sábado, 19 de julho de 2014

A Doutrina Reformada da Predestinação - Livro 5 [01/06]


Calvinismo Na História

1. Antes da Reforma. 2. A Reforma. 3. Calvinismo na Inglaterra. 4. Calvinismo na Escócia. 5. Calvinismo na França. 6. Calvinismo na Holanda. 7. Calvinismo na América. 8. Calvinismo e Governo Representativo. 9. Calvinismo e Educação. 10. João Calvino. 11. Conclusão.

1. ANTES DA REFORMA.

Pode ocasionar alguma surpresa descobrir que a doutrina da Predestinação não foi objeto de estudo especial até próximo do final do século quarto. Os pais da igreja antiga punham grande ênfase em boas obras tais como fé, arrependimento, caridade, orações, submissão ao batismo e etc., como a base da salvação. Eles, é claro, ensinavam que a salvação é através de Cristo; ainda assim eles assumiam que o homem tinha todo poder para aceitar ou rejeitar o Evangelho. Alguns dos seus escritos contém passagens nas quais é reconhecida a soberania de Deus; todavia paralelamente a estas passagens há outras que ensinam a liberdade absoluta da vontade humana. Desde que não puderam reconciliar as duas, eles teriam negado a doutrina da Predestinação e talvez também a da absoluta Presciência de Deus. Eles ensinaram um tipo de sinergia na qual havia uma cooperação entre a graça e o livre arbítrio. Foi difícil para o homem desistir da idéia de que ele podia operar a sua própria salvação. Mas no fim, como resultado de um processo longo, demorado, o homem chegou à grande verdade de que a salvação é uma dádiva soberana que foi concedida não importando o mérito; que foi fixada na eternidade; e que Deus é o Autor da mesma, em todos os seus estágios. Esta verdade cardeal do Cristianismo foi vista claramente primeiro por Agostinho, o grande teólogo cheio do Espírito do Ocidente. Em suas doutrinas de graça e pecado, ele foi muito além do que os teólogos do passado, ensinou uma eleição de graça incondicional; e restringiu os propósitos de redenção ao círculo definido dos eleitos. Ninguém que conheça a História da Igreja poderá negar que Agostinho foi um bom homem, vulto eminentemente grande; e que as suas obras e escritos contribuíram mais para a promoção de sólida doutrina e do re-avivamento da religião verdadeira, do que qualquer outro homem entre Paulo e Lutero.

Anteriormente à época de Agostinho, o tempo havia sito grandemente empregado na correção de heresias dentro da Igreja e em refutar ataques do mundo pagão no qual ela se encontrava. Consequentemente muito pouca ênfase foi colocada no desenvolvimento sistemático da doutrina. E que a doutrina da Predestinação recebeu tão pouca atenção naquela época, foi sem dúvida devido em parte à tendência para confundi-la com a doutrina Pagã do Fatalismo, a qual era tão largamente aceita e praticada em todo o Império Romano. Mas no século quarto experimentou-se uma época um pouco mais calma, o amanhecer de uma nova era em teologia; e os teólogos passaram a enfatizar mais o conteúdo doutrinário da sua mensagem. Agostinho foi levado a desenvolver suas doutrinas do pecado e da graça em parte através da sua própria experiência de ter-se convertido ao Cristianismo após uma vida mundana; e em parte através da necessidade de refutar os ensinos de Pelágio, que ensinava que o homem em seu estado natural tinha total capacidade para operar a sua própria salvação, que a queda de Adão teve somente um pequeno efeito na raça, exceto no sentido de estabelecer um mau exemplo o qual é perpetuado, que a vida de Cristo tem valor para os homens principalmente como um exemplo, que na Sua morte Cristo foi pouco mais que o primeiro mártir Cristão; e que não nos encontramos sob nenhuma providência especial de Deus. Contra estes pontos de vista, Agostinho desenvolveu exatamente o oposto. Ele ensinou que a raça inteira caiu com Adão, que todos os homens são depravados e estão espiritualmente mortos por natureza, que a vontade é livre tanto quanto refere-se ao pecado mas não é livre com relação ao bem para com Deus, que Cristo enfrentou sofrimento vicário pelo Seu povo, que Deus elege aqueles a quem Lhe apraz sem qualquer relação com seus méritos; e que a graça salvadora é eficazmente aplicada aos eleitos pelo Espírito Santo. Assim ele tornou-se o primeiro intérprete verdadeiro de Paulo e alcançou sucesso em assegurar a aceitação da sua doutrina pela igreja.

Depois de Agostinho, houve retrocesso ao invés de progresso. Nuvens de ignorância cegaram os povos. A Igreja adotou mais e mais rituais e pensava-se que a salvação ocorria através da Igreja externa. O sistema de mérito cresceu até atingir o clímax, com as "indulgências". O papado passou a exercer poder enorme, tanto político como eclesiástico; e em toda a Europa Católica a situação da moral ficou quase que intolerável. Mesmo o clero tornou-se desesperadamente corrupto e em todo o catálogo de pecados e vícios humanos nenhum é mais corrupto ou mais ofensivo que aqueles desgraçaram as vidas de papas tais como João XXIII e Alexandre VI.

