A" igreja e reclamamos sermos somente uma igreja de Jesus Cristo. Não somente os nossos Padrões não contém nenhuma denúncia dos pontos de vista antagônicos de igrejas Evangélicas irmãs, como eles são ditos serem os únicos Padrões eclesiásticos em existência os quais fazem reconhecimento explícito e autoritário de outras igrejas evangélicas como 'ramificações verdadeiras da Igreja de Jesus Cristo.' (Livro da Ordem da Igreja, Capítulo II, Seção II, parágrafo II). À 'Comunhão dos Santos', a nossa Confissão dedica um capítulo inteiro. Somos ensinados que a nossa '...santa sociedade e comunhão..." nos dons e nas graças de cada um, nos serviços de amor e de louvor, 'deve estender-se a todos aqueles que em qualquer lugar, invocam o nome do Senhor Jesus.'(C.F.W., Capítulo XXVI, Seção II. Referências Bíblicas: Heb.10:24-25; At.2:42,46; I João3:17; At. 11:29-30.)."

"A catolicidade dos nossos padrões encontra expressão bela na atitude Presbiteriana com relação a todas as demais igrejas evangélicas. Enquanto um ramo da Cristandade evangélica possa "descongregar" todas as denominações irmãs, tal atitude aborrece o sentimento Presbiteriano e é desconhecido na prática Presbiteriana. Os Membros e os Ministros de outras igrejas evangélicas são tratados por nós, em todos os aspectos, como verdadeiros membros e ministros igualmente conosco, da Igreja de Cristo."

"Enquanto várias destas igrejas declinam de dar cartas de transferência suas próprias, para outras comunidades, nós não fazemos distinção. Damos cartas de transferência a membros para congregações Batistas, Episcopais ou outras, precisamente da mesma forma e com a mesma confiança irrestrita, como se estivessem transferindo-se para igrejas da nossa própria denominação."

"Algumas denominações evangélicas negam a validade de ordenanças perpetradas por igrejas irmãs; e quando um ministro ou um membro vir até elas de uma denominação irmã, aquele deve ser re-ordenado, o outro re-batizado. Tal negativa é intimamente contrária ao espírito e ao uso Presbiteriano. Nós nunca repetimos o rito. Aceitamos a ordenança de uma igreja irmã como não menos válida que se tivesse sido perpetrada por nós mesmos."

"Enquanto ministros de igrejas irmãs são excluídos de muitos púlpitos evangélicos, ou da co-oficialização de cerimônias sagradas, nós nunca praticamos tal exclusão, pois este procedimento é estranho ao coração e hábito Presbiterianos. Somos livres e cordiais ao convidar ministros Episcopais, Batista ou de outra denominação evangélica para ocupar nossos púlpitos, ou assistir-nos oficialmente na administração da Ceia do Senhor, tanto quanto convidamos nossos próprios pastores."

"Não excluímos de nossas congregações ninguém que seja verdadeiro Cristão. Não rejeitamos nenhuma ordenação ministerial. Não repudiamos nenhum sacramento Bíblico administrado por uma igreja irmã. Respondemos ao mal com o bem, reconhecemos o nosso co-irmão clérigo da igreja anglicana como um verdadeiro ministro de Cristo; e a nossos irmãos batizados por imersão como tendo sido validamente batizados. Respondemos com todo o nosso coração ao 'Amém' dos Metodistas; entoamos junto com nossos irmãos, salmos que coroem a Jesus Cristo; e muito amorosamente convidamos aos nossos irmãos na fé, de todo nome e de toda denominação, a compartilharem conosco dos elementos do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Não temos preconceito, nem exclusividade, ou mesmo caprichos de qualquer tipo, que restrinja nossas simpatias para com Cristãos e forme um fosso entre nós e outros servos do nosso Mestre. Nossa catolicidade é imensa, tanto quanto a Cristandade," (pp. 189 - 193).