Desde a época de Agostinho até a da Reforma, muito pouca ênfase foi dada à doutrina da Predestinação. Mencionaremos somente dois nomes deste período: Gottschalk, que foi aprisionado e condenado por ensinar a Predestinação; e o Inglês Wycliffe, "A Estrela Matutina da Reforma". Ele foi um reformador do tipo Calvinista, proclamando a soberania absoluta de Deus e a Pré Ordenação de todas as coisas. Seu sistema de crença era muito similar àquele que mais tarde foi ensinado por Lutero e por Calvino. Os Waldesianos também devem ser mencionados, pois eles foram, num sentido, "Calvinistas" antes da Reforma, uma de sua doutrinas tendo sido a da Predestinação.

2. A REFORMA.

A Reforma foi essencialmente um reviver do Agostinianismo; e através dela o Cristianismo foi novamente Cristianismo. Deve ser lembrado que Lutero, o primeiro líder da Reforma, foi um monge Agostiniano e que foi a partir daquela teologia rigorosa que ele formulou seu grande princípio da justificação somente pela fé. Lutero, Calvino, Zuínglio e todos os outros reformadores notáveis daquele período eram adeptos e sustentavam por inteiro a predestinação. Em sua obra, "Da Vontade Cativa", Lutero apresentou a doutrina tão enfaticamente e numa forma bastante extrema como pode ser encontrado entre as obras de qualquer dos teólogos reformados. Melâncton, nos seus primeiros escritos designou o princípio da Predestinação como o princípio fundamental do Cristianismo. Mais tarde ele modificou sua posição, contudo, e trouxe um tipo de "sinergia" na qual Deus e o homem supostamente cooperavam no processo de salvação. A posição assumida pela antiga Igreja Luterana foi modificada gradualmente. Mais tarde os Luteranos deixaram a doutrina por completo, condenaram-na em sua forma Calvinista; e passaram a adotar uma doutrina de graça e expiação universais, doutrina esta que desde então passou a ser a doutrina aceita da Igreja Luterana. Com relação a esta doutrina, a posição de Lutero na Igreja Luterana é similar à de Agostinho na Igreja Católica Romana, -- isto é, um herege de tão inquestionável autoridade, que é mais admirado do que censurado.

Em grande parte, Calvino construiu sobre os alicerces assentados por Lutero. Sua visão mais clara dos princípios básicos da Reforma capacitaram-no a trabalhá-los mais completamente e aplicá-los mais extensamente. E pode ainda ser apontado que Lutero enfatizou a salvação pela fé e que o seu princípio fundamental era mais ou menos subjetivo e antropológico, enquanto que Calvino enfatizou o princípio da soberania de Deus; e desenvolveu um princípio que era mais objetivo e teológico. O Luteranismo era mais a religião de um homem que após uma busca longa e dolorosa tinha encontrado a salvação; e que contentava-se simplesmente em satisfazer-se na luz da presença de Deus, enquanto que o Calvinismo, não contente em ficar por ali, pressionava em questionar como e por que Deus salvou o homem.

"As congregações Luteranas", diz Froude, "eram só como que meio emancipadas da superstição; e hesitavam em levar o combate a extremos; e meia medidas significavam meio encorajamento, convicções que eram meio convicções; e verdade com uma mistura de falsidade. Meias medidas, no entanto, não poderiam extinguir as fogueiras de Philip da Espanha, ou levantar homens na França ou na Escócia que enfrentassem os príncipes da casa de Lorraine. Os Reformadores requeriam uma posição mais afiada e definida, e um líder mais rígido; e aquele líder eles encontraram em João Calvino . . . . Para tempos difíceis é preciso homens duros; e intelectos os quais possam penetrar até as raízes onde verdade e mentiras encontram-se. É muito ruim para com os soldados da religião quando 'o abominável' está em campo. E a respeito de Calvino deve ser dito, tanto quanto o estado de conhecimento permitia, nenhum olho poderia haver enxergado mais precisamente os pontos frágeis do credo da Igreja, nem em toda a Europa houve Reformador tão resoluto para identificar e destruir o que era distintamente falso -- tão resoluto para conduzir o que era verdadeiro ao seu devido lutar; e fazer da verdade, até a sua última fibra, regra de vida prática." 1

Este é o testemunho do famoso historiador da Universidade de Oxford. Os escritos de Froude deixam claro que ele não morria de amores pelo Calvinismo; e na verdade ele é muitas vezes chamado de crítico do Calvinismo. Aquelas suas palavras simplesmente expressam suas conclusões imparciais, as de um grande catedrático que estuda o sistema e o homem; do qual o sistema carrega o nome, a partir de uma base vantajosa, de investigação e de aprendizado.

Em outra ocasião, Froude disse: "Os Calvinistas têm sido chamados de intolerantes. A intolerância de um inimigo que tenta matar-lhe, parece-me um estado de espírito perdoável . . . . Os Católicos escolheram acrescentar ao seu já incrível credo um novo artigo; que eles tinham o direito de enforcar e de queimar aqueles que diferissem deles; e nesse ponto os Calvinistas, com suas Bíblias nas mãos, apelaram ao Deus das batalhas. Eles tornaram-se mais poderosos, mais ferrenhos, -- e se você quiser, mas fanáticos. Era extremamente natural que eles o fossem. Eles descansaram, como os homens piedosos são aptos a fazê-lo, em sofrimento e pesar, no poder todo envolvente da Providência. Seu fardo tornou-se mais leve na medida em que eles consideravam que Deus havia assim determinado que eles devessem carregá-lo. Mas eles atraíram para as suas divisões quase que todo homem na Europa Ocidental que 'odiasse uma mentira'. Eles foram massacrados, mas ergueram-se novamente. Eles foram pisados e feridos, mas nenhum poder poderia dobrá-los ou dissolvê-los. Eles aborreceram, como nenhum grupo de homens jamais aborreceu, toda a falsidade, toda impureza, todo tipo de faltas morais, tanto quanto pudessem reconhecê-los. Qualquer temor quanto à prática do mal que exista hoje em dia na Inglaterra e na Escócia, é resultado das convicções gravadas pelos Calvinistas nos corações das pessoas. Embora eles tivessem falhado em destruir o Romanismo, embora o Romanismo sobreviva e possa ainda sobreviver por muito tempo como uma opinião, eles o desmascararam; eles o forçaram a abandonar aquele princípio odiável, que era o de que ter o direito de assassinar aqueles que lhe fossem antagônicos. Tampouco pode ser afirmado que por haver posto o Romanismo em posição de vergonha, desmascarando sua corrupção prática, que os Calvinistas tenham-no capacitado a reviver." 2

Na época da Reforma a Igreja Luterana não rompeu completamente com a Igreja Católica, como o fizeram as Igrejas Reformadas. Na verdade, alguns Luteranos afirmam orgulhosamente que o Luteranismo foi uma "Reforma Moderada". Enquanto todos os protestantes apelavam à Bíblia como autoridade final, a tendência no Luteranismo era manter tanto do sistema antigo, quanto não tivesse de ser jogado fora, enquanto que a tendência na Igreja Reformada era de excluir, de jogar fora tudo o que não tivesse de ser mantido. E quanto ao relacionamento que existia entre a Igreja e o Estado, os Luteranos contentavam-se em permitir grande influência dos príncipes na Igreja ou mesmo permitir-lhes que determinassem a religião dentro dos seus domínios -- uma tendência que levaria ao estabelecimento de uma Igreja do Estado -- enquanto que os Reformados logo vieram a demandar uma completa separação entre Estado e Igreja.

Como já dito, a Reforma foi essencialmente um reviver do Agostinianismo. As primeiras Igrejas Luteranas e Reformadas tinham os mesmos pontos de vista com relação ao Pecado Original, à Eleição, à Graça Eficaz, à Perseverança e etc. Isto, então, era a verdadeira Predestinação. "O princípio da Predestinação Absoluta", diz Hastie, "era o próprio calcanhar de Aquiles da jovem Reforma, pelo qual na Alemanha, não menos que em qualquer outro lugar, estrangulou as serpentes da superstição e da idolatria, e quando perdeu força na sua própria casa, continuou sendo a própria espinha e medula da fé na Igreja Reformada, e o poder que a conduziu vitoriosamente através de todas as lutas e contendas." 3 "É um fato que fala alto pelo Calvinismo", diz Rice, que a revolução mais gloriosa já registrada na história da Igreja e do mundo, desde os dias dos Apóstolos, foi propiciado pelas bênçãos de Deus sobre as doutrinas daquela revolução." 4 Desnecessário é dizer que, o Arminianismo como um sistema era desconhecido nos dias da Reforma; e que não até 1784, 260 anos mais tarde, foi adotado e proclamado por uma igreja organizada. Como no século quinto haviam existido dois sistemas adversários, conhecidos como Agostinianismo e Pelagianismo, mais tarde com o surgimento do Semi-Pelagianismo, então na Reforma haviam dois sistemas, o Protestantismo o Catolicismo Romano, com o posterior surgimento do Arminianismo, ou o que podemos chamar de Semi-Protestantismo. Em cada caso haviam dois sistemas fortemente oponentes, com o subsequente aparecimento de um sistema comprometido.

3. O CALVINISMO NA INGLATERRA.

Uma olhadela na história da Inglaterra de imediato nos mostra que foi o Calvinismo que fez o Protestantismo triunfante naquela terra. Muitos dos líderes Protestantes que fugiram para Genebra durante o reinado da Rainha Mary, mais tarde conquistaram altas posições na Igreja, no reinado da Rainha Elizabeth. Entre eles estavam os tradutores da versão de Genebra da Bíblia, a qual deve muito a Calvino e a Beza; e a que foi a versão Inglesa mais popular até meados do século dezessete, quando foi ultrapassada pela versão King James. A influência de Calvino é demonstrada nos Trina e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, especialmente no Artigo XVII, que apresenta a doutrina da Predestinação. Cunningham mostrou que todos os grandes teólogos da Igreja Estabelecida, durante os reinados de Henry VIII, Edward VI e Elizabeth eram adeptos por completo da Predestinação; e que o Arminianismo de Laud e dos seus sucessores era um desvio daquela posição original.