E de novo ele diz: "A catolicidade da Igreja Presbiteriana aparece na sua única condição para membresia. Ela requer absolutamente nada para admissão nos seus quadros, exceto uma confissão respaldada pela vida de fé no Senhor Jesus Cristo. Ao candidato não é exigido subscrever aos nossos Padrões ou aquiescer à nossa teologia. Dele não é requerido que seja um Calvinista, mas somente que seja um Cristão. Ele não é examinado quanto à sua ortodoxia, mas somente quanto à '...sua fé em Cristo e obediência a Ele...'(C.F.W. Capítulo XXVII, Seção IV. Referências Bíblicas: At. 9:18; Gen. 17:7, 9; Gal. 3:9, 14; Rom. 4:11-12; At. 2:38-39). Ele pode ter noções imperfeitas com relação à Trindade e à Expiação; ele pode questionar o batismo infantil, a eleição e a perseverança final; mas se ele confiar em Cristo e obedecê-Lo como o seu Senhor e Salvador pessoal, as portas da Igreja Presbiteriana estão abertas para ele; e todos os privilégios da comunhão da Igreja Presbiteriana também são seus.

Quando as igrejas prescrevem condições de membresia que sejam outras senão as condições simples de salvação, elas são culpadas de tornarem mais difícil a entrada na Igreja do que no céu. Contra tal tirania e exclusivismo eclesiástico, a Igreja Presbiteriana posiciona-se com íntimo contraste. Os seus Padrões e Normas declaram que como a simples fé em Cristo nos faz membros da família de Deus, também aqueles que professam a fé em Cristo têm todos os direitos e privilégios da Igreja.' (Livro da Ordem da Igreja, III, 3). Assim, com uma catolicidade ampla e linda, os portões da nossa Sião Presbiteriana abrem-se como os portões do céu, para receber todos os filhos de Deus," (pp. 199, 200).

Após declarar que os Presbiterianos e os Reformados constituem a maior família Protestante no mundo, o Dr. Smith, numa linguagem eloquente, dá o seguinte sumário magnífico das conquistas missionárias daquelas igrejas: "Ainda mais católica e imponente que a quantidade de comunidades Presbiterianas é a extensão mundial do império Presbiteriano. Enquanto que os adeptos de outras comunidades Protestantes estão mais ou menos concentrados em países únicos; os Luteranos na Alemanha, os Episcopais na Inglaterra, os Metodistas e os Batistas nos Estados Unidos, a linha da Igreja Presbiteriana alcança todos os confins da terra. A Igreja Presbiteriana está presente em mais continentes, num número maior de países, nacionalidades e idiomas do que qualquer outra igreja evangélica do mundo. Como testemunha na Europa Continental, ela conta com as históricas Igrejas Presbiterianas Reformadas na Áustria, Boêmia, Galícia, Morávia, Hungria, Bélgica, França, Alemanha, Itália, Grécia, Países Baixos; na Rússia, Suíça e Espanha. Ela enraizou-se e frutificou na Inglaterra, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, na Nova Zelândia, nas Antilhas Holandesas, -- os povos que professam esta fé e ordem recobrem a terra. O Presbiterianismo possui um poder de adaptação sem paralelo com qualquer outro sistema. Ela tem produzido uma proporção indubitavelmente grande de destacados pregadores, evangelistas, editores, autores, educadores, estadistas e líderes cívicos; e da sua abundante vida espiritual emanam as poderosas forças das missões Cristãs para todo o mundo pagão," (p. 211).