Se buscarmos pelos verdadeiros heróis da Inglaterra, os encontraremos naquele nobre grupo de Calvinistas Ingleses cuja insistência por uma forma mais pura de culto bem como uma vida mais pura, conquistaram para si o apelido de "Puritanos", a quem Macaulay refere-se como "talvez o mais notável grupo de homens os quais o mundo jamais produziu." "Que o povo Inglês tenha se tornado Protestante", diz Bancroft, "foi devido aos Puritanos". Já Smith nos diz: "A importância deste fato está além da imaginação. O Protestantismo Inglês, com sua Bíblia aberta, sua liberdade intelectual e espiritual, significaram o Protestantismo não somente das colônias Americanas, mas da raça viril e multiplicadora, a qual durante três séculos tem levado o idioma , a religião e as instituições Anglo-Saxônicas a todo o mundo. 5

Cronwell, o grande líder Calvinista e membro da Câmara dos Comuns, plantou-se na sólida rocha do Calvinismo e chamou a si soldados que haviam se plantado naquela mesma rocha. O resultado foi um exército o qual, por pureza e heroísmo, sobrepujou qualquer coisa que o mundo jamais tivesse visto. "Nunca encontraram", diz Macaulay, "fosse nas Ilhas Britânicas ou no Continente, um inimigo que pudesse enfrentá-los. Na Inglaterra, na Escócia, na Irlanda, na Bélgica, os guerreiros Puritanos, muitas vezes cercados por dificuldades, algumas vezes batalhando contra grandes revezes, não somente nunca deixaram de conquistar, como também nunca deixaram de destruir e quebrar em partes quaisquer forças que se lhes opusessem. Ao final, passaram a referir-se ao dia de batalha como o dia de triunfo certo, e marchavam contra os mais renomados batalhões da Europa com destemida confiança. Mesmo os Cavaleiros banidos sentiam uma emoção de orgulho nacional quando viam uma brigada de seus compatriotas, em número muito menor que o inimigo e abandonados pelos amigos, avançar à sua frente, em linha direta contra a mais valente cavalaria da Espanha; e forçar caminho até a conquista de uma colina que era tida como inexpugnável pelos mais hábeis dos marechais da França." E novamente, "O que mais distinguia o exército de Cromwell dos outros exércitos, era a moralidade austera e o temor de Deus que existia em todas os níveis. É reconhecido pelos Roialistas mais zelosos que, naquele campo singular, não se ouvia nenhum impropério ou se presenciava nenhuma cena de aposta ou de embriaguez; e que, durante o longo domínio do exército, as propriedades dos cidadãos pacíficos e a honra das mulheres eram tidos como sagrados. Nenhuma serva reclamou de qualquer tipo de galanteio rude por parte dos 'casacos vermelhos'. Nem sequer uma grama de prata foi saqueada das lojas ou das joalherias." 6

O Prof. John Fiske, considerado um dos dois maiores historiadores Americanos, diz, "Não é demais dizer que no século dezessete todo o futuro político da humanidade foi posto em jogo sobre as questões levantadas na Inglaterra. Não tivesse sido pelos Puritanos, a liberdade política provavelmente teria desaparecido do mundo. Se houveram jamais homens dispostos a darem suas vidas pela causa de toda a humanidade, foram os Puritanos, cujas palavras de ordem eram textos da Bíblia Sagrada, cujos gritos de guerra eram hinos de louvor." 7

Quando os mártires Protestantes morriam nos vales de Piedmont, e o autocrata papal sentava-se no seu trono em luxúria, ajeitando suas vestes manchadas de sangue, foi o próprio Cromwell, o Puritano, suportado por um conselho e uma nação da mesma persuasão, quem escreveu demandando o fim das perseguições.

Em três diferentes ocasiões foi oferecido a Cromwell, e insistiu-se que aceitasse, a Coroa da Inglaterra, mas a cada vez ele recusou. Vemos que doutrinariamente os Puritanos eram os descendentes lineares e literais de João Calvino; e que somente eles mantiveram viva a preciosa centelha da liberdade dos Ingleses. À vista destes fatos, ninguém pode negar a justiça da conclusão de Fiske, que "Seria difícil dever mais do que a humanidade deve a João Calvino."

Em seu esplêndido livro "Calvinismo na História", McFetridge diz, "Se perguntarmos novamente, Quem trouxe a grande propiciação à liberdade Inglesa? a nos será dada pela história, O Ilustre Calvinista, William, Príncipe de Orange, quem, como diz Macaulay, encontrou na lógica forte e irrefutável da escola de Genebra algo que satisfez sua têmpera e seu intelecto; a chave da religião da doutrina da Predestinação; e quem, com sua visão aguçada e lógica, declarou que se abandonasse a doutrina da Predestinação, ele deveria também deixar totalmente de crer em uma Providência suprema, e deveria tornar-se um Epicureano. E ele estava certo, pois a Predestinação e uma Providência suprema são uma só e a mesma coisa. Se aceitamos uma, devemos - consistentemente - aceitar a outra," (p. 52).

4. CALVINISMO NA ESCÓCIA.

A melhor forma de descobrir os frutos práticos de um sistema de religião é examinar um povo ou uma nação onde, por gerações, tal sistema tenha mantido governo incontestado. Ao fazer tal teste com o Catolicismo Romano, voltamo-nos para alguns países como Espanha, Itália, Colômbia ou México. Lá, quer na vida política ou na religiosa das pessoas, vemos os efeitos do sistema. Aplicando o mesmo teste com relação ao Calvinismo, podemos referirmo-nos a um país no qual o Calvinismo foi durante muito tempo praticamente a única religião; e tal país é a Escócia. McFetridge nos diz que antes que o Calvinismo chegasse à Escócia, "trevas espessas cobriam a nação e pairava sobre os sentidos e faculdades do povo." 8 "Quando o Calvinismo alcançou o povo Escocês", diz Smith, "eles eram vassalos da igreja Romana, dominados por sacerdotes, ignorantes, miseráveis, degradados em corpo, mente e moral. Buckle os descreve como 'imundos tanto pessoalmente como em suas casas', pobres e miseráveis', 'excessivamente ignorantes e supersticiosos em excesso', -- 'com a superstição indelevelmente marcada nos seus caracteres'. Maravilhosa foi a transformação na Escócia, quando as grandes doutrinas, aprendidas por Knox da Bíblia e mais profundamente em Genebra, enquanto sentado aos pés de Calvino; iluminaram as mentes dos Escoceses. Foi como se o sol nascesse repentinamente, à meia noite . . . Knox fez do Calvinismo a religião da Escócia; e o Calvinismo fez da Escócia o padrão moral para o mundo. Trata-se de um fato certamente significante, que no país onde o Calvinismo é mais forte, também seja a nação com a criminalidade mais baixa; que de todos os povos do mundo hoje em dia, aquela nação que é confessadamente a de padrão moral mais elevado seja também a mais completamente Calvinista; que na terra onde o Calvinismo tem tido a supremacia no governo e na influência, a moralidade individual e nacional tenha alcançado seu nível mais elevado." 9 Já Carlyle diz, "O que Knox fez por seu país pode realmente ser chamado de ressurreição dos mortos." "John Knox", diz Froude, "foi o homem sem o qual a Escócia, como o mundo moderno a conhece, não existiria."

Num sentido bem real, a Igreja Presbiteriana da Escócia é filha da Igreja Reformada de Genebra. A Reforma na Escócia, embora tendo ocorrido algum tempo mais tarde, foi em muito mais consistente e radical que a na Inglaterra; e resultou no estabelecimento de um Presbiterianismo Calvinista no qual somente Cristo é reconhecido como o cabeça da Igreja.

Trata-se de tarefa fácil, é claro, identificar aquele homem que foi o principal instrumento, nas mãos da Providência, na reforma da Escócia. Aquele homem era João Knox. Foi ele quem plantou as sementes da liberdade civil e religiosa e quem revolucionou a sociedade. A ele o povo Escocês devem a sua existência nacional. "Knox foi o maior dentre os Escoceses, como Lutero foi o maior dos Alemães", disse Philip Schaff.

"O herói da Reforma Escocesa", diz Schaff, "embora quatro anos mais velho que Calvino, sentou-se humildemente aos seus pés e tornou-se mais Calvinista que o próprio Calvino. John Knox passou os cinco anos do seu exílio (entre 1554 até 1559), durante o reinado de 'Bloody Mary' (*), principalmente em Genebra, onde encontrou 'a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos'. Depois daquele exemplo ele conduziu o povo Escocês, com energia e coragem sem iguais, de um semi barbarismo medieval até a luz da civilização moderna, e conquistou nome que, junto aos de Lutero, de Zuínglio e de Calvino, é o maior na história da Reforma Protestante." 10

[(*) (Mary I, filha de Henrique VIII e Catarina de Aragão, casada com Philip II da Espanha. Reinou na Grã Bretanha entre 1553 até 1558. Foi responsável por repelir a legislação protestante de seu irmão, Edward VI e atirou a Inglaterra numa fase de severa perseguição religiosa. Inteiramente comprometida com o intuito de restabelecer o Catolicismo, foi responsável pela morte de cerca de 300 pessoas, incluindo o antigo arcebispo de Canterbury e muitos dos mais proeminentes membros da sociedade; queimados na fogueira sob a acusação de heresia, o que lhe rendeu o apelido de 'Bloody Mary' ou 'Mary Sangrenta', literalmente). N. T.]