10. RAZÕES PARA O POUCO SUCESSO DO CALVINISMO NO PRESENTE.

A que se deve a pouca aceitação do Calvinismo hoje em dia? Que as célebres cinco pontas da estrela Calvinista não estejam brilhando tão refulgentemente é algo que dificilmente alguém questionará. Quando consideramos a tendência do pensamento moderno, concluímos facilmente que as influências do Calvinismo (se podemos alternar as posições) encontram-se num nível muito baixo. Em muitos lugares onde ele uma vez floresceu, agora quase que desapareceu. Quase que não há mais nenhum "Calvinista sem reserva" entre os reconhecidos líderes do pensamento religioso na França, na Suíça ou na Alemanha; onde o Calvinismo uma vez teve tão grande força. Na Inglaterra, o Calvinismo praticamente desapareceu. Na América já não existe nenhuma igreja considerada grande em sua capacidade que agressivamente mantenha a herança Calvinista. Quanto à Escócia, no entanto, alegramo-nos ao notar que a heroica Igreja Livre ainda levanta a sua voz em meio à triste deficiência das igrejas maiores. E na grande igreja livre da Holanda, a "Gereformeerde kerken", temos uma igreja verdadeiramente Calvinista no mundo moderno, -- igreja na qual a religião Cristã é agressivamente sustentada e apresentada nas bases da Santa Escritura, na Fé Reformada.

A História nos mostra o quão plenamente, contudo, os períodos de prosperidade espiritual alternam-se com períodos de depressão espiritual. Mas acima de tudo, nós cremos na invencibilidade da verdade. "A verdade atirada ao chão levantar-se-á novamente. Os anos infindáveis de Deus são seus."

Não é de se admirar que o Calvinismo tem muitos adversários. Enquanto perdurar o fato de que "...o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente."[I Coríntios 2:14], também o Calvinismo se constituirá um sistema teológico estranho e tolo aos olhos do homem natural. Tanto quanto a natureza caída do homem permanecer assim, e tanto quanto o decreto for válido, de que o Próprio Cristo deve ser "Como uma pedra de tropeço e rocha de escândalo..."[I Pedro 2:8], estas doutrinas soarão como ofensa a muitos. Também não é de se admirar que o imortal reformador Suíço, que ocupou lugar de proeminência no desenvolvimento e na defesa destas doutrinas fosse por uns o mais apaixonadamente admirado e amado; enquanto que por outros fosse amargamente odiado e caluniado, entre os destacados líderes da Igreja.

Desde que a fé e o arrependimento são dádivas especiais de Deus, não deveríamos surpreendermo-nos com a descrença do mundo; pois mesmo os homens mais sábios e acurados não conseguem crer a não ser que recebam aquelas mesmas dádivas. São muitíssimo apropriadas as palavras, "...Destruirei a sabedoria dos sábios, e aniquilarei a sabedoria o entendimento dos entendidos."[I Coríntios 1:19]; e também, "(19) Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia; (20) e outra vez: O Senhor conhece as cogitações dos sábios, que são vãs. (21) Portanto ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso."[I Coríntios 3:19-21]. A causa, o motivo que faz com que qualquer pessoa creia é a vontade de Deus; e se o som exterior do Evangelho lhe atinge os ouvidos, o faz em vão; até que seja da vontade de Deus tocar-lhe o coração.

Este é um sistema teológico que tem sempre recebido forte oposição do mundo; e tal oposição é hoje tão forte como jamais o foi. Realmente, como poderia ser ao contrário, quando o homem por sua própria natureza é inimigo e está em guerra com Ele, mente do qual estas doutrinas emanaram? Não é de se esperar que Deus em Sua sabedoria e o homem na sua estultice estivessem de acordo. Deus é totalmente sábio e Santo e Poderoso Senhor Absoluto; o homem não regenerado é um rebelde cego pelo pecado, que não quer governador sobre si e muito menos um Senhor Absoluto. Desde que a inimizade do coração do homem para com as doutrinas distintivas da Cruz é tão grande e intensa como nunca, um sistema como o Pelagianismo ou Naturalismo, que ensina a salvação pelas nossas próprias boas obras, ou como o Arminianismo, que ensina a salvação parcialmente por obras e parcialmente pela graça; provoca uma resposta mais rápida no coração não regenerado. Quando o Evangelho torna-se aceitável ao homem natural, tal evangelho deixa de ser o Evangelho que Paulo pregava. E é digno de lembrança, que quase que em cada cidade que Paulo pregou o seu Evangelho, de fato ocorreram reavivamentos ou brigas e escaramuças e não raramente ambos. "O Calvinismo pode não ser popular em alguns lugares", diz McFetridge. "Mas e daí? Ele não pode ser mais impopular que as doutrinas do pecado e da graça como reveladas no Novo Testamento."