"Nenhum vulto maior que Knox", diz Froude, "pode ser encontrado em toda a história da Reforma nesta ilha . . . . O tempo é chegado, quando a história da Inglaterra pode fazer justiça àquele pelo qual a Reforma ocorreu entre nós; pois o espírito criado por Knox salvou a Escócia; e se a Escócia tivesse sido Católica novamente, nem a visão dos ministros da Rainha Elisabeth, ou os ensinamentos dos seus bispos, nem seus próprios subterfúgios, teriam preservado a Inglaterra de uma revolução. Ele foi a voz que ensinou o camponês dos 'Lothians" (N.T.: Regiões ao redor da cidade de Edinburgh, que eram, na época da Reforma, constituíam-se de muitos povoados pequenos, porém importantes centros de produção rural) que ele era um homem livre, à vista de Deus igual ao nobre mais orgulhoso ou ao prelado que pisoteara os seus antepassados. Ele o antagonista a quem a Rainha Mary Stuart não podia enfraquecer (N.T.: Mary Stuart, nascida em 08/12/1542, declarada Rainha da Escócia aos 6 dias de idade. Acusada de traição e assassinato, foi decapitada em 08/02/1587); e nem seus inimigos enganar; foi ele quem levantou a gente humildo do seu país e transformou-os num povo determinado e de forte caráter, que podia ser rude, de estreita visão, supersticioso e fanático, mas a quem - não obstante - nenhum homem, nem reis, nem nobres ou sacerdotes podiam forçar a novamente submeterem-se à tirania. E a sua recompensa foi a ingratidão daqueles que mais deveriam haver honrado a sua memória." 11

A teologia Escocesa reformada inicial era baseada no princípio da predestinação. Knox recebeu sua teologia diretamente de Calvino em Genebra; e sua obra teológica principal foi o tratado sobre a Predestinação, tratado forte, afiado e resolutamente polêmico contra pontos de vista desencontrados que começavam a espalhar-se na Inglaterra e em outros locais. Durante os séculos dezessete e dezoito, temas como predestinação, eleição, rejeição, a extensão e o valor da expiação, a perseverança dos santos, eram de absorvente interesse para a classe social humilde na Escócia. Daquelas terras as doutrinas espalharam-se em direção ao sul até partes da Inglaterra e Irlanda e através do Atlântico, para o oeste. Num sentido muito real, a Escócia pode ser chamada de "A Nação Mãe do Presbiterianismo moderno."

5. CALVINISMO NA FRANÇA.

A França também, naquela época, era toda calorosa para com o espírito livre, irrequieto e progressivo do Calvinismo. "Na França os Calvinistas eram chamados de Huguenotes. O mundo conhece o caráter dos Huguenotes. Seu heroísmo e pureza moral, seja quando perseguidos em sua pátria ou desterrados em exílio, eram admirados por todos, aliados ou inimigos." 12 "A sua história", consta na Enciclopédia Britânica, "é uma maravilha notável, ilustrando o resistente poder de uma forte convicção religiosa." Os Huguenotes formavam a classe de artesãos industriais da França; e ser "tão honesto quanto um Huguenote" tornou-se provérbio, denotando seu mais alto nível de integridade.

Num domingo, 24 de Agosto de 1572, dia de São Bartolomeu, muitos Protestantes foram perfidamente assassinados em Paris, e nos dias seguintes as cenas chocantes repetiram-se em outras partes da França. O número total dos que perderam suas vidas no massacre de São Bartolomeu foi estimado com variações, desde 10.000 até 50.000 pessoas. Schaff estimou o total em 30.000. Estas perseguições furiosas fizeram com que centenas de milhares de Protestantes Franceses fugissem para a Holanda, Alemanha, Inglaterra e América. A perda para a França foi irreparável. O historiador Inglês Macaulay, escreve o seguinte, quanto àqueles que estabeleceram-se na Inglaterra: "Os mais humildes dentre os refugiados eram moral e intelectualmente acima da média do povo comum, de qualquer reino na Europa." O grande historiador Lecky, ele mesmo um racionalista de sangue frio, escreveu: "A destruição dos Huguenotes pela revogação do Edito de Nantes foi a destruição do elemento mais sólido, mais modesto, mais virtuoso e geralmente mais iluminado da nação Francesa; e abriu caminho para a degradação inevitável do caráter nacional, e foi removida a última séria muralha que poderia proteger, que poderia ter quebrado a força da corrente do ceticismo e do vício, que, um século mais tarde, prostraram ao chão, em merecida ruína a ambos, o altar e o trono." 13

"Se você leu a sua história", diz Warburton, "você deve saber o quão cruéis e injustas foram as perseguições instigadas contra eles. O melhor sangue da França inundou o campo de batalha, o mais brilhante gênio da França sofreu a negligência e a fome na prisão; e os caracteres mais nobres que a França jamais possuiu foram caçados como feras selvagens na floresta, e abatidos sem piedade." E novamente, "Em todos aspectos eles eram imensuravelmente superiores a todo o restante dos seus compatriotas. A estrita sobriedade de suas vidas, a pureza dos seus atos morais, seus hábitos diligentes; e sua completa separação da sensualidade tola que corrompeu por completo a vida nacional da França naquele período, foram sempre maneiras efetivas de trair os princípios que eles sustentavam, e foram tão considerados pelos seus inimigos." 14

A orgia e dissipação dos soberanos descendeu através da aristocracia até o povo comum; a religião tornou-se uma massa de corrupção, consistente somente com a sua própria crueldade; os monastérios passaram a ser criadouros de iniqüidade; o celibato provou ser uma fonte revoltante de libertinagem e impureza; a imoralidade, a licenciosidade, o despotismo e a extorsão, tanto no Estado como na Igreja eram indescritíveis; o perdão dos pecados podia ser comprado por dinheiro; e um vergonhoso tráfico de indulgências ocorria sob a sanção do papa; alguns dos papas eram verdadeiros monstros de iniqüidade; a ignorância era terrível; a educação estava confinada ao clero e à nobreza; e até muitos dos sacerdotes eram incapazes de ler ou de escrever; e a sociedade em geral havia ruído em pedaços.