Uma outra razão para o pouco sucesso do Calvinismo hoje em dia é a tremenda ênfase colocada no sobrenatural. Em todos os eventos e em todas as coisas, de eternidade a eternidade, o Calvinismo enxerga a Deus. Sua mão está visível em todos os fenômenos da natureza e em todos os eventos da história. Seu propósito crescente permeia todos os acontecimentos. Nós vivemos hoje numa época que é totalmente oposta ao sobrenatural; e por conseguinte, distintivamente hostil ao Calvinismo. Atualmente a ênfase está nas ciências físicas, no racionalismo dos pensamentos e dos sentimentos. Mesmo no Cristianismo atual a tendência é considerar a Bíblia como uma produção meramente humana e encarar a Cristo meramente como um homem extraordinário. O Modernismo de hoje em dia, que na sua forma consistente é naturalismo puro e também auto esotérico, é a própria antítese do Calvinismo. E o resultado de tudo isto é uma religião naturalista que exclui a Deus como que dizendo-Lhe, "Tire as mãos!"; e assim não é estranho que o Calvinismo, com sua grande ênfase no sobrenatural, não seja popular. Não precisamos surpreendermo-nos, então, ao vermos que os adeptos destas doutrinas encontrarem-se em minoria. A verdade ou a falsidade das doutrinas das Escrituras Sagradas não podem ser deixadas à dependência do voto popular.

Nas palavras seguintes o Dr. B. B. Warfield, aquele gigante da ação e do pensamento, nos proporciona uma boa análise da atitude que o mundo tomou contra o Calvinismo nos anos recentes. Depois de dizer que o Calvinismo é "O verdadeiro Teísmo", que é "a religião na sua mais sublime concepção", e que é "o evangelicalismo na sua única expressão e estável", ele acrescenta: "Consideremos o orgulho do homem, a sua asserção da liberdade, o alarde de poder, sua recusa em reconhecer a influência da vontade de outrem. Considere a arraigada confiança do pecador na sua própria boa natureza e a sua completa capacidade de cumprir com tudo o que seja justamente demandado dele.

"É estranho que neste mundo -- nesta época específica do mundo -- seja difícil preservar não somente ativa, mas vívida e dominante, a percepção da onipotente e determinante mão de Deus, o senso de dependência absoluta nEle, a convicção da nossa própria incapacidade para perpetrar o menor dos atos para resgatar-nos do pecado -- na sua mais alta concepção? Não justificativa suficiente para qualquer depressão que o Calvinismo possa estar sofrendo no mundo atual, apontar para a dificuldade natural -- nesta época materialista, consciente dos seus poderes recentes sobre as forças da natureza e cheia plena de orgulho pelas êxitos e de bem estar material -- de guardar a em toda a sua perfeição a nossa percepção da mão governante de Deus em todas as coisas; de manter o nosso sentido de dependência num poder supremo; de preservar na sua profundidade o nosso sentimento de pecado, de impotência e de indignidade? A depressão sofrida pelo Calvinismo não é, tanto quanto seja real, uma simples conseqüência disto -- que na nossa época a visão de Deus tornou-se tanto quanto obscurecida em meio aos triunfos abundantes, que a emoção religiosa em certa monta deixou de ser a força determinante na vida; e que a atitude evangélica da completa dependência em Deus para a salvação não se aplica prontamente a homens acostumados a agarrarem com suas próprias mãos qualquer outra coisa que desejem; e que portanto não vêm razão pela qual também não possam alcançar o céu à força?"15