É uma descrição parcial, nublada, mas não exagerada. É verdadeira em todo sentido, e necessita somente ser complementada pelo lado mais claro; ou seja, de que muitos Católicos Romanos honestos trabalhavam diligentemente pela reforma dentro da Igreja. Esta, contudo, estava numa condição 'irreformável'. Qualquer mudança, caso viesse a acontecer, teria de vir de fora. As alternativas eram que, ou não haveria qualquer reforma, ou esta seria em oposição a Roma.

Mas, gradualmente as idéias Protestantes foram gradualmente se infiltrando na França, vindas da Alemanha. Calvino iniciou sua obra em Paris e logo foi reconhecido na França como um dos líderes do novo movimento. O seu zelo levantou a oposição às autoridades da Igreja e foi preciso que ele fugisse, para preservar sua vida. Em embora Calvino nunca retornasse à França, depois de haver se estabelecido em Genebra, ele continuou sendo o líder da Reforma Francesa e era consultado a cada passo. Ele deu aos Huguenotes o seu credo e forma de governo. Durante o período seguinte, conforme o testemunho unânime da história, foi o sistema de fé que chamamos de Calvinismo a inspiração dos Protestantes Franceses em sua luta com o papado e seus partidários na realeza.

O que os Puritanos eram na Inglaterra, os "Covenanters" (os 'Pactuantes') eram na Escócia; e os Huguenotes, na França. A prova mais notável do poder do Calvinismo na formação do caráter, é que ele desenvolveu o mesmo tipo de homens em cada um destes vários países.

O Calvinismo espalhou-se tão rapidamente por toda a França, que o historiador Fisher, no seu livro História da Reforma, escreveu que em 1561, os Calvinistas somavam a quarta parte de toda a população. Já McFetridge coloca um número ainda maior: "Em menos de meio século", diz ele, "esse sistema de crença considerado tão rude e desagradável, penetrou em cada região do país; e ganhou para suas fileiras quase que a metade da população e quase que todas mentes brilhantes da nação. Os que a ele aderiram se tornaram tão numerosos e poderosos que por um momento pareceu como se a nação inteira fosse aderir aos seus pontos de vista." 15 Smiles, no seu livro "Huguenotes na França", escreve: "É curioso refletir sobre a influência que a religião de Calvino, ele próprio um Francês, poderia ter exercido na história da França tanto no caráter individual do cidadão Francês, tivesse o balanço das forças levado a nação inteira para o Protestantismo, como por muito pouco aconteceu, próximo ao final do século dezesseis," (p. 100). Certamente que a história da nação teria sido muito diferente de como o foi.

6. CALVINISMO NA HOLANDA.

Na luta que libertou os Países Baixos do poder dominador do Papado e do jugo cruel da Espanha, temos outro capítulo glorioso da história do Calvinismo e da humanidade. As torturas da Inquisição ali também foram aplicadas, como o foram em alguns outros lugares. O Duque de Alva gabava-se de haver entregue 18.600 hereges para execução, no curto espaço de tempo de cinco anos.

"O patíbulo", diz Motley, "tinha as suas vítimas diárias, mas não converteu um só . . . . Houveram homens que ousaram e sofreram tanto quanto é possível aos homens sofrerem neste mundo; e pela causa mais nobre que pode inspirar a humanidade." Ele descreve a nós "o heroísmo com o qual os homens davam-se as mãos e caminhavam fogueira adentro, ou com o qual as mulheres entoavam hinos de vitória enquanto o coveiro jogava terra sobre seus rostos vivos." E em outra passagem ele diz: "O número de Holandeses que foram queimados, estrangulados, decapitados ou enterrados vivos, em obediência aos editos de Charles V, e pela ofensa de ler as Escrituras Sagradas, de olhar com desaprovação à uma imagem esculpida, ou ridicularizar a suposta presença real do corpo e do sangue de Cristo num biscoito; foi informado pelas autoridades distintas ser tão alto quanto cem mil; e nunca foi informado ser menor que cinqüenta mil." 16 Durante aquela batalha memorável de oito anos, mais Protestantes foram mortos pelos Espanhóis por causa de sua crença consciente; que Cristãos foram martirizados por imperadores Romanos nos primeiros séculos. A história certamente coroa o Calvinismo na Holanda como o credo dos mártires, dos santos e dos heróis.