Todavia não há motivo para que os Calvinistas sintam-se desencorajados. A religião fácil de hoje em dia, com a sua ênfase em problemas sociais mais do que na doutrina, tem trazido à Igreja multidões que em outras épocas permaneceriam do lado de fora; e o simples fato de que os Calvinistas não chamem tanto a atenção na congregação não significa necessariamente que o seu número real tenha caído. "Muito provavelmente há hoje em dia no mundo mais Calvinistas do que jamais houve", diz o Dr. Warfield. "Mesmo relativamente, as Igrejas professadamente Calvinistas estão, sem dúvida, mantendo as suas posições. Há importantes tendências de pensamento moderno que de uma maneira ou de outra acabam por vir a estarem a favor desta ou daquela concepção Calvinista. Acima de tudo, há almas humildes em todos lugares, que, na quietude das suas vidas separadas, têm captado uma visão de Deus na Sua glória e que mantém afetuosamente nos seus corações aquela chama vital da completa dependência nEle, a qual é a própria essência do Calvinismo." 16 E novamente, "Eu creio inteiramente que o Calvinismo, como supriu o Cristianismo evangélico com vitalidade no passado, também é a sua força no presente; e a sua esperança para o futuro."

E em plena conformidade com isto, o Dr. F. W. Loetscher disse: "Não é surpresa que a nossa época, insana pelo seu próprio conhecimentos, irreverente do passado, impaciente com os credos e dogmas, intolerante com a autoridade divina tanto quanto humana, arrastada pelas correntes do Naturalismo ateísta e da Evolução panteísta; direcione a sua mais pesada artilharia de descrença contra o Calvinismo, como a mais forte cidadela de redenção e revelação sobrenatural. E como o Professor Henry B. Smith profetizou uma geração atrás: 'Uma coisa é certa -- a ciência ateia destruirá tudo, exceto a verdadeira ortodoxia Cristã.' Aceitemos, então, resolutamente, este desafio. E regozijemo-nos, pois é impossível que o Calvinismo pereça na face da terra, tanto quanto que o homem pecador perca seu sentido íntimo de dependência de Deus, ou o Todo-Poderoso abdique do Seu trono de domínio universal."

O notável mestre de História da Igreja na Universidade de Oxford - Inglaterra - James Anthony Froude, disse a respeito da religião tão sem vida que tornou-se tão comum no nosso tempo: "Esta não era a religião dos vossos pais; não era o Calvinismo que destruiu a fraqueza espiritual, que destronou reis e que libertou a Inglaterra e a Escócia, ao menos por algum tempo, de mentiras e de charlatanismo. O Calvinismo é o espírito que cresce em revolta contra a mentira, o espírito que, como vos tenho mostrado, surgiu e ressurgiu, e que no devido tempo surgirá novamente, a menos que Deus seja uma ilusão e que o homem seja a besta que perece."

"O Calvinismo não somente tem um futuro", diz o Dr. Abraham Kuyper, "ele tem o futuro. Tudo o mais desmorona e desvanece. Teologicamente, há muita fadiga em todo o nosso redor; e há muito esforço desnecessário ante os povos, porque o Calvinismo lhes é demais. Mas simplesmente por ser tal poder, o Calvinismo captura os espíritos e não os soltará."

É apropriado, neste ponto, dizer que o autor deste livro não cresceu numa igreja Calvinista; e que ele se lembra muito bem do quão revolucionárias estas doutrinas lhe pareceram quando do seu primeiro contato com elas. Durante umas férias de verão no seu curso na faculdade, aconteceu de ele ler o primeiro volume do livro de Charles Hodge "Teologia Sistemática", o qual contém um capítulo sobre "Os Decretos de Deus"; e o qual apresentou estas verdades com tal força que ele nunca mais foi capaz de distanciar-se delas. Ademais, ele tem orgulho do fato de que ele atingiu esta posição somente após uma luta mental e espiritual um tanto quanto severa; e que ele se sente profundamente simpático àqueles que podem ter sido chamados a passar por experiência similar. Ele conhece o sacrifício exigido para retirar-se da igreja da sua juventude quando ele se convenceu de que aquela igreja ensinava um sistema que continha muitos erros. Muitos dos seus amigos e parentes mais próximos pertenciam àquela igreja; e ele será talvez perdoado se ele trair-se num pouquinho de intolerância com relação àqueles "nascidos Presbiterianos", que continuam membros da Igreja Presbiteriana, enquanto abertamente opõem-se ou ridicularizam estas doutrinas.
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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