Durante quase três gerações a Espanha, a mais forte nação na Europa àquela época, batalhou para excluir o Protestantismo e a liberdade política nos Países Baixos Calvinistas, mas falhou. Porque eles buscavam louvar a Deus de acordo com os ditames das suas consciências e não sob os vexadores grilhões de um clero corrupto seu país havia sido invadido; e o povo sujeitado às torturas mais cruéis que os Espanhóis podiam inventar. E se perguntado a quem o resgate havia de ser creditado, a resposta é, ao Calvinista Príncipe de Orange, conhecido na história como Guilherme o Silencioso (N.T.: "William The Silent" ou William de Orange à William I - 1533 / 1584, estadista Holandês, principal fundador da Independência da Holanda), junto com aqueles que partilhavam do mesmo credo. Diz o Dr. Abraham Kuyper, "Se o poder de Satã naquela época não houvesse sido quebrado pelo heroísmo do espírito Calvinista, a história da Holanda, da Europa e do mundo teria sido tão dolorosa, tão triste e tão negra como agora, graças ao Calvinismo, é brilhante e inspiradora." 17

Se o espírito do Calvinismo não tivesse surgido na Europa Ocidental em seguida à ocorrência da Reforma, o espírito do ateísmo teria ganho o dia na Inglaterra, na Escócia e na Holanda. O Protestantismo nesses países não poderia ter se mantido; e, através das medidas comprometedoras de um Protestantismo Romanizado, a Alemanha teria sido com toda probabilidade trazida novamente sob a influência da Igreja Católica Romana. Tivesse o Protestantismo falhado em qualquer um daqueles países, é muito provável que o resultado tivesse sido fatal também nos outros, tão intimamente estavam as suas sortes unidas umas às outras. Num sentido bem real, o destino futuro das nações dependia do resultado daquela batalha nos Países Baixos. Tivesse a Espanha saído vitoriosa na Holanda, é provável que a Igreja Católica se fortalecesse tanto que subjugasse o Protestantismo também na Inglaterra. E, mesmo como as coisas aconteceram, pareceu por um tempo como se a Inglaterra retornasse ao Romanismo. Nesse caso, o desenvolvimento da América seria automaticamente evitado e com toda probabilidade todo o continente Americano permaneceria sob o controle da Espanha.

Lembremo-nos ainda que praticamente todos os mártires naqueles vários países eram Calvinistas, os Luteranos e os Arminianos sendo somente um punhado, em comparação. Como o Professor Fruin aponta com justiça, "Na Suíça, na França, na Holanda, na Escócia e na Inglaterra, e onde quer que o Protestantismo tenha se estabelecido ao fio da espada, foi o Calvinismo que ganhou o dia." No entanto, o ponto a ser explicado é que é verdade que os Calvinistas foram os únicos combatentes Protestantes.

Há ainda o outro serviço prestado pela a Holanda, do qual não podemos nos esquivar. Os Peregrinos, depois de haverem sido expulsos da Inglaterra por perseguições religiosas e antes da sua vinda para a América, foram para a Holanda e lá entraram em contato com uma vida religiosa, que do ponto de vista Calvinista foi benéfica ao extremo. Seus líderes mais importantes foram Clyfton, Robinson e Brewster; três homens da Universidade de Cambridge, que formavam um trio tão nobre e heróico quanto se pode encontrar na história de qualquer nação. Eles eram Calvinistas fervorosos que sustentavam todos os pontos de vista fundamentais propostos pela Reforma de Genebra. O historiador Americano Bancroft está correto quando simplesmente os chama de 'Peregrinos-pais', "homens da mesma fé que Calvino."

J. C. Monsma, no seu livro "O Que O Calvinismo Fez Pela América", nos dá o seguinte sumário da vida dos peregrinos na Holanda: "Quando os Peregrinos deixaram Amsterdã com direção a Leyden, o Rev. Clyfton, seu líder, decidiu permanecer onde estava; e então o Rev. John Robinson, primeiro assistente de Clyfton foi assim eleito líder, ou pastor, pelo povo. Robinson era um Calvinista convencido e opunha-se aos ensinamentos de Armínio sempre quando surgia uma oportunidade. "Temos o inquestionável testemunho de Edward Winslow, de que Polyander, Festus Homilus e outros teólogos Holandeses solicitaram a Robinson, na época quando o Arminianismo ganhava terreno rapidamente na Holanda, que tomasse parte nas disputas com Episcopius, o novo líder dos Arminianos, disputas estas que diariamente aconteciam na academia de Leyden. Robinson aquiesceu e aceitou seu pedido e rapidamente foi conhecido como um dos maiores teólogos de Gomarian. Em 1624 o pastor Peregrino escreveu um tratado excepcional, intitulado "Uma Defesa da Doutrina Proposta Pelo Sínodo de Dort, etc." Como o Sínodo de Dordrecht, de fama internacional, foi caracterizado por um Calvinismo estrito em todas as suas decisões, nada mais precisa ser dito quanto às tendências religiosas de Robinson.

"Os Peregrinos estavam perfeitamente unidos com as igrejas Reformadas (Calvinistas) na Holanda e demais localidades. Na sua Apologia, publicada em 1619, um ano antes que os Peregrinos deixassem a Holanda, Robinson escreveu de maneira muito solene, 'Nós professamos perante Deus e perante os homens que tal é o nosso acordo, no caso de religião, com as Igrejas Holandesas Reformadas, que estamos prontos a subscrever a todos e cada artigo de fé na mesma Igreja, como estiverem apresentados na Harmonia das Confissões de Fé, publicadas naquele nome.' " (p. 72, 73)
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Por Loraine Boettner, D.D.a
Fonte: Monergismo
